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sábado, 15 de setembro de 2018

Wilson Eraldo da Silva: uma carreira curta como árbitro profissional, mas muitas histórias para contar...


Wilson Eraldo da Silva
 Nos seis anos em que trabalhou como juiz da Federação Mato-grossense de Futebol -- de 1987 a 1992 – e ainda hoje mexendo com arbitragem na Secretaria de Estado de Esportes e Lazer (Sedel) dos Jogos Estudantis de Mato Grosso, Wilson Eraldo da Silva tem muitas histórias para contar. Principalmente do período de militância na FMF, com seguidas andanças pelo interior. Eram tempos difíceis, mas muito divertidos também...

Lembra Wilson Eraldo que o pessoal que era escalado pela FMF para trabalhar em jogos aos domingos em Juara – 709 km de Cuiabá – o juiz, os dois bandeirinhas, chamados hoje de assistentes, o delegado (representante) da entidade e o financeiro saía na sexta-feira, porque se o ônibus de linha quebrasse, a equipe corria o risco de ter que esperar o do dia seguinte para completar o percurso. Com as condições precárias das estradas de chão, as viagens para aquela região do Médio Norte eram verdadeiras aventuras...   

Como aconteceu uma vez uma vez com o Dom Bosco, que saiu de Cuiabá no sábado pela manhã para jogar em Juara no dia seguinte, com arbitragem de Wilson Eraldo. O sol já ia alto no domingo e nada do azulão dar as caras na cidade. A diretoria do time da casa já estava preocupada, quando apareceu um viajante com um recado para os juarenses: a delegação dombosquina estava na beira da rodovia dava acesso a Juara esperando socorro para terminar de chegar.

O socorro que o Dom Bosco precisava: cinco pneus em boas condições de tráfego, porque os cinco já substituídos durante a viagem não tinham a mínima condição de continuar rodando. Arrumaram um caminhão de serraria para carregar toras de árvores e despacharam para socorrer o azulão...

Terminada a troca, lá se foram os jogadores em meio aos cinco pneus para Juara, pois o pequeno bagageiro do ônibus já estava lotado com o material esportivo do clube e a malas e mochilas da delegação.

Nesse dia, os dombosquinos tiveram que correr 90 minutos com fome, porque o jogo tinha que começar mais cedo e seria uma temeridade a moçada almoçar, fora do horário normal, e logo depois o time entrar em campo para jogar bola...

Desse histórico jogo do Dom Bosco, Wilson Eraldo lembra que o azulão venceu por 3x0, na maior moleza. E a turma do clube dombosquino saiu de campo feliz da vida, não apenas com o resultado favorável, mas também porque a moçada não ia ter problema para retornar a Cuiabá, pois um diretor alviceleste havia conseguido com o presidente da FMF, o falecido Carlos Orione, antes da viagem, um empréstimo pessoal de R$ 700,00, que garantiu o jantar antes da volta e o tanque cheio do velho ônibus...

Em outro jogo que foi apitar em Juara, antes do jantar no próprio hotel onde o trio de arbitragem estava hospedados, Wilson Eraldo pediu que os seus dois auxiliares – Elói Natalino do Nascimento e Miguel Arruda, este já falecido – se comportassem com a máxima discrição possível, para não serem reconhecidos. O anonimato era uma questão de prudência para segurança deles – justificou o árbitro.

Mas na hora que foi temperar sua salada, Wilson Eraldo notou que os saleiros da mesa estavam entupidos, por causa da umidade. Ele se serviu e não perdeu a oportunidade para, com a cumplicidade de Elói Natalino, sacanear Miguel Arruda: afrouxou a tampa do saleiro e ficou só observando o que ia acontecer. Quando Miguel colocou a salada no prato e virou o recipiente com o tempero, encheu o prato de sal. Wilson e Natalino caíram na risada...

Miguel foi trocar de prato, claro, e Wilson Eraldo advertiu-o: “O restaurante vai te cobrar duas refeições...”

Depois de jantar, Miguel foi palitar os dentes e novamente acabou sendo  vítima de peraltice da dupla. Ao virar o vidrinho de cabeça para baixo, foi aquele esparramo de palitinhos sobre a mesa, pois a tampa do recipiente também havia sido afrouxada. E aí não tiveram como esconder mais quem eram eles, pois muita gente que estava jantando nas imediações dos três percebeu a mancada e começou a dar gargalhadas...

Considerado um árbitro “durão”, Wilson Eraldo afirma que tem boas recordações dos tempos que apitava e trabalhava como assistente no interior, pois sempre foi tratado com respeito e consideração pelos clubes. Em Juara, por exemplo, os dirigentes do União Esporte Clube Juara sempre providenciavam condução para levar o pessoal da FMF para o estádio que se chamava Zé Paraná, em homenagem a José Pedro Dias, fundador da cidade e colonizador do município.

Mas quando isso não acontecia, o pessoal da FMF ia e voltava a pé para o estádio, cobrindo uma distância de cerca de quatro quilômetros nos dois trajetos. Wilson Eraldo explica porque a turma preferia a caminhada: se uma passagem de ônibus de Cuiabá a Juara custava R$ 100,00, os taxistas cobravam R$ 80,00 para fazer o trajeto hotel-estádio e vice-versa...

No decorrer de sua carreira como juiz de futebol, Wilson Eraldo testemunhou muitas cenas hilariantes que passaram para a história do futebol mato-grossense. Como uma que aconteceu no Verdão em um clássico entre Mixto e Operário, pelo Campeonato Mato-grossense, na década de 1980.

O jogo transcorria normalmente, quando aos 40 minutos do 1º tempo, o zagueiro mixtense Miro deu um “carrinho” por trás em um atacante do tricolor várzea-grandense. Lance digno de expulsão. O juiz Gílson Rodrigues marcou a falta e meteu a mão no bolso para puxar o cartão vermelho, mas não achou nada. Chamou, então, o arbitro reserva, cujo nome ele não se lembra, que não estava também com os cartões amarelo e vermelho. Gilson recorreu então aos dois auxiliares José Roberto (Cipó) Feitosa Soares e Salim Gonçalves, que tinham esquecido em casa seus cartões...

Só lhe restou uma saída: interromper o jogo, que terminou empatado por 0x0, e correr até o vestiário dos árbitros para pegar o cartão para punir Miro. Mas demorou tanto para achar os cartões que deveriam estar no seu bolso e também e nos dos seus três auxiliares, que Gílson Rodrigues, meio sem graça, mostrou apenas cartão amarelo para Miro...

