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quinta-feira, 7 de julho de 2016

Roubo de penosas e comilança

Sexta-feira Santa de 1971. Um grupo de jogadores do Operário que moravam na “república” do clube, na Avenida Couto Magalhães, que naquela época não era toda asfaltada, decidiu roubar umas galinhas para comemorar o Sábado da Aleluia. Do grupo faziam parte Bife, Jorge Cruz, Joel Diamantino, Gaguinho, Dirceu Batista e Odenir, o Upa Neguinho, além de "Chega Junto", zelador da “república” e irmão do jogador operariano Sabará.
Já passava da meia noite, quando o grupo saiu do alojamento, com a certeza de que seria uma moleza banquetear com penosas dos outros, como era tradição antigamente. Tinham razões os jogadores para pensar assim. É que bem defronte a “república” morava uma família que criava muitas galinhas e era ali, conforme haviam decidido antes, que iam deitar e rolar...
Nem bem puseram os pés na rua para sair em busca das galinhas, todos trajando uniforme de treino do Operário, ouviram a voz do dono do galinheiro. "Aqui, não, seus malandros! Minhas galinhas estão trancadas e bem protegidas. Vamos andando!..." – ordenou o vizinho, como se tivesse adivinhado o pensamento dos jogadores.
Ninguém sabia onde, ali por perto, existia outro galinheiro. Os jogadores decidiram, então, roubar um porco para a ceia da Aleluia. Mas no primeiro chiqueiro que entraram, uma desagradável surpresa: o dono certamente havia também escondido seus animais e ainda por cima Odenir caiu dentro da pocilga, ficando com um mau cheiro desgraçado de bosta de porco.
A decisão do grupo de só voltar para a “república” com as galinhas ou pelo menos um porco era irreversível. Já tinham até combinado com dona Neta, uma senhora que sempre foi a segunda mãe dos jogadores que viviam no alojamento, a festa do Sábado da Aleluia...
Na caminhada sem destino pela Couto Magalhães, lá pelas tantas um ouvido mais acurado escutou um barulho de motor. E identificou do que se tratava: era um velho e único jipe que a Polícia Civil de Várzea Grande utilizava para fazer rondas noturnas por ali. E sempre ocupado por dois policiais chatos que só eles...
Para evitar uma eventual encrenca com os policiais, os jogadores decidiram rapidinho formar grupos de dois em dois e continuaram a caminhada, fazendo aquele exercício em que a pessoa bate palmas sobre a cabeça, com os braços bem levantados, e com a ponta dos dedos toca a clavícula.
Não deu outra: os policiais foram chegando e interrogando o grupo sobre a presença deles, àquela hora, já na parte sem asfalto da avenida, fazendo aqueles movimentos sincronizados.
– Ora, estamos treinando – respondeu alguém.
– Mas a esta hora? – questionou um dos policiais.
– É que o jogo de domingo vai ser muito difícil, é preciso a gente treinar muito para ficar em boa forma física...– justificou outro.
Os chatos policiais não acreditaram muito na história, mas foram embora... 
A madrugada avançava quando os jogadores, depois de bater muita perna e bem sucedidas invasões a galinheiros da área de abrangência da “república”, chegaram na casa de dona Neta. Com 12 galinhas dentro de um saco de carregar material esportivo do Operário e das quais apenas uma delas morta de tanto "Chega Junto" apertar seu pescoço para a penosa não gritar quando estava sendo roubada...
Porta aberta com um sorriso de recepção de mãe Neta, foi todo mundo ajudar a preparar as penosas: matar, ferver água para arrancar as penas, tirar as tripas, trinchar, etc.. E aí foram três dias de comilança de galinha com arroz, ao molho, assada, à passarinho...

(Esta história faz parte do livro Folclore do Futebol de Mato Grosso)



Nelson Severino
Jornalista e escritor

Prezado Senhor
Parabenizo veterano jornalista e professor pelo lançamento do livro “Folclore do futebol de Mato Grosso”, ocorrido no dia 27/05, às 19h30, na sede da AGECOPA, nesta capital.
Este livro contribuirá notavelmente para a valorização da história do futebol mato-grossense contada por aqueles personagens que fizeram e o vivenciaram.
Fraternalmente,
Leonardo Pio da Silva Campos,
Presidente da Caixa de Assistência dos Advogados de Mato Grosso.

Estimado Nelson,
Foi com enorme alegria que, ao visitar a Livraria Janina, no Shopping Pantanal, no último domingo, vi exposto na vitrine principal o seu livro “Folclore do futebol de MT”. Comprei e estou lendo... e gostando muito.
Parabéns pela concretização do seu sonho. 
Já estou ansioso, esperando a publicação do segundo volume!
Um abraço,
Reinhard Ramminger



Prezado Nelson.! 
Dia 08 de Junho, data de meu aniversário fui presenteado com sua bela obra" Folclore do Futebol de Mato Grosso", que verdadeiramente ultrapassou as minhas expectativas pelo rico conteúdo dos acontecimentos futebolísticos narrados, levando o leitor a se deliciar com as lembranças de um passado glorioso e hilário em todas as fases da história do futebol de Mato Grosso.
A parte, com as narrativas de Pedro Lima, pude recordar do grande Wilsinho, crack inconteste do temido Pantera do Leste, que poderia jogar em qualquer time do Brasil. Em 1965 o Mixto foi buscá-lo por empréstimo em Alto Araguaia-MT para um jogo com o Flamengo do Rio aqui no Dutrinha, onde fizemos a dupla de ataque.
Parabéns mais uma vez, e siga em frente que a 1ª amostra tenho certeza já foi aprovada.
Um grande abraço
do amigo
Lito.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Exu frangueiro

