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sexta-feira, 24 de março de 2017

Há meio século a contratação de um goleiro inflacionou o futebol de Mato Grosso...


Édson Miranda (em primeiro plano na foto)
“Tenho certeza absoluta que eu vou passar para a história do futebol de Mato Grosso como o cara que inflacionou o futebol profissional no Estado...” – previu o presidente do São Cristóvão Esporte Clube, Édson de Souza Miranda, em 1966, no dia que a agremiação do bairro Araés fechou negócio com o Palmeiras, do Porto, pagando Cr$ 200 mil pelo passe do goleiro Parada Pedro.

Édson Miranda acertou em cheio, com a inflação do futebol de Mato Grosso começando ali. Só que não foi pelo fato do seu clube ter desembolsado o dinheiro para pagar o Palmeiras, mas por outro motivo inesperado e que surpreendeu todo mundo.

-- Eu só assino contrato se o São Cristóvão me pagar 15% do valor do meu passe – bateu o pé o goleirão do Palmeiras, Parada Pedro, que sabia que nos grandes centros esportivos do país como São Paulo e Rio Janeiro, a exigência de luvas tinha virado moda, com o percentual máximo chegando a 30%, dependendo da fama do jogador e geralmente pago pelo clube que comprava o boleiro.

O presidente do São Cristóvão esperneou, mas Parada Pedro não abriu mão do seu direito. Com muito custo, o goleiro baixou o percentual exigido para 10%. Mas aí, o olho da boleirada do São Cristóvão cresceu e alguns jogadores que acompanharam a transação, entre eles Zé Rondonópolis, Hélio Pinto, Dunga, cujo passe tinha sido comprado do Sport Clube Recife e Edinho, passaram a exigir dinheiro para defender o clube do Araés.

A decisão do São Cristóvão de passar a pagar seus jogadores, chegou rapidinho aos ouvidos dos boleiros de outros clubes. E a inflação do futebol de Mato Grosso, como havia previsto Édson Miranda, estava implantada nesse esporte no estado, na transição do futebol amador para o profissionalismo.

Lembra o tenente R/1Gumercindo Alves Correa Filho, que durante muitos anos foi diretor do São Cristóvão EC, que Édson Miranda, além de ter inflacionado o futebol de Mato Grosso, foi também o principal responsável pela implantação do profissionalismo no Estado.

De fato, foi ele que como gestor de Orçamento do Estado conseguiu, em 1966, que o então governador do Mato Grosso indiviso, Pedro Pedrossian, liberasse uma dinheirão para os clubes da 1ª Divisão da época – São Cristóvão, Mixto, Dom Bosco, Americano, Paulistano, Palmeiras e Clube Esportivo Operário Várzea-grandense – investirem em seus patrimônios físicos e em reforços para dar nova dimensão ao futebol, com a transição do amadorismo para o profissionalismo já no ano seguinte.

Além de diretor, sempre que sobrava uma brechinha, Correa jogava bola também. E inclusive tem algumas histórias divertidas para contar.  Uma delas aconteceu em 1962 ou 63 em um amistoso do seu clube contra a seleção de Alto Paraguai.

A certa altura do jogo, o juiz marcou um escanteio a favor do São Cristóvão, mas a torcida agarrou Correa e não o deixava executar a cobrança. Com muito custo e a intervenção do juiz, o escanteio foi cobrado. O São Cristóvão ganhou o jogo de 3x1..

Tempos depois, o São Cristóvão voltou ao Médio Norte para jogar com uma seleção de Arenápolis, que fica praticamente na divisa com a cidade de Alto Paraguai. Atuando na ponta esquerda e marcado por um zagueirão parrudo chamado Pelé, Correa não ganhava uma jogada, principalmente pelo alto. Nas bolas altas, Pelé arcava o pesado corpo em cima de Correa e cabeceava todas elas sem nenhuma dificuldade.

Até que finalmente o atacante do São Cristóvão dominou uma bola rasteira e passou-a entre as pernas de Pelé, pegando-a do outro lado nas costas do zagueiro. Enfurecido, Pelé girou o corpo e voltou com tudo para quebrar o atacante. Mas levou azar: Correa puxou a bola e o zagueiro, desequilibrado, torceu um dos tornozelos. E Correa foi o primeiro a socorrer o jogador adversário contundido. Vitória do São Cristóvão por 3x2.           


  

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