![]() |
| A Rainha Sarita, com Renatinho, neto de Rubens dos Santos e 1º mascote do Operário. (Foto: acervo Zé Pulula) |
Fundado no dia 1º de maio de 1949, com as bênçãos do bispo dom Campelo de Aragão, que tinha vindo de Goiás para criar em Mato Grosso vários Círculos Operários, considerados uma versão urbana das Ligas Camponesas que Francisco Julião, do Partido Comunista Brasileiro, espalhava Brasil afora, principalmente pelo Nordeste, o Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, virou logo uma paixão da população de Várzea Grande. E esse era o objetivo do Círculo Operário: agrupar para fortalecer os trabalhadores.
Mas era preciso reforçar a aglutinação da torcida e não ficar restrita só ao futebol. Surgiu, naturalmente, a ideia de se construir uma sede social para promover festas que atraíssem toda a sociedade várzea-grandense, que, a exemplo da de Cuiabá, não tinha muitas opções de lazer. Porém, a construção de uma sede social custaria muito dinheiro, que o clube não tinha.
Foi aí que surgiu outra ideia: a realização de um concurso de beleza para eleição da Rainha do Clube Esportivo Operário Várzea-grandense e cuja vencedora seria a que vendesse o maior número de votos. O dinheiro apurado com a venda de votos das candidatas seria totalmente investido na construção da sonhada sede social do clube.
Para surpresa da sociedade várzea-grandense nada menos que seis jovens se candidataram ao concurso de Rainha do CEOV. E o dinheiro começou a entrar no clube. Sucesso à parte da grande promoção social, a surpresa maior e mais agradável estava ainda por vir: na reta final do concurso ficaram duas candidatas disputando o título (Sarita Baracat e Luzia Marques de Arruda) com a entrada em cena dos dois maiores rivais da política de Várzea Grande -- a UDN (União Democrática Nacional) e o PSD (Partido Social Democrático).
Melhor para o Operário: a UDN, liderada por Benedito Gomes da Silva e Gonçalo Botelho de Campos, dois pesos pesados da política de Várzea Grande, e o PSD, com Licínio Monteiro da Silva e Júlio Domingos de Campos, o seu Fiote, dois caciques do partido, decidiram engalfinharem-se também no esporte, investindo pesado nas duas candidatas, com os udenistas apoiando Sarita e o pessedistas, Luzia.
Resultado da rivalidade que desaguou numa briga política dentro do esporte: com o dinheiro da promoção do concurso de beleza, o Operário construiu uma bela e espaçosa sede social que ficava na Avenida Couto Magalhães, esquina com a Rua Miguel Leite, e ainda sobrou dinheiro para o clube investir no time de futebol – lembra com saudades daqueles tempos a Rainha eleita, Sarita Baracat.
A sede social do Operário foi palco de memoráveis festas, inclusive carnavalescas, que sacudiam a sociedade várzea-grandense. Artistas consagrados como Nelson Gonçalves, Agnaldo Timóteo, Lindomar Castilho, Jerry Adriani e até a popozuda Gretchen animaram bailes do Operário e que não terminavam antes do sol raiar.
Claro que muita gente de Cuiabá e até da Baixada Cuiabana participava das monumentais promoções sociais do tricolor, porem, disfarçadamente, por causa da rivalidade que sempre existiu entre várzea-grandenses e cuiabanos e que extrapolava ao futebol. E o dinheiro jorrava nos cofres do CEOV, através de suas promoções e também do seu quadro associativo.
Irmã de Rubens dos Santos -- que aboliu o Baracat do nome – mandachuva de primeira hora do CEOV, Sarita Baracat, hoje com 85 anos de idade, participou ativamente da vida do tricolor desde a sua fundação. Ela foi inclusive secretária do clube durante 15 anos, período em que reinou também como uma espécie de Rainha do tricolor.
Mesmo depois de se enveredar pela política – foi vereadora de Várzea Grande de 1957 a 1961, a primeira prefeita municipal (de 1967 a 1970) e também a primeira deputada estadual de Mato Grosso, eleita em 1979 -- Sarita continuou participando ativamente da vida do Operário, cujo velho hino sabe de cor até hoje. Foi sob sua administração que o Operário conquistou o tricampeonato profissional em 67, 68 e 69.
Lembra Sarita que o primeiro centenário de emancipação política de Várzea Grande em 1967 foi comemorado na administração de uma prefeita, a dela. E agora, quando Várzea Grande festejou a data histórica de 150 anos, o município está de novo sob o comando de uma mulher, Lucimar Campos.
Sarita recorda até do primeiro jogo que o Operário disputou em Cuiabá, no antigo Colégio Estadual – hoje Liceu Cuiabano Maria de Arruda Muller – e que tricolor perdeu pelo placar de 10x1. O nome do adversário ela não se lembra mais. Nesse dia – vem a sua memória também -- outro fanático torcedor tricolor, Licínio Monteiro da Silva, ficou tão furioso que chutava até a própria sombra no campo e só se acalmou quando no final do jogo Tatu marcou o golzinho operariano.
Muito ligada desde criança ao futebol, Sarita acabou se casando com um jogador de bola, Emanuel Benedito de Arruda, o Caboclo, que foi vereador e inclusive presidiu a Câmara Municipal de Várzea Grande em 1972. O cunhado de Sarita, João Garrucha, também foi político e jogador de futebol.
Sobre João Garrucha, segundo dizem, muita gente não gostou do fato de ele ter sido sepultado com a primeira bandeira do Operário, cujas letras estampadas no pavilhão tricolor comprovam que o primeiro nome da equipe várzea-grandense foi mesmo Operário Futebol Clube, com o Clube Esportivo Operário Várzea-grandense (CEOV) vindo depois.
A professora Mari Conceição Costa Campos não se lembra o ano em que um diretor do Operário chegou a sua casa, pedindo-lhe que desse os retoques finais na bandeira do clube. Era a primeira bandeira do tricolor e o trabalho tinha que ser feito com urgência. Mari nem costureira era na época – estava com 18 anos -- mas aceitou a incumbência. A bandeira já estava pronta, só faltavam alguns arremates, entre os quais, pregar as letras das iniciais do clube e cujas cores eram verdes – disso ela se recorda com certeza...
Do passado glorioso do CEOV e cuja brilhante história ajudou a construir, Sarita guarda uma mágoa: um clube que já teve uma sede social como a do Operário e começou até a implantar sua Vila Olímpica, no Carrapicho, numa área de 38 hectares, não ter hoje nem um campinho próprio para treinar...

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Se você leu, comente o que achou