| O time de 1951 do Vila Nova: Senésio, Zé Sales, Lulu, Painha, André, Branco e a rainha Marcelina Leite da Silva (em pé) Tum, Lili, Persídio Tarsilio e Pombito (agachados) |
Desde que a rivalidade
começou a se manifestar no futebol de Mato Grosso, no princípio no amadorismo e
depois no profissionalismo – o primeiro jogo no estado indiviso foi disputado dia
15 de novembro de 1913, com o Cuiabá Futebol Clube derrotando o Internacional
Futebol Clube por 3x0, gols de Leovegildo, Alcindo e Vieira – dirigentes mais
espertos sempre buscaram um jeitinho para garantir a vitória de seus times em
simples amistosos ou competições oficiais – garantem pessoas insuspeitas.
Pagar juízes e bandeirinhas
para marcar pênaltis contra adversários, validar gols escandalosamente ilegais,
assinalar impedimentos inexistentes “molhar” a mão de atletas de clubes rivais
para que não dessem as caras no campo em dias de jogos importantes... faziam
parte dos tratos, sem nada assinado, claro, entre as pessoas que se envolviam
nas patifarias.
Em muitos casos, a
roubalheira a favor de um time era tão descarada.que de vez em quando
torcedores invadiam campos de subúrbios e estádios para bater em juízes e
bandeirinhas. Alguns dirigentes chegavam a cortar cédulas de dinheiro ao meio e
só entregava a outra parte do dinheiro se o acordo fosse cumprido. Por isso
muitos bandeirinhas entraram na bordoada sem saber porque estavam
apanhando...
Um veterano árbitro de
futebol que atuou longo tempo no futebol profissional de Mato Grosso, confessa
que ganhou muito dinheiro, mas muito dinheiro mesmo, principalmente nos
clássicos envolvendo Mixto, Dom Bosco e Clube Esportivo Operário
Várzea-grandense. É que na época de ouro do futebol profissional no estado, dirigentes
desses clubes faziam altas apostas nos jogos e quem lhe pagava mais garantia a bolada
do suborno...
O suborno no submundo da
bola alcançou um patamar tão alto no futebol mato-grossense que o Clube
Esportivo Dom Bosco, o mais antigo do futebol mato-grossense, chegou a ter em
sua direção, por muito tempo, um dirigente cuja função era única e
exclusivamente “comprar” juízes e bandeirinhas para assegurar antecipadamente
resultados que interessavam ao seu clube. Sua “árdua” missão na diretoria se
estendia também a outros clubes, se o placar positivo ou negativo de um
determinado jogo beneficiasse o Dom Bosco...
Na luta por um título ou uma
vitória importante, valia tudo, inclusive “macumbaria” da pesada ou outras
estratégias que não despertavam qualquer tipo de suspeita dos adversários.
Nesse particular, destacou-se na Baixada Cuiabana o Vila Nova Futebol Clube, de
Bom Sucesso, que de 1951, quando foi fundado, até o início da década de 70,
ainda com a abundância de peixes no Rio Cuiabá, pegava os adversários de maior
nível técnico pela barriga...
Isso mesmo: por trás da
aparente gentileza de convidar seus adversários mais fortes a chegar mais cedo
à comunidade rural para almoçar e desfrutar das delícias da sua culinária, principalmente pratos à base de peixes,
escondia-se o propósito de fazer de fazer seus jogadores se empanturrar de
comida, seguida de deliciosas sobremesas que fatalmente iriam influenciar na
produção em campo dos boleiros na hora do vamos ver...
Ficou na história e no
folclore de Bom Sucesso um jogo amistoso que o Vila Nova disputou, há muitos
anos, contra o São Borja Esporte Clube, do Ribeirão do Lipa, e integrado por
jogadores consagrados como Totó, Índio, Caboclo, Renato, Celso, Chico, Tô,
Colino e Rubens. O jogo fez parte de uma grande festa da comunidade de
pescadores: teve até bailão no sábado à noite e missa no domingo. Uma vitória
contra o poderoso São Borja seria a coroação da festa...
A delegação do Ribeirão do
Lipa desceu da carroceria do velho caminhão às 11 horas e em seguida foi recepcionada
com uma farta mesa de chá com bolo de arroz e outros tentadores quitutes. Cansados da longa viagem, a negadinha mandou
brasa sem parcimônia, enchendo o pandulho de tudo que a farta mesa oferecia,
incluindo, evidentemente, deliciosos refrescos e sucos de frutos regionais.
Por volta do meio dia, após
generosas rodadas de uma cachacinha amiga de alambique os jogadores partiram
para o almoço. Além de arroz, feijão, mandioca, salada, muito peixe de todo
jeito: frito, assado, cozido, pirão, mojica de pintado. Foi aquela comilança! Em seguida ao saboroso
almoço, esperava os jogadores visitantes uma alentada mesa com sobremesas daquelas,
incluindo variadas rapaduras e melado de cana, danados para dar sede em que os
consome. A rapaziada atacou firme...
