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| Carlos Orione |
Arranjar e vestir um jaleco branco, como se trabalhasse na área da saúde, e se apresentar à chefia da delegação do Americano, do Rio de Janeiro -- que já estava em Cuiabá para enfrentar o Mixto -- como enfermeiro da Federação Mato-grossense de Desportos designado para coletar urina de alguns boleiros depois do jogo para o exame anti-dopping.
Esta foi a ordem que o presidente da FMD, Carlos Orione, deu ao funcionário da entidade e seu homem de inteira confiança, Armindo Alves, em uma conversa reservada que ficou entre os dois, já falecidos, e as quatro paredes da sala da presidência, às vésperas do jogo entre os dois times, dia 10 de outubro de 1976, pelo Campeonato Brasileiro.
Armindo Alves cumpriu a missão direitinho. Naquele tempo, os boleiros, salvo raras exceções, afundavam o pé pra valer em psicotrópicos – Glucoenergan, Preludim, Pervintim etc -- para ficarem mais “elétricos” durante o jogo, como a garotada faz hoje com os energéticos, largamente consumidos para revigorar as forças nas baladas de fim de semana.
Muitas vezes, os jogadores exageravam no consumo de “energéticos”. Na decisão do Campeonato Mato-grossense de Futebol de 1968/69, ganho pelo Operário, com uma vitória dramática sobre o Mixto, por 3x2, alguns operarianos consumiram tanto um chá mate especial no vestiário que depois de uma noitada na boate Tabaris para comemorar o título, o meio campo Tatu, do tricolor, queria de todo jeito retornar ao Dutrinha para continuar jogando...
Como o uso de estimulantes virou uma praga nos esportes em geral e não apenas no futebol, as autoridades começaram a apertar o cerco contra essa prática danosa para a saúde, aumentando a incidência, de surpresa, dos exames anti-dopping. E como as punições são rigorosas, podendo chegar ao banimento do infrator da atividade esportiva, profissional ou amadora, atletas de todos os níveis fugiam dos exames anti-dopping como o diabo foge da cruz...
Consequência ou efeito ou não da conversa que o “enfermeiro” Armindo Alves teve com a chefia da delegação do Americano, o fato é que o time carioca teve uma atuação apagadíssima no Verdão. Nem parecia o valente Americano que, como o Mixto, estava brigando para continuar na disputa da segunda fase do Brasileiro de 76.
Resultado do verdadeiro golpe dado no time carioca, pois a então CBD, que virou CBF em 1979, não havia programado nenhum sorteio de jogadores para ser submetidos ao exame de dopping naquela partida no Verdão: o MIxto ganhou de 4x1, gols de Bife, Toninho, Lorival e Traíra, com Zé Neto marcando para o Americano no último minuto de jogo.
Quem conta esta história não sabe nem se o Mixto ficou sabendo da armação da dupla Orione-Armindo contra o Americano. Mas Orione teve um bom motivo para, de forma sorrateira, ter induzido o time carioca a não recorrer a “energéticos” naquele jogo: o futebol mato-grossense estava vivendo sua fase de ouro e a continuidade do Mixto no Brasileiro significava dinheiro, muito dinheiro mesmo, nos cofres da sua federação...

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