Era um domingo de chuva que
Deus mandava do céu. Em um campo que ficava atrás da hoje Cerâmica Eliane, na
bifurcação das entradas para Bom Sucesso e Souza Lima, o Chicotinho Futebol
Clube disputava contra o Grêmio, do Jardim Glória, uma partida de vida ou morte,
pelo Campeonato Amador de Várzea Grande de 1980. E precisava vencer de qualquer
jeito para continuar no certame.
Mas, decididamente, naquele dia o Chicotinho -- nome escolhido por seu fundador, Ciro Vieira da
Costa, em homenagem ao Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, para alegrar
as domingueiras de sua numerosa família do isolado Capão Grande, e torcedora
fanática do tricolor, estava mais para um relhinho de uma tênue tirinha do que
para um temido chicote de couro trançado...
O jogo estava 3x0 para o
Grêmio. O Chicotinho tentava reagir, mas não tinha jeito. Para complicar a
situação do time, o jogador Aírton Pintinho sofreu uma lesão aparentemente muito grave e não poderia continuar em campo. No banco de reservas, nem um jogador
para entrar no lugar de Pintinho...
O presidente do Chicotinho,
Guilherme da Silva, que havia assumido o cargo com a desistência de Ciro Vieira
da Costa, olhou na caixa de massagem do time e não viu nenhum lenitivo – nem
álcool, pelo menos... – que pudesse aliviar o sofrimento do desesperado Pintinho...
Guilherme da Silva,
conhecido também como Meio Quilo, por causa da sua compleição física, correu até sua velha picape, pegou um resto de
fluído de freio, misturou com água às escondidas dos jogadores e aplicou na machucadura de Pintinho, como
se aquela porção fosse um milagroso medicamento para qualquer contusão!
Claro que Aírton Pintinho
sentiu que a parte onde a mistura foi esfregada estava queimando por causa das
substâncias químicas no fluído de freio e tratou de se movimentar para aliviar
a dor. E não demorou estava novamente em campo. A massagem com a dupla mistura deu tanto resultado que
Pintinho foi um dos principais jogadores do Chicotinho na virada de 7x3 sobre o
Grêmio.
Um feito que até hoje, decorridos
quase 40 anos, é lembrado pelos heróis que participaram da histórica vitória.
Entre eles, o próprio Aírton Pintinho, Celso, Búdio, Guilherme Filho, Fernando,
Pedro...
Muito amigo e admirador de
Rubens dos Santos, o primeiro presidente do CEOV, lançado no dia 1º de maio de
1949, Ciro Vieira da Costa, ao decidir, em 1978, fundar um clube de futebol no bairro Capão Grande escolheu o nome de Chicotinho para homenagear o Operário, que
passou a ser conhecido como “Chicote da Fronteira”, denominação cunhada pelo
advogado, jornalista, escritor, poeta e boêmio Benedito Santana da Silva
Freire...
Depois de muitos anos
sustentando o Chicotinho, Ciro Vieira da Costa, que já andava a beira da
falência por causa do dinheiro que gastava com o futebol, estava desanimado e
falava sempre em parar de mexer com bola. Mas ia protelando a decisão
definitiva na esperança de que aparecesse alguém para continuar tocando o
Chicotinho.
Em um certo domingo, o
Chicotinho tinha que jogar com o Bariri, no bairro Pirinéu. Sem conseguir um
caminhão para transportar a boleirada, Ciro Costa acertou um carreto duplo (buscar
e levar de volta os jogadores) com Guilherme da Silva, que era justamente o mandachuva do Bariri,
o adversário do Chicotinho naquele dia...
Começava naquele dia uma
conversação entre Guilherme da Silva e Ciro Vieira da Costa e que tempos depois
desaguou na consumação de um sonho que passou a ser acalentado pelos dois: o
eterno presidente do Chicotinho saindo de campo e o do Bariri assumindo um dos
mais tradicionais clubes do futebol amador várzea-grandense...
Hoje, com 72 anos de idade,
Ciro Vieira da Costa continua apaixonado pelo CEOV, mas não se envolve mais
diretamente com o futebol. Seu sucessor no lendário Chicotinho morreu no ano
passado, mas entrou em cena seu filho Guilherme da Silva, para dar continuidade
à tradição do futebol amador de Várzea Grande, que já caminha para 40 anos, mantendo o Chicotinho vivo. O
Chicotinho é hoje um time quase que exclusivamente familiar...

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