O lateral esquerdo Justino,
conhecido também como Guará, que havia rodado muito pelo interior paulista e
chegou ao Operário no final da década de 70, tinha um grande orgulho na vida:
ser técnico em eletrônica. O jogador jurava que tinha feito um desses cursos
por correspondência e inclusive exibia na porta da oficina que ele havia
montado nos fundos da “república” do tricolor na Avenida Couto Magalhães num
belo quadro um diploma que comprovava sua profissão e de cuja autenticidade
muita gente duvidava.
Justino até podia não ser um
grande técnico em eletrônica, como ele apregoava, mas para dar um nó nos
outros, era daqui pra ali. Torcedores operarianos que levaram seus aparelhos
eletrônicos para Justino consertar, para dar uma força ao jogador, gastaram
muita sola de chinelo, tênis e sapato para tê-los de volta. Quando
conseguiam...
Uma vez, um fazendeirão de
Poconé deixou na oficina de Justino uma daquelas gigantescas e antigas
televisões com caixa de madeira para ele consertar. O fazendeiro voltou muitas
vezes à oficina para pegar o televisor que nunca ficava pronto...
Um dia o fazendeiro entrou
na concentração, aproximou-se de um grupo de jogadores e perguntou, com cara de
poucos amigos: “Cadê o Guará?”
– Está lá nos fundos –
responderam os jogadores em pânico com o tamanho do cano do 38 que o fazendeiro
exibia acintosamente na cintura.
– Temos que fazer uma coisa
pelo paizão – sugeriu Zé Mário, que Justino tinha criado desde pequeno e que
fez muito sucesso pelo Brasil afora. como jogador de bola. Todos aprovaram a
sugestão, mas ninguém teve coragem de ir até a oficina encarar o fazendeiro
para dar um apoio moral a Justino naquela aparentemente delicada situação...
Passado um tempão, quando o
clima entre os jogadores era dos mais tensos, com o grupo esperando pelo pior,
os dois aparecem abraçados, caminhando em direção da porta onde estava a
caminhonete do fazendeiro – de novo sem a televisão – e com Justino falando
alto: “Vou chegar bem cedo, quero tomar leite no curral, tirado na hora da
vaca, ainda bem morninho...”
Não demorou muito e Justino
estava de volta. Ao passar pelo grupo de jogadores, a maioria dos quais o
chamava também de paizão, comentou, sem ninguém lhe perguntar nada: “... e
ainda comprei o revólver dele, fiado, para pagar daqui a quinze dias...”
Em 1979, recém-chegado ao
Operário, Zé Pulula estava na “república” em uma manhã de sábado quando
apareceu Justino, desesperado com a mão na cabeça, andando de um lado para
outro. Zé Pulula quis saber de Justino qual era o problema.
Depois
de uma caprichada encenação, Justino explicou que precisava levar naquela hora
sua noiva para o Pronto-Socorro Municipal de Cuiabá, porque seu caso era muito
grave e ele estava desprevenido de dinheiro. Zé Pulula ofereceu então seu
Chevette para Justino resolver o problema emergencial de saúde de sua noiva.
Justino garantiu que devolveria o carro no máximo até ao meio-dia.
Passavam-se as horas e nada
de Justino aparecer com o carro. Notando a aflição de Zé Pulula, o treinador
operariano Totinha perguntou ao jogador qual era o problema. Quando o jogador
explicou o que era, Totinha disse apenas: “Esqueça, Pulula!...” e saiu dando
risadas.
No domingo, lá pelas 9
horas, o Chevette de Pulula estava na porta da concentração do Operário
lavadinho e impecavelmente polido, sem nenhum vestígio da farra que Justino
tinha feito no sábado nos locais de banho de Chapada dos Guimarães...
Apesar de ter aprontado
rolos a dar com pau em sua longa passagem pelo Operário, Justino sempre foi um
bom caráter e era muito admirado por muitos jogadores que o consideravam como
um pai. Justino morreu a alguns anos numa trombada de bicicletas. Isso mesmo: a
bicicleta que o ex-jogador pedalava se chocou com outra, na Avenida 31 de
Março, em Várzea Grande, e na queda ele bateu violentamente a cabeça no asfalto
e morreu na hora...
(Reproduzido do livro Casos de todos os tempos Folclore do
futebol de Mato Grosso).
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