O jogo que o União ia disputar com o Dom Bosco pelo Campeonato Mato-grossense de Futebol de 1978 era quase de vida ou morte. Durante a semana da ansiosamente esperada peleja, alguém teve a idéia de os jogadores irem a um centro espírita de Rondonópolis pedir proteção e ajuda às forças do além para o time sair de campo vitorioso... 
Logo a sugestão se espalhou entre o plantel. Ficou combinado, então, que mesmo os que não acreditavam em espiritismo ou macumba, teriam que comparecer à sessão de descarrego para não quebrar a corrente. O União tinha jogadores como Ruiter, Gílson Lira, Ernani, Mário Sérgio, Pindu, Zé Cachorro. Só craques mesmo. Mas uma forcinha extra ajudaria muito... 
De comum acordo, os jogadores escolheram um centro de umbanda que trabalhava com mesa branca até por volta das 21 horas, com os guias incorporando divindades do bem para aconselhar quem os procurava, receitar medicamentos e tratamentos, dar passes, resolver problemas conjugais, etc..
A partir daquele horário, alguns guias do terreiro recebiam caboclos da pesada, como exus e tranca ruas. Na sexta-feira, conforme tinha sido combinado, lá se foram os jogadores para o centro espírita.
Assim que chegaram ao terreiro, o goleiro Almeida procurou se informar quais eram os guias que recebiam exus. Apresentado a um deles, Almeida foi direto ao assunto: precisava de uma proteção especial para não sofrer gols contra o Dom Bosco,
Quando exu baixou no terreiro, Almeida, sem rodeios, fez-lhe o pedido. O orixá concordou em ajudar Almeida a fechar o gol, mas impôs uma condição: antes de começar o jogo, queria uma dose caprichada de marafo, que na linguagem da macumba quer dizer cachaça.
Chegada a hora do jogo, Almeida pegou um vidro com cachaça, embrulhou numa pequena toalha e entrou em campo confiante como nunca na vitória. Afinal, fazia dois anos e meio que o União não perdia no Luthero Lopes. 
Escolhido o campo, Almeida foi para o gol que ia defender, fez suas mandingas – como chutar os postes, dar pulinhos no centro da meta tocando as mãos no travessão, sempre rezando, bater os pés três vezes cada, se benzendo. Para completar, despejou a pinga nos dois postes, para exu...
O jogo estava muito difícil para os dois lados. Boas oportunidades os dois times criavam, mas nada de sair gols. Os jogadores do União até que não se preocupavam muito com os ataques do Dom Bosco, pois, afinal, exu estava no gol dando uma força e tanto para Almeida...
Finalzinho do primeiro tempo e o juiz marca uma falta perto da grande área contra o União. Bargas, que era o terror dos goleiros em chutes de bola parada, mesmo de longa distância, prepara-se para cobrança.
Almeida vai para o canto esquerdo, orienta a formação da compacta barreira do lado direito, deixando um pequeno espaço para Bargas tentar o chute no corredor em que o arqueiro estava. Impossível a bola passar por ali... ainda mais com a presença de exu no gol.
Quando Bargas bateu na bola, Gílson Lira, que sempre ficava de frente para quem ia cobrar a falta, se tinha que ficar na barreira, não teve dúvidas: era gol. No chute perfeito de Bargas, a bola fez uma curva e entrou exatamente no ângulo oposto ao do lado que Almeida guarnecia...
– Porra, pega a bola exu, essa não dá pra mim!... – gritou desesperado Almeida, enquanto a bola estufava a rede do União...
O estádio de Rondonópolis transformou-se então em palco de duas cenas inusitadas simultâneas: enquanto os jogadores do Dom Bosco festejavam com euforia o gol de Bargas, os do União morriam de rir com o grito de Almeida. Os torcedores e muito menos diretores do União não entendiam nada do que estava acontecendo. 
Terminado o primeiro tempo, os jogadores do União já entraram no vestiário levando esporros do presidente Lamartine da Nóbrega e do treinador Genésio do Carmo. Esclarecido o motivo de tanta risada por causa de um gol do time adversário, o União voltou para o 2° tempo e acabou vencendo o jogo por 2x1.
Apesar da vitória, o goleiro Almeida passou muito tempo xingando exu de tudo quanto é nome por ter sido enganado pela divindade do candomblé...

(Esta história faz parte do livro Folclore do Futebol de Mato Grosso)

Moção de Congratulação a jornalista

A Assembleia Legislativa de Mato Grosso aprovou no ano passado uma Moção de Congratulação ao jornalista e professor de Educação Física Nelson Severino pela publicação do livro Casos de todos os tempos – Folclore do futebol de Mato Grosso, que lançado em maio de 2011, já vendeu mais de 500 exemplares. A proposição da homenagem ao autor do livro e que está empenhado num projeto para resgatar a memória do futebol mato-grossense, através do seu rico e hilário folclore,foi apresentada em plenário pelo pelo deputado Mauro Savi, 2° Secretário da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa.
Segue o texto da Moção de Congratulação, encaminhada ao jornalista pelo presidente do Parlamento Estadual, deputado José Riva

Com fulcro no artigo 183, IX, do Regimento Interno desta Casa de Leis, requeiro à Mesa, ouvido o Soberano Plenário, que seja registrado nos anais da Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso e encaminhado ao jornalista NELSON ANTONIO SEVERINO, MOÇÃO DE CONGRATULAÇÃO , vazada nos seguintes termos:
“A ASEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE MATO GROSSO, por seus membros, mediante requerimento do Deputado Mauro Savi, expressa sua congratulação ao escritor NELSON ANTONIO SEVERINO, pela publicação do livro “Casos de todos os tempos – FOLCLORE DO FUTEBOL DE MATO GROSSO “, prefaciado pelo ínclito cidadão Pedro Rodrigues de Lima”.
Ao concluir uma obra literária desta natureza o jornalista Nelson Antonio Severino preenche lacuna existente na identificação de importantes personagens mato-grossenses que atuaram no futebol deste Estado, resgatando a história desse esporte, que segundo Pedro Lima é a alegria do povo. Com esta obra Nelson Severino insere o nosso Estado na memória do futebol brasileiro.
Trata-se de um trabalho literário que muito engrandece a história esportiva do nosso Estado, uma vez que a sociedade passa por momentos de extrema transformação neste mundo globalizado , não permitindo o registro de fatos e atos dos grandes homens que muito fizeram pelo nosso esporte, buscando preencher uma enorme lacuna que havia na memória do nosso futebol.
O homenageado é jornalista tendo trabalhado em Mato Grosso como correspondente de importantes jornais como Jornal do Brasil, o Globo, atuando também em nossa Capital no Jornal do Dia, Correio de Mato Grosso e Diário de Cuiabá, havendo lançado a Revista RDM.
As homenagens e o reconhecimento desta Augusta Casa de Leis ao cidadão NELSON ANTONIO SEVERINO por este grande momento de sua vida, pois o livro “Casos de todos os tempos – FOLCLORE DO FUTEBOL DE MATO GROSSO” resgata a rica memória da nossa cultura esportiva com muita fidelidade , porém explorando o seu lado folclórico, com os fatos ocorridos nos campos de futebol, estádios ou nas cidades do nosso Estado. 
Parabéns NELSON ANTONIO SEVERINO, hoje você passa a fazer parte da história de Mato Grosso com a responsabilidade de zelar pelas informações repassadas, pois isto muito nos orgulha.
Plenário das Deliberações “Deputado Renê Barbour”, agosto de 2011.
Deputado Mauro Savi.

O pé-de-valsa operariano e a bichona

Para inaugurar seu bonito estádio municipal, no distante dezembro de 1983, a prefeitura de Vilhena, em Rondônia, convidou o Operário para enfrentar a seleção amadora da cidade, reforçada de alguns craques de outros municípios.

 A delegação operariana deixou Várzea Grande no sábado bem cedo em ônibus especial, levando uns poucos profissionais – Deco, Odenir, Dito Siqueira, Bife, Ivanildo, Laércio, Mão de Onça – juvenis e juniores e até alguns torcedores, como convidados do clube.

De Cuiabá a Vilhena são 750 quilômetros, naquela época sem asfalto, o que aumentava o desgaste físico de quem viajava um trecho desses de uma só pancada. Mas a turma chegou inteirinha a Vilhena, apesar de muito cansada.

Como aniversariante daquele domingo, a bonita Vilhena, a segunda principal cidade de Rondônia, estava engalanada. A torcida lotou o estádio, confiante numa bonita vitória no amistoso para cobrir de glórias a semana de festas da sede do município.

Iniciado o jogo, Bife começou a mandar bolas para as redes da seleção. Fez 4 gols no primeiro tempo, com Deco completando o placar de 5x0 da 1ª fase.

Com o fim do 1° tempo, os jogadores foram para o vestiário. Enquanto descansavam, Malaquias, que estava como técnico do Operário, comunicou a Bife que ele não voltaria para o campo na 2ª etapa.

Malaquias atendia a um pedido dos dirigentes da seleção que temiam que com Bife em campo fatalmente o selecionado sofreria uma derrota ainda mais humilhante. Bife não voltou, a seleção deu uma melhorada, mas só fez um gol. O Operário, nem um mais.

Depois do jogo, um irmão do massagista Geraldo e que tinha um grande posto de combustíveis em Vilhena, pediu a Bife a camisa com a qual ele tinha jogado, como recordação.

Bife entrou de sola: "Não posso dar, porque desinteira o jogo de camisas e vou ter que dar outro completo para o Operário..."
– E quanto custa o jogo de camisas? – perguntou o irmão de Geraldo.
– Acho que com uns 200 “contos” dá para comprar – chutou alto Bife.
O torcedor não teve dúvidas: foi ao caixa do posto, pegou o dinheiro e entregou a Bife. Negócio fechado na hora.

