Pesquisar este blog

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Sem suborno, Vila Nova pegava seus adversários mais fortes na bola pela barriga...

O time de 1951 do Vila Nova:  Senésio, Zé Sales, Lulu, Painha, André, Branco e a rainha Marcelina Leite da Silva (em pé) Tum, Lili, Persídio Tarsilio e Pombito (agachados)
Desde que a rivalidade começou a se manifestar no futebol de Mato Grosso, no princípio no amadorismo e depois no profissionalismo – o primeiro jogo no estado indiviso foi disputado dia 15 de novembro de 1913, com o Cuiabá Futebol Clube derrotando o Internacional Futebol Clube por 3x0, gols de Leovegildo, Alcindo e Vieira – dirigentes mais espertos sempre buscaram um jeitinho para garantir a vitória de seus times em simples amistosos ou competições oficiais – garantem pessoas insuspeitas.

Pagar juízes e bandeirinhas para marcar pênaltis contra adversários, validar gols escandalosamente ilegais, assinalar impedimentos inexistentes “molhar” a mão de atletas de clubes rivais para que não dessem as caras no campo em dias de jogos importantes... faziam parte dos tratos, sem nada assinado, claro, entre as pessoas que se envolviam nas patifarias.

Em muitos casos, a roubalheira a favor de um time era tão descarada.que de vez em quando torcedores invadiam campos de subúrbios e estádios para bater em juízes e bandeirinhas. Alguns dirigentes chegavam a cortar cédulas de dinheiro ao meio e só entregava a outra parte do dinheiro se o acordo fosse cumprido. Por isso muitos bandeirinhas entraram na bordoada sem saber porque estavam apanhando...  

Um veterano árbitro de futebol que atuou longo tempo no futebol profissional de Mato Grosso, confessa que ganhou muito dinheiro, mas muito dinheiro mesmo, principalmente nos clássicos envolvendo Mixto, Dom Bosco e Clube Esportivo Operário Várzea-grandense. É que na época de ouro do futebol profissional no estado, dirigentes desses clubes faziam altas apostas nos jogos e quem lhe pagava mais garantia a bolada do suborno...

O suborno no submundo da bola alcançou um patamar tão alto no futebol mato-grossense que o Clube Esportivo Dom Bosco, o mais antigo do futebol mato-grossense, chegou a ter em sua direção, por muito tempo, um dirigente cuja função era única e exclusivamente “comprar” juízes e bandeirinhas para assegurar antecipadamente resultados que interessavam ao seu clube. Sua “árdua” missão na diretoria se estendia também a outros clubes, se o placar positivo ou negativo de um determinado jogo beneficiasse o Dom Bosco...

Na luta por um título ou uma vitória importante, valia tudo, inclusive “macumbaria” da pesada ou outras estratégias que não despertavam qualquer tipo de suspeita dos adversários. Nesse particular, destacou-se na Baixada Cuiabana o Vila Nova Futebol Clube, de Bom Sucesso, que de 1951, quando foi fundado, até o início da década de 70, ainda com a abundância de peixes no Rio Cuiabá, pegava os adversários de maior nível técnico pela barriga...

Isso mesmo: por trás da aparente gentileza de convidar seus adversários mais fortes a chegar mais cedo à comunidade rural para almoçar e desfrutar das delícias da sua culinária,  principalmente pratos à base de peixes, escondia-se o propósito de fazer de fazer seus jogadores se empanturrar de comida, seguida de deliciosas sobremesas que fatalmente iriam influenciar na produção em campo dos boleiros na hora do vamos ver...

Ficou na história e no folclore de Bom Sucesso um jogo amistoso que o Vila Nova disputou, há muitos anos, contra o São Borja Esporte Clube, do Ribeirão do Lipa, e integrado por jogadores consagrados como Totó, Índio, Caboclo, Renato, Celso, Chico, Tô, Colino e Rubens. O jogo fez parte de uma grande festa da comunidade de pescadores: teve até bailão no sábado à noite e missa no domingo. Uma vitória contra o poderoso São Borja seria a coroação da festa...

A delegação do Ribeirão do Lipa desceu da carroceria do velho caminhão às 11 horas e em seguida foi recepcionada com uma farta mesa de chá com bolo de arroz e outros tentadores quitutes.  Cansados da longa viagem, a negadinha mandou brasa sem parcimônia, enchendo o pandulho de tudo que a farta mesa oferecia, incluindo, evidentemente, deliciosos refrescos e sucos de frutos regionais.

