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| Wilson Eraldo da Silva |
Lembra Wilson Eraldo que o
pessoal que era escalado pela FMF para trabalhar em jogos aos domingos em Juara
– 709 km de Cuiabá – o juiz, os dois bandeirinhas, chamados hoje de
assistentes, o delegado (representante) da entidade e o financeiro saía na
sexta-feira, porque se o ônibus de linha quebrasse, a equipe corria o risco de
ter que esperar o do dia seguinte para completar o percurso. Com as condições
precárias das estradas de chão, as viagens para aquela região do Médio Norte eram
verdadeiras aventuras...
Como aconteceu uma vez uma
vez com o Dom Bosco, que saiu de Cuiabá no sábado pela manhã para jogar em
Juara no dia seguinte, com arbitragem de Wilson Eraldo. O sol já ia alto no
domingo e nada do azulão dar as caras na cidade. A diretoria do time da casa já
estava preocupada, quando apareceu um viajante com um recado para os juarenses:
a delegação dombosquina estava na beira da rodovia dava acesso a Juara
esperando socorro para terminar de chegar.
O socorro que o Dom Bosco
precisava: cinco pneus em boas condições de tráfego, porque os cinco já
substituídos durante a viagem não tinham a mínima condição de continuar rodando. Arrumaram um
caminhão de serraria para carregar toras de árvores e despacharam para socorrer
o azulão...
Terminada a troca, lá se
foram os jogadores em meio aos cinco pneus para Juara, pois o pequeno bagageiro
do ônibus já estava lotado com o material esportivo do clube e a malas e mochilas
da delegação.
Nesse dia, os dombosquinos
tiveram que correr 90 minutos com fome, porque o jogo tinha que começar mais
cedo e seria uma temeridade a moçada almoçar, fora do horário normal, e logo
depois o time entrar em campo para jogar bola...
Desse histórico jogo do Dom
Bosco, Wilson Eraldo lembra que o azulão venceu por 3x0, na maior moleza. E a
turma do clube dombosquino saiu de campo feliz da vida, não apenas com o
resultado favorável, mas também porque a moçada não ia ter problema para retornar
a Cuiabá, pois um diretor alviceleste havia conseguido com o presidente da FMF,
o falecido Carlos Orione, antes da viagem, um empréstimo pessoal de R$
700,00, que garantiu o jantar antes da volta e o tanque cheio do velho
ônibus...
Em outro jogo que foi apitar
em Juara, antes do jantar no próprio hotel onde o trio de arbitragem estava hospedados,
Wilson Eraldo pediu que os seus dois auxiliares – Elói Natalino do Nascimento e
Miguel Arruda, este já falecido – se comportassem com a máxima discrição
possível, para não serem reconhecidos. O anonimato era uma questão de prudência
para segurança deles – justificou o árbitro.
Mas na hora que foi temperar
sua salada, Wilson Eraldo notou que os saleiros da mesa estavam entupidos, por
causa da umidade. Ele se serviu e não perdeu a oportunidade para, com a
cumplicidade de Elói Natalino, sacanear Miguel Arruda: afrouxou a tampa do
saleiro e ficou só observando o que ia acontecer. Quando Miguel colocou a
salada no prato e virou o recipiente com o tempero, encheu o prato de sal.
Wilson e Natalino caíram na risada...
Miguel foi trocar de prato,
claro, e Wilson Eraldo advertiu-o: “O restaurante vai te cobrar duas
refeições...”
Depois de jantar, Miguel foi
palitar os dentes e novamente acabou sendo vítima de peraltice da dupla. Ao virar o
vidrinho de cabeça para baixo, foi aquele esparramo de palitinhos sobre a mesa,
pois a tampa do recipiente também havia sido afrouxada. E aí não tiveram como
esconder mais quem eram eles, pois muita gente que estava jantando nas
imediações dos três percebeu a mancada e começou a dar gargalhadas...
Considerado um árbitro
“durão”, Wilson Eraldo afirma que tem boas recordações dos tempos que apitava e
trabalhava como assistente no interior, pois sempre foi tratado com respeito e
consideração pelos clubes. Em Juara, por exemplo, os dirigentes do União Esporte
Clube Juara sempre providenciavam condução para levar o pessoal da FMF para o
estádio que se chamava Zé Paraná, em homenagem a José Pedro Dias, fundador da
cidade e colonizador do município.
Mas quando isso não
acontecia, o pessoal da FMF ia e voltava a pé para o estádio, cobrindo uma
distância de cerca de quatro quilômetros nos dois trajetos. Wilson Eraldo explica
porque a turma preferia a caminhada: se uma passagem de ônibus de Cuiabá a
Juara custava R$ 100,00, os taxistas cobravam R$ 80,00 para fazer o trajeto
hotel-estádio e vice-versa...
No decorrer de sua carreira
como juiz de futebol, Wilson Eraldo testemunhou muitas cenas hilariantes que
passaram para a história do futebol mato-grossense. Como uma que aconteceu no
Verdão em um clássico entre Mixto e Operário, pelo Campeonato Mato-grossense,
na década de 1980.
O jogo transcorria
normalmente, quando aos 40 minutos do 1º tempo, o zagueiro mixtense Miro deu um
“carrinho” por trás em um atacante do tricolor várzea-grandense. Lance digno de
expulsão. O juiz Gílson Rodrigues marcou a falta e meteu a mão no bolso para
puxar o cartão vermelho, mas não achou nada. Chamou, então, o arbitro reserva, cujo
nome ele não se lembra, que não estava também com os cartões amarelo e
vermelho. Gilson recorreu então aos dois auxiliares José Roberto (Cipó) Feitosa
Soares e Salim Gonçalves, que tinham esquecido em casa seus cartões...
Só lhe restou uma saída:
interromper o jogo, que terminou empatado por 0x0, e correr até o vestiário dos
árbitros para pegar o cartão para punir Miro. Mas demorou tanto para achar os
cartões que deveriam estar no seu bolso e também e nos dos seus três
auxiliares, que Gílson Rodrigues, meio sem graça, mostrou apenas cartão amarelo
para Miro...
Outra hilária história que
Wilson Eraldo testemunhou: a delegação de juízes de futebol da Sedel chegou a
Alta Floresta, no norte do Estado, para apitar a modalidade dos Jogos
Estudantis de Mato Grosso. Uma viagem cansativa de mais de 800 quilômetros pela
BR-163 e pela MT-419, bem esburacadas nos velhos tempos...
Logo na chegada da delegação ao local onde o pessoal ia
ficar alojado havia um recado da FMF – naqueles velhos tempos não existia ainda
celular – na portaria do hotel: o juiz
Mário Martins Rodrigues, o Xuxa, devia pegar o primeiro ônibus e voltar para
Cuiabá, pois havia sido escalado pela CBF para atuar como assistente no final
de semana no Maracanã, no Rio de Janeiro, no jogo entre Botafogo e São Paulo
pelo Campeonato Brasileiro da Série A. O juiz foi Antonio Pereira da Silva, de
Goiás, e o São Paulo ganhou o jogo por 3x1.
Claro que Xuxa chiou. Mas
seu companheiro de profissão, Ewller dos Reis Brás, o Pirata, um gozador de
marca maior, deu-lhe a maior “força”: “O máximo que pode acontecer, Xuxa, é seu
avião cair no pantanal de Mato Grosso ou de Mato Grosso do Sul e você acabar
sendo comido por jacarés ou por uma onça pintada...” Pirata já subiu para o andar superior faz muito
tempo... – lamentam seus amigos.

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