A noite, a delegação tricolor foi jantar no principal clube social da cidade, onde se realizava a festa de aniversário de Vilhena.

Logo que a delegação chegou a festa, Bife percebeu que a cerveja ia ser por conta de quem pedisse... de cortesia só a comida! Antes da cerveja ser aberta na mesa, ficha do pagamento na mão do garçom. 

Combinaram, então, Bife, Jorge Macedo, Caruso e Laércio de se sentarem na mesma mesa e de cada um pagar três cervejas. Dos duzentão que havia recebido pela camisa, Bife reservou 50 para farrear e escondeu os outros Cr$ 150,00.

Um pouco distante deles, sentaram-se vários jogadores, juntos com João Muleta, um fanático torcedor operariano que tinha ido a Vilhena como convidado do clube.

Fim do jantar, começou o bailão. Não demorou, um jogador operariano, cujo nome não vem ao caso, agarrou uma bela loura e mandou ver. A cada música, aumentava a intimidade entre o romântico par, já dançando de rosto coladinho.

Não demorou e da animada mesa comandada por João Muleta não ficou ninguém: a numerosa turma havia dado um calote de duas caixas de cerveja no garçom e vazado. O garçom chegou à mesa em que estavam Bife, Laércio, Caruso e Jorge Macedo e perguntou se os caloteiros eram jogadores do Operário. A resposta foi um não coletivo.

A noite avançava, o baile cada vez mais animado e o casal formado pelo jogador operariano e a loira fazendo um sucessão entre os dançarinos. 

Lá pelas tantas, um garçom dá a dica para o pessoal da mesa de Bife: "Aquela loira que está dançando com o companheiro de vocês é uma tremenda bichona..."

– Vou ficar até o fim para ver no que vai dar – disse Bife, apoiado pelos companheiros de mesa.

Quando o baile ia chegando ao fim, Bife encostou disfarçadamente no companheiro de clube, no meio do salão, e lhe confidenciou: "Essa loira é uma bichona!..." 

O jogador pé-de-valsa operariano só acreditou quando, à saída do clube, deu uma pegada na parte de baixo da companheira de dança e sentiu o volume da mala da bailarina... parece até que a "louraça" ia viajar, tal o tamanho da malona!

Aí o boleiro ficou furioso e queria porque queria dar umas porradas na bichona. Foi um trabalhão segurar o pé-de-valsa, enquanto o travesti caía no mundo num pique digno de campeão mundial de 100 metros rasos.

Bife, Caruso, Jorge Macedo e Laércio que presenciaram a cena no fim de noite quase morreram de tanto rir..

Zé Traçaia, um ídolo de todas as torcidas

Arquibancada do Colégio Estadual lotada pela torcida ávida para ver o primeiro coletivo da seleção de Mato Grosso de 1954 sob o comando de um técnico profissional – Jarbas Batista, que tinha sido jogador do Clube de Regatas Flamengo – e depois virou treinador. Era um acontecimento marcante para o futebol de Mato Grosso.
De repente, aparece Jarbas olhando para a torcida e perguntando se alguém poderia colaborar com a seleção, completando um dos times, porque um dos jogadores convocados não tinha chegado ao campo ainda...
– Zé Traçaia, Zé Traçaia, Zé Traçaia – foi o grito uníssono da torcida presente ao estádio.
Zé Traçaia desce da arquibancada e daí a pouco, para delírio da grande torcida, surge no campo trajando um calção, uma camisa e um par de chuteiras de tamanhos descomunais para o seu físico de menino de 16 anos.
Decididamente, aquele foi o pior dia da vida de jogador de bola do lateral esquerdo Airton Vaca Braba. Temido por ser um jogador extremamente violento, Aírton apelou para cotovelada, pontapé, carrinho, tesoura, voadora, etc., para conseguir parar Zé Traçaia, mas não tinha jeito. O habilidoso atacante estava numa tarde inspiradíssima e fazia o diabo em campo...
A certa altura do treino, Jarbas aproximou-se do lateral esquerdo e lhe fez um pedido: “Pare de bater desse jeito no menino, seu Aírton, porque o senhor pode acabar com a carreira do garoto...”
Resultado do seu show de bola: no dia seguinte, bem cedinho, a Comissão Técnica da seleção – Jarbas Batista, Ranulpho Paes de Barros, o médico Aquino – estava na casa da família Traçaia, pedindo autorização para Zé Traçaia ser convocado. Ser convocado já na condição de titular absoluto do selecionado...
Foi num campinho do Larguinho, que ficava entre a atual Rua Antonio João (antiga Rua dos Porcos) e a Avenida Prainha, quase no cruzamento com a Isaac Póvoas, que Zé Traçaia, o primeiro jogador de Mato Grosso a ir para o exterior, deu os primeiros passos no futebol.
O pai de Zé Traçaia, Chico Traçaia, tinha uma pensão que levava o nome da família nas imediações do Larguinho, onde a meninada entre 8 e 12 anos que morava ali por perto se reunia todos os dias para bater uma bolinha. O campinho nem traves tinha, mas bastavam 4 pedras formando dois gols para a garotada partir para monumentais rachas...
Hoje com quase 80 anos, Névio Lotufo, que era o último a ser escolhido, mas tinha lugar garantido num dos dois times, lembra que Zé Traçaia era mesmo muito bom de bola. Ao contrário de Névio Lotufo, Zé Traçaia era o primeiro a ser escolhido, no par ou ímpar, na hora da formação das equipes de peladeiros.
Havia um forte motivo para Névio Lotufo nunca ficar de fora dos rachas, mesmo que fosse para catar no gol: como sua família tinha boa condição financeira, ele se dava ao luxo de ter uma bola de capotão, um privilégio na época e que era um sonho de todos os meninos. E se não fosse escolhido, Névio metia a bola debaixo do braço e ia embora...
Admite Névio Lotufo que não se deu bem com o futebol, embora tenha jogado em alguns clubes daqui entre eles o Americano e o Flamenguinho. Mas quando foi para Lins-SP, estudar no Instituto Americano, Lotufo acabou fazendo sucesso como jogador de basquete e de voleibol e também como ciclista.
As boas atuações de Zé Traçaia na seleção de 1954 despertaram a atenção dos clubes de Mato Grosso. Ele acabou ingressando no Atlético Mato-grossense, porém pouco tempo depois seu passe foi vendido para o Botafogo, do Rio de Janeiro. Antes de ingressar no Botafogo, que à época tinha craques como Nilton Santos, Didi, Garrincha, Zagalo, campeões mundiais de 1958 na Suécia, Zé Traçaia tentou ingressar no Flamengo, no entanto nem chegou a treinar no rubronegro.
Apesar da carreira promissora, Zé Traçaia ficou pouco tempo no clube carioca, que vendeu seu passe para o Sport Club Recife. Amigos de Zé Traçaia dizem até hoje que a saída de Zé Traçaia do Botafogo teria sido uma imposição de alguns monstros sagrados do clube da Estrela Solitária. Motivo: nos coletivos do alvinegro, Zé Traçaia transformava a vida do seu marcador, o grande ídolo Nilton Santos, em um verdadeiro inferno...
Amigo da família de Zé Traçaia, Romeu Roberto Memeu, que depois virou jornalista e comentarista esportivo, e em cuja casa, em uma pequena chácara, existia um campinho de futebol batizado com o nome de Botafogo, destaca que o atacante foi também o primeiro jogador de Mato Grosso a vestir o uniforme da Seleção Brasileira. de Futebol.
Acontece que antes de se tornar a grande potência financeira da atualidade, quando a CBD recebia um convite para se apresentar no exterior, a entidade escolhia um clube que estivesse atravessando grande fase para representá-la. Usando o uniforme oficial da entidade, claro...
Foi numa dessas ocasiões, que o Sport Club Recife, o time de Zé Traçaia, foi indicado pela CBD para representar o Brasil em um amistoso contra a seleção da Áustria, em Viena. E Zé Traçaia teve uma atuação tão brilhante que pouco tempo depois foi contratado pelo Rapid, de Viena, um dos principais clubes austríacos.
Recorda também Memeu, ex-atleta do Mixto e um dos grandes colaboradores deste livro, que Zé Traçaia não foi o único a dar show de bola no campinho do Botafogo. Por lá passaram também e exibiram sua arte com a bola craques como Gerê, César Boi, Baicerê, Poxoréu, Ico e Édson Cabeça de Boi, que jogou no Flamengo e no Canto do Rio, ambos do Rio de Janeiro.
Memeu não chegou a jogar com Zé Traçaia, mas lembra que além de craque de bola, ele era também bamba no violão. E sempre que podia convidava o mestre do violão, João Jesus, o João Feijão, compadre de Memeu, para participar de suas tocadas na Rua 7 de Setembro.
Antigos amigos do jogador garantem que Zé Traçaia estava com a corda toda na Áustria, fazendo muito sucesso no futebol e com as mulheres, por causa de sua cor. Um dia, o clube que Zé Traçaia defendia foi jogar na Alemanha. A certa altura da partida, Zé Traçaia foi derrubado e bateu um dos joelhos na cabeça de um jogador alemão. Uma jogada absolutamente normal.
No entanto, um torcedor alemão que estava próximo do local do campo onde ocorreu a jogada não pensou duas vezes: meteu o cabo do seu guarda-chuva na cabeça de Zé Traçaia, que ao se levantar, meio desequilibrado, acertou um murro na cabeça do agressor...
Estava armada uma grande confusão, com os torcedores tentando pegar Zé Traçaia, que foi imediatamente levado para o vestiário, de onde saiu disfarçado para um porto fluvial e colocado como passageiro clandestino em um cargueiro para retornar à Áustria.
Depois do rolo na Alemanha, Zé Traçaia ficou pouco tempo na Áustria. Aborrecido e com saudades dos familiares e amigos, Zé Traçaia vivia deprimido, condição que acabou comprometendo seriamente sua carreira que até então tinha sido brilhante.
De volta ao Brasil, Zé Traçaia foi parar de novo no Sport Club Recife. Mas a vida na boemia não apenas acabou com a carreira de Zé Traçaia, como foi a causa de sua morte prematura.