Estava quase na hora da
boleirada ir para o campo, já apinhado de gente, para ver o esperado jogo.
Antes da partida dos visitantes para o campo, um dirigente do Vila Nova avisou
os jogadores que no lugar onde iriam trocar de roupa havia um tambor com água
fresquinha só para eles, para ninguém passar sede...
Com tanta comida no bucho e
tomando água sem parar para saciar a sede, os jogadores do São Borja não viam a
cor da bola. E o Vila Nova só estufando as redes do adversário para delírio da
torcida. Antes do jogo atingir meia hora, o Vila Nova já vencia por 5x0...
Um dos mais antigos times de
futebol da Baixada Cuiabana, o Vila Nova Futebol Clube continua sendo o maior
orgulho da sua quase bicentenária população. Sim, quase bicentenária, pois o
mais antigo distrito várzea-grandense, criado pela lei nº 123 de 23/9/1948, começou
a ser povoado em 1823, muito antes de Várzea Grande ser elevada a categoria de
cidade, em 1911.
O Vila Nova, que completou
65 anos em 2016, teve sua origem numa briga entre diretores e jogadores do
Soberano Futebol Clube, que, aliás, não contava lá com muita simpatia dos
moradores da comunidade rural, que depois virou uma promissora colônia de
pescadores. Com a dissensão no Soberano, alguns moradores aproveitaram os
jogadores que tinham deixado o time e fundaram o clube que representa até hoje Bom Sucesso no
futebol.
Ao longo de sua brilhante
existência, o Vila Nova tem honrado a velha comunidade ribeirinha, com vitórias
memoráveis e a conquista de muitos títulos, taças e troféus, inclusive da Liga
Independente de Futebol de Várzea Grande. Pena que as cíclicas enchentes de
1974 e de 1994 que devastaram Bom Sucesso tenham levado de roldão grande parte
do rico acervo do Vila Nova, com sua história mais antiga ficando apenas na
memória de seus moradores.
Logo depois da fundação,
diretores do Vila Nova foram procurar o esportista Ponciano Gonçalves da Silva para
pedir uma área de terras para construir o campo de futebol do novo clube. Pedido
aceito, com a doação de um terreno perto da comunidade, começou o trabalho
envolvendo toda a população para o sonho virar realidade.
O cerrado alto da área
escolhida para o campo foi posto abaixo sob a força bruta do machado e da
foice. Até crianças participaram do mutirão coletivo na reta final do projeto,
ajudando a remover coivaras para preparação da terra para o plantio da grama.
O primeiro presidente do
Vila Nova foi Gil João da Silva, que mesmo sem eleições formais foi sendo
aclamado e ficou no cargo por nada menos do que 15 anos. Depois de Gil da
Silva, a população escolheu para a presidência Joaquim Leite da Rosa, o Vovô
Painha, que foi de tudo no clube, inclusive jogador. Hoje, aos 86 anos, Painha
ainda trabalha na roça e cuida do tempero da cozinha da peixaria que leva o seu
nome e uma das principais de Bom Sucesso.
Durante a presidência de Vovô
Painha e que durou seis anos, só jogava no Vila Nova quem vivia na comunidade.
O objetivo do clube era incentivar a garotada a jogar bola. Mas, na realidade,
existia outro objetivo, sim: de vez em quando jogadores do mais alto nível do
clube deixavam de comparecer a importantes jogos do Vila Nova e... constatava-se
depois que haviam recebido uma graninha do adversário. Com os “pratas da casa”
isso não aconteceria jamais, pois inclusive eram obrigados a pagar para jogar...
Apesar das muitas
dificuldades financeiras que enfrentavam – naqueles tempos era comum jogar bola
de pés no chão – o Vila Nova revelou muitos jogadores: Capitão, Persídio, Pombito,
Belmiro, Didi, Cenésio, Ataíde, André, Zé Sales. Alguns chegaram a profissional:
Miroca e Nilton Capitão (Mixto),
Ademir (Operário-VG) e Orlando (Palmeirinhas, do Porto).
Da brilhante trajetória do Vila Nova os moradores de Bom Sucesso só guardam uma bronca feia: o mini estádio da comunidade, construído em 1997, deveria levar o nome de Ponciano Gonçalves da Silva, que doou a área de terras à população. Mas o ex-presidente da Associação dos Moradores de Bom Sucesso, Fracinei Jesus de Souza, deu ao mini estádio o nome de seu avô, Cândido Jordão Magalhães, que nunca teve nada a ver com a comunidade...
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