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sábado, 27 de outubro de 2018

Uma provocação fez surgir o Luverdense, um papa-títulos do futebol mato-grossense

 Agrishow Cerrado de 2003 em Rondonópolis: empresários e fazendeiros traçavam um caprichado churrasco no estande do Grupo Girassol, a convite do seu dono, Gilberto Goellner. Entre os participantes da roda e que nunca fazia uma desfeita ao anfitrião – o grande evento anual do campo em Rondonópolis foi de 2002 a 2006 – o prefeito e empresário de Lucas do Rio Verde, Otaviano Pivetta, e seus dois amigos e produtores rurais no município: Helmute Lawisch e Egídio Vuaden.

Conversa vai, conversa vem, lá pelas tantas, quando alguém fez uma comparação sobre os dois importantes municípios, um empresário rural de Rondonópolis – Pivetta acha que foi Roberto Poleto e não Blairo Maggi, como se comenta até hoje – fez uma observação que não agradou os luverdenses: “Lá em Lucas do Rio Verde não tem nem time de futebol!...”

Pivetta entendeu a brincadeira como uma provocação. E foi curto e grosso: “Aproveitem que acabou!...” – deixando claro que o União, tradicional clube de Rondonópolis, passaria a ter mais um duro adversário pela frente no futebol de Mato  Grosso...”

A decisão de se fundar um clube de futebol profissional em Lucas do Rio Verde foi tomada na viagem de volta. E coube a Helmute Lawisch, por indicação de Pivetta, saem direito à recusa, levar o projeto adiante. Helmute convocou uma reunião com o empresariado do município e com os principais produtores rurais para explicar que Lucas do Rio Verde precisava levar seu nome além das divisas do Estado e o futebol era o caminho mais curto para se alcançar esse objetivo.

Com o nome de Luverdense Esporte Clube, a agremiação foi fundada no dia 24 de janeiro de 2004. Com o dinheiro que jorrava da classe empresarial e da soja, do milho (duas safras) e do algodão, o Luverdense montou um time poderoso e já em 2004 ganhou a Copa Governador de Mato Grosso, repetindo a façanha em 2007 e 2011.

Percebendo que o Luverdense não estava para brincadeira, o presidente da Federação Mato-grossense de Futebol, Carlos Orione, foi a Lucas do Rio Verde, almoçou com Pivetta e Lawisch e decidiu que o clube já disputaria em 2004 o Campeonato  Mato-grossense de Futebol da 1ª Divisão.

Mas para disputar o certame estadual, o estádio municipal de Lucas do Rio Verde, que era simplesmente um campo de futebol, precisava de alguma infra-estrutura. Pivetta fez a sua parte: investiu cerca de R$ 250 mil de recursos do município, transformando completamente o hoje Estádio Passo das Emas, cuja capacidade de público foi elevada para 10 mil pessoas.

Por exigência da Confederação Brasileira de Futebol, o Passo das Emas passou outras reformas em 2017, quando o Luverdense disputou pela primeira vez a Série B do Campeonato Brasileiro, repetindo o feito em 2018, mas caindo para a Série C. Com a ampliação, o estádio municipal aumentou sua capacidade de público para 19 mil espectadores.

Nessa curta existência, o Luverdense ostenta um tri-campeonato da Copa Mato Grosso (2004, 2007 e 2011), um tri estadual (2009, 2012 e 2016), foi campeão invicto da Copa Verde (2017). Foi também campeão da Copa Pantanal, em 2011, torneio que contou com a participação do Cuiabá, Internacional-RS e Cruzeiro-MG.

Eleito o primeiro presidente do Luverdense, Helmute Lawisch vem sendo reconduzido ao cargo em todas as eleições nesses 14 anos de vida do clube. Em 2014, depois da morte de Carlos Orione, ele assumiu a presidência da FMF por um período de cerca de oito meses, passando o cargo no Luverdense ao seu vice, Jaime Binfeld.

Quanto ao União, que de forma indireta deu origem à criação do Luverdense, tem apenas um título estadual, conquistado em 2010, apesar de sua idade (45 anos) – foi fundado em 6/6/1973. A promessa feita por Pivetta de que o União passaria a ter mais um adversário difícil no futebol mato-grossense, por causa de uma provocação, está sendo cumprida à risca...        

sábado, 20 de outubro de 2018

Árbitro-policial dava tiros de dentro do carro só para assustar os dorminhocos...



Cipó: 20 anos trabalhando com meninos e
 adolescentes 
O juiz Serafim Medeiros, que integrou o Departamento de Árbitros da FMF, na década de 1990 – atividade que conciliava com a de policial civil -- cultivava um hábito que quem viajava com ele para trabalhar no interior detestava: apontar o cano de seu revólver para fora do carro e fazer seguidos disparos só para assustar os dorminhocos. Enquanto os mais assustados só faltavam pular dos carros em que viajavam, pensando que estavam no meio de um tiroteio, Medeiros quase morria de rir...   

Também dessa época, José Roberto Feitosa Soares, o Cipó, afirma que seus companheiros de viagem ficavam putos da vida com Medeiros, mas não com raiva dele por causa da mania dos tiros e dos sustos. “Naquele tempo tudo era farra, diversão e brincadeira. Para complicar a vida dos companheiros, nas viagens o pessoal da FMF chegava a passar, às escondidas, batom nas cuecas dos casados para vê-los metidos em encrencas da grossa em casa. Era só para sacanear mesmo!...” – afirma Cipó.

Outra brincadeira comum naqueles bons tempos do futebol romântico entre o pessoal da FMF – juízes, bandeirinhas, delegados da entidade, tesoureiros – era colocar gatos das cidades onde trabalhavam dentro das bolsas dos companheiros. Quando as viagens eram feitas em ônibus de linha, de vez em quando um gato escapava das bolsas e provocava tumultos entre os passageiros...