Leônidas, um mito da bola

Mixto e Palmeiras jogavam no Dutrinha pelo Campeonato Cuiabano de 1954. O jogo avançava e ninguém estava entendendo por que o centroavante mixtense Leônidas, que chutava muito bem com os dois pés e era também um exímio cabeceador, não saía do meio de campo, só enrolando. Chutar para o gol que era bom nadinha de nada!
A certa altura do jogo, a defesa alviverde bateu cabeça quase no meio campo num ataque do Mixto e não restava outra alternativa para Leônidas: desmarcado e com a bola dominada, ele tinha que partir para o gol do adversário...
Leônidas avançou e quando chegou na entrada da área, deu uma freada, levantou a cabeça como se estivesse escolhendo o canto onde ia mandar a bola, e meio atrapalhado gritou para Fulepa: “Sai em mim, desgraçado, eu não posso marcar o gol... eu estou comprado...”
– Não posso, eu também estou!...” – respondeu Fulepa, outra lenda do futebol de Mato Grosso e hoje um bem-sucedido sitiante em Santo Antonio de Leverger, onde vive com a esposa Estevina Pereira da Silva Leite. O casamento já dura 50 anos e resultou em muitos filhos, netos, bisnetos...
Quem acompanhou de perto a curta passagem de Leônidas pelo futebol mato-grossense, como foi o caso do radialista Eugênio de Carvalho e do desportista e político Lenine de Campos Póvoas, do advogado Pedro Lima, não tem dúvidas em afirmar que o jogador foi o mais virtuoso centroavante que já pisou os campos de terra e de grama do futebol cuiabano.
O lendário Fulepa, que enfrentou Leônidas muitas vezes, lembra que além de muito habilidoso com a bola nos pés, o atacante era especialista em marcar gols de cabeça, usando a bunda para deslocar com uma gingada imperceptível o goleiro que subisse com ele e colocar a bola onde quisesse.
– Era na pura malandragem que ele fazia isso. Os goleiros reclamavam com os juízes que o Leônidas tinha cometido falta, mas eles nunca marcavam, porque não percebiam mesmo a sacanagem dele – recorda Fulepa, cujo nome é Fernando F. Leite. O estranho apelido surgiu quando ele ainda era menino na cidade de Três Lagoas-MS, onde nasceu. No linguajar dos moradores de sua acidade natal, o termo fulepa identifica pessoa que gosta de confusão, rolo, encrenca, características que sempre se enquadraram no perfil de Fulepa dentro do campo.
Sobre o episódio do suborno envolvendo Leônidas e Fulepa, afirma o ex-goleiro, cujo primeiro time em Cuiabá foi o Fluminense, do Terceiro, bairro destruído em 1974 pela enchente do Rio Cuiabá, que foram os torcedores que inventaram essa história. Essa e tantas outras muito conhecidas dos torcedores. Fulepa garante que nunca ligou para essas intrigas.
– Quem fala essas coisas de mim é porque não conhece a minha vida, a minha educação. Como filho de milico, fui criado dentro da caserna, onde fazia inclusive minhas tarefas escolares, e tive uma formação militar rigorosa – defende-se Fulepa.
Outro que não tem dúvida que Leônidas era um virtuoso com uma bola nos pés ou nas mãos – além de futebol, ele era um extraordinário jogador de basquete e de vôlei – é Pedro Lima, do Araguaia Esporte Clube. “O Leônidas era um gênio, capaz de numa fração de segundos imaginar e executar uma jogada que deixava os adversários perdidos” – afirma Pedro Lima.
Ele se lembra de um jogo que viu do Mixto, quando Leônidas fez uma jogada que deixou até os torcedores de boca aberta. Num cruzamento para a área de ataque do Mixto, Leônidas subiu no último andar para cabecear a bola para o gol. Mas, de repente, desistiu da jogada e deixou a bola bater no seu peito e com um leve toque colocou-a nos pés de um companheiro que fez um golaço. “O Leônidas era o Pelé daqueles tempos, um jogador simplesmente fabuloso...” – compara o até hoje diretor do AEC.
Revelado na década de 40, pelo Mixto, não demorou muito para a fama de Leônidas chegar aos grandes centros esportivos, como Rio de Janeiro e São Paulo. Naqueles tempos, muita gente saía de Cuiabá para cursar faculdades em outros estados e muitos estudantes, principalmente torcedores de clubes cariocas, procuravam seus técnicos para falar maravilhas de Leônidas.
Zezé Moreira, treinador do Botafogo, já tinha ouvido muitas pessoas falar das proezas de Leônidas com a bola, mas ficava calado, meio na dúvida sobre suas decantadas virtudes na arte de jogar futebol.
Um dia, o Botafogo contratou um ponteiro direito bom de bola chamado Maiolino. Com a convivência diária, Zezé Moreira descobriu que Maiolino era de Cuiabá e quis saber a verdade sobre Leônidas.
Depois da última conversa entre os dois, Zezé Moreira ligou para o presidente do Botafogo, Carlito Rocha, que morava em Niterói, e deu a ordem: “Venda esse encrenqueiro do Heleno de Freitas para o Boca Juniors que nós estamos contratando um centroavante de Mato Grosso muito melhor do que ele...”
Poucos dias depois, Leônidas já estava em General Severiano treinando no Botafogo e fazendo sucesso. A torcida alvinegra estava empolgada com a contratação do jogador que ia substituir o genial mas genioso Heleno de Freitas, então o grande ídolo do futebol brasileiro.
A estreia de Leônidas seria contra o América, em um domingo. A torcida do Botafogo não via a hora do time entrar em campo para mostrar sua nova estrela que ia substituir Heleno de Freitas...
Mas dois dias antes do jogo, Leônidas encontrou-se nas ruas do Rio de Janeiro com um alto dirigente do Mixto. Conversa vai, conversa vem, o dirigente lhe disse: “Domingo tem Mixto e Dom Bosco lá em Cuiabá, vai embora, rapaz...”
Após o contato na rua com o diretor mixtense, Leônidas foi procurar um centroavante de nome Zezinho, que estava sendo testado pelo Botafogo, para saber o que ele achava de sua volta para Cuiabá. De olho na vaga que ia se abrir no alvinegro com a venda já consumada de Heleno de Freitas para o Boca Juniors e o retorno de Leônidas para Cuiabá, Zezinho não vacilou: “Que é que você está esperando, rapaz? Cai fora, amigo!” – aliás, mui amigo...
Leônidas não teve dúvidas: foi para o aeroporto do Galeão e pegou o primeiro avião que decolou com destino a Cuiabá. Dizem amigos de Leônidas, cujo nome era Benedito Severo Gonçalves, que o jogador não suportou mesmo foi a saudade da culinária cuiabana – ventrecha de pacu, mojica de pintado, bolo de arroz, pão de queijo ... – e veio embora sem dar satisfação a ninguém.
Na realidade, porém – dizem também – Leônidas, que era muito chegado a boemia, não resistiu mesmo foi a saudade da vida inteiramente livre que levava em Cuiabá como jogador de futebol amador. No Botafogo, como profissional, não ia poder continuar vivendo na gandaia...
Tempos depois de sua volta a Cuiabá, um dia Pedro Lima foi assistir um jogo do Mixto e levou consigo Jamelim, um motorista do Expresso Cuiabano, que era também diretor do Uberlândia, de Minas Gerais. Jamelim ficou tão empolgado com o futebol de Leônidas que no outro dia, depois de um contato com a diretoria do time, colocou o jogador num avião de carreira e o mandou para o seu clube.
A estreia de Leônidas no seu novo time foi em um amistoso contra o Vasco da Gama, que na década de 50 tinha uma superequipe chamada de “Expresso”, integrado por craques como Barbosa, Danilo, Friaça, Ademir Menezes, Jair da Rosa Pinto e outros. O Vasco da Gama ganhou o jogo por 4x2. O goleiro vascaino passou o tempo todo gritando com a defesa para marcar Leônidas, mas não adiantou: ele fez os dois gols do seu time.
O jogo seguinte do Uberlândia foi contra o Atlético Mineiro. O clube do Triângulo Mineiro ganhou o amistoso de 3x0, todos os gols de Leônidas. O Atlético foi embora no dia seguinte, levando Leônidas em sua delegação. Naqueles tempos, o futebol ainda era bem amador e o jogador ia para onde bem entendesse...
A carreira de Leônidas no “Galo Carijó”, no entanto, foi curta: o centroavante sofreu uma lesão no menisco de um dos joelhos e ficou um tempão longe da bola. A contusão abalou profundamente o estado emocional de Leônidas, que nunca mais foi o mesmo. Para complicar sua situação, Leônidas passou a levar uma vida desregrada, o que provocou o encerramento precoce da sua fulgurante carreira.