Por volta do meio dia, após generosas rodadas de uma cachacinha amiga de alambique os jogadores partiram para o almoço. Além de arroz, feijão, mandioca, salada, muito peixe de todo jeito: frito, assado, cozido, pirão, mojica de pintado.  Foi aquela comilança! Em seguida ao saboroso almoço, esperava os jogadores visitantes uma alentada mesa com sobremesas daquelas, incluindo variadas rapaduras e melado de cana, danados para dar sede em que os consome. A rapaziada atacou firme...

Estava quase na hora da boleirada ir para o campo, já apinhado de gente, para ver o esperado jogo. Antes da partida dos visitantes para o campo, um dirigente do Vila Nova avisou os jogadores que no lugar onde iriam trocar de roupa havia um tambor com água fresquinha só para eles, para ninguém passar sede...

Com tanta comida no bucho e tomando água sem parar para saciar a sede, os jogadores do São Borja não viam a cor da bola. E o Vila Nova só estufando as redes do adversário para delírio da torcida. Antes do jogo atingir meia hora, o Vila Nova já vencia por 5x0...        

Um dos mais antigos times de futebol da Baixada Cuiabana, o Vila Nova Futebol Clube continua sendo o maior orgulho da sua quase bicentenária população. Sim, quase bicentenária, pois o mais antigo distrito várzea-grandense, criado pela lei nº 123 de 23/9/1948, começou a ser povoado em 1823, muito antes de Várzea Grande ser elevada a categoria de cidade, em 1911. 

O Vila Nova, que completou 65 anos em 2016, teve sua origem numa briga entre diretores e jogadores do Soberano Futebol Clube, que, aliás, não contava lá com muita simpatia dos moradores da comunidade rural, que depois virou uma promissora colônia de pescadores. Com a dissensão no Soberano, alguns moradores aproveitaram os jogadores que tinham deixado o time e fundaram o  clube que representa até hoje Bom Sucesso no futebol.

Ao longo de sua brilhante existência, o Vila Nova tem honrado a velha comunidade ribeirinha, com vitórias memoráveis e a conquista de muitos títulos, taças e troféus, inclusive da Liga Independente de Futebol de Várzea Grande. Pena que as cíclicas enchentes de 1974 e de 1994 que devastaram Bom Sucesso tenham levado de roldão grande parte do rico acervo do Vila Nova, com sua história mais antiga ficando apenas na memória de seus moradores.

Logo depois da fundação, diretores do Vila Nova foram procurar o esportista Ponciano Gonçalves da Silva para pedir uma área de terras para construir o campo de futebol do novo clube. Pedido aceito, com a doação de um terreno perto da comunidade, começou o trabalho envolvendo toda a população para o sonho virar realidade.

O cerrado alto da área escolhida para o campo foi posto abaixo sob a força bruta do machado e da foice. Até crianças participaram do mutirão coletivo na reta final do projeto, ajudando a remover coivaras para preparação da terra para o plantio da grama.

O primeiro presidente do Vila Nova foi Gil João da Silva, que mesmo sem eleições formais foi sendo aclamado e ficou no cargo por nada menos do que 15 anos. Depois de Gil da Silva, a população escolheu para a presidência Joaquim Leite da Rosa, o Vovô Painha, que foi de tudo no clube, inclusive jogador. Hoje, aos 86 anos, Painha ainda trabalha na roça e cuida do tempero da cozinha da peixaria que leva o seu nome e uma das principais de Bom Sucesso.

Durante a presidência de Vovô Painha e que durou seis anos, só jogava no Vila Nova quem vivia na comunidade. O objetivo do clube era incentivar a garotada a jogar bola. Mas, na realidade, existia outro objetivo, sim: de vez em quando jogadores do mais alto nível do clube deixavam de comparecer a importantes jogos do Vila Nova e... constatava-se depois que haviam recebido uma graninha do adversário. Com os “pratas da casa” isso não aconteceria jamais, pois inclusive eram obrigados a pagar para jogar...

Apesar das muitas dificuldades financeiras que enfrentavam – naqueles tempos era comum jogar bola de pés no chão – o Vila Nova revelou muitos jogadores: Capitão, Persídio, Pombito, Belmiro, Didi, Cenésio, Ataíde, André, Zé Sales. Alguns chegaram a profissional: Miroca e  Nilton Capitão  (Mixto),  Ademir (Operário-VG) e Orlando (Palmeirinhas, do Porto).

Da brilhante trajetória do Vila Nova os moradores de Bom Sucesso só guardam uma bronca feia: o mini estádio da comunidade, construído em 1997, deveria levar o nome de Ponciano Gonçalves da Silva, que doou a área de terras à população. Mas o ex-presidente da Associação dos Moradores de Bom Sucesso, Fracinei Jesus de Souza, deu ao mini estádio o nome de seu avô, Cândido Jordão Magalhães, que nunca teve nada a ver com a comunidade...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você leu, comente o que achou