Velocista por natureza –
quando serviu o Exército em Cuiabá, participou de muitas competições oficiais,
correndo os 100 metros rasos, 200 metros e revezamento 4x100 – o ponteiro
esquerdo Odenir, que depois virou o Upa Neguinho, chegou ao Clube Esportivo Operário
Várzea-grandense com um grave defeito que incomodava o eterno e lendário
dirigente tricolor Rubens dos Santos: ele não sabia cruzar a bola para a área.
Uma tarde, ao final de um
coletivo no campo do bairro Ipase, onde fica hoje o estádio de beisebol da
Associação Cultural Nipo-Brasileira de Cuiabá e Várzea Grande, Rubens dos
Santos chamou Upa Neguinho para uma conversa em particular. Upa Neguinho pensou que era mais uma multa que
o clube ia lhe aplicar, porque com Rubens dos Santos não tinha arrego: por
qualquer coisinha os jogadores eram multados para reduzir a folha de
pagamentos...
Sem delongas, Rubens dos
Santos ditou uma frase que Upa Neguinho teria que escrever 100 vezes em um
caderno para ser apresentado depois ao presidente tricolor, que na realidade
era quem dava a palavra final sobre a escalação do time: “Devo ir à linha de
fundo, levantar a cabeça e cruzar a bola para trás...” A ordem não especificava
se o cruzamento da bola seria rasteiro ou na base do “chuveirinho”...
Antes do coletivo começar,
Upa Neguinho pediu para o meia armador Joel Diamantino “caprichar” nos
lançamentos de bola para a ponta esquerda do time titular para ele fazer os
cruzamentos para trás, como Rubens dos Santos queria. Joel Diamantino cumpriu a
sua palavra e lançou muitas bolas para Upa Neguinho durante todo o coletivo,
comandado por Batista Jaudy...
Encerrado o treino, Rubens
dos Santos foi conversar com Upa Neguinho. “Você já terminou de escrever cem
vezes a frase como eu lhe mandei?” – perguntou o presidente operariano.
– Na verdade, seu Rubens, ao
invés de escrever a frase no caderno, eu estou cumprindo sua ordem na prática.
Hoje mesmo, antes de o treino começar eu fiz no mínimo uns trinta lançamentos
para a área, correndo até a linha de fundo e cruzando a bola para trás. Se o
senhor duvida da minha palavra, pode perguntar para o Joel Diamantino...– justificou o jogador.
Pura cascata. Na verdade,
além dos cruzamentos que executou durante o coletivo, Upa Neguinho só fez uns
quatro ou cinco lançamentos para a área, como Rubens dos Santos exigia. E como
o presidente do CEOV nunca mais tocou no assunto, Upa Neguinho jamais escreveu
uma palavra da frase ditada pelo dirigente operariano...
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