Outra hilária história que Wilson Eraldo testemunhou: a delegação de juízes de futebol da Sedel chegou a Alta Floresta, no norte do Estado, para apitar a modalidade dos Jogos Estudantis de Mato Grosso. Uma viagem cansativa de mais de 800 quilômetros pela BR-163 e pela MT-419, bem esburacadas nos velhos tempos...

Logo na chegada da delegação ao local onde o pessoal ia ficar alojado havia um recado da FMF – naqueles velhos tempos não existia ainda celular – na portaria do hotel: o juiz Mário Martins Rodrigues, o Xuxa, devia pegar o primeiro ônibus e voltar para Cuiabá, pois havia sido escalado pela CBF para atuar como assistente no final de semana no Maracanã, no Rio de Janeiro, no jogo entre Botafogo e São Paulo pelo Campeonato Brasileiro da Série A. O juiz foi Antonio Pereira da Silva, de Goiás, e o São Paulo ganhou o jogo por 3x1.

Claro que Xuxa chiou. Mas seu companheiro de profissão, Ewller dos Reis Brás, o Pirata, um gozador de marca maior, deu-lhe a maior “força”: “O máximo que pode acontecer, Xuxa, é seu avião cair no pantanal de Mato Grosso ou de Mato Grosso do Sul e você acabar sendo comido por jacarés ou por uma onça pintada...”  Pirata já subiu para o andar superior faz muito tempo... – lamentam  seus amigos.      
           

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Orione obrigou juiz e bandeirinha a devolverem dinheiro de suborno do União

Cipó entre Valdir da Silva Almeida (a sua direita)
e Émerson Coelho
O União ia disputar um jogo importante contra o Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, no Estádio Luthero Lopes, em Rondonópolis, pelo Campeonato Mato-grossense de Futebol. A partida transcorreu normalmente e foi vencida pelo tricolor por 1x0. Um dos bandeirinhas foi José Roberto Feitosa Soares, o Cipó, que não notou nada de anormal durante o jogo.

Quando o trio de arbitragem entrou no vestiário no final da partida, o juiz -- cujo nome não vem ao caso, bem como o do outro bandeirinha -- ergueu sua bolsa que estava sobre um banco, e anunciou para os dois companheiros: “Deixaram aqui uns trocados pra gente tomar água mineral... eu fico com a metade e vocês dois dividem a outra parte!...” Os trocados somavam R$ 180,00, valor que o juiz já sabia, claro...

-- Eu não quero saber disso, gente. E tem mais: vou denunciar vocês dois à nossa Federação. Fui bem claro?...

Como nos velhos tempos – Cipó militou no Departamento de Árbitros da FMF de 1988 a 1999 – era muito comum juízes e bandeirinhas aceitarem suborno de clubes, a dupla que trabalhou com ele naquele jogo não levou a sério a sua ameaça.

Não deu outra: na segunda-feira seguinte ao jogo, a primeira coisa que Cipó fez foi procurar o presidente da FMF, Carlos Orione, e denunciar os dois corruptos. 

Imediatamente, Orione convocou uma reunião entre os três e como no “olho no olho” a dupla não teve como negar acusação de Cipó, o dirigente da entidade determinou que os dois devolvessem o dinheiro recebido do clube, o que foi feito e comprovado posteriormente, para escaparem de uma punição rigorosa...

Essa não foi a única vez que Cipó se viu envolvido em um caso de suborno. Há muitos anos, ele foi apitar no Estádio Geraldão um jogo entre o Cáceres Esporte Clube e o Vila Aurora, de Rondonópolis. Terminado o primeiro tempo, Cipó foi para o vestiário e, de repente, apareceu um dirigente do clube da casa e conhecido como Pacu, que se aproximou dele e enfiou a mão no seu bolso...

Surpreendido e julgando que o dirigente estava com más intenções com aquela atitude estranha e muito suspeita, Cipó prendeu com força no bolso de sua bermuda a mão do abusado diretor e gritou o nome do delegado da FMF naquele jogo e que tinha entrado também no vestiário, para testemunhar o que estava acontecendo para não ficarem dúvidas sobre aquela inusitada cena, que poderia ser vista por outras pessoas...

Meio desconcertado, o dirigente do Cáceres esclareceu a sua atitude: ele havia enfiado a mão na bermuda de Cipó não com a intenção que o juiz estava suspeitando, mas simplesmente para deixar um agradinho para ele. Em seguida, tirou a mão do bolso de Cipó e a abriu, mostrando um pacotinho de cédulas de dinheiro num total de R$ 500,00... 

O agradinho que o Cáceres quis dar ao juiz custou caro ao dirigente. Denunciado ao Tribunal de Justiça Desportiva da FMF, com base no relatório do árbitro Cipó, Pacu pegou uma suspensão de 180 dias... 

sábado, 1 de setembro de 2018

Autógrafo de Pelé a Beleza em guardanapo chique provocou reação de dona de hotel de Cuiabá...

 Beleza nos tempos do Santos e agora (Arquivo Google)
Quando esteve em Cuiabá em 1998 para lançar para o Projeto Siminino no Estado, o ministro do Esporte, Édson Arantes do Nascimento, o lendário Pelé, voltou a encontrar um velho companheiro dos tempos dos dois no Santos Futebol Clube, durante o almoço no Hotel Fazenda Mato Grosso, no Coxipó: o lateral direito Luiz Carlos Beleza.

Claro que o zagueiro, que depois que deixou o Santos e jogar pelo Juventus, veio para Mato Grosso, onde jogou no Mixto, Dom Bosco e Operário, não perdeu a oportunidade e pediu um autógrafo para Pelé. O ex-companheiro não se fez de rogado e à falta de alguma coisa mais apropriada, tascou a dedicatória em um dos chiques guardanapos do restaurante do hotel,

A dona do hotel não gostou da atitude do famoso craque. Mas Beleza tentou convencê-la que o autógrafo no guardanapo era um prestígio para o seu hotel. “Afinal, o Pelé é o Rei do futebol mundial...” – disse-lhe Beleza. Ela sabia quem era Pelé porém não sabia que os dois personagens do autógrafo já haviam jogado juntos no famoso clube santista. 

O apelido que Luiz Carlos incorporou ao prenome e que nada tem a ver com as suas características físicas, tem uma explicação: nos jogos do Santos ou em simples coletivos do alvinegro na Vila Belmiro, onde ele ficou em 74 e 75, Pelé sempre elogiava a atuação do companheiro, dizendo que seu futebol “é uma beleza”. De elogio em elogio de Pelé, o adjetivo foi pegando e quando Luiz Carlos chegou ao Mixto, o apelido já estava consagrado.

