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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Justino era bamba em um nó...

O lateral esquerdo Justino, conhecido também como Guará, que havia rodado muito pelo interior paulista e chegou ao Operário no final da década de 70, tinha um grande orgulho na vida: ser técnico em eletrônica. O jogador jurava que tinha feito um desses cursos por correspon­dência e inclusive exibia na porta da oficina que ele havia montado nos fundos da “república” do tricolor na Avenida Couto Magalhães num belo quadro um diploma que comprovava sua profissão e de cuja autenticidade muita gente duvidava.
Justino até podia não ser um grande técnico em eletrônica, como ele apregoava, mas para dar um nó nos outros, era daqui pra ali. Torcedores ope­rarianos que levaram seus aparelhos eletrônicos para Justino consertar, para dar uma força ao jogador, gastaram muita sola de chinelo, tênis e sapato para tê-los de volta. Quando conseguiam...
Uma vez, um fazendeirão de Poconé deixou na oficina de Justino uma daquelas gigantescas e antigas televisões com caixa de madeira para ele consertar. O fazendeiro voltou muitas vezes à oficina para pegar o televisor que nunca ficava pronto...
Um dia o fazendeiro entrou na concentração, aproximou-se de um grupo de jogadores e perguntou, com cara de poucos amigos: “Cadê o Guará?”
– Está lá nos fundos – responderam os jogadores em pânico com o tamanho do cano do 38 que o fazendeiro exibia acintosamente na cintura.
– Temos que fazer uma coisa pelo paizão – sugeriu Zé Mário, que Justino tinha criado desde pequeno e que fez muito sucesso pelo Brasil afora. como jogador de bola. Todos aprovaram a sugestão, mas ninguém teve cora­gem de ir até a oficina encarar o fazendeiro para dar um apoio moral a Justino naquela aparentemente delicada situação...
Passado um tempão, quando o clima entre os jogadores era dos mais tensos, com o grupo esperando pelo pior, os dois aparecem abraçados, cami­nhando em direção da porta onde estava a caminhonete do fazendeiro – de novo sem a televisão – e com Justino falando alto: “Vou chegar bem cedo, quero tomar leite no curral, tirado na hora da vaca, ainda bem morninho...”
Não demorou muito e Justino estava de volta. Ao passar pelo grupo de jogadores, a maioria dos quais o chamava também de paizão, comentou, sem ninguém lhe perguntar nada: “... e ainda comprei o revólver dele, fiado, para pagar daqui a quinze dias...”
Em 1979, recém-chegado ao Operário, Zé Pulula estava na “repú­blica” em uma manhã de sábado quando apareceu Justino, desesperado com a mão na cabeça, andando de um lado para outro. Zé Pulula quis saber de Justino qual era o problema.
           Depois de uma caprichada encenação, Justino explicou que precisa­va levar naquela hora sua noiva para o Pronto-Socorro Municipal de Cuiabá, porque seu caso era muito grave e ele estava desprevenido de dinheiro. Zé Pu­lula ofereceu então seu Chevette para Justino resolver o problema emergencial de saúde de sua noiva. Justino garantiu que devolveria o carro no máximo até ao meio-dia.
Passavam-se as horas e nada de Justino aparecer com o carro. No­tando a aflição de Zé Pulula, o treinador operariano Totinha perguntou ao jogador qual era o problema. Quando o jogador explicou o que era, Totinha disse apenas: “Esqueça, Pulula!...” e saiu dando risadas.
No domingo, lá pelas 9 horas, o Chevette de Pulula estava na porta da concentração do Operário lavadinho e impecavelmente polido, sem ne­nhum vestígio da farra que Justino tinha feito no sábado nos locais de banho de Chapada dos Guimarães...
Apesar de ter aprontado rolos a dar com pau em sua longa passagem pelo Operário, Justino sempre foi um bom caráter e era muito admirado por muitos jogadores que o consideravam como um pai. Justino morreu a alguns anos numa trombada de bicicletas. Isso mesmo: a bicicleta que o ex-jogador pedalava se chocou com outra, na Avenida 31 de Março, em Várzea Grande, e na queda ele bateu violentamente a cabeça no asfalto e morreu na hora...

(Reproduzido do livro Casos de todos os tempos Folclore do futebol de Mato Grosso).

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