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sábado, 22 de junho de 2019

Catolicismo e macumba de pai de santo-treinador não deram certo no Humaitá...


Técnico de futebol e ao mesmo tempo respeitado pai de santo, Beto Mendonça chegou ao Humaitá, de Cáceres, em 1980, disposto a recuperar o moral do representante da cidade nas competições oficiais da então Federação Mato-gossense de Desportos, pois apesar do apoio dos cacerenses – a média de público no Estádio Geraldão era de 20 mil torcedores por jogo – o time não ia bem dentro de campo. E claro que a torcida chiava e com razão: se prestigiava tanto o clube, era justo exigir vitórias.

Beto teve um grande mérito na sua passagem pelo Humaitá: conseguiu classificar o time para as finais do campeonato estadual daquele ano. Mas não foi por causa do futebol que equipe jogava, e, sim, por renda, graças à sua fiel torcida. Participaram do quadrangular final, além do Humaitá, Mixto, Dom Bosco e Operário Várzea-grandense. O campeão daquele ano foi o Dom Bosco.

Às vésperas de jogos no domingo, nas sextas-feiras à noite, Beto Mendonça reunia a rapaziada que ia jogar e os reservas – a participação era obrigatória – no terreiro da chácara onde a equipe ficava concentrada para uma demorada sessão de descarrego. Durante o trabalho do pai de santo rolava de tudo a que a macumba tinha direito: sacrifício de galinha preta e eventualmente de bode preto, pólvora, velas pretas e vermelhas, cachaça e charutos para agradar os espíritos das trevas que Beto Mendonça incorporava...

Nessa época, o presidente do Humaitá era Renato Vital Garcia, que se tornou muito admirado em Cáceres por ser uma pessoa de um coração que não tinha tamanho. Muito religioso e de uma simplicidade sem limites, Vital Garcia estava sempre pronto para atender as pessoas que o procuravam com algum problema para resolver. Sua bondade se estendia também aos profissionais do Humaitá.

Sua religiosidade, Vital Garcia levou também para o futebol.  Nos domingos de jogos, se por qualquer razão a boleirada não podia ir à missa da manhã para rezar, o presidente levava um padre até a concentração para benzer a rapaziada, pedindo proteção aos céus para ninguém se machucar e também uma ajudazinha para o time a conquistar resultados positivos dentro de campo. Mas nem a fé de Vital Garcia e nem a macumba de Beto Mendonça estavam conseguindo dar uma forcinha ao Humaitá.

Um dia, Beto Mendonça foi conversar com Vital Garcia sobre o que pensava respeito da falta de vitórias do time. E foi direto ao assunto: o treinador-pai de santo achava que não adiantava nada ele fazer suas mandingas, “fechando o corpo” dos seus jogadores contra bruxarias de seus adversários, se orações do padre, ao abençoar a boleirada, eliminava suas feitiçarias. Os dois não chegaram a um acordo e o Humaitá continuou com suas campanhas marcadas por altos e baixos dentro de campo...

Recorda o atacante Capeta que o treinador-pai de santo não dava moleza aos seus pupilos às vésperas de jogos. Quando o time estava concentrado, ele ia pessoalmente todas as noite que precediam os jogos a chácara para checar se realmente pessoal tinha se recolhido até as 22 horas como ele exigia.

Todos os jogadores cumpriam suas ordens, menos o zagueiro Zé Carlos, recém saído da escolinha de futebol do Flamengo, do Rio de Janeiro, e que era chegadinho numa boemia. Tanto que nunca aparecia na concentração antes das 2 horas da madrugada. Certa noite de sábado, Beto Mendonça chegou à concentração para constatar se os jogadores já haviam se recolhido aos seus quartos.

Ao caminhar em direção ao quarto onde ficava Zé Carlos, foi barrado pelo  também carioca Ivonil, considerado pelos companheiros como um grande “mala”, porque sabia de tudo o que acontecia no Humaitá. “O Zé Carlos está dormindo e não quer ser incomodado de jeito nenhum...” – justificou Ivonil. E não ia ser mesmo, pois o que estava em sua cama, cuidadosamente coberto com lençóis até o travesseiro, era um mourão de cerca...
          
                               

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