Mas existe outra versão para o apelido, como o próprio Luiz Carlos admite: ele não tinha nada de bonito e o irreverente Pelé passou a chamá-lo de Beleza, mais como uma gozação do que propriamente se estivesse fazendo uma referência à sua aparência. Como todo “Rei” tem seus seguidores, os santistas passaram também a chamar Luiz Carlos de Beleza. Daí...      

Apesar de ter ficado na Vila Belmiro, onde inclusive morava, durante dois anos, poucas vezes Luiz Carlos Beleza jogou junto com Pelé. É que na época o Santos tinha muitos jogadores do mais alto nível – Edu, Clodoaldo, Cejas, Oberdã, Cláudio Adão, Carlos Alberto Torres, Adilson, que depois veio para o Dom Bosco, e tantos outros –, que era difícil se firmar como titular...

Um dos jogos importantes em que Luiz Carlos atuou como titular foi na semifinal do Torneio “Governador Laudo Natel”, com vitória do Santos sobre o Corínthians por 2x0. Naquele jogo, Luiz Carlos foi eleito pela equipe de esportes da TV Tupi, liderada por Eli Coimbra e Walter Abrahão, como o melhor jogador em campo, ganhando inclusive um Motorádio. Pelé que nesse dia atuou como comentarista esportivo, votou também em Beleza.

Alguns dias depois de receber o prêmio, Luiz Carlos Beleza estava andando pelas ruas de Santos e viu Pelé na barbearia do Didi, que era quem cortava o cabelo do maior jogador de futebol do mundo. Beleza entrou no salão e deu o rádio de presente para Pelé. Afinal, para que ficar com um rádio que era para carro, que ele não tinha...        .

Da sua convivência com o grande craque do futebol mundial, Luiz Carlos Beleza lembra-se até hoje da despedida de Pelé do Santos FC. Foi em 1975, em um jogo numa quarta-feira à noite, na Vila Belmiro, contra a Ponte Preta, que perdeu por 2x0, Aliás, naquele ano Pelé passou a maior parte do seu tempo cuidando de sua transferência para o Kosmos, dos Estados Unidos, do que jogando pelo Santos. Na despedida histórica, Beleza foi o reserva de Carlos Alberto Torres... 

(Republicado por falhas no sistema de acesso).    

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Muito amigo de Pelé, o cuiabano Almiro foi a 1ª vítima de racismo do Dom Bosco

Almiro (Arq. pessoal de Lito)
A grande confusão que o falecido jogador de futebol, farmacêutico, professor de Educação Física e carnavalesco João Batista Jaudy aprontou no Dom Bosco, inclusive obrigando o azulão a suspender uma monumental noitada no carnaval de 1973, disparando balas de dois revólveres para todos os lados no seu interior, não foi a única vez que o mais antigo clube de Mato Grosso se envolveu num sururu dos diabos, acusado de prática de racismo.

Bem antes do episódio protagonizado por Batista Jaudy, lá por meados da década de 1970, o meia armador Almiro, cuiabano de tchapa e cruz, venerado por todos os mato-grossenses pelo fato de jogar no todo poderoso Santos FC, ao lado de Pelé, Dorval, Mengálvio, Lima, Clodoaldo, Pagão, Pepe e outros astros consagrados, estava se recuperando de uma contusão na casa de seus familiares em Cuiabá e resolveu participar de um jantar dançante do Dom Bosco.

Mas o pessoal da portaria não deixou Almiro entrar sob o pretexto de que ele não era associado, condição da qual o Dom Bosco não abria mão para quem quisesse frequentar o clube. Muito culto, Almiro entendeu que estava sendo vítima de discriminação racial, um sentimento que começava a aflorar com força no Brasil, porém ao contrário do que fez Batista Jaudy, não reagiu à ofensa pessoal.

Antes de deixar as dependências do Dom Bosco, Almiro foi reconhecido e alguns diretores reconsideraram a decisão, franqueando as portas do clube ao famoso futebolista cuiabano. Mas Almiro, com a cultura digna de um intelectual que falava fluentemente inglês, francês, alemão e outros idiomas e era quem servia de intérprete de Pelé nas andanças do Santos pelo mundo entre 1965/69, agradeceu a gentileza dos diretores do azulão, virou as costas e foi embora...

Claro que a atitude discriminatória do Dom Bosco chegou com a velocidade de um raio aos ouvidos do maior língua ferina do rádio de Mato Grosso: Ivo de Almeida. Na época, Ivo de Almeida tinha um programa de rádio chamado “O futebol passado a limpo”, na Difusora Bom Jesus de Cuiabá. E caiu de pau em cima do Dom Bosco, fazendo a agressiva ofensa do Clube da Colina Iluminada a Almiro chegar, com a força de seu poder e influência de comunicador,  às tinas populares...

Foi nessa ocasião que o polêmico Ivo de Almeida cunhou a expressão “Clube da elite”, para se referir ao Dom Bosco. Só que o radialista usava a expressão não no sentido da verdadeira acepção do termo, mas, sim, com o objetivo de denegrir a imagem do azulão, buscando sempre, de forma irônica e sarcástica, jogar o clube contra a torcida mato-grossense.

Completamente cego, Almiro vive a muitos anos em Salvador-BA. Velho amigo de Almiro, Lito, considerado por torcedores saudosistas como o melhor centroavante que já passou pelo Mixto, em todos os tempos, garante que algumas pessoas de cor frequentavam o Dom Bosco embora não fossem associados. Entre elas, o universitário Fábio Firmino Leite.

– A diferença entre os dois é que Almiro era jogador de futebol e Fábio, que inclusive virou nome de bairro na capital (o “Doutor Fábio”) foi o primeiro cardiologista negro cuiabano... – afirma Lito. Ou, se preferirem, médico veterinário Manoel de Aquino Filho. (Republicado por falhas no sistema de acesso).                           

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A folclórica e gloriosa passagem do lendário Mão-de-Onça pelo Dom Bosco...

Mão-de-Onça, uma lenda do futebol de MT

Numa certa manhã de 1976, o diretor Álvaro Scolfaro chegou à sede do Dom Bosco, no Morro da Colina Iluminada, e viu o gerente de Futebol, Carlos Gaúcho, dando coices até na própria sombra de tanta raiva. E ele tinha suas razões para estar tão furioso: considerado um sujeito muito astucioso, Carlos Gaúcho não se conformava pelo fato de ter sido vítima de sua própria suposta esperteza.

