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sábado, 18 de junho de 2016

Reforço do mate milagroso...

Na semana do primeiro jogo decisivo do Campeonato Mato-grossense de Futebol de 68/69 – nos primórdios do futebol profissional em Mato Grosso o certame começava num ano e terminava no outro – entre Mixto e Operário, o técnico tricolor Tchê Teodorico caprichou na preparação física da moçada. Foi treinamento físico de terça-feira a sábado, nada de bola.

Os jogadores estranharam e alguns até reclamaram do excesso de preparo físico. Mas o treinador deu continuidade à programação para manter a equipe bem condicionada fisicamente. Pior: os jogadores sabiam que o técnico não entendia patavina de preparação física...
Para complicar ainda mais a situação, o Operário realizava seus treinos num campo de areia de goma, pesado que só. O campo ficava no lugar onde funciona atualmente a Associação Cultural Nipo-Brasileira, em Várzea Grande, com entrada pela Rua Castro Alves.

Todo mundo sabia que aquele campo não prestava para preparação física por seu piso ser duro demais. Mas a ordem para o Operário treinar ali era do presidente Rubens dos Santos, que era muito amigo do dono do terreno, Hélio Jesus da Fonseca.
Chegou o dia do jogo, que foi apitado pelo então mais famoso árbitro do futebol brasileiro, Armando Marques. Enquanto o Mixto deslanchava bonitinho, tocando direitinho a bola, o Operário parecia empacado. Resultado: o Mixto ganhou por 2x1.

Na terça-feira, quando os jogadores chegaram ao campo para iniciar os preparativos para a segunda partida decisiva e Tchê Teodorico mandou o plantel se trocar para uma sessão de preparação física, Glauco gritou: “Eu não vou treinar...”
   
O quarto-zagueiro operariano tinha um bom motivo para não fazer física: ele estava envergonhado do baile que havia levado do ponta-de-lança mixtense Marcelo no primeiro jogo decisivo. Até parecia que suas pernas estavam amarradas: Glauco, logo ele, perdeu todas as jogadas que disputou com o atacante mixtense.

É claro que os demais jogadores seguiram o exemplo de Glauco, recusando-se a fazer física. Tchê Teodorico ainda tentou convencer a rapaziada a treinar, porém não adiantou: ninguém lhe deu bola.

Veio o segundo jogo. Com os jogadores bem descontraídos e sem a musculatura fadigada, os tricolores fizeram uma grande partida e o Operário venceu, com folga, por 3x1. Operário e Mixto foram, então, para a decisão, dia 2 de fevereiro de 1969. O tricolor venceu por 3x2, conquistando o bicampeonato mato-grossense de futebol profissional.

Por ocasião da 2ª partida entre tricolores e alvinegros, quando os operarianos entraram no vestiário viram num canto uma jarra, bem grande, até a boca de chá-mate. Alguns olharam de soslaio para a vasilha. Por que chá -mate e não suco ou outro líquido para os jogadores tomarem antes de entrar em campo? – questionavam entre si.

Glauco chamou o lateral direito Darci Piquira, na inocência dos seus 17 anos, apontou para a jarra e lhe disse como se estivesse dando uma ordem: “Não beba isso aí, garoto...”

Notando a desconfiança dos jogadores, o técnico Tchê Teodorico prometeu que depois falaria sobre o segredo da jarra de chá-mate. Mas nem precisou explicar nada: com a vitória, o pessoal queria mesmo era festejar a fácil vitória...

A decisão foi marcada para quarta-feira à noite. No vestiário, a mesma jarra transbordando de chá-mate, consumido geladinho, porém em quantidades bem dosadas, inclusive durante a partida, por alguns jogadores. De vez em quando algum jogador chegava na beira do campo e dava uma beiçada no chá...

Com a vitória por 3x2, do Dutrinha os operarianos, até carregados pelos torcedores, foram direto, a pé, festejando pelas ruas, para o Bar Verdecap, que funcionou durante muitos anos no local onde foi construído tempos depois o Hotel Presidente na Avenida Getúlio Vargas, esquina com a Rua Barão de Melgaço. A concentração de jogadores e torcedores no Verdecap foi rápida, porque a turma queria mesmo era ir para a boate Tabaris, no Boa Esperança, para encerrar a noite com uma festa do bicampeonato em alto estilo.

Na boate, finalmente, os operarianos desvendaram o mistério do chá-mate. No segundo jogo, o Operário tinha contado com o reforço de uma “seleção” de 30 comprimidos dissolvidos de vários tipos de estimulantes; no 3º, a “seleção” foi reforçada com mais 10 comprimidos, principalmente de Pervintin.

Pelo que se conta até hoje, a ideia do “reforço” do chá-mate como doping teria sido do atacante Gebara, do Operário. Em alguns jogadores, o consumo do chá-mate teve efeito retardado. O ponteiro esquerdo Upa Neguinho, por exemplo, teve que tomar muito leite de madrugada, depois da farra na Tabaris, para se livrar de uma terrível dor estomacal, enquanto o meio campo Tatu queria porque queria voltar ao Dutrinha para continuar jogando...
Reproduzido do livro Casos de todos os tempos Folclore do Futebol de Mato Grosso

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