Na sua militância no Departamento de Árbitros – entre 1988/1999 – Cipó passou por muitas situações engraçadas. Uma delas: em 1998 ele atuava como bandeirinha de Gílson Rodrigues no jogo entre Barra do Garças e Operário Várzea-grandense no Estádio Zeca Costa. A certa altura do jogo, Rodrigues expulsou de campo Jackson, do clube barragarcense. Mas antes de sair de campo, Jackson se aproximou do juiz e rasgou sua camisa.

Já sentado na arquibancada, Jackson decidiu se vingar de Cipó que nada teve a ver com a sua expulsão. Ele saltou o alambrado, aproximou-se sorrateiramente de Cipó e de repente pulou com os dois pés nas costas do bandeirinha. Mesmo surpreendido, Cipó reagiu e deu uma certeira bordoada nas costas do seu agressor com a sua bandeirinha.

Claro que Jackson sentiu a pancada. E como sentiu! Até porque o objeto em que a sua bandeirinha especial estava pregada, não era de madeira ou plástico, mas de ferro puro. Sim, de ferro puro e que Cipó sempre preparou em sua casa para impor respeito à boleirada, quando estava bandeirando. E como impunha!...

Por causa dos dois episódios em um só jogo – a expulsão e a agressão a Cipó e que lhe custou uma dolorida pancada no lombo – Jackson foi punido com uma suspensão de 120 dias. Mas nunca mais quis saber de conversa com Cipó, quando ele estava com um apito na boca ou uma bandeirinha nas mãos...

Desde 2005, o orientador social Cipó vem executando, através de sua escolinha de futebol Associação Cristo Rei, criada há mais de duas décadas,  um programa de cunho social, trabalhando com 70 meninos e adolescentes,  na Cohab Jaime Campos, em Várzea Grande. O trabalho de Cipó é  desenvolvido no principal campo de futebol do bairro, o “Sílvio Manoel Gomes”, de onde ladrões já levaram tudo dos vestiários, até as mangueiras que eram utilizadas para molhar a grama.

As atividades no período matinal, com a participação de cerca de 35 garotos (dos seis aos 13 anos), começam às 7h30 e se estendem até as 11h30, com um rápido intervalo para um lanche. No período da tarde, o trabalho, com igual número de participantes (dos seis aos 16 anos), vai das 13h30 até as 17h30, também com direito a um lanche. Para ajudar no lanche da garotada, Cipó recebe mensalmente da prefeitura de VG R$ 1.000,00.

O objetivo de Cipó não é revelar jogadores, mas, sim, ocupar o tempo dos garotos com atividades sadias e atraentes, como práticas esportivas, como o futebol. Além da preparação física, recreação, “rachas”, a garotada recebe instruções sobre regras de futebol e de comportamento dentro e fora de campo. “A nossa preocupação é formar pessoas íntegras para que sejam bem-sucedidos na vida” – afirma Cipó.

Mas se alguém se destacar na escolinha, Cipó pode indicar e até levar as revelações para o Paraná Clube, de Curitiba, de quem é uma espécie de “olheiro” em Mato Grosso. Ou para a empresa Futtalents (Futebol e Talento) também de Curitiba. A Futtalents acaba de nomear Cipó seu representante para Mato Grosso e a região.

 – Mas mandar “aranhas” (jogadores pernas de pau) para eles é tempo perdido – diz Cipó, que além de trabalhar com a garotada de sua escolinha, tem uma academia desportiva de futebol na Cohab Cristo Rei, criada desde que ele se afastou de sua empresa de construção civil por causa de sua idade. Cipó está com 64 anos e nem pensa em parar de mexer com o futebol de sua escolinha.  "Essa escolinha é a minha vida..."  – garante Cipó.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Duplo calote de Juan Rolon nos jogadores do Palmeirinhas após vitória sobre o União...


O Palmeiras jogava com o União, no ainda acanhado Estádio Engº. Luthero Lopes, em Rondonópolis, pelo Campeonato Mato-grossense de Futebol da 1ª Divisão de 1984 ou 1985. Com o incentivo de sua torcida, o União saiu na frente no placar. Mas aos poucos o alviverde do Porto foi se impondo em campo e acabou virando o resultado para 3x1, a seu favor, para decepção dos torcedores colorados.

Eufórico com o triunfo na casa do adversário, o então presidente do Palmeiras, Juan Rolon, entrou no vestiário para dar duas boas notícias aos jogadores: o “bicho” pela vitória seria pago no dia seguinte, às 18 horas, no Dutrinha. E mais: o clube ia comemorar a vitória com uma churrascada na casa do treinador de goleiros Washington, no bairro Coophamil. Os jogadores podiam levar esposas, namoradas, filhos, convidados...

Alguns jogadores ponderaram que o local escolhido para o churrasco não era o ideal, porque os jogadores não possuíam carro. Mas Rolon resolveu o problema de transporte na hora: naquele horário, um ônibus especial estaria no Dutrinha para conduzir a boleirada para o Coophamil e depois levá-los de volta para suas casas...

Antes das 18 horas alguns jogadores começaram a chegar ao Dutrinha para receber o prêmio pela vitória e esperar à hora de cair na gandaia. Entre os palmeirenses, inclusive jogadores do Mixto, seus convidados. Alguns chegavam com violões, cavaquinhos, pandeiros, etc. A churrascada comemorativa dos 3x1 ia ser mesmo uma festa de arromba...

Recorda um palmeirense, que alguns jogadores do alviverde e seus convidados mais animados disfarçadamente sacavam dos bolsos umas pitadinhas de sal e colocavam na língua para  a cerveja descer melhor, ficar mais saborosa...

Deram 18 horas, 18h30 e nada do tal do tal ônibus chegar ao Dutrinha. Também não aparecia, e muito menos dava notícias, Juan Rolon. A boleirada começou a ficar meio cabreira. Quem estava comendo sal, tratou de saciar a sede com água, porque cerveja que era bom...