É que dias antes, Carlos Gaúcho chegou ao clube e encontrou na escadaria que dava acesso às suas dependências um mendigo que se dizia jogador de futebol e que havia chegado do sul do Mato Grosso indiviso – o estado foi fracionado em 1977, pelo presidente Ernesto Geisel, sem sequer comunicar ao então governador Garcia Neto – para defender o gol do Dom Bosco. O jogador que Gaúcho tratou como um mendigo e o expulsou do clube era simplesmente  Mão-de-Onça, que acabou se tornando uma lenda do futebol mato-grossense ...

Foi um bafafá daqueles no Dom Bosco quando os dirigentes ficaram sabendo da mancada – para não dizer outra coisa... – de Carlos Gaúcho, pois fazia mais de duas semanas que o clube esperava Mão-de-Onça chegar de Dourados onde defendia o Ubiratan, para assinar contato com o azulão. Depois de uma verdadeira caçada pelas ruas de Cuiabá, o goleiro foi encontrado e levado para a “república” do clube.

Mão-de-Onça, que teve também brilhantes passagens pelo Mixto e o Operário Várzea-grandense, jogou no Dom Bosco durante muitos anos. E ao longo de sua militância nos três clubes, nas décadas de 70 e 80 sempre foi considerado o melhor goleiro do futebol mato-grossense. Mão-de-Onça, cujo nome de batismo era João Ferreira Ramos, morreu o ano passado em Cuiabá, aos 69 anos, vítima de infarto fulminante, provocado pelo alcoolismo.

Uma das muitas renovações de contrato de Mão-de-Onça com o Dom Bosco  passou para a história do clube. Ele tinha um Passat bem usado e para continuar no clube, exigiu, como parte de luvas, um carro do mesmo modelo, mas mais novo. O diretor que negociava com Mão-de-Onça não pechinchou: – “A gente dá o seu como entrada na concessionária e pega um mais novo...”

– O senhor não entendeu. Eu vou ficar com os dois... – foi a resposta de Mão-de-Onça. E ficou mesmo com os dois carros na garagem...

O goleiro era louco por som em carros. Tanto é que os seus dois Passat eram equipados com som da maior potência e qualidade, que inclusive ocupavam todo o espaço dos bancos de passageiros.

Apesar dos dois carros na garagem, Mão-de-Onça, só podia utilizar um deles. Motivo: o Dom Bosco tomou do seu goleiro as chaves de um dos carros quando descobriu que Mão-de-Onça não via a hora dos treinos acabarem, de manhã ou à tarde, para pegar a BR-070 e ir para Barra do Garças passar umas horas com uma professora que havia conhecido durante um evento educacional em Cuiabá.

O Dom Bosco não se preocupava se Mão-de-Onça estava acabando com seu carro na esburacada e poeirenta ou lamacenta rodovia que liga as duas cidades, mas com a possibilidade do seu goleiro sofrer um acidente fatal na sua desvairada aventura para curtir o novo amor...  (Republicado por falha no sistema de acesso).    

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

União arrancou do gramado Santo Antonio enterrado de cabeça pra baixo, mas não evitou goleada...


O União Esporte Clube ia enfrentar o Internacional pelo Campeonato Amador de 1984, de Juara. O mando de jogo era do Internacional e seria realizado no seu campo, de terra, onde o time costumava cantar de galo.  E cantava mesmo, principalmente quando enfrentava adversários habituados a jogar em campos gramados, como era o caso do União.

O Internacional era muito temido pelos adversários por um motivo: seu presidente,  conhecido como Miúdo, gozava da fama de ser um macumbeiro da pesada, o que para quem acredita na interferência do Além no futebol, explicava as surpreendentes vitórias que o time conquistava de vez em quando contra fortes adversários. Seu filho e treinador do Inter, João Chinelo, também era chegadinho numa macumbinha...

No decorrer da semana, os dois eternos dirigentes do União – Luís Casquinha e Priminho Riva – foram surpreendidos por uma proposta de Miúdo: a inversão de mando do jogo. Claro que os dois dirigentes do UECJ toparam a parada, pois entre jogar num campo gramado e um de terra, a preferência seria para o primeiro, evidentemente.

Mas no sábado, Casquinha decidiu dar uma passada pelo estádio municipal, palco do jogo, e observou nas imediações do círculo central do gramado o que parecia ser um buraco. Casquinha se aproximou do local e viu que a terra havia sido removida e cavado um buraco na grama, onde estava enterrada uma imagem de Santo Antonio, de mais ou menos um metro de altura, de cabeça pra baixo...

Imediatamente, Casquinha comunicou o fato a Priminho Riva. E os dois decidiram então arrancar o santo do gramado e levar a imagem, disfarçadamente, para a missa noturna, celebrada aos sábados, na Igreja Católica. O propósito de levar a imagem para a missa era eliminar os efeitos da  macumba de Miúdo e proteger o União no importante jogo do dia seguinte...

Não adiantou nada o esforço de Casquinha e Priminho: o União Juara levou uma goleada de 4x0. “Foi uma “achocolatada” daquelas!” – recorda Priminho até hoje...

O futebol profissional nunca foi o forte de Juara. O União Esporte Clube Juara, fundado em 1980, até que tentou, mas não foi bem sucedido, embora tenha disputado a primeira fase do Campeonato Mato-grossense da 1ª Divisão de 1993. As grandes distâncias das sedes dos municípios do Estado foram o grande empecilho do UECJ. Para jogar em Barra do Garças, por exemplo, o clube tinha que percorrer, ida e volta, cerca de três mil quilômetros...

No entanto, no futebol amador Juara sempre se destacou. E com o correr do tempo, a rivalidade entre clubes tradicionais foi se consolidando e se tornando cada vez mais forte. Os velhos, principalmente entre União, Vila Nova e Internacional, arrastavam multidões de torcedores aos campos onde eram disputados. E é natural que esse fanatismo pelos clubes muitas vezes acabavam desaguando até em pancadarias mais feias do que briga de foice no escuro.

Como aconteceu no longínquo 1984 em uma semifinal entre o União e Vila Nova. Às vésperas do jogo, o vice-presidente do União, Priminho Riva, procurou o presidente Luís Casquinha, para reforçar que o clube tinha que ganhar o jogo, não importava como. Ficou decidido que Casquinha ia procurar o juiz da partida, Valdevir, que já tinha sido goleiro do União, para “facilitar” a vida do clube...

Começou o jogo e Priminho ficou atrás do gol do time adversário, gritando para que seus atacantes caíssem na área para Valdevir marcar um pênalti, conforme tinha sido combinado. Lá pelas tantas, o avante Anderson, suspeitando que um zagueiro do Vila Nova ia lhe dar uma entrada mais violenta, jogou-se no chão, num lance completamente isolado. O juiz não vacilou e marcou o pênalti...

