A advertência, em tom ameaçador, foi feita pelo árbitro Henrique Peixoto no intervalo do amistoso que o Araguaia Esporte Clube disputava com o time de Parnaíba – hoje Mato Grosso do Sul – e cujo placar ao final do 1º tempo apontava a vitória dos alto-araguaienses por 10x0.
O “homem” a quem o juiz Henrique Peixoto se referia era o governador Pedro Pedrossian que estava visitando Alto Araguaia e foi ao campo assistir ao jogo. Pedrossian inclusive deu o pontapé inicial do amistoso.
Para os defensores do “Pantera do Leste” o jogo com o time de Parnaíba era um amistoso qualquer. Mas os jogadores ficaram com muita raiva quando os integrantes da equipe visitante, que haviam chegado à cidade sábado bem cedo, passaram a circular pela pequena Alto Araguaia exibindo um belo uniforme e cheios de gingas e poses, certos de que o jogo seria uma moleza...
A raiva dos alto-araguaienses foi levada para o campo e transformada num massacre. Do time visitante, só dois jogadores pegavam na bola: o goleiro para devolvê-la ao centro do campo e o centroavante para dar nova saída...
Os dirigentes e os jogadores do AEC sabiam que Henrique Peixoto cumpriria mesmo as promessas. E aí o técnico alviverde trocou uns cinco ou seis jogadores, colocando juvenis no lugar dos titulares. Mesmo com a ameaça do juiz, os garotos, loucos para terem uma chance na equipe principal, marcaram mais dois gols que Henrique Peixoto não teve como anular. O jogo terminou com vitória do time da casa por 12x1.
Raiva à parte, o massacre do AEC foi mesmo uma descortesia contra a equipe de Parnaíba. Um bom tempo antes do jogo em Alto Araguaia, o “Pantera do Leste” tinha ido jogar em Parnaíba e o clube da casa fez o que pôde para agradar aos visitantes. Inclusive promoveu um baile em homenagem aos alto-araguaienses, que no dia seguinte não levaram em conta a hospitalidade e ganharam o jogo por 2x0, embora tenham ficado no bailão até as três horas da madrugada.
O “Pantera do Leste” chegou a Parnaíba no sábado à tarde. O baile provocou uma grande agitação na cidade, porque logo que a delegação chegou a Parnaíba correu a notícia que o time tinha um jogador que era juiz de Direito em Alto Araguaia. Para os parnaibanos era uma grande honra conviver com uma autoridade tão respeitada.
Era verdade: o juiz de Direito era Ica. No entanto, para deixar o magistrado-boleiro mais à vontade ficou combinado entre todo mundo que ninguém revelaria quem era Ica. Além disso, ele precisava ficar no anonimato até por questão de segurança naqueles tempos do tresoitão muito em voga em Mato Grosso...
E ficou mesmo. Até porque muita gente aproveitou o baile em Parnaíba para desfrutar de uns momentos de glória, de bajulação, de tratamento especial. Tanto é que a certa altura do baile uma bela jovem estrilou: “Pombas, já dancei com uns dez jogadores de Alto Araguaia e cada um diz que o doutor juiz é ele,,,”
(Reproduzido do livro Caso de todos os tempos Folclore do futebol de Mato Grosso).
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