Já passava bem das 19 horas quando Juan Rolon finalmente apareceu no Dutrinha. Mas ao invés de estar ao volante do seu imponente carrão Diplomata no qual desfilava pelas ruas de Cuiabá e Várzea Grande, o presidente estava em um fusquinha sujo e derrubado. Aliás, teve muita gente nem viu Rolon chegar, pois já havia picado a mula, convencida de que havia entrado numa fria...

O presidente palmeirense desceu do carro, chamou o técnico Admir Moreira para uma rápida conversa em particular, em seguida saiu de fininho, entrou no fusquinha e caiu fora, deixando para o seu treinador a ingrata tarefa de dizer aos jogadores e seus convidados que o churrasco estava emergencialmente cancelado. A festa de arromba ficou para o dia de “São Nunca” e quanto ao pagamento do “bicho” pela vitória contra o União, os jogadores continuam esperando até hoje...
                      

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Uma declaração de Helmute acabou com a lenda sobre Pivetta como implacável goleador...

Otaviano Pivetta: fim de uma lenda como jogador.

Ninguém sabe -- nem o próprio Pivetta – como chegou ao estande do Grupo Girassol, na área da Agrishow Cerrado, realizada de 2002 a 2006 em Rondonópolis, a lenda de que ele, na sua juventude, tinha sido um grande jogador de futebol profissional, com uma passagem brilhante pelo Gaúcho, de Passo Fundo-RS. Mais do que bom de bola – dizia-se  Pivetta era um implacável goleador, um terror dos goleiros...

Quatro vezes prefeito de Lucas do Rio Verde – 1997/2000, 2000/2004, 2005/2008, 2013-2016 – Otaviano Pivetta comparecia religiosamente todos os anos a Agrishow Cerrado para conhecer suas novidades. E nunca deixou de dar uma passada no estande do Grupo Girassol, onde sempre era recebido, com seus acompanhantes, com um caprichado churrasco, pelo dono da empresa, Gilberto Goellner.

Oriundos do Rio Grande do Sul – Pivetta é de Caiçara e Goellner de Não-Me-Toque – os dois se tornaram bem sucedidos empresários do agronegócio em Mato Grosso. E se enveredaram também pela política. Goellner foi senador, como suplente de Jonas Pinheiro, morto em 2008, e saiu de cena ao final do mandato. Mas Pivetta continua na ativa política e acaba de ser eleito neste 2018, vice governador do Estado na chapa de Mauro Mendes.

Pivetta, que desde criança ganhou o apelido de Gordo Pivetta, descobriu numa dessas visitas ao Grupo Girassol que era do estande de Goellner que se espalhava a sua fama de goleador do Sport Clube Gaúcho, fundado em 12/5/1918 e cuja maior façanha no futebol gaúcho até hoje foi ganhar os campeonatos da 2ª divisão de 1966, 1977 e 1984. E era como Gordo Pivetta que ele se transformara no terror dos adversários.

Em princípio, Pivetta chegou a pensar em desfazer o equívoco. Mas o pessoal do estande falava com tanto entusiasmo de suas virtudes técnicas como boleiro do Gaúcho, que ele decidiu deixar pra lá. O mais empolgado nas apresentações que fazia de Pivetta no estande ou então nas suas andanças pela área da Agrishow Cerrado era justamente Goellner. Na realidade, no íntimo até que Pivetta estava gostando – como ele mesmo admite – dos momentos de glória que desfrutava no grande evento do agronegócio em Rondonópolis, passando-se por um grande craque de bola...

Mas um dia – sempre tem um dia... – justamente no estande do Grupo Girassol, quando um grupo comentava as proezas do goleador do clube passo-fundense, apareceu na roda Helmute Lawisch, produtor rural de Lucas de Rio Verde, que sempre acompanhava Pivetta na Agrishow Cerrado e que não conhecia a história do amigo-goleador que corria pelo interior do parque de exposições.

Lawisch foi curto e grosso: “Isso é conversa fiada... o Pivetta nunca jogou futebol e se jogou deve ter sido um perna de pau daqueles...” – afirmou com convicção, para espanto dos presentes.

– Nesse dia, o Helmute acabou para sempre com a minha lenda – reclama Pivetta, dando gargalhadas...       

sábado, 29 de setembro de 2018

Juiz que não usava cueca foi soltar um pum em pleno jogo e encheu a bermuda... de merda


Ewller dos Reis Brás, o Pirata, que foi contemporâneo de muitos juízes da velha guarda que marcaram época no futebol mato-grossense – Elói Natalino Nascimento, Mário Martins Rodrigues, Miguel Arruda, Wilson Eraldo Silva, Salim Gonçalves, Orlando Antunes de Oliveira, Benedito Pio dos Santos, os irmãos Gílson e Geson Rodrigues e tantos outros –, sempre foi um gozador de marca maior. Com ele não tinha tempo ruim, estava sempre de bem com a vida, pronto para aprontar alguma travessura...   

Para começo de conversa Pirata, que adorava apitar futebol – quando não era escalado pela FMF para trabalhar nos finais de semana dava um jeitinho de arrumar uma boquinha em jogos entre amadores ou simples “peladas” – não usava cueca de jeito nenhum.  “A qualquer hora você pode entrar numa fria...” – advertiam o juiz seus amigos mais chegados, mas ele não levava em conta as ponderações.

Um dia, Pirata, que faleceu faz muito tempo, apitava no mini estádio do bairro Pedregal ou Planalto um jogo de campeonato amador. De repente, ele sentiu vontade de soltar um pum. E mandou ver... e só  quando ele sentiu uma quenturinha escorrendo pelas suas pernas se deu conta que havia enchido sua bermuda... de merda!

Nisso, um forte pé-de-vento passou pelo campo, com o redemoinho deslocando na direção de Pirata uma página de jornal velho. Ele não vacilou: pegou o jornal e começou a se limpar ali mesmo, onde estava.

E para não mostrar a bunda para a torcida, abaixando a bermuda, o juiz ia fazendo a higiene de traz para frente, espalhando disfarçadamente pedaços de papel sujos de merda por onde passava correndo...

