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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Coringa do Vila Nova, Painha achava que não ia se casar nunca: era muito feio...

O casal Painha-Gonçalina
 e a parentela na 
solenidade religiosa  











Titular absoluto da ponta direita do Vila Nova Futebol Clube, Painha sempre alimentou um sonho na sua juventude: chegar um dia a ser o goleiro do time principal de Bom Sucesso, a quase bicentenária comunidade rural de Várzea Grande e que virou um importante polo turístico e gastronômico da cidade.

Para alcançar esse objetivo, ele preparava-se muito, até sozinho, chutando a bola contra o muro da casa em que nasceu e onde vive até hoje – a residência original era uma palhoça, a 1ª a ser erguida na comunidade rural em 1823 – para treinar reflexos e dar saltos como felinos para defendê-la com os pés, as mãos, as costas, a bunda...

Mas, apesar de tanto esforço e persistência, além de suas boas atuações no time suplente, chamado também de “cascudo”, Painha nunca tinha chance de atuar na equipe titular.   

Muito bem criado por uma tia desde a hora que nasceu, pois sua mãe morreu no seu parto, Painha, que só saía de Bom Sucesso para jogar bola na região, embora muito estimado pela população da comunidade onde vivia, convenceu-se muito cedo de que um outro sonho que todo mundo acalenta na juventude – o de casar, ter mulher, filhos, netos... – não ia se materializar  nunca!

-- Eu era muito feio, as moças nem olhavam pra mim... – afirma Painha.
De fato, o conjunto não ajudava Painha. Além de feio, era magricela, bem baixinho e... pobre, muito pobre. Tanto é que quando tinha jogo bom no Dutrinha, por falta de dinheiro para pagar uma condução, Painha e um grupinho de amigos de Bom Sucesso iam a pé ao estádio do centro de Cuiabá. Ele ainda tinha que pular o muro porque nunca tinha grana para comprar o ingresso.

Depois que o Verdão foi inaugurado, em 1976, aí piorou a situação deles, porque aumentou em alguns quilômetros a caminhada para o estádio. Se o jogo era de noite, a turminha só chegava a Bom Sucesso de madrugada. “Ainda bem que naquele tempo não tinha esse negócio de assalto e a gente podia andar a noite sem cisma...” – diz Painha.

Fazer longas caminhadas não era problemas para eles que já estavam acostumados a torar longos estirões quando tinham que jogar na Guarita, Figueirinha, Varginha, Engenho Velho, Santo Antonio de Leverger.

No caso de jogos nas três últimas localidades, o pessoal de Bom Sucesso atravessava o Rio Cuiabá e em canoas e botes e depois completava a jornada no pé dois mesmo, pois não existiam conduções para facilitar o deslocamento da boleirada.

Pouco tempo da fundação do Vila Nova, chegou a Bom Sucesso para dar aulas na escolinha da comunidade rural a professora Gonçalina Barros. A princípio muito vigiada pela família em cuja casa passou a viver, o que era comum naqueles tempos, em função da preservação da moral e dos bons costumes, aos poucos a mestra foi se soltando e se enturmando com a comunidade.

Em um domingo de jogo no campo do Vila Nova, enquanto Painha procurava uma moita de capim para esconder seus pertences, Gonçalina aproximou-se dele e perguntou se ele queria que ela cuidasse  de sua roupa. Ora, se queria, afinal era um sinal de aproximação dos dois e que deixou os jogadores vilanovenses até faceiros quando o gabola Painha contou-lhes a novidade...

Dias depois desse episódio, que deixou o ponteiro direito eufórico, a diretoria anunciou que a partir de um jogo que o Vila Nova ia disputar em Engenho Velho, dali a alguns dias, Painha passaria a ser o titular do gol. A notícia chegou rapidinho aos ouvidos de todos os moradores de Bom Sucesso, inclusive aos da professora Gonçalina, claro...

-- Eu acho que ela pensou que eu jogando de goleiro no time titular do Vila Nova ia ser alguma coisa na vida... -- caçoa o hoje Vovô  Painha, lembrando que na volta de Engenho Velho ele teve que agüentar muita gozação dos dois lados dos ouvidos, pois o time de Bom Sucesso  perdeu de 7x0 e ele levou os sete gols. Foi uma estreia pra lá de desastrosa...    
         
Painha chegou a imaginar que o sonho de um casamento que passou a povoar seu pensamento depois do primeiro contato com Gonçalina tinha ido para o vinagre. Mas que nada! O namorico avançou, apesar dos 7x0, evoluiu para um casamento que já dura 61 anos e resultou em cinco filhos (3 mulheres e dois homens), 11 netos e 4 netas, 11 bisnetos e uma tataraneta de três anos. Por enquanto...

Com o incentivo e a ajuda da professora Gonçalina, Painha progrediu e muito na vida. A palhoça pioneira de Bom Sucesso virou nos últimos anos um confortável casarão, onde os dois vivem cercados da parentela..

Decorridos mais de 60 anos, até hoje Gonçalina se lembra da primeira vez que viu Painha. Em um domingo, ela estava conversando com uma amiga em uma casa perto de uma rua, quando ele passou, já uniformizado de goleiro e simulando estar arrumando a camisa de mangas compridas, fingindo que não tinha visto as duas...

Apesar dos seus 86 anos, o ex-coringa do Vila Nova, pois jogava em várias posições, ele ainda trabalha na sua chácara e cuida do tempero e da qualidade do peixe que sai da cozinha para as mesas da tradicional Peixaria Vovô Painha, uma das mais antigas de Bom Sucesso...        

Trabalhando muito a vida inteira, sem sair de Bom Sucesso, Painha nunca se preocupou com estudos, mas aprendeu muito com a vida. No ano passado, quando o casal comemorou 60 anos de casamento, com uma festa de arromba, o hoje tataravô Painha vendeu um terreno por R$ 30 mil e chamou os cinco filhos para fazer a partilha do dinheiro...

Só que na hora de repassar essa parte dessa herança aos filhos, Painha ficou com R$ 5 mil e entregou só R$ 4 mil para cada um deles, esclarecendo, antes que alguém lhe perguntasse, que “o outro mil reais é a contribuição de cada um de vocês para a festa de “Bodas de Diamante” do nosso casamento...”

Ninguém chiou...       

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