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domingo, 5 de fevereiro de 2017

Aventura, drama e quase um suicídio em jogo do São Cristóvão na festa de Cáceres...


O São Cristovão marcou epóca no futebol amador em Cuiabá
Outubro de 1964: para comemorar seus 186 anos de fundação, no dia 6 daquele mês, Cáceres criou uma comissão organizadora para promover uma festa de arromba, daquelas de deixar saudades e ser lembrada para sempre. E claro que para marcar uma data tão significativa para a população cacerense não podia faltar um jogo de futebol dos bons.

O clube escolhido para abrilhantar a festa de Cáceres foi o São Cristóvão, do bairro Araés, de Cuiabá, à época presidido pelo 1º tenente R/1 Gumercindo Alves Correa Filho. Apesar de ser um dos mais novos do futebol amador de Cuiabá – foi fundado em 16/12/1961 – o São Cristóvão era muito bem organizado e não um simples time de 11 camisas. E muito bom na bola...

Uma poderosa seleção formada pelos melhores jogadores da cidade e da região era a “pedreira” que o São Cristóvão ia enfrentar no amistoso festivo. Por isso, a diretoria decidiu que o time viajaria no sábado mais cedo para chegar a Cáceres com tempo suficiente para os jogadores descansarem para cumprir o compromisso.

A viagem em cima de um velho caminhão, com os jogadores sentados sobre incômodos bancos de madeira que se estendiam de um lado a outro da carroceria, começou e prosseguia animada pelos 225 quilômetros da lamacenta e quase intrafegável BR 070 que liga Cuiabá e Cáceres, quando, de repente, já altas horas da noite, o caminhão quebrou...

Naquele deserto de cerrado, buscar socorro onde? O jeito foi a diminuta delegação do São Cristóvão, já quer muitos jogadores não puderam viajar, conformar-se com o azar e dormir sobre a madeira dura da carroceria e com o estômago roncando de fome. Foram horas dramáticas, quase de desespero. Mas fazer o que?...

Quando rompeu a aurora no domingo, alguns jogadores avistaram, quase à margem da rodovia, ao longe, uma tapera e galo cantando.  Foram até lá na esperança de conseguir pelo menos um gole de café, mas para surpresa – e que surpresa agradável!... – o casal que morava ali conseguiu improvisar um “quebra torto” que aliviou a fome de todo o grupo.

Voltaram para o caminhão, torcendo e alguns até rezando, para aparecer algum socorro. Calcula Dito Coró, treinador e jogador do São Cristóvão, que ainda faltava mais da metade do caminho para a delegação chegar a Cáceres. O sol já ia bem alto quando chegou onde estava os jogadores, um amigo do motorista do caminhão em uma caminhonete C-10.

Imediatamente ele se prontificou a levar uma parte da equipe até Cáceres e em seguida voltaria parar pegar o resto do pessoal. Amontoaram-se na C-10, o chefe da delegação, tenente Correa, Dito Coró e mais 10 jogadores. O time chegou a Cáceres já na hora de começar o jogo, com a numerosa torcida presente ao campo já impaciente...

Apesar de todos os contratempos – fome, cansaço, noite mal dormida -- o São Cristóvão deu um show de bola na seleção de Cáceres, vencendo o jogo por 3x1.

Nem bem terminou a partida, Correa e Dito Coró foram procurados por dirigentes da seleção cacerense para realização de um novo jogo no dia seguinte, 6 de outubro, data do aniversário da cidade e feriado em Cáceres. Um oficial de alto coturno do 2º Batalhão de Fronteira (2º BFron), unidade do Exército em Cáceres, e que havia cedido vários jogadores para a seleção cacerense, foi curto e grosso:

 -- A rapaziada não gostou do resultado de hoje e quer uma revanche amanhã. Depois do jogo, um caminhão do Exército leva vocês de volta para Cuiabá com toda a segurança...

Correa e Dito Coró ainda tentaram argumentar que os jogadores do São Cristóvão trabalhavam e eles próprios tinham compromissos profissionais em Cuiabá. No caso do tenente Correa, como justificar sua ausência ao trabalho? Mas o oficial do BFron não quis nem saber: a revanche estava marcada e fim de papo!...

O jogo na segunda-feira em Cáceres ficou marcado na curta história do clube do Araés. O São Cristóvão estava ganhando por 1x0, quando já quase no fim do jogo, o lateral esquerdo Adolfo resolveu fazer uma graça para a torcida: tomou a bola do ponteiro direito, deu-lhe um drible desconcertante, em seguida mais um e na terceira finta se atrapalhou, perdendo a bola para o adversário, que cruzou para a área, com a seleção cacerense empatando o jogo.

Outro drama: inconformado com a sua falha, Adolfo caiu em profunda depressão e queria porque queria se matar de qualquer jeito. Apesar de consolado pelos companheiros, o suicídio virou uma obsessão de Adolfo, cujos passos passaram a ser vigiados por todo mundo. Ele só desistiu da intenção de se matar depois de muitos conselhos de amigos, na volta a Cuiabá...   
            
 

  

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