Muitos torcedores perceberam o que estava acontecendo dentro do campo e começaram a se manifestar ruidosamente, uns aplaudindo, outros vaiando o caradurismo do árbitro. A torcida se divertia, dando gargalhadas...

Diante do ineditismo da situação, alguns jogadores sugeriram que Pirata se dirigisse ao vestiário para fazer uma higiene completa para se livrar do mau cheiro da merda. Mas ele se recusou: “O jogo é de campeonato, não pode parar! Continuem jogando...”

domingo, 23 de setembro de 2018

Gente boa, José da Silva ganhou notoriedade como árbitro por causa de suas trapalhadas...


 Simplesmente, José da Silva -- este o nome de um árbitro que passou pela Federação Mato-grossense de Futebol, entre o crepúsculo da década de 1970 e o limiar da de 1980 e que se tornou famoso nos meios esportivos não porque era um astro na arte de apitar futebol, mas pelas trapalhadas que aprontava dentro de campo. Ninguém sabe que fim levou José da Silva, nem se está vivo ainda ou já subiu para o andar superior...

-- Era uma pessoa muito legal, divertida, mas como juiz de futebol, um desastre – afirma um velho funcionário da FMF.

Outra pessoa que conheceu bem José da Silva é o ex-árbitro Orlando Antunes de Oliveira, com longa passagem pelo futebol do Paraná, de Mato Grosso e de Mao Grosso do Sul e hoje cronista esportivo radicado em Cuiabá. José da Silva trabalhou como bandeirinha em alguns jogos apitados por Orlando Antunes, inclusive em um amistoso em 1977 no Verdão entre Mixto e Grêmio Porto-alegrense e cujo resultado foi um empate pela contagem mínima – recorda o ex-juiz.

-- Sujeito muito legal, o José da Silva trabalhava direitinho como bandeirinha, porém como árbitro era um Deus nos acuda. Desengonçado, ele tinha um jeito muito esquisito de correr com a bandeirinha nas mãos e por isso era chamado de “Trote de Vaca...” – afirma Antunes.     .   

Numa quarta-feira à noite, José da Silva apitava no Verdão, um jogo oficial do Campeonato Mato-grossense de Futebol. De repente, José da Silva começou a fazer gestos com os dois braços, suspendendo a partida. Todo mundo correu na sua direção para saber o que estava acontecendo e ele explicou: havia perdido o apito. Isso mesmo!

Os jogadores dos dois times, entre os quais Bife, que na época jogava no Mixto ou no Operário Várzea-grandense, delimitaram uma área por onde José da Silva tinha corrido nos últimos minutos e passaram a ajudar o árbitro a procurar o apito.

Mas com a grama alta do Verdão e a pouca luminosidade dos refletores, nada do danado do apito aparecer. Alguns jogadores chegaram a dizer que aquilo era coisa do diabo...

Para sorte do juiz, alguém da mesa da FMF apareceu com um apito e o emprestou a José da Silva. Encerrada a partida, ainda no campo, um jogador abaixou o meião, pegou o apito que o juiz havia perdido e o entregou ao seu dono: ele havia achado o objeto, mas o escondeu no seu uniforme, por pura sacanagem...       
     

sábado, 15 de setembro de 2018

Wilson Eraldo da Silva: uma carreira curta como árbitro profissional, mas muitas histórias para contar...


Wilson Eraldo da Silva
 Nos seis anos em que trabalhou como juiz da Federação Mato-grossense de Futebol -- de 1987 a 1992 – e ainda hoje mexendo com arbitragem na Secretaria de Estado de Esportes e Lazer (Sedel) dos Jogos Estudantis de Mato Grosso, Wilson Eraldo da Silva tem muitas histórias para contar. Principalmente do período de militância na FMF, com seguidas andanças pelo interior. Eram tempos difíceis, mas muito divertidos também...

Lembra Wilson Eraldo que o pessoal que era escalado pela FMF para trabalhar em jogos aos domingos em Juara – 709 km de Cuiabá – o juiz, os dois bandeirinhas, chamados hoje de assistentes, o delegado (representante) da entidade e o financeiro saía na sexta-feira, porque se o ônibus de linha quebrasse, a equipe corria o risco de ter que esperar o do dia seguinte para completar o percurso. Com as condições precárias das estradas de chão, as viagens para aquela região do Médio Norte eram verdadeiras aventuras...   

Como aconteceu uma vez uma vez com o Dom Bosco, que saiu de Cuiabá no sábado pela manhã para jogar em Juara no dia seguinte, com arbitragem de Wilson Eraldo. O sol já ia alto no domingo e nada do azulão dar as caras na cidade. A diretoria do time da casa já estava preocupada, quando apareceu um viajante com um recado para os juarenses: a delegação dombosquina estava na beira da rodovia dava acesso a Juara esperando socorro para terminar de chegar.

O socorro que o Dom Bosco precisava: cinco pneus em boas condições de tráfego, porque os cinco já substituídos durante a viagem não tinham a mínima condição de continuar rodando. Arrumaram um caminhão de serraria para carregar toras de árvores e despacharam para socorrer o azulão...

Terminada a troca, lá se foram os jogadores em meio aos cinco pneus para Juara, pois o pequeno bagageiro do ônibus já estava lotado com o material esportivo do clube e a malas e mochilas da delegação.

Nesse dia, os dombosquinos tiveram que correr 90 minutos com fome, porque o jogo tinha que começar mais cedo e seria uma temeridade a moçada almoçar, fora do horário normal, e logo depois o time entrar em campo para jogar bola...

Desse histórico jogo do Dom Bosco, Wilson Eraldo lembra que o azulão venceu por 3x0, na maior moleza. E a turma do clube dombosquino saiu de campo feliz da vida, não apenas com o resultado favorável, mas também porque a moçada não ia ter problema para retornar a Cuiabá, pois um diretor alviceleste havia conseguido com o presidente da FMF, o falecido Carlos Orione, antes da viagem, um empréstimo pessoal de R$ 700,00, que garantiu o jantar antes da volta e o tanque cheio do velho ônibus...

