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segunda-feira, 19 de junho de 2017

Com a documentação queimada, Dom Bosco virou um clube sem memória


Ficar de forma irreversível sem a memória de uma história que está completando neste 2017  92 anos, por conta de uma insana vingança de um ex-presidente – este foi o alto preço que o Clube Esportivo Dom Bosco, o mais antigo do futebol de Mato Grosso (foi fundado dia 4 de janeiro de 1925) pagou pela ousadia de ter desafiado Lino Elcídio Belmonte de Miranda e impedido, através da Justiça, que o polêmico dirigente continuasse à frente dos destinos da agremiação, depois de uma década marcada por desmandos e estripulias que quase levaram o azulão à falência.

Após passar por alguns setores do clube, sempre com destaque na mídia, Lino Miranda chegou a presidência do Mixo em 1978 e ficou no cargo até 1984, levando o alvinegro a conquistar o tetracampeonato estadual em 79 (ano da divisão de Mato Grosso), 80, 81 e 82. Advogado e profundo conhecedor dos bastidores da bola, Miranda virou uma lenda do futebol pelas confusões que aprontava: comprava jogadores e não pagava; vendia e não entregava...

Em Maringá, no norte do Paraná, Miranda era conhecido como “frente fria”, pois toda vez que fazia algum negócio com o clube da cidade, o Grêmio Esportivo Maringá, era calote certo. Ele inclusive era acusado de assinar documentos com canetas cuja tinta se apagava horas depois, tornando-os sem efeito. O falecido roupeiro mixtense Benedito Lisboa do Nascimento muitas vezes foi apresentado por Lino Miranda a gerentes de bancos como presidente do alvinegro para conseguir empréstimos para o clube. Mas Lino Miranda nunca lhe passou a perna...

Depois de deixar o Mixto, Lino Miranda ficou uns seis anos no ostracismo, mas de repente apareceu no Dom Bosco. Bom de bico, astuto advogado, considerado um “avião”, no mundo da bola, disputou a eleição de 1985 e elegeu-se presidente. Em 1991, no seu segundo mandato, ele levou o Dom Bosco a ganhar o Campeonato Mato-grossense de Futebol, quebrando um jejum de mais de duas décadas, passando a ser venerado pela torcida dombosquina.

Distribuindo sem parcimônia títulos de sócio remido, Lino Miranda foi garantindo sucessivas reeleições. Na última tentativa de reeleição, porém, a velha guarda dombosquina entrou na Justiça com uma ação inominada, com pedido de liminar, que o afastou temporariamente do cargo. No entanto, Lino Miranda não desistiu e entrou com um agravo de instrumento no Tribunal de Justiça de Mato Grosso contra a ação inominada. Mas foi derrotado e, consequentemente, apeado do poder.  

A vingança de Lino Miranda pela derrota na eleição chegou ao extremo da insanidade: ele pegou toda a documentação do Dom Bosco, inclusive fotografias de importantes eventos de maior realce do clube, amontoou sob uma mangueira na sede social do azulão no Morro da Colina Iluminada, embebeu em álcool que mandou um empregado comprar e meteu fogo. “Eu vou embora Dom Bosco, mas levo a sua história comigo...” – repetia Lino Miranda, enquanto a papelada virava cinzas e ele caminhava para porta de saída do clube pela última vez...

         
        
       

   

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