Mas a torcida percebeu que o jogo não passava de um baralho com cartas marcadas para classificar o União para a final, invadiu o campo, que evidentemente não tinha alambrado, e o pau comeu solto. A confusão foi tão grande que até hoje, decorridos 34 anos, o título do Campeonato Amador daquele ano ainda não foi decidido. E nem será, porque os times daqueles velhos tempos nem existem mais...        
              

terça-feira, 24 de julho de 2018

Para escapar da fúria da torcida, União Juara pagou por jantar que não consumiu...



Empolgado pela boa campanha que vinha realizando no Campeonato Mato-grossense da 2ª Divisão de 1991, o União Esporte Clube Juara, pioneiro no futebol profissional no município do mesmo nome, no Médio Norte, foi enfrentar a Associação  Atlética Alta Floresta, no Estádio Maestrão.

Embora o futebol seja um esporte marcado pela rivalidade que às vezes chega às raias da insensatez, não passava pela cabeça de ninguém que aquele o jogo acabaria se transformando numa verdadeira batalha campal dentro e fora do gramado, com muitas jogadas violentas por parte dos defensores altaflorestenses  e ameaças da torcida de pegar os juarenses.

Tanto é que depois da partida, que terminou empatada pela contagem mínima, a delegação do UECJ, que subiu naquele ano para a 1ª Divisão do ano seguinte, teve que sair do estádio sob a proteção da Polícia Militar.

A fúria dos torcedores com o empate que classificou Juara, era tamanha contra os juarenses que a delegação visitante não pôde nem jantar em Alta Floresta, embora com a refeição já paga  adiantadamente. A delegação só saciou a fome quando chegou a Colíder, onde fez a refeição antes de retornar a Juara.

Se o clima tenso predominou no decorrer do jogo, a situação piorou ainda mais nos minutos finais, quando torcedores passaram a jogar pedaços de paus dentro de campo para intimidar os jogadores visitantes.

A atitude dos torcedores locais passou a ser interpretada como  uma maneira de amedrontar os jogadores visitantes, que temiam ser vítimas de agressões físicas, já que verbais eram inúmeras e constantes.

Da raiva da torcida altaflorestense não escapou nem o pessoal da crônica esportiva que fazia cobertura do jogo. O radialista Aparício Cardozo, que transmitia a partida pela Rádio Tucunaré, de Juara, viveu momentos de pânico quando grupos de torcedores começaram a sacudir em sincronia a cabine de madeira de onde ele narrava o jogo no Maestrão, na tentativa de derrubá-la, amedrontando a equipe esportiva da emissora.

Depois de muito bate-boca, empurrões e ameaças de agressões, finalmente a delegação juarense saiu do estádio. Mas foi por pouco, porque torcedores foram flagrados por dirigentes do UECJ tentando esvaziar e furar os pneus do ônibus da delegação. Os juarenses só se acalmaram depois que o ônibus deixou a MT-419, que liga a BR-163 com Alta Floresta, e rumou para Colíder...

O ex-prefeito de Juara e então vereador Priminho Riva acompanhou a delegação do UECJ – fundado em 10/10/1980 – nesse jogo histórico do clube e inclusive trabalhou como repórter da Rádio Tucunaré, auxiliando o narrador Aparicio Cardozo. Foi ele quem bancou o almoço em Alta Floresta no domingo e pagou antecipadamente o jantar para garantir que o pessoal não voltasse para Juara de barriga vazia.

No início da semana, Priminho Riva ligou para a dona do restaurante onde a delegação jantaria no domingo à noite na tentativa de ser ressarcido do prejuízo, pois pagou pelas refeições que não foram servidas e nem consumidas.

Mas a dona do restaurante ponderou que inclusive já havia gasto o dinheiro que recebera adiantadamente para preparar o jantar para as 36 pessoas que integravam a delegação juarense.  “A comida foi toda  jogada fora. Eu fiz a minha parte, se vocês não comeram, o problema não é meu...” –  argumentou a mulher cheia de razão.

Priminho Riva concordou e nunca mais tocou no assunto com ela...    


sexta-feira, 13 de julho de 2018

Uma viagem tumultuada em ônibus de linha do Palmeirinhas para jogar em Barra do Garças


O Palmeiras ia jogar com o Barra do Garças Futebol Clube, no Estádio Zeca Costa, pelo Campeonato Mato-grossense de 1985 ou 1986, ninguém sabe com certeza. O que aparentemente seria um evento esportivo comum, tinha um significado especial: a data do jogo coincidia com a do aniversário de Barra do Garças – fundada no dia 13/6/1924 – e foi incluído nas festividades da cidade para fechar com chave de ouro a programação. De preferência com uma vitória, para completar a festa...

A saída da delegação do velho clube do Porto foi marcada para a antiga sede da extinta Prosol, no bairro Dom Aquino, um dia antes do jogo. A moçada palmeirense  estava animada, primeiro porque ia participar das festas do povo barragarcense e segundo pelo fato de que o técnico Admir Moreira poderia contar com seus principais jogadores, entre eles Gérson, Zequinha, Baiano, Éder Taques, Gaguinho, Carlinhos...

Carlinhos era o filho mais jovem do presidente palmeirense Délio de Oliveira e despontava como uma grande promessa do futebol mato-grossense. Mas, apesar do incentivo e do apoio do pai, Carlinhos não teve a mesma sorte do irmão William, que foi ainda garoto para o Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, e fez muito sucesso no futebol carioca, jogando também pelo Flamengo.

Estava tudo pronto para a viagem de cerca de 500 quilômetros pela já asfaltada BR-070 entre Cuiabá e Barra do Garças, porém um imprevisto mudou o que estava planejado. Em cima da hora prevista para embarque da delegação alviverde, a empresa contratada para transportar a delegação informou a Délio de Oliveira que o ônibus disponibilizado para a viagem havia sofrido uma avaria mecânica e ela não poderia cumprir o compromisso...

O presidente palmeirense não perdeu tempo: correu para o Terminal Rodoviário de Cuiabá e comprou mais de 20 passagens para a delegação  pegar um ônibus que já estava saindo para Barra do Garças. Mas não dava tempo para o pessoal sair do Dom Aquino e chegar à rodoviária para embarcar...

A solução foi amontoar todos os membros da delegação com suas respectivas bagagens em uma caminhonete e tocar a toda velocidade para a Avenida Fernando Correia da Costa, onde em uma parada de coletivos nas imediações da Trêscinco, o ônibus de linha estacionou rapidamente para o embarque da delegação palmeirense.