Em outro jogo que foi apitar em Juara, antes do jantar no próprio hotel onde o trio de arbitragem estava hospedados, Wilson Eraldo pediu que os seus dois auxiliares – Elói Natalino do Nascimento e Miguel Arruda, este já falecido – se comportassem com a máxima discrição possível, para não serem reconhecidos. O anonimato era uma questão de prudência para segurança deles – justificou o árbitro.

Mas na hora que foi temperar sua salada, Wilson Eraldo notou que os saleiros da mesa estavam entupidos, por causa da umidade. Ele se serviu e não perdeu a oportunidade para, com a cumplicidade de Elói Natalino, sacanear Miguel Arruda: afrouxou a tampa do saleiro e ficou só observando o que ia acontecer. Quando Miguel colocou a salada no prato e virou o recipiente com o tempero, encheu o prato de sal. Wilson e Natalino caíram na risada...

Miguel foi trocar de prato, claro, e Wilson Eraldo advertiu-o: “O restaurante vai te cobrar duas refeições...”

Depois de jantar, Miguel foi palitar os dentes e novamente acabou sendo  vítima de peraltice da dupla. Ao virar o vidrinho de cabeça para baixo, foi aquele esparramo de palitinhos sobre a mesa, pois a tampa do recipiente também havia sido afrouxada. E aí não tiveram como esconder mais quem eram eles, pois muita gente que estava jantando nas imediações dos três percebeu a mancada e começou a dar gargalhadas...

Considerado um árbitro “durão”, Wilson Eraldo afirma que tem boas recordações dos tempos que apitava e trabalhava como assistente no interior, pois sempre foi tratado com respeito e consideração pelos clubes. Em Juara, por exemplo, os dirigentes do União Esporte Clube Juara sempre providenciavam condução para levar o pessoal da FMF para o estádio que se chamava Zé Paraná, em homenagem a José Pedro Dias, fundador da cidade e colonizador do município.

Mas quando isso não acontecia, o pessoal da FMF ia e voltava a pé para o estádio, cobrindo uma distância de cerca de quatro quilômetros nos dois trajetos. Wilson Eraldo explica porque a turma preferia a caminhada: se uma passagem de ônibus de Cuiabá a Juara custava R$ 100,00, os taxistas cobravam R$ 80,00 para fazer o trajeto hotel-estádio e vice-versa...

No decorrer de sua carreira como juiz de futebol, Wilson Eraldo testemunhou muitas cenas hilariantes que passaram para a história do futebol mato-grossense. Como uma que aconteceu no Verdão em um clássico entre Mixto e Operário, pelo Campeonato Mato-grossense, na década de 1980.

O jogo transcorria normalmente, quando aos 40 minutos do 1º tempo, o zagueiro mixtense Miro deu um “carrinho” por trás em um atacante do tricolor várzea-grandense. Lance digno de expulsão. O juiz Gílson Rodrigues marcou a falta e meteu a mão no bolso para puxar o cartão vermelho, mas não achou nada. Chamou, então, o arbitro reserva, cujo nome ele não se lembra, que não estava também com os cartões amarelo e vermelho. Gilson recorreu então aos dois auxiliares José Roberto (Cipó) Feitosa Soares e Salim Gonçalves, que tinham esquecido em casa seus cartões...

Só lhe restou uma saída: interromper o jogo, que terminou empatado por 0x0, e correr até o vestiário dos árbitros para pegar o cartão para punir Miro. Mas demorou tanto para achar os cartões que deveriam estar no seu bolso e também e nos dos seus três auxiliares, que Gílson Rodrigues, meio sem graça, mostrou apenas cartão amarelo para Miro...

Outra hilária história que Wilson Eraldo testemunhou: a delegação de juízes de futebol da Sedel chegou a Alta Floresta, no norte do Estado, para apitar a modalidade dos Jogos Estudantis de Mato Grosso. Uma viagem cansativa de mais de 800 quilômetros pela BR-163 e pela MT-419, bem esburacadas nos velhos tempos...

Logo na chegada da delegação ao local onde o pessoal ia ficar alojado havia um recado da FMF – naqueles velhos tempos não existia ainda celular – na portaria do hotel: o juiz Mário Martins Rodrigues, o Xuxa, devia pegar o primeiro ônibus e voltar para Cuiabá, pois havia sido escalado pela CBF para atuar como assistente no final de semana no Maracanã, no Rio de Janeiro, no jogo entre Botafogo e São Paulo pelo Campeonato Brasileiro da Série A. O juiz foi Antonio Pereira da Silva, de Goiás, e o São Paulo ganhou o jogo por 3x1.

Claro que Xuxa chiou. Mas seu companheiro de profissão, Ewller dos Reis Brás, o Pirata, um gozador de marca maior, deu-lhe a maior “força”: “O máximo que pode acontecer, Xuxa, é seu avião cair no pantanal de Mato Grosso ou de Mato Grosso do Sul e você acabar sendo comido por jacarés ou por uma onça pintada...”  Pirata já subiu para o andar superior faz muito tempo... – lamentam  seus amigos.      
           

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Orione obrigou juiz e bandeirinha a devolverem dinheiro de suborno do União

Cipó entre Valdir da Silva Almeida (a sua direita)
e Émerson Coelho
O União ia disputar um jogo importante contra o Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, no Estádio Luthero Lopes, em Rondonópolis, pelo Campeonato Mato-grossense de Futebol. A partida transcorreu normalmente e foi vencida pelo tricolor por 1x0. Um dos bandeirinhas foi José Roberto Feitosa Soares, o Cipó, que não notou nada de anormal durante o jogo.

Quando o trio de arbitragem entrou no vestiário no final da partida, o juiz -- cujo nome não vem ao caso, bem como o do outro bandeirinha -- ergueu sua bolsa que estava sobre um banco, e anunciou para os dois companheiros: “Deixaram aqui uns trocados pra gente tomar água mineral... eu fico com a metade e vocês dois dividem a outra parte!...” Os trocados somavam R$ 180,00, valor que o juiz já sabia, claro...

