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| O São Cristovão marcou epóca no futebol amador em Cuiabá |
Outubro de 1964: para
comemorar seus 186 anos de fundação, no dia 6 daquele mês, Cáceres criou uma
comissão organizadora para promover uma festa de arromba, daquelas de deixar
saudades e ser lembrada para sempre. E claro que para marcar uma data tão
significativa para a população cacerense não podia faltar um jogo de futebol
dos bons.
O clube escolhido para
abrilhantar a festa de Cáceres foi o São Cristóvão, do bairro Araés, de Cuiabá,
à época presidido pelo 1º tenente R/1 Gumercindo Alves Correa Filho. Apesar de
ser um dos mais novos do futebol amador de Cuiabá – foi fundado em 16/12/1961 –
o São Cristóvão era muito bem organizado e não um simples time de 11 camisas. E
muito bom na bola...
Uma poderosa seleção formada
pelos melhores jogadores da cidade e da região era a “pedreira” que o São
Cristóvão ia enfrentar no amistoso festivo. Por isso, a diretoria decidiu que o
time viajaria no sábado mais cedo para chegar a Cáceres com tempo suficiente
para os jogadores descansarem para cumprir o compromisso.
A viagem em cima de um velho
caminhão, com os jogadores sentados sobre incômodos bancos de madeira que se
estendiam de um lado a outro da carroceria, começou e prosseguia animada pelos
225 quilômetros da lamacenta e quase intrafegável BR 070 que liga Cuiabá e
Cáceres, quando, de repente, já altas horas da noite, o caminhão quebrou...
Naquele deserto de cerrado,
buscar socorro onde? O jeito foi a diminuta delegação do São Cristóvão, já quer
muitos jogadores não puderam viajar, conformar-se com o azar e dormir sobre a
madeira dura da carroceria e com o estômago roncando de fome. Foram horas
dramáticas, quase de desespero. Mas fazer o que?...
Quando rompeu a aurora no
domingo, alguns jogadores avistaram, quase à margem da rodovia, ao longe, uma
tapera e galo cantando. Foram até lá na
esperança de conseguir pelo menos um gole de café, mas para surpresa – e que
surpresa agradável!... – o casal que morava ali conseguiu improvisar um “quebra
torto” que aliviou a fome de todo o grupo.
Voltaram para o caminhão,
torcendo e alguns até rezando, para aparecer algum socorro. Calcula Dito Coró,
treinador e jogador do São Cristóvão, que ainda faltava mais da metade do
caminho para a delegação chegar a Cáceres. O sol já ia bem alto quando chegou
onde estava os jogadores, um amigo do motorista do caminhão em uma caminhonete
C-10.
Imediatamente ele se
prontificou a levar uma parte da equipe até Cáceres e em seguida voltaria parar
pegar o resto do pessoal. Amontoaram-se na C-10, o chefe da delegação, tenente
Correa, Dito Coró e mais 10 jogadores. O time chegou a Cáceres já na hora de
começar o jogo, com a numerosa torcida presente ao campo já impaciente...
Apesar de todos os
contratempos – fome, cansaço, noite mal dormida -- o São Cristóvão deu um show
de bola na seleção de Cáceres, vencendo o jogo por 3x1.
Nem bem terminou a partida, Correa
e Dito Coró foram procurados por dirigentes da seleção cacerense para
realização de um novo jogo no dia seguinte, 6 de outubro, data do aniversário
da cidade e feriado em Cáceres. Um oficial de alto coturno do 2º Batalhão de
Fronteira (2º BFron), unidade do Exército em Cáceres, e que havia cedido vários
jogadores para a seleção cacerense, foi curto e grosso:
-- A rapaziada não gostou do resultado de hoje
e quer uma revanche amanhã. Depois do jogo, um caminhão do Exército leva vocês
de volta para Cuiabá com toda a segurança...
Correa e Dito Coró ainda
tentaram argumentar que os jogadores do São Cristóvão trabalhavam e eles
próprios tinham compromissos profissionais em Cuiabá. No caso do tenente
Correa, como justificar sua ausência ao trabalho? Mas o oficial do BFron não
quis nem saber: a revanche estava marcada e fim de papo!...
O jogo na segunda-feira em
Cáceres ficou marcado na curta história do clube do Araés. O São Cristóvão
estava ganhando por 1x0, quando já quase no fim do jogo, o lateral esquerdo
Adolfo resolveu fazer uma graça para a torcida: tomou a bola do ponteiro
direito, deu-lhe um drible desconcertante, em seguida mais um e na terceira finta
se atrapalhou, perdendo a bola para o adversário, que cruzou para a área, com a
seleção cacerense empatando o jogo.
Outro drama: inconformado
com a sua falha, Adolfo caiu em profunda depressão e queria porque queria se
matar de qualquer jeito. Apesar de consolado pelos companheiros, o suicídio
virou uma obsessão de Adolfo, cujos passos passaram a ser vigiados por todo
mundo. Ele só desistiu da intenção de se matar depois de muitos conselhos de
amigos, na volta a Cuiabá...
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