E o que seria uma viagem tranquila em um veículo especial, com direito a travesseiros, água gelada e cafezinho, acabou sendo feita em um “pé duro”, como eram chamados os ônibus de linha que trafegavam pela BR-070, que liga Cuiabá a Barra do Garças, antes da rodovia ser asfaltada no governo de Júlio Campos, entre 1983/1986.

A desastrada viagem do Palmeirinhas para Barra do Garças teve um  ingrediente a mais: quando a delegação alviverde passou pela reserva indígena Sangradouro, em Primavera do Leste (230 quilômetros de Cuiabá), um numeroso grupo de índios xavantes invadiu o ônibus, assustando os passageiros e sem querer saber se havia ou não bancos disponíveis para se sentarem. E não havia...

Da cansativa e desconfortável viagem dos palmeirenses, restou um consolo: apesar de todas as dificuldades que a delegação enfrentou para chegar a Barra do Garças, o alviverde fez uma boa exibição no Zeca Costa e venceu o jogo pela contagem mínima, estragando a festa dos barragarcenses. O gol foi marcado no primeiro tempo por Baiano – recorda o hoje técnico de futebol Éder Taques, um dos participantes da aventura palmeirense, como jogador...     

terça-feira, 3 de julho de 2018

Um gol de Pastoril e um chute em um equipamento de rádio acabaram com o sonho de dois locutores


O Barra do Garças Futebol Clube ia disputar um jogo importante pelo Campeonato Mato-grossense de 1979 no Estádio Zeca Costa contra o ainda poderoso Mixto, que tinha em suas fileiras craques consagrados como Ernani, Miro, Remo, Rômulo, Fabinho, Arildo, Marcinho e Pastoril. E a Rádio Aruanã, de Barra do Garças, a pioneira do Vale do Araguaia, decidiu transmitir a partida.

Dizem que a ideia partiu dos locutores Paulo Emílio e Jota Fonseca, este já falecido, que pretendiam fazer um teste sobre a reação do mercado publicitário da cidade, cuja economia vivia uma fase muito promissora, com a implantação de vários projetos de colonização e agropecuários no município. Se fosse positiva, poderia abrir as portas para outras transmissões, com a venda de quotas de publicidade para garantir o faturamento da emissora e dos dois, claro...

Como à época a Rádio Aruanã nem Departamento de Esportes tinha, os dois foram encarregados da transmissão do jogo, com Jota Fonseca ficando com a narração, uma experiência nova em sua carreira no rádio, e Paulo Emílio encarregado de fazer os comentários. A exemplo do companheiro, que nunca tinha narrado um jogo de futebol, Paulo Emílio não entendia bulhufas de futebol.

Na falta de cabines no então acanhado Zeca Costa, os dois montaram a parafernália de equipamentos no campo, do lado de dentro do alambrado. Apesar da improvisação, a transmissão prosseguia normalmente, com Paulo Emílio e Jota Fonseca empolgados com o jogo e com o placar favorável ao time da casa,  pela contagem mínima.

Mas no 2º tempo, Jota Fonseca, visivelmente irritado com Pastoril, que estava acabando com o jogo, não se conteve quando o meia armador mixtense empatou o jogo e desferiu um violento pontapé e um dos equipamentos da transmissão, mandando-o longe. Acabou ali, no gol de Pastoril, o projeto da Aruanã e dos seus dois locutores...

sábado, 16 de junho de 2018

Um trote de jogadores em companheiros do Dom Bosco em Corumbá terminou em gargalhadas...


De avião, claro, lá se foi o Dom Bosco para Corumbá para jogar com o Corumbaense Futebol Clube e o Marítimos pelo Campeonato Estadual de 1975 do Mato Grosso indiviso. Naquele tempo, por causa das dificuldades de transporte por terra e por água em um estado com 1,230 milhão de km2, os jogos oficiais com os dois representantes de Corumbá eram atrelados para se evitar cansativas viagens.

O primeiro jogo do Dom Bosco foi em um domingo contra o Corumbaense. No sábado, alguns boleiros do azulão – entre eles, Dirceu Batista e o goleiro Saldanha – saíram do hotel onde estavam concentrados para dar um “rolé” pela cidade. E viram, sem serem vistos, em um bar outro grupo de jogadores, entre os quais Lúcio Bala, Gaguinho, Fidélis e o mordomo Tyresoles. Na parede, o telefone do bar...

Foi aí que o grupinho de Dirceu Batista decidiu passar um trote nos companheiros. Alguém ligou para o bar, como se fosse de uma rádio de Corumbá e, com a voz dissimulada, marcou uma entrevista com todos eles no hotel. Gaguinho, que sempre se considerou muito esperto – quando jogou no CEOV, o zagueiro vivia passando a perna no eterno dirigente Rubens dos Santos... – ficou como uma espécie de porta-voz da turma.

Quando o grupo de Dirceu Batista voltou para o hotel, encontrou o pessoal que estava no bar todo eufórico, esperando o pessoal da rádio para conceder entrevistas. Os jogadores já tinham até tomado banho, trocado de roupa, passado perfume, ensaiado mentalmente respostas para as perguntas dos entrevistadores...

Toda vez que cruzava com os companheiros no hotel, o grupinho de Dirceu Batista dava um toque em Lúcio Bala, Gaguinho e Fidélis, perguntando sobre a entrevista. Só de sacanagem! E a resposta dos três era sempre a mesma: “Estamos sabendo...”

Só depois de muitas risadas é que o grupo liderado por Gaguinho ficou sabendo que a esperada entrevista não passava de um trote. E se alguém não tivesse dado com a língua nos dentes, Lúcio Bala, Gaguinho e Fidélis estariam esperando para conceder a entrevista até hoje...    

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Repórter setorista do Operário não teve como narrar ao vivo a agressão que sofria no Estádio Mané Garrincha

O Clube Esportivo Operário Várzea-grandense jogava no Estádio Mané Garrincha contra o Tangará pelo Campeonato Mato-grossense de Futebol de 2009. Jogo bem equilibrado, marcado por uma ou outra jogada mais violenta de ambos os lados.

A certa altura do 2º tempo, com o tricolor de Várzea Grande vencendo pela contagem mínima e que foi o resultado final da partida, dois jogadores adversários se desentenderam, os reservas do time da casa entraram em campo e os operarianos também, e o pau comeu solto.

Depois de muito “pega pra capar”, como dizem os torcedores, os ânimos foram serenados e o jogo chegou ao fim sem maiores consequências. Apesar do clima tenso que imperou no Mané Garrincha depois do sururu...