-- Eu não quero saber disso, gente. E tem mais: vou denunciar vocês dois à nossa Federação. Fui bem claro?...

Como nos velhos tempos – Cipó militou no Departamento de Árbitros da FMF de 1988 a 1999 – era muito comum juízes e bandeirinhas aceitarem suborno de clubes, a dupla que trabalhou com ele naquele jogo não levou a sério a sua ameaça.

Não deu outra: na segunda-feira seguinte ao jogo, a primeira coisa que Cipó fez foi procurar o presidente da FMF, Carlos Orione, e denunciar os dois corruptos. 

Imediatamente, Orione convocou uma reunião entre os três e como no “olho no olho” a dupla não teve como negar acusação de Cipó, o dirigente da entidade determinou que os dois devolvessem o dinheiro recebido do clube, o que foi feito e comprovado posteriormente, para escaparem de uma punição rigorosa...

Essa não foi a única vez que Cipó se viu envolvido em um caso de suborno. Há muitos anos, ele foi apitar no Estádio Geraldão um jogo entre o Cáceres Esporte Clube e o Vila Aurora, de Rondonópolis. Terminado o primeiro tempo, Cipó foi para o vestiário e, de repente, apareceu um dirigente do clube da casa e conhecido como Pacu, que se aproximou dele e enfiou a mão no seu bolso...

Surpreendido e julgando que o dirigente estava com más intenções com aquela atitude estranha e muito suspeita, Cipó prendeu com força no bolso de sua bermuda a mão do abusado diretor e gritou o nome do delegado da FMF naquele jogo e que tinha entrado também no vestiário, para testemunhar o que estava acontecendo para não ficarem dúvidas sobre aquela inusitada cena, que poderia ser vista por outras pessoas...

Meio desconcertado, o dirigente do Cáceres esclareceu a sua atitude: ele havia enfiado a mão na bermuda de Cipó não com a intenção que o juiz estava suspeitando, mas simplesmente para deixar um agradinho para ele. Em seguida, tirou a mão do bolso de Cipó e a abriu, mostrando um pacotinho de cédulas de dinheiro num total de R$ 500,00... 

O agradinho que o Cáceres quis dar ao juiz custou caro ao dirigente. Denunciado ao Tribunal de Justiça Desportiva da FMF, com base no relatório do árbitro Cipó, Pacu pegou uma suspensão de 180 dias... 

sábado, 1 de setembro de 2018

Autógrafo de Pelé a Beleza em guardanapo chique provocou reação de dona de hotel de Cuiabá...

 Beleza nos tempos do Santos e agora (Arquivo Google)
Quando esteve em Cuiabá em 1998 para lançar para o Projeto Siminino no Estado, o ministro do Esporte, Édson Arantes do Nascimento, o lendário Pelé, voltou a encontrar um velho companheiro dos tempos dos dois no Santos Futebol Clube, durante o almoço no Hotel Fazenda Mato Grosso, no Coxipó: o lateral direito Luiz Carlos Beleza.

Claro que o zagueiro, que depois que deixou o Santos e jogar pelo Juventus, veio para Mato Grosso, onde jogou no Mixto, Dom Bosco e Operário, não perdeu a oportunidade e pediu um autógrafo para Pelé. O ex-companheiro não se fez de rogado e à falta de alguma coisa mais apropriada, tascou a dedicatória em um dos chiques guardanapos do restaurante do hotel,

A dona do hotel não gostou da atitude do famoso craque. Mas Beleza tentou convencê-la que o autógrafo no guardanapo era um prestígio para o seu hotel. “Afinal, o Pelé é o Rei do futebol mundial...” – disse-lhe Beleza. Ela sabia quem era Pelé porém não sabia que os dois personagens do autógrafo já haviam jogado juntos no famoso clube santista. 

O apelido que Luiz Carlos incorporou ao prenome e que nada tem a ver com as suas características físicas, tem uma explicação: nos jogos do Santos ou em simples coletivos do alvinegro na Vila Belmiro, onde ele ficou em 74 e 75, Pelé sempre elogiava a atuação do companheiro, dizendo que seu futebol “é uma beleza”. De elogio em elogio de Pelé, o adjetivo foi pegando e quando Luiz Carlos chegou ao Mixto, o apelido já estava consagrado.

Mas existe outra versão para o apelido, como o próprio Luiz Carlos admite: ele não tinha nada de bonito e o irreverente Pelé passou a chamá-lo de Beleza, mais como uma gozação do que propriamente se estivesse fazendo uma referência à sua aparência. Como todo “Rei” tem seus seguidores, os santistas passaram também a chamar Luiz Carlos de Beleza. Daí...      

Apesar de ter ficado na Vila Belmiro, onde inclusive morava, durante dois anos, poucas vezes Luiz Carlos Beleza jogou junto com Pelé. É que na época o Santos tinha muitos jogadores do mais alto nível – Edu, Clodoaldo, Cejas, Oberdã, Cláudio Adão, Carlos Alberto Torres, Adilson, que depois veio para o Dom Bosco, e tantos outros –, que era difícil se firmar como titular...

Um dos jogos importantes em que Luiz Carlos atuou como titular foi na semifinal do Torneio “Governador Laudo Natel”, com vitória do Santos sobre o Corínthians por 2x0. Naquele jogo, Luiz Carlos foi eleito pela equipe de esportes da TV Tupi, liderada por Eli Coimbra e Walter Abrahão, como o melhor jogador em campo, ganhando inclusive um Motorádio. Pelé que nesse dia atuou como comentarista esportivo, votou também em Beleza.

Alguns dias depois de receber o prêmio, Luiz Carlos Beleza estava andando pelas ruas de Santos e viu Pelé na barbearia do Didi, que era quem cortava o cabelo do maior jogador de futebol do mundo. Beleza entrou no salão e deu o rádio de presente para Pelé. Afinal, para que ficar com um rádio que era para carro, que ele não tinha...        .

