“Enquanto eu tiver mãos para segurar caneta e folhas de cheque para
assinar, compro qualquer jogador para o Mixto...” – costumava dizer Lino
Miranda, inclusive em reuniões de clubes na FMF, dando gargalhadas. E comprava
mesmo. Aliás, tanto comprava como vendia. Era cada rolo!
Na sua longa passagem pelo Mixto, como
presidente e diretor do Departamento de Futebol Profissional, Lino Miranda
aprontou cada presepada! Tanto é que em Maringá, no norte do Paraná, ele era
chamado pelos torcedores do Grêmio Esportivo Maringá de “Frente Fria”. Por um
simples motivo: quando Lino Miranda aparecia na cidade para fazer algum
negócio com o GEM, a torcida já sabia que, de um jeito ou de outro, o clube
maringaense ia entrar numa gelada.
Recorda Roberto de Jesus César,
ex-jogador de futebol, treinador inclusive do próprio Mixto, comentarista
esportivo e muito amigo de Lino Miranda, que teve um período em que o
dirigente alvinegro era chamado, até pelos jogadores, de Doutor Mentira. Por
quê? Simplesmente porque Lino Miranda vendia jogadores do clube e não
entregava; comprava dos outros e não pagava...
É muito conhecida uma história
envolvendo Lino Miranda, a CBF, o Americano, de Campos-RJ e o zagueiro Orlando
Fumaça, cujo passe o dirigente mixtense comprou com um cheque com assinatura
falsificada, colocando na fogueira o nome de uma pessoa muito ligada ao futebol
em Mato Grosso. O rolo virou processo e foi parar na CBF, mas acabou bem, como
sempre, com vantagem para o Mixto: após alguns meses no alvinegro, Orlando
Fumaça foi negociado com o Vasco da Gama-RJ por um dinheirão.
Tempos depois da armação, Lino Miranda
foi à CBF cuidar de questões relacionadas ao Mixto e aproveitou para conversar
com Giulite Coutinho para explicar em detalhes a tumultuada transferência de
Orlando Fumaça para o alvinegro, a fim de justificar que a pessoa cuja
assinatura no cheque tinha sido falsificada não teve nenhuma culpa na lambança
que ele havia aprontado pra cima do Americano.
Segundo uma versão alardeada por Lino
Miranda no seu retorno a Cuiabá, ele deu a seguinte explicação ao mandachuva da
CBF para ter aplicado o golpe no Americano: o time do Mixto que estava
disputando o Campeonato Mato-grossense de 1988 tinha um bom ataque, mas a
defesa estava feia que dava dó. Levava gols de tudo quanto era jeito.
E Lino Miranda tinha um motivo até
humano para comprar Orlando Fumaça para arrumar a defesa. Seu filho, ainda
menino, era torcedor tão fanático do Mixto que quando o alvinegro perdia o
garoto ficava doente, não ia à escola, só tirava notas baixas e até se tornava
rebelde em casa e na rua. Nem psicólogo tinha dado jeito na louca paixão do
menino pelo Mixto.
– Foi num momento de fraqueza, porém
pensando no bem do meu filho que eu fiz aquilo, presidente, o senhor há de
entender a aflição de um pai... – arrematou Lino Miranda.
– Pois, olhe, Lino, eu enfrento o mesmo
drama. Tenho um menino que é louco pelo
Botafogo... logo pra quem ele foi torcer! É padecer demais ver o meu garoto
sofrendo daquele jeito...
Quase chorando um no ombro do outro num
fraternal abraço de pais sofredores por causa do futebol, os dois se
despediram...
Detalhe: Lino Miranda nunca teve filho
homem...
Bonachão, sempre bem-humorado, às vezes
Lino Miranda não poupava nem pessoas da sua estrita confiança. Certa vez, ele
precisou ir a Goiás para acertar a vinda de alguns jogadores do futebol goiano
para o Mixto e levou consigo o técnico Hélio Machado e o radialista Antero Paes
de Barros. A viagem, por terra, foi feita no carro do treinador.
Antes da partida, Lino Miranda simulou
tomar um comprimido e entregou um para Antero e outro para Machado,
recomendando: “É pra gente relaxar e viajar mais tranquilo. Peguei com meu
irmão...”
O irmão a que Lino Miranda se referia
era o médico Emílson Miranda, que naquela época tinha um hospital – o São
Paulo – na Morada do Sol.
Na primeira parada do trio para fazer
um lanche, nem o suco que Machado e Antero pediram desceu. Imagine o lanche,
então...
Chegou a hora do almoço. Lino Miranda
comeu um engasga gato qualquer e seus companheiros de viagem nem pediram nada
porque sabiam que a comida ia ficar entalada na garganta. E não queriam correr
risco de engasgar e passar vergonha num restaurante...
Exceto o fato de Machado e Antero terem
perdido alguns quilos, pois não conseguiam comer nada, tanto na ida como na
volta, nem na curta permanência em Goiânia, a viagem transcorreu normalmente. E
Lino, como sempre, foi bem-sucedido na sua empreitada de conseguir os reforços
que o Mixto pretendia...
Algum tempo depois, Machado e Antero
descobriram que os comprimidos que Lino Miranda havia lhes dado não era um
relaxante coisa nenhuma e sim um poderoso inibidor de apetite...
Como zeloso dirigente do Mixto, Lino
Miranda queria fazer economia para o clube. E conseguiu, mesmo que às custas
da fome de dois apaixonados mixtenses...
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