Osso pela janelinha do avião...

Muito animado, lá se foi o selecionado de futebol de Mato Grosso enfrentar o Acre, em Rio Branco, pelo Campeonato Brasileiro de Seleções de 1952. Uma seleção fortíssima, integrada por jogadores do nível técnico de Dito Nascimento, Uir, Totó Traçaia, Leônidas, Batista, Jaquinha, Vidal, Dionísio e tantos outros...
Até Manaus, a viagem no DC-3 da Varig transcorreu muito tranquila. Mas assim que o avião decolou da capital do Amazonas para continuidade da viagem aérea com destino a Rio Branco, o comandante da aeronave fez uma revelação que deixou muita gente com medo: o avião ia passar por uma área de grande turbulência no encontro das águas de dois grandes rios da Amazônia.
Alguns jogadores pensaram, a princípio, que o comandante estava brincando. Mas chegaram à conclusão que o homem estava falando sério, quando ele passou a mão num tubinho semelhante ao aspersório que os padres usam para aspergir água benta nos fiéis nas missas e ritos católicos e começou a benzer os passageiros e a tripulação. Podia ser uma brincadeirinha para descontrair os passageiros, entretanto de muito mau gosto...
Felizmente, não aconteceu nada até o desembarque da delegação em Rio Branco. Mas que muita gente voou com o coração nas mãos, voou. Principalmente depois que o comandante advertiu que de vez em quando caía um avião naquela área de turbulência. E teve gente que até apelou para orações quando num trecho da rota a aeronave começou a perder altura e balançar.
O jogo com a seleção do Acre foi uma verdadeira guerra dentro de campo. O tempo normal da partida terminou empatado em 1x1. Veio então a prorrogação, cujo placar não saiu do 0x0.
Aí os acreanos inventaram que com o resultado da prorrogação estavam classificados para a fase seguinte da competição. Foi uma confusão e tanto no centro do gramado, com os jogadores acreanos inclusive ameaçando deixar o campo, pois para eles o jogo tinha acabado.
Nisso, o chefe da delegação e técnico da seleção mato-grossense, Ranulpho Paes de Barros, foi até o vestiário e voltou com um enorme livro sobre legislação esportiva. Depois de muito bate-boca, Ranulpho convenceu os acreanos a disputar o mata-mata para definir qual seleção continuaria na competição. E Mato Grosso se classificou, marcando o gol de ouro.
Recorda Totó Traçaia que o jogo no Acre serviu para desmascarar o atacante Leônidas, que vivia dizendo para alguns jogadores que ele era o mais esclarecido, o mais sabido, o mais viajado do futebol de Mato Grosso...
Durante o almoço a bordo, na rota Amazonas-Acre o sabichão Leônidas foi pego tentando jogar pela janelinha do avião o osso de uma coxa de galinha!. Ah!, a partir desse hilariante episódio no avião, foi gozação que não acabava mais em cima de Leônidas...

