Técnico de futebol e ao
mesmo tempo respeitado pai de santo, Beto Mendonça chegou ao Humaitá, de
Cáceres, em 1980, disposto a recuperar o moral do representante da cidade nas
competições oficiais da então Federação Mato-gossense de Desportos, pois apesar
do apoio dos cacerenses – a média de público no Estádio Geraldão era de 20 mil
torcedores por jogo – o time não ia bem dentro de campo. E claro que a torcida
chiava e com razão: se prestigiava tanto o clube, era justo exigir vitórias.
Beto teve um grande mérito
na sua passagem pelo Humaitá: conseguiu classificar o time para as finais do
campeonato estadual daquele ano. Mas não foi por causa do futebol que equipe
jogava, e, sim, por renda, graças à sua fiel torcida. Participaram do
quadrangular final, além do Humaitá, Mixto, Dom Bosco e Operário
Várzea-grandense. O campeão daquele ano foi o Dom Bosco.
Às vésperas de jogos no
domingo, nas sextas-feiras à noite, Beto Mendonça reunia a rapaziada que ia
jogar e os reservas – a participação era obrigatória – no terreiro da chácara
onde a equipe ficava concentrada para uma demorada sessão de descarrego.
Durante o trabalho do pai de santo rolava de tudo a que a macumba tinha
direito: sacrifício de galinha preta e eventualmente de bode preto, pólvora,
velas pretas e vermelhas, cachaça e charutos para agradar os espíritos das
trevas que Beto Mendonça incorporava...
Nessa época, o presidente do
Humaitá era Renato Vital Garcia, que se tornou muito admirado em Cáceres por
ser uma pessoa de um coração que não tinha tamanho. Muito religioso e de uma
simplicidade sem limites, Vital Garcia estava sempre pronto para atender as
pessoas que o procuravam com algum problema para resolver. Sua bondade se
estendia também aos profissionais do Humaitá.
Sua religiosidade, Vital
Garcia levou também para o futebol. Nos
domingos de jogos, se por qualquer razão a boleirada não podia ir à missa da
manhã para rezar, o presidente levava um padre até a concentração para benzer a
rapaziada, pedindo proteção aos céus para ninguém se machucar e também uma ajudazinha
para o time a conquistar resultados positivos dentro de campo. Mas nem a fé de
Vital Garcia e nem a macumba de Beto Mendonça estavam conseguindo dar uma
forcinha ao Humaitá.
Um dia, Beto Mendonça foi
conversar com Vital Garcia sobre o que pensava respeito da falta de vitórias do
time. E foi direto ao assunto: o treinador-pai de santo achava que não
adiantava nada ele fazer suas mandingas, “fechando o corpo” dos seus jogadores
contra bruxarias de seus adversários, se orações do padre, ao abençoar a
boleirada, eliminava suas feitiçarias. Os dois não chegaram a um acordo e o
Humaitá continuou com suas campanhas marcadas por altos e baixos dentro de
campo...
Recorda o atacante Capeta que
o treinador-pai de santo não dava moleza aos seus pupilos às vésperas de jogos.
Quando o time estava concentrado, ele ia pessoalmente todas as noite que
precediam os jogos a chácara para checar se realmente pessoal tinha se
recolhido até as 22 horas como ele exigia.
Todos os jogadores cumpriam
suas ordens, menos o zagueiro Zé Carlos, recém saído da escolinha de futebol do
Flamengo, do Rio de Janeiro, e que era chegadinho numa boemia. Tanto que nunca aparecia
na concentração antes das 2 horas da madrugada. Certa noite de sábado, Beto
Mendonça chegou à concentração para constatar se os jogadores já haviam se
recolhido aos seus quartos.
Ao caminhar em direção ao
quarto onde ficava Zé Carlos, foi barrado pelo também carioca Ivonil, considerado pelos
companheiros como um grande “mala”, porque sabia de tudo o que acontecia no
Humaitá. “O Zé Carlos está dormindo e não quer ser incomodado de jeito nenhum...”
– justificou Ivonil. E não ia ser mesmo, pois o que estava em sua cama,
cuidadosamente coberto com lençóis até o travesseiro, era um mourão de cerca...
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