Da sua convivência com o grande craque do futebol mundial, Luiz Carlos Beleza lembra-se até hoje da despedida de Pelé do Santos FC. Foi em 1975, em um jogo numa quarta-feira à noite, na Vila Belmiro, contra a Ponte Preta, que perdeu por 2x0, Aliás, naquele ano Pelé passou a maior parte do seu tempo cuidando de sua transferência para o Kosmos, dos Estados Unidos, do que jogando pelo Santos. Na despedida histórica, Beleza foi o reserva de Carlos Alberto Torres... 

(Republicado por falhas no sistema de acesso).    

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Muito amigo de Pelé, o cuiabano Almiro foi a 1ª vítima de racismo do Dom Bosco

Almiro (Arq. pessoal de Lito)
A grande confusão que o falecido jogador de futebol, farmacêutico, professor de Educação Física e carnavalesco João Batista Jaudy aprontou no Dom Bosco, inclusive obrigando o azulão a suspender uma monumental noitada no carnaval de 1973, disparando balas de dois revólveres para todos os lados no seu interior, não foi a única vez que o mais antigo clube de Mato Grosso se envolveu num sururu dos diabos, acusado de prática de racismo.

Bem antes do episódio protagonizado por Batista Jaudy, lá por meados da década de 1970, o meia armador Almiro, cuiabano de tchapa e cruz, venerado por todos os mato-grossenses pelo fato de jogar no todo poderoso Santos FC, ao lado de Pelé, Dorval, Mengálvio, Lima, Clodoaldo, Pagão, Pepe e outros astros consagrados, estava se recuperando de uma contusão na casa de seus familiares em Cuiabá e resolveu participar de um jantar dançante do Dom Bosco.

Mas o pessoal da portaria não deixou Almiro entrar sob o pretexto de que ele não era associado, condição da qual o Dom Bosco não abria mão para quem quisesse frequentar o clube. Muito culto, Almiro entendeu que estava sendo vítima de discriminação racial, um sentimento que começava a aflorar com força no Brasil, porém ao contrário do que fez Batista Jaudy, não reagiu à ofensa pessoal.

Antes de deixar as dependências do Dom Bosco, Almiro foi reconhecido e alguns diretores reconsideraram a decisão, franqueando as portas do clube ao famoso futebolista cuiabano. Mas Almiro, com a cultura digna de um intelectual que falava fluentemente inglês, francês, alemão e outros idiomas e era quem servia de intérprete de Pelé nas andanças do Santos pelo mundo entre 1965/69, agradeceu a gentileza dos diretores do azulão, virou as costas e foi embora...

Claro que a atitude discriminatória do Dom Bosco chegou com a velocidade de um raio aos ouvidos do maior língua ferina do rádio de Mato Grosso: Ivo de Almeida. Na época, Ivo de Almeida tinha um programa de rádio chamado “O futebol passado a limpo”, na Difusora Bom Jesus de Cuiabá. E caiu de pau em cima do Dom Bosco, fazendo a agressiva ofensa do Clube da Colina Iluminada a Almiro chegar, com a força de seu poder e influência de comunicador,  às tinas populares...

Foi nessa ocasião que o polêmico Ivo de Almeida cunhou a expressão “Clube da elite”, para se referir ao Dom Bosco. Só que o radialista usava a expressão não no sentido da verdadeira acepção do termo, mas, sim, com o objetivo de denegrir a imagem do azulão, buscando sempre, de forma irônica e sarcástica, jogar o clube contra a torcida mato-grossense.

Completamente cego, Almiro vive a muitos anos em Salvador-BA. Velho amigo de Almiro, Lito, considerado por torcedores saudosistas como o melhor centroavante que já passou pelo Mixto, em todos os tempos, garante que algumas pessoas de cor frequentavam o Dom Bosco embora não fossem associados. Entre elas, o universitário Fábio Firmino Leite.

– A diferença entre os dois é que Almiro era jogador de futebol e Fábio, que inclusive virou nome de bairro na capital (o “Doutor Fábio”) foi o primeiro cardiologista negro cuiabano... – afirma Lito. Ou, se preferirem, médico veterinário Manoel de Aquino Filho. (Republicado por falhas no sistema de acesso).                           

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A folclórica e gloriosa passagem do lendário Mão-de-Onça pelo Dom Bosco...

Mão-de-Onça, uma lenda do futebol de MT

Numa certa manhã de 1976, o diretor Álvaro Scolfaro chegou à sede do Dom Bosco, no Morro da Colina Iluminada, e viu o gerente de Futebol, Carlos Gaúcho, dando coices até na própria sombra de tanta raiva. E ele tinha suas razões para estar tão furioso: considerado um sujeito muito astucioso, Carlos Gaúcho não se conformava pelo fato de ter sido vítima de sua própria suposta esperteza.

É que dias antes, Carlos Gaúcho chegou ao clube e encontrou na escadaria que dava acesso às suas dependências um mendigo que se dizia jogador de futebol e que havia chegado do sul do Mato Grosso indiviso – o estado foi fracionado em 1977, pelo presidente Ernesto Geisel, sem sequer comunicar ao então governador Garcia Neto – para defender o gol do Dom Bosco. O jogador que Gaúcho tratou como um mendigo e o expulsou do clube era simplesmente  Mão-de-Onça, que acabou se tornando uma lenda do futebol mato-grossense ...

Foi um bafafá daqueles no Dom Bosco quando os dirigentes ficaram sabendo da mancada – para não dizer outra coisa... – de Carlos Gaúcho, pois fazia mais de duas semanas que o clube esperava Mão-de-Onça chegar de Dourados onde defendia o Ubiratan, para assinar contato com o azulão. Depois de uma verdadeira caçada pelas ruas de Cuiabá, o goleiro foi encontrado e levado para a “república” do clube.