domingo, 19 de junho de 2016

Volta do blog do folclore da bola


Após um longo período inativo, o blog www.folcloredofutebolmt.blogspot.com está de volta. E com o mesmo objetivo que levou a sua criação: levantar material jornalístico para que possamos escrever o segundo volume do livro Casos de todos os tempos Folclore do futebol de Mato Grosso e cuja primeira edição lançada em 2011, com 1 mil exemplares, esgotou-se rapidinho...
Na realidade, chegamos a pensar em desistir do nosso projeto, cujo objetivo é resgatar, através do folclore, a história do futebol de Mato Grosso. Uma história que começa em 1905, com a chegada a Cuiabá das duas primeiras bolas de futebol, o velho “capotão”, pelas mãos do padre salesiano dom Antônio Malan, embora os primeiros jogos só tenham sido disputados a partir de 1913.
A falta de apoio e também a insensibilidade de autoridades ligadas aos esportes e a cultura de Cuiabá e de Mato Grosso foram dois fatores que nos levaram a quase desistir de dar continuidade ao projeto. E para ser franco, foi uma pessoa que nada tem a ver com Mato Grosso que me convenceu a reconsiderar a decisão de deixar de pesquisar e escrever sobre o folclore do nosso futebol.
Em uma de suas muitas vindas a Cuiabá para acompanhar o andamento das  obras da Copa do Mundo de 2014, o então ministro do Esporte, Aldo Rebelo, ficou sabendo, através do jornalista Sérgio Neves, durante um contato com a imprensa, da publicação do meu livro. E pediu que Sérgio Neves me localizasse para levar para ele no aeroporto um exemplar da obra.
Levei-lhe. Enquanto conversávamos, o ministro folheava o livro e antes de embarcar com destino a Brasília, com escala em São Paulo, para visitar as obras da Arena Corinthians, ponderou que eu não poderia, em hipótese alguma, deixar de dar sequência ao meu trabalho. E prometendo que ia ler o livro durante sua viagem de volta, chamou um dos seus assessores, determinando-lhe que providenciasse a publicação no síte do Ministério do Esporte de uma síntese da obra com a finalidade de incentivar jornalistas de outros estados a seguirem o exemplo de Mato Grosso.
Se o Rebelo leu ou não o livro, não sei. Mas deve ter lido e gostado, suponho. Tanto é que em fevereiro último o Ministério da Defesa, então sob o comando de Aldo Rebelo, prestou no Centro de Capacitação Física do Exército (CCFEx), na Urca,  no Rio de Janeiro, uma homenagem a centenas de pessoas por relevantes serviços prestados ao desporto militar do Brasil, entregando-lhes a Medalha Mérito Desportivo Militar. E, para minha surpresa, fiz parte da relação dos homenageados.
No meu caso, a lembrança do meu nome foi pelo fato de eu ter escrito o livro sobre o folclore do futebol de Mato Grosso, evidentemente. E ao que me consta, fui o único mato-grossense incluído numa lista com mais de 200 autoridades civis e militares agraciadas com a distinção pelo Ministério da Defesa. Infelizmente, porém, não pude comparecer a solenidade para receber a medalha, que me foi entregue dias depois pelo Correios.
É claro que para levarmos adiante o projeto de escrever um segundo volume sobre esse apaixonante assunto vamos ter que contar com a colaboração de quem viveu e vive ainda hoje intensamente o futebol a fim de nos relatar as histórias que conhecem para que eu possa, a exemplo do que aconteceu no livro publicado em 2011, sair em busca dos personagens dos “casos” que tanto enriquecem o futebol. Afinal, o folclore, também do futebol, apesar do seu sentido hilariante, tem que ser tratado com toda a seriedade...
E também, claro, com suporte financeiro, para custeio de viagens para pesquisas.  A exemplo do foi feito para cidades onde o futebol, tanto amador como profissional, já está consolidado, e que deram origem ao livro Casos de todos os tempos   Folclore do futebol de Mato Grosso. As perspectivas são animadoras, o que nos anima a levar adiante o projeto do segundo volume da obra.

sábado, 18 de junho de 2016

Reforço do mate milagroso...

Na semana do primeiro jogo decisivo do Campeonato Mato-grossense de Futebol de 68/69 – nos primórdios do futebol profissional em Mato Grosso o certame começava num ano e terminava no outro – entre Mixto e Operário, o técnico tricolor Tchê Teodorico caprichou na preparação física da moçada. Foi treinamento físico de terça-feira a sábado, nada de bola.

Os jogadores estranharam e alguns até reclamaram do excesso de preparo físico. Mas o treinador deu continuidade à programação para manter a equipe bem condicionada fisicamente. Pior: os jogadores sabiam que o técnico não entendia patavina de preparação física...
Para complicar ainda mais a situação, o Operário realizava seus treinos num campo de areia de goma, pesado que só. O campo ficava no lugar onde funciona atualmente a Associação Cultural Nipo-Brasileira, em Várzea Grande, com entrada pela Rua Castro Alves.

Todo mundo sabia que aquele campo não prestava para preparação física por seu piso ser duro demais. Mas a ordem para o Operário treinar ali era do presidente Rubens dos Santos, que era muito amigo do dono do terreno, Hélio Jesus da Fonseca.
Chegou o dia do jogo, que foi apitado pelo então mais famoso árbitro do futebol brasileiro, Armando Marques. Enquanto o Mixto deslanchava bonitinho, tocando direitinho a bola, o Operário parecia empacado. Resultado: o Mixto ganhou por 2x1.

Na terça-feira, quando os jogadores chegaram ao campo para iniciar os preparativos para a segunda partida decisiva e Tchê Teodorico mandou o plantel se trocar para uma sessão de preparação física, Glauco gritou: “Eu não vou treinar...”
   
O quarto-zagueiro operariano tinha um bom motivo para não fazer física: ele estava envergonhado do baile que havia levado do ponta-de-lança mixtense Marcelo no primeiro jogo decisivo. Até parecia que suas pernas estavam amarradas: Glauco, logo ele, perdeu todas as jogadas que disputou com o atacante mixtense.

É claro que os demais jogadores seguiram o exemplo de Glauco, recusando-se a fazer física. Tchê Teodorico ainda tentou convencer a rapaziada a treinar, porém não adiantou: ninguém lhe deu bola.

Veio o segundo jogo. Com os jogadores bem descontraídos e sem a musculatura fadigada, os tricolores fizeram uma grande partida e o Operário venceu, com folga, por 3x1. Operário e Mixto foram, então, para a decisão, dia 2 de fevereiro de 1969. O tricolor venceu por 3x2, conquistando o bicampeonato mato-grossense de futebol profissional.

Por ocasião da 2ª partida entre tricolores e alvinegros, quando os operarianos entraram no vestiário viram num canto uma jarra, bem grande, até a boca de chá-mate. Alguns olharam de soslaio para a vasilha. Por que chá -mate e não suco ou outro líquido para os jogadores tomarem antes de entrar em campo? – questionavam entre si.

Glauco chamou o lateral direito Darci Piquira, na inocência dos seus 17 anos, apontou para a jarra e lhe disse como se estivesse dando uma ordem: “Não beba isso aí, garoto...”

Notando a desconfiança dos jogadores, o técnico Tchê Teodorico prometeu que depois falaria sobre o segredo da jarra de chá-mate. Mas nem precisou explicar nada: com a vitória, o pessoal queria mesmo era festejar a fácil vitória...

A decisão foi marcada para quarta-feira à noite. No vestiário, a mesma jarra transbordando de chá-mate, consumido geladinho, porém em quantidades bem dosadas, inclusive durante a partida, por alguns jogadores. De vez em quando algum jogador chegava na beira do campo e dava uma beiçada no chá...

Com a vitória por 3x2, do Dutrinha os operarianos, até carregados pelos torcedores, foram direto, a pé, festejando pelas ruas, para o Bar Verdecap, que funcionou durante muitos anos no local onde foi construído tempos depois o Hotel Presidente na Avenida Getúlio Vargas, esquina com a Rua Barão de Melgaço. A concentração de jogadores e torcedores no Verdecap foi rápida, porque a turma queria mesmo era ir para a boate Tabaris, no Boa Esperança, para encerrar a noite com uma festa do bicampeonato em alto estilo.

Na boate, finalmente, os operarianos desvendaram o mistério do chá-mate. No segundo jogo, o Operário tinha contado com o reforço de uma “seleção” de 30 comprimidos dissolvidos de vários tipos de estimulantes; no 3º, a “seleção” foi reforçada com mais 10 comprimidos, principalmente de Pervintin.