Quando ia saindo do campo, que havia invadido durante a confusão, um diretor do Tangará passou por um radialista dentro do alambrado e perguntou-lhe quem era ele...

– Sou o Lacerda Cintra, da Rádio Cultura de Cuiabá, repórter setorista do Operário. Estou aqui fazendo a cobertura do jogo...
– Ah, é!... – Então vai levar umas “bolachadas” também...

E tome porradas no radialista que havia registrado nos mínimos detalhes o festival de pancadarias no campo, mas, surpreendido, não teve como narrar ao vivo os bofetões que estava levando no Mané Garrincha...

Percebendo o que acontecendo com Lacerda Cintra, diretores e integrantes da Comissão Técnica do Operário correram em seu socorro, afastando o radialista do agressivo dirigente do time tangaraense. Livre das garras do agressor, Cintra desabafou:

– Eu vim de Cuiabá para cumprir meu trabalho e aqui no Estádio Mané Garrincha e sou agredido por um membro da comissão técnica do time da casa. Mas isso não vai ficar assim! Vou procurar os meus direitos... 

Entretanto, a ameaça de Cintra foi feita em um momento de pura raiva, pois no retorno a Cuiabá, o radialista não quis nem saber de registrar um Boletim de Ocorrências na Polícia Civil para dar início a um processo contra seu agressor.

Mas, ao que se sabe, o radialista nunca mais voltou a Tangará da Serra para cobrir um evento esportivo, principalmente no Estádio Mané Garrincha...

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Repórter de campo foi demitido por defender ”jabá” e retardar grito de gol no Dutrinha


Já convivendo com o fantasma do rebaixamento para a 2ª Divisão – que  acabou se consumando...  – o Operário Futebol Clube Ltda., jogava contra o Sinop FC no Dutrinha, pelo Campeonato Mato-grossense de Futebol de 2011. 

Decididamente, aquele 2011 foi um ano para a torcida operariana apagar da memória. Se o tricolor não ia bem dentro de campo, fora dele é que o bicho pegava mesmo pra valer, com muitos problemas tumultuando a vida do clube...

O Operário FC Ltda. começou o desastrado ano sob a presidência de Daniel Terroso, conhecido também como “presidente do vinho”, por causa de sua indústria do ramo de bebidas, caiu para a segundona com Maninho de Barros e subiu para a 1ª Divisão no mesmo ano sob o comando de César Augusto Farias Scheiter, o César Gaúcho, que havia aprontado poucas e boas na presidência do clube e assumiu, no ano seguinte, o CEOV e do qual foi escorraçado no final da temporada...

Lembra o radialista Igor Gabriel que naquele jogo atuava como repórter de campo da equipe de esportes da Rádio Cultura de Cuiabá um jovem locutor, cujo nome não vem ao caso, que recebia um jabazinho, por fora, para, durante as transmissões esportivas da emissora, sempre que era possível, divulgar o nome do “presidente do vinho”...

Numa dessas ocasiões em que o radialista defendia seu jabazinho, já no fim do jogo, o Operário FC Ltda. marcou, através de Jackson, o gol que acabou dando a vitória ao tricolor por 2x1. Como o repórter não parava de falar, o narrador Jorginho Mussa, chefe da equipe de esportes, berrou para o companheiro: “Posso, pelo menos, gritar o gol?...”

O repórter de campo desligou rapidamente seu microfone e Jorginho, com relativo atraso, soltou a voz: “Gooooool do Operário, gooooool de Jackson...”

No dia seguinte ao jogo, quando chegou a emissora para trabalhar, o repórter recebeu uma desagradável notícia: estava demitido...         


segunda-feira, 30 de abril de 2018

Jogador uruguaio amaldiçoou diretores de clubes por causa de calote do Operário Ltda.


Rebaixado para a 2ª Divisão em 2011, ao perder para o Sorriso, que, aliás, teve curta passagem pelo futebol profissional de Mato Grosso, apesar do município que representava ser uma potência econômica, como o maior produtor de soja do Brasil – posição que ostenta até hoje – o Operário Futebol Clube Ltda., decidiu que voltaria para a 1ª Divisão no ano seguinte para recuperar seu prestígio perante sua pequena e então desmotivada torcida.

A decisão estava tomada e era definitiva. Mas na hora do vamos, de por em prática o projeto do tricolor voltar ao no topo do futebol mato-grossense, ninguém da sua diminuta diretoria queria pegar o boi pelos chifres. Principalmente porque a situação financeira do OFC Ltda. não era lá muito animadora.

Decidiu-se então que o clube buscaria a solução fora de Várzea Grande, cuja população nunca viu com bons olhos a dissidência que resultou no surgimento do novo clube da cidade para salvar o velho CEOV. Ou até mesmo fora de Mato Grosso, pois a ascensão do tricolor à principal divisão do futebol do Estado era uma questão de honra...

A escolha do “salvador” do OFC Ltda. recaiu sobre uma pessoa completamente desconhecida dos várzea-grandenses: César Augusto Scheidtes Farias, que logo se tornou conhecido pelo apelido que trouxe de suas paragens do interior paulista – César Gaúcho. Eleito presidente em um pleito repleto de suspeições, Cesar Gaúcho começou a trabalhar para fazer o Operário FC Ltda. campeão.

O dinheiro para as contratações, inclusive as mais caras, como foram os casos de Narciso, do Santos FC, e do uruguaio Acosta, goleador implacável, jorrava fácil. Soube-se mais tarde que César Gaúcho tinha assumido o clube várzea-grandense com um único objetivo: lavar dinheiro suspeito de um amigo do interior paulista. Daí a dinheirama...

Entre uma atrapalhada e outra, César Gaúcho deu o cano em muita gente em Várzea Grande. Como aconteceu com o uruguaio Acosta. Na assinatura de um contrato de três meses, o jogador exigiu e recebeu R$ 40 mil de luvas, ficando combinado que no final do certame o clube lhe pagaria mais R$ 30 mil.

No acerto de contas no fim do campeonato, com o OFC Ltda. de volta à 1ª Divisão, César Gaúcho deu a Acosta um cheque de R$ 20 mil pouco antes do presidente entrar em um avião para uma viagem sem retorno para algum lugar desse gigantesco Brasil... E ao que se sabe, até 2013, quando o documento bancário perdeu a validade, o jogador não havia conseguido descontar o “voador” por falta de fundos...

