Pesquisar este blog

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Contra o racismo, Batista Jaudy acabou, na bala, com carnaval do Dom Bosco...

Pinah com Jaudy na inauguração da sede
 Vestido como um autêntico sheik (líder muçulmano que se torna chefe de um país, uma região, uma cidade...), inclusive com direito a um serviçal negro para abaná-lo com um grande leque durante a festa, como era costume no Oriente Médio e na Ásia – uma tarefa que cabia a eunucos (escravos que eram castrados para trabalhar nos haréns) para seus donos não correrem riscos de ser traídos...

Foi com a originalíssima fantasia que o carnavalesco João Batista Jaudy chegou à principal portaria do Clube Esportivo Dom Bosco, no carnaval de 1973, bem no clima da festa momesca... já curtindo o sucesso que certamente ia fazer naquela noite!

Mas aí surgiu um probleminha que terminou virando um problemão e acabou na Polícia: a pessoa que Batista Jaudy havia contratado para abaná-lo durante a festa, como parte de sua fantasia, não fazia parte do quadro de sócios do Dom Bosco e não podia entrar. De jeito nenhum!

Batista Jaudy interpretou a decisão dos porteiros e de diretores do clube como uma inaceitável demonstração de racismo e armou a maior confusão. Depois de muito bate-boca, xingamentos, palavrões, empurrões, quedas, Jaudy deixou a sede do Morro da Colina, acompanhado do seu humilhado “escravo”, mas antes advertiu: “Me aguardem! Eu já volto...!”

Diretor do azulão, naquela noite Jorge Fava estava na portaria lateral do Dom Bosco em companhia da esposa Catharina da Costa e Silva Fava, grávida do primeiro filho do casal, Mário Giórgio Fava, hoje com 44 anos, quando de repente surge Batista Jaudy com um revólver em cada uma das mãos.

– Eu só tive tempo de dizer para mulher vamos nos esconder numa dessas salas que vai ter tiroteio aqui. E teve mesmo. Foi um esparrama geral no clube, que não teve nem carnaval naquela noite – lembra Fava.

E nem podia ter carnaval mesmo, pois muita gente foi levada à Polícia para prestar depoimentos sobre a confusão e os tiros na sede dombosquina. Mas a confusão causada por Jaudy acabou sem maiores consequências, com algumas pessoas envolvidas no tumulto fazendo as pazes e inclusive pedindo desculpas umas as outras. Entre elas, Batista Jaudy, naturalmente, o principal pivô do bafafá.

Para Fava, Jaudy devia estar muito alterado para acusar o Dom Bosco de racismo no episódio que teve grande repercussão na imprensa. “Afinal – lembra ele – o próprio presidente do Dom Bosco, José de Carvalho, era preto...”    
     
O personagem que levou Jaudy a se envolver naquele rolo, ao aceitar trabalhar como “escravo” do carnavalesco na festa dombosquina, era um simples lavador de carros e que exercia sua atividade nas praças Alencastro e da República. Seu nome: Clemente, que com o tempo virou Quelemente e finalmente Quelé, que muita gente passou a confundir com Pelé, por causa de sua cor e da semelhança do apelido com o famoso craque do Santos FC...

Trabalhando como engraxate há 57 anos no centro de Cuiabá, Aquilino Alves da Silva afirma que Quelemente era “gente muito boa”. E era louco por circo. Como nem sempre tinha dinheiro para pagar o ingresso nos circos que apareciam na cidade, ele ficava em pontos estratégicos nos lugares onde as pessoas tinham que passar até que alguém do circo mandasse-o entrar para deixar o acesso livre.

Quelé bebia muito. E faleceu faz muito tempo – segundo Aquilino. Dizem que certa noite, Quelé dormia em um banco da Praça Alencastro, quando rolou e caiu ao chão, batendo violentamente a cabeça no cimento. Na queda, sofreu fratura do crânio e morreu...

Bom de bola, Batista Jaudy foi revelado para o futebol quando estudava no Colégio Salesiano São Gonçalo. No futebol cuiabano jogou pelo Atlético Mato-grossense, Dom Bosco e Americano. Atuou também no Operário, de Campo Grande, quando serviu o Exército, em 1957, e ainda na Associação Recreativa do Catete e na seleção universitária fluminense, quando morou no Rio de Janeiro, entre 1957 e 1960.

No tempo em que morou no Rio, fez testes no América, treinado por Martim Francisco, e no Fluminense, cujo técnico era Zezé Moreira. Fez testes por fazer e por insistência de amigos, pois seu foco era mesmo os estudos. E mesmo morando no Rio, continuou jogando no Dom Bosco. Quando tinha jogo oficial, nos finais de semana Jaudy pegava um avião, vinha para Cuiabá, jogava e retornava no primeiro voo para o Rio.
     
Durante o tempo em que morou no Rio de Janeiro, o já falecido Batista Jaudy, virou um grande carnavalesco. Tanto é que ao retornar a Cuiabá após concluir o curso de Farmacologia e se formar também em Educação Física, em Lins-SP, ele tratou de criar a Banda U, embrião que se transformou anos mais tarde no Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Independente Universitária, que ele presidiu durante cinco anos, passando depois o comando para o professor Abílio Camilo Fernandes e Jaime Okamura.

A inauguração da sede da escola, em 1984, contou com a presença da carnavalesca carioca Pinah, que voltou a Cuiabá depois para desfilar como o principal destaque da escola na Avenida Mato Grosso com o enredo “O minhocão do Pari” e que levou a multidão ao delírio. A música que embalou o desfile do GRESIU e que a multidão em êxtase cantou na avenida foi de autoria de Neguinho da Beija-Flor, que mandou um seu irmão a Cuiabá para pesquisar a lenda do minhocão do Pari, na própria Barra do Pari, para compor a letra do samba-enredo.

À época do episódio na sede do Dom Bosco, o conceituado professor João Batista Jaudy, que na sua passagem pela UFMT ajudou a criar o curso de Educação Física, que em setembro deste ano completou 41 anos, foi muito censurado pela sociedade, mas recebeu todo apoio de familiares e de muitos amigos também.

– A gente não podia esperar outra atitude dele diante daquela posição racista assumida pelo Dom Bosco – afirma Olga Jaudy, irmã de Batista Jaudy.    

 

                              

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você leu, comente o que achou