Pelo que se conta até hoje, a ideia do “reforço” do chá-mate como doping teria sido do atacante Gebara, do Operário. Em alguns jogadores, o consumo do chá-mate teve efeito retardado. O ponteiro esquerdo Upa Neguinho, por exemplo, teve que tomar muito leite de madrugada, depois da farra na Tabaris, para se livrar de uma terrível dor estomacal, enquanto o meio campo Tatu queria porque queria voltar ao Dutrinha para continuar jogando...
Reproduzido do livro Casos de todos os tempos Folclore do Futebol de Mato Grosso

LIVRO DIVULGA MATO GROSSO

Na recente visita que fez a Cuiabá para proferir uma palestra para alunos do Cuiabavest e ver como andam as obras da Arena Pantanal, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, em uma conversa informal com os profissionais da Imprensa sugeriu que eles escrevessem matérias sobre o futebol de Mato Grosso para ser inseridas no site do seu ministério a fim de divulgar esse esporte no Estado e cuja capital será uma das sedes do Campeonato Mundial de 2014.

Na ocasião, o editor de Esportes da Folha do Estado, Sérgio Neves, lembrou ao ministro que este blogueiro lançou em maio do ano passado o livro Folclore do futebol de Mato Grosso, narrando mais de 200 casos folclóricos do futebol no Estado, desde os tempos mais remotos da chegada das duas primeiras bolas de futebol em Cuiabá, em 1905, até os dias atuais.

Imediatamente, o ministro Rebelo pediu a Sérgio Neves que o colocasse em contato telefônico com o autor do livro. “Eu não gostaria de retornar a Brasília sem o seu livro...” – disse Rebelo na conversa com o jornalista Nelson Severino. O livro, autografado, é claro, foi entregue ao ministro no hangar do Governo de Mato Grosso, quando ele se dirigia para o jatinho da FAB para embarcar, primeiramente com destino a São Paulo, e depois Brasília.

No rápido contato com Nelson Severino, o ministro destacou a importância de sua obra para resgate da memória do futebol mato-grossense e garantiu que sua assessoria vai preparar um resumo do livro para ser divulgado no site do Ministério do Esporte para divulgar Mato Grosso.

Sentada na bola e confusão

“ Se nós estivermos ganhando, bem no final da partida um jogador vai sentar na bola...” – essa ordem foi dada pelo jogador e técnico Ruiter na preleção no vestiário antes do Mixto entrar em campo em Rio Branco para cumprir o quarto compromisso, encerrando uma excursão por gramados da capital acreana em junho de 1972. Foi uma temporada bem louca, com o alvinegro disputando 4 jogos em apenas cinco dias e se metendo em cada confusão...


Sentar na bola durante um jogo, uma ofensa intolerável no futebol, era uma forma do Mixto se vingar do tratamento nada cortês que estava recebendo dos acreanos. Já no primeiro jogo, que o Mixto perdeu de 1x0 para o Atlético Acreano, os comentaristas de rádios e de jornais chamaram os jogadores mixtenses de enganadores e pernas de pau. Afinal – ironizavam os cronistas – o Mixto era um time de profissionais e os jogadores atleticanos simples amadores...

Veio o 2º jogo, no dia seguinte, contra o Juventus, e o Mixto perdeu de novo, por 2x1. Novamente a crônica esportiva rio-branquense caiu de pau no alvinegro, cujo futebol era uma grande decepção para os acreanos. Os mixtenses ficaram muito chateados com as críticas da crônica esportiva, pois o Tigre já era uma equipe respeitada no futebol brasileiro.

No terceiro jogo, contra o Rio Branco, o Mixto conseguiu um suado empate pela contagem mínima. O resultado não melhorou a cotação do alvinegro perante os torcedores acreanos e muito menos à crônica esportiva.

Encerrando a temporada, o Mixto enfrentou o Independência. O time mato-grossense jogava fácil e ganhava o jogo por 2x0, com todos os méritos.

Aos 43 minutos do 2º tempo, o goleiro Zé Rondonópolis, depois de um ataque da equipe adversária, em vez de repor a bola em jogo, sentou-se sobre ela e ficou girando a cabeça em todas as direções do estádio, numa atitude zombeteira e provocativa!

Pra quê, xômano!... o pau quebrou feio! Num piscar de olhos, centenas de torcedores invadiram o campo e depois de tomar dos escoteiros que ajudavam a Polícia Militar no policiamento aquelas espécies de bordunas de 1,5 m de comprimento que usam em suas caminhadas em grupos, passaram a bater nos mixtenses sem dó. Os jovens escoteiros, coitados, acompanhavam o massacre sem poder fazer nada.

– Nós parecíamos tropas do general Custer sitiadas pelos índios sioux nos tempos da conquista do oeste americano – recorda o zagueiro central Felizardo. Apesar da eficiência da PM na proteção dos mixtenses, muitas pessoas da delegação alvinegra entraram na porrada pra valer.

O hotel onde o time mato-grossense estava alojado ficava bem próximo do estádio. Os mixtenses voltaram para o hotel a pé, sob a proteção da PM, pois os torcedores rio-branquenses queriam bater mais nos jogadores alvinegros por causa da ofensa de Zé Rondonópolis.

A tumultuada partida foi realizada numa quarta-feira à noite e logo que a delegação chegou ao hotel, o meio campo Ferreira, que era chegadinho numa birita, raspou a barba e foi para as ruas das imediações sondar como estava o ambiente. E voltou assustado com a revolta dos torcedores.

O embarque do Mixto para Cuiabá estava marcado para dois dias depois, porque naquele distante 1972 avião de passageiros nos céus da Amazônia era artigo de luxo. Para se vingar do insulto de Zé Rondonópolis, dezenas de torcedores passaram a noite fazendo barulho nas imediações do hotel para não deixar os mixtenses dormir...

A pancadaria no estádio e a arruaça dos torcedores no hotel eram apenas o começo de uma série de problemas que a delegação do Mixto ainda ia enfrentar em Rio Branco – lembra o massagista Carlito, do Mixto, que tinha viajado no lugar de Lisboa, que não podia sair de Cuiabá.

Se já não bastasse a grande confusão da noite, lá pelas 11h30 estava armado o maior fuá defronte ao hotel onde a delegação alvinegra ficou alojada. O motivo do rolo: a prisão do jogador Ferreira.

Acontece que Ferreira havia apostado com alguém da delegação que ele tinha coragem de mijar defronte ao hotel em pleno dia. E no horário combinado – entre 11h30 e 12 horas – Ferreira saiu do hotel, olhou para os lados da rua e como não viu ninguém, começou a urinar...

Ferreira não tinha visto ninguém mesmo, nem um taxista que estava dentro do seu carro a uns 30 metros dali. O taxista, que também estava puto com a palhaçada de Zé Rondonópolis, ligou para a PM, que chegou rapidinho e prendeu Ferreira por atentado ao pudor...

O chefe da delegação/treinador/jogador Ruiter entrou na confusão em defesa do seu companheiro. Mas a prova do crime – a calçada molhada de urina – estava ali. E foi ajuntando pessoas, muitas delas já dispostas a dar uns catiripapos, de novo, nos mixtenses.

Depois de muito bate-boca e ameaças, Ruiter fez um acordo com os PMs que prenderam Ferreira: em vez de ir para uma cela, ficaria “detido” no hotel, de onde só sairia quando a delegação alvinegra fosse para o aeroporto...

Acordo selado e cumprido. No dia seguinte, logo cedo a delegação se mandou para o aeroporto de Rio Branco para não correr o risco de perder o voo. Chegava de tanto rolo! Mas o céu estava nublado e uma densa neblina impedia o avião, que já estava com a bagagem dos passageiros, de decolar.