Mão-de-Onça, que teve também brilhantes passagens pelo Mixto e o Operário Várzea-grandense, jogou no Dom Bosco durante muitos anos. E ao longo de sua militância nos três clubes, nas décadas de 70 e 80 sempre foi considerado o melhor goleiro do futebol mato-grossense. Mão-de-Onça, cujo nome de batismo era João Ferreira Ramos, morreu o ano passado em Cuiabá, aos 69 anos, vítima de infarto fulminante, provocado pelo alcoolismo.

Uma das muitas renovações de contrato de Mão-de-Onça com o Dom Bosco  passou para a história do clube. Ele tinha um Passat bem usado e para continuar no clube, exigiu, como parte de luvas, um carro do mesmo modelo, mas mais novo. O diretor que negociava com Mão-de-Onça não pechinchou: – “A gente dá o seu como entrada na concessionária e pega um mais novo...”

– O senhor não entendeu. Eu vou ficar com os dois... – foi a resposta de Mão-de-Onça. E ficou mesmo com os dois carros na garagem...

O goleiro era louco por som em carros. Tanto é que os seus dois Passat eram equipados com som da maior potência e qualidade, que inclusive ocupavam todo o espaço dos bancos de passageiros.

Apesar dos dois carros na garagem, Mão-de-Onça, só podia utilizar um deles. Motivo: o Dom Bosco tomou do seu goleiro as chaves de um dos carros quando descobriu que Mão-de-Onça não via a hora dos treinos acabarem, de manhã ou à tarde, para pegar a BR-070 e ir para Barra do Garças passar umas horas com uma professora que havia conhecido durante um evento educacional em Cuiabá.

O Dom Bosco não se preocupava se Mão-de-Onça estava acabando com seu carro na esburacada e poeirenta ou lamacenta rodovia que liga as duas cidades, mas com a possibilidade do seu goleiro sofrer um acidente fatal na sua desvairada aventura para curtir o novo amor...  (Republicado por falha no sistema de acesso).    

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

União arrancou do gramado Santo Antonio enterrado de cabeça pra baixo, mas não evitou goleada...


O União Esporte Clube ia enfrentar o Internacional pelo Campeonato Amador de 1984, de Juara. O mando de jogo era do Internacional e seria realizado no seu campo, de terra, onde o time costumava cantar de galo.  E cantava mesmo, principalmente quando enfrentava adversários habituados a jogar em campos gramados, como era o caso do União.

O Internacional era muito temido pelos adversários por um motivo: seu presidente,  conhecido como Miúdo, gozava da fama de ser um macumbeiro da pesada, o que para quem acredita na interferência do Além no futebol, explicava as surpreendentes vitórias que o time conquistava de vez em quando contra fortes adversários. Seu filho e treinador do Inter, João Chinelo, também era chegadinho numa macumbinha...

No decorrer da semana, os dois eternos dirigentes do União – Luís Casquinha e Priminho Riva – foram surpreendidos por uma proposta de Miúdo: a inversão de mando do jogo. Claro que os dois dirigentes do UECJ toparam a parada, pois entre jogar num campo gramado e um de terra, a preferência seria para o primeiro, evidentemente.

Mas no sábado, Casquinha decidiu dar uma passada pelo estádio municipal, palco do jogo, e observou nas imediações do círculo central do gramado o que parecia ser um buraco. Casquinha se aproximou do local e viu que a terra havia sido removida e cavado um buraco na grama, onde estava enterrada uma imagem de Santo Antonio, de mais ou menos um metro de altura, de cabeça pra baixo...

Imediatamente, Casquinha comunicou o fato a Priminho Riva. E os dois decidiram então arrancar o santo do gramado e levar a imagem, disfarçadamente, para a missa noturna, celebrada aos sábados, na Igreja Católica. O propósito de levar a imagem para a missa era eliminar os efeitos da  macumba de Miúdo e proteger o União no importante jogo do dia seguinte...

Não adiantou nada o esforço de Casquinha e Priminho: o União Juara levou uma goleada de 4x0. “Foi uma “achocolatada” daquelas!” – recorda Priminho até hoje...

O futebol profissional nunca foi o forte de Juara. O União Esporte Clube Juara, fundado em 1980, até que tentou, mas não foi bem sucedido, embora tenha disputado a primeira fase do Campeonato Mato-grossense da 1ª Divisão de 1993. As grandes distâncias das sedes dos municípios do Estado foram o grande empecilho do UECJ. Para jogar em Barra do Garças, por exemplo, o clube tinha que percorrer, ida e volta, cerca de três mil quilômetros...

No entanto, no futebol amador Juara sempre se destacou. E com o correr do tempo, a rivalidade entre clubes tradicionais foi se consolidando e se tornando cada vez mais forte. Os velhos, principalmente entre União, Vila Nova e Internacional, arrastavam multidões de torcedores aos campos onde eram disputados. E é natural que esse fanatismo pelos clubes muitas vezes acabavam desaguando até em pancadarias mais feias do que briga de foice no escuro.

Como aconteceu no longínquo 1984 em uma semifinal entre o União e Vila Nova. Às vésperas do jogo, o vice-presidente do União, Priminho Riva, procurou o presidente Luís Casquinha, para reforçar que o clube tinha que ganhar o jogo, não importava como. Ficou decidido que Casquinha ia procurar o juiz da partida, Valdevir, que já tinha sido goleiro do União, para “facilitar” a vida do clube...

Começou o jogo e Priminho ficou atrás do gol do time adversário, gritando para que seus atacantes caíssem na área para Valdevir marcar um pênalti, conforme tinha sido combinado. Lá pelas tantas, o avante Anderson, suspeitando que um zagueiro do Vila Nova ia lhe dar uma entrada mais violenta, jogou-se no chão, num lance completamente isolado. O juiz não vacilou e marcou o pênalti...

Mas a torcida percebeu que o jogo não passava de um baralho com cartas marcadas para classificar o União para a final, invadiu o campo, que evidentemente não tinha alambrado, e o pau comeu solto. A confusão foi tão grande que até hoje, decorridos 34 anos, o título do Campeonato Amador daquele ano ainda não foi decidido. E nem será, porque os times daqueles velhos tempos nem existem mais...