Enquanto a tripulação aguardava autorização da torre de controle para a aeronave levantar voo, Ruiter resolveu engraxar os sapatos. Aí, a certa altura, apareceu onde Ruíter estava um empregado do aeroporto que começou a provocar o jogador, afirmando que o Mixto era uma porcaria de time de futebol, não valia nada, como a imprensa esportiva acreana estava dizendo...

De repente, Ruiter, que lia um jornal de Rio Branco que falava do Mixto, explodiu com o torcedor: “Este jornal não presta nem para limpar o meu sapato...” – reagiu Ruiter, enquanto fazia, com a publicação, o gesto dos engraxates lustrando calçados com um pano...

Estava armado novo sururu. O rapaz deu umas voltas pelo aeroporto, gesticulando e conversando, muito irritado, com outras pessoas. Não demorou, chegou ao aeroporto um numeroso grupo de oficiais da PM, que passaram a esculhambar todo mundo, e particularmente Ruiter, pela ofensa ao jornal.

– Acho que da turma o único que não era graduado era um sargento, que de certo foi chamado para amarrar a gente, porque, pelo jeito, naquele momento não havia algemas para toda a delegação – brinca Felizardo.

Ruíter se desmanchava em pedidos de desculpas, admitindo que tinha errado. Porém, o oficial que comandava o grupo não queria saber de justificativas, e sim de passar uma descompostura daquelas em Ruiter.

Nisso, o quarto zagueiro Carlos Martins, que de tão preto chegava a ser azulado, e que estava tirando um cochilo, acordou zonzo de sono e perguntou: “Qual é a confusão agora, Ruiter? Se vão prender você, vão ter que prender todo mundo” – gritou Carlos Martins.

“Cala a boca, macaco!”... – berrou o oficial comandante do grupo. E deu uma ordem em seguida: “Comecem a descarregar a bagagem deles do avião, está todo mundo preso...”

Mais conversa e mil pedidos de desculpas dos mixtenses, que naturalmente atraíram as atenções de quem estava no aeroporto. Finalmente, com a intervenção do pessoal da Vasp, a delegação mixtense foi autorizada a embarcar com destino a Porto Velho, onde acabou ficando mais dois dias por ter perdido a conexão do voo para Cuiabá.

Quando a delegação saía da sala para embarcar – lembra Ruiter – o oficial que liderava o grupo ainda fez uma advertência em forma de ameaça: “Caminhem direitinho para o avião. Quem olhar para trás vai em cana, fui bem claro?”

Ninguém olhou...


Gente fina e tranqueira

    Pessoas mais polidas, educadas, humildes, do que os irmãos Cruz Bandeira – Otair, Delvi, Idelvan e Juraci – que militaram no futebol do Mato Grosso indiviso entre 1957 e 1964, os dois primeiros defendendo o Araguaia Esporte Clube e os outros dois o Coxim Esporte Clube, estavam para nascer. Mas gente mais encrenqueira e curva de rio do que os quatro provavelmente não passou pelo futebol mato-grossense naquele período.

    Fora de campo, Otair, que continuou sendo chamado pelo apelido de Ica mesmo depois que virou desembargador e presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso; o hoje promotor de Justiça aposentado Delvi; o advogado Idelvan e o então exator de rendas de Coxim, Juraci, eram um primor de pessoas. No entanto, quando trocavam suas vestes chiques que suas profissões lhes impunham por camisa, calção, meião e chuteira para jogar bola, viravam, individualmente, um poço de ignorância, grosseria, estupidez, ironia...

     O mais mala dos quatro era Ica, que mesmo já investido na função de juiz de Direito de Alto Araguaia, quando entrava em campo esquecia sua condição de magistrado e aprontava pra diabo. Era provocador, insolente e briguento. Alto e forte como um touro, se precisasse, saía na porrada com adversários, sem se importar em que chão estava pisando...

    Em 1961 ou 62 – Pedro Lima não se lembra exatamente o ano – o AEC foi disputar um amistoso com um time de Mineiros, cuja população sempre recebia muito bem os alto-araguaienses. Para variar, Ica, que raramente jogava uma partida inteira, porque era sempre expulso de campo, criou uma confusão tão grande que o juiz suspendeu o jogo quando eram decorridos apenas 20 minutos.

    Para azar dos defensores do “Panterão”, Ica foi se envolver logo com um jogador de uma família numerosa de baianos que viviam em Mineiros. Os homens da cidade não entraram em campo – nos velhos tempos não existia alambrado para proteger os jogadores – mas mandaram suas mulheres e namoradas fazer suas vezes. Elas obedeceram à ordem com vontade. E só pararam de bater nos jogadores do “Pantera do Leste” quando suas sombrinhas estavam em frangalhos...

    – Naquele dia nós apanhamos pra valer. Mas a confusão, como sempre, acabou em festa. Poucas horas depois, estávamos todos juntos, inclusive muitas das nossas agressoras, tomando cerveja e dando gargalhadas, com as lembranças da surra de sombrinhas que tínhamos levado – recorda Pedro Lima.

    Em Rio Verde, também em Goiás, em outro jogo Ica meteu seus companheiros em outra confusão daquelas. Revoltado com as molecagens que Ica estava aprontando, enchendo o saco de todo mundo, um torcedor conhecido por Altino Paraguaio entrou em campo dando tiros de revólver para cima. Foi aquela correria. Pelo menos dessa vez os jogadores de Alto Araguaia não entraram na taca...

Ica, Delvi, Idelvan e Juraci eram tão tranqueiras quando jogavam bola que às vezes procuravam armar confusão entre eles mesmos. Como aconteceu em 1963, quando o Araguaia Esporte Clube foi disputar um jogo com o Coxim, que tinha apenas dois jogadores da cidade – os irmãos Idelvan e Juraci – pois os outros eram do Operário e do Comercial, de Campo Grande.

    Os quatro irmãos passaram os 90 minutos do jogo, que terminou empatado por 3x3, xingando uns aos outros. Era palavrão para tudo quanto era lado e o juiz não podia fazer nada se não ia sobrar – e como ia!... – para ele também.    “Você é um grande filho da puta, domina direito essa bola...”     – “Filho da puta é você, eu te conheço muito bem, seu...”       – foram as frases que a torcida mais ouviu durante todo o jogo...

      Como se os quatro não fossem filhos de uma mesma e honradíssima mãe...

E agora, chefe?

  Sob o comando do técnico João Batista Jaudy, o Operário, de Várzea Grande, disputava um amistoso com a Portuguesa, do Rio de Janeiro, no Dutrinha. 

O jogo estava relativamente equilibrado, porém o ponteiro esquerdo do time carioca infernizava a vida do lateral direito JK, levando perigo constantemente à meta operariana.

  O atacante da lusa carioca pegava a bola em seu campo e arrancava em velocidade para cima do zagueiro operariano. Quando JK partia para o combate, o ponteiro jogava o corpo para a direita e saía pela esquerda, deixando seu marcador na saudade.

 A certa altura do jogo, depois do atacante repetir a jogada pela quarta vez o técnico Jaudy não aguentou e gritou: “Você é burro, JK? Não está vendo que o cara é canhoto e só sai pela esquerda?...”

  Muita gente que estava até mais distante do banco de reservas do Operário ouviu o grito de Jaudy. E, certamente, o jogador da Portuguesa também ouviu a bronca do treinador...

  Na primeira bola que chegou aos pés do atacante da Portuguesa, ele avançou na direção do gol e ao ser enfrentado por JK ameaçou sair pela direita e saiu mesmo, enquanto JK esticava a perna direita para tentar impedir a passagem do adversário pelo lado esquerdo do ataque do time visitante.

Desnorteado com o drible que havia levado de novo, JK olhou para Jaudy e gritou: “E agora, chefe?...”

– Agora, você vai para a pqp! – foi a resposta do treinador...