Acosta foi embora de Mato Grosso amaldiçoando tudo quanto era diretor de clubes de futebol profissional do estado, como se dirigentes do Mixto, Dom Bosco, União, Sinop, Luverdense, Cuiabá, Cacerense e outros mais tivessem culpa dos calotes que César Gaúcho deu em tanta gente na sua passagem por Mato Grosso...    

sábado, 21 de abril de 2018

Trama no vestiário no intervalo do jogo levou o CEOV a golear o Luverdense



Operário e Luverdense disputavam um jogo muito tenso no Verdão, pelo Campeonato Mato-grossense de Futebol de 2005. Tenso e violento, com as duas equipes distribuindo pancadas de tudo quanto era jeito. A violência chegou a tal ponto que o tricolor de Várzea Grande trocou de campo no intervalo com seus três zagueiros – Marcelo do Ó, Peta e Baiano – pendurados com dois cartões amarelos cada um.

No ritmo em que o jogo transcorria tudo indicava que um deles ser expulso de campo era questão de tempo. Até porque o juiz Edílson Ramos da Mata, que não tinha medo de cara feia, muito menos de pressão dos boleiros, não estava para brincadeira. Muito pelo contrário...

Os tricolores fizeram um pacto no vestiário: o primeiro dos três que fosse expulso armaria uma confusão daquelas para provocar a exclusão da partida de um jogador do Luverdense. Afinal, a vitória para o Operário era muito importante e por isso o time não podia correr o risco de ficar com um jogador a menos em campo.

Não deu outra: no 2º tempo, não demorou muito, e Baiano baixou o sarrafo sem dó nem piedade em Felipe Pinto e foi expulso na hora por Edílson da Mata. Conforme havia sido planejado no intervalo, o próprio Baiano armou o circo: passando o braço direito pelas costas do adversário, o operariano cravou as unhas no canto do olho direito de Felipe Pinto e puxou com toda força, rasgando um pedaço da sua pele...

Quando sentiu a dor, Felipe Pinto, que já havia se levantado do chão, não teve dúvidas: bem na frente do juiz, desferiu um soco na cara de Baiano. O jogador Godói, do Luverdense, tomou as dores do companheiro que estava com olho sangrando, e também partiu furiosamente para cima de Baiano. E o tempo fechou pra valer...

Depois de alguns minutos de grande confusão, com xingamentos, palavrões, murros, pontapés e tudo mais, o árbitro Ramos da Mata expulsou Baiano, do Operário, e Godói e Felipe Pinto, do Luverdense. Serenados os ânimos, o juiz reiniciou o jogo e conseguiu levá-lo até o fim...

Com um jogador a mais em campo, o tricolor várzea-grandense não teve dificuldades para vencer o time de Lucas do Rio Verde pela contagem de 5x1, gols de Grilo, Rinaldo (2), Peta e Kiko. Claro que a vitória conquistada com uma trama bem urdida no intervalo da partida foi muito comemorada no vestiário pelos jogadores e diretores do tricolor...          

terça-feira, 10 de abril de 2018

Maquiavelismo na semifinal ajudou o CEOV a ser campeão estadual em 2006


Depois de “rodar” em grande estilo por diversos clubes brasileiros e fazer sucesso também na Turquia e na China, países onde ganhou muito dinheiro, veio parar no futebol mato-grossense em 2006, mais precisamente no União, de Rondonópolis, um talentoso meia armador carioca, cujo nome não vem ao caso para não comprometer alguns personagens dessa história, muitos dos quais ainda estão vivinhos da silva...

O jogador chegou a Rondonópolis com o prestígio em alta, inclusive dirigindo um reluzente Classe A, lançamento da Mercedes Benz do Brasil. Com um carrão daqueles, venerado pela torcida, que via nele o grande artífice das vitórias do clube, com seus lançamentos precisos para os atacantes balançarem as redes dos adversários e longe da família, que ficara em Campos-RJ, o boleiro não demorou para engatar um romance com uma rondonopolitana...

Mas por ironia do destino e também pela convivência que o futebol proporciona, a amada do meia armador acabou conhecendo um alto dirigente do Clube Esportivo Operário Várzea-grandense e, meio vida torta como era ela, a mulher decidiu mudar de parceiro na aventura amorosa, trocando um pelo outro. O virtuoso jogador de bola ainda tentou reverter a situação, mas acabou perdendo mesmo a parada para o dirigente operariano...

Sob a orientação do armador carioca dentro do campo, o União estava botando pra quebrar no Campeonato Mato-grossense de Futebol daquele ano. Para orgulho da torcida colorada, o União já era apontado como um dos favoritos para conquistar o título da temporada, pois vinha realizando uma campanha das mais brilhantes, fruto, naturalmente, da atuação de seu genial jogador.

A semifinal do certame foi disputada justamente entre União e CEOV, no Estádio Luthero Lopes, em Rondonópolis, em um único jogo. A grande preocupação do tricolor várzea-grandense era o meia armador colorado, que fazia mesmo a diferença dentro de campo...

Mas aí uma mente maquiavélica operariana descobriu uma fórmula para impedir que o astro do União complicasse a vida do tricolor, com seus precisos passes para os atacantes. A fórmula operariana: desestabilizar emocionalmente o jogador do poderoso time adversário...

Antes de o Operário entrar em campo, chamaram o zagueiro Rafael e lhe deram uma missão especial: sem se preocupar em jogar futebol, ele devia passar o tempo todo provocando o armador do União, lembrando que sua amada – o boleiro não tinha desistido de reconquistá-la – tinha virado amante de um diretor operariano, inclusive entrando em detalhes sobre intimidades do casal na hora do vamos ver...

O maquiavelismo deu certo, para desespero dos rondonopolitanos: o armador do União parecia mais uma figura decorativa dentro do campo, completamente desnorteado. E à medida que ele ia se irritando com ofensas, gozações e ironias de Rafael, mais o jogador colorado errava os passes, comprometendo a atuação de todo o time. O desempenho do armador foi tão pífio, em função do seu desequilíbrio emocional, que ele pediu ao seu treinador para não voltar para o 2º tempo do jogo...

Com o gênio do União aniquilado no 1º tempo e fora de combate na etapa complementar, o CEOV conseguiu sair do Estádio Luthero Lopes com um suado empate pela contagem de 2x2. O placar garantiu ao tricolor várzea-grandense a decisão do título de 2006 contra o Barra do Garças FC, conquistado com duas vitórias: por 2x1 lá no Zeca Costa e por 2x0 no Verdão...  

quinta-feira, 8 de março de 2018

Uma viagem folclórica de Joaquim de Assis e Schardosin em busca de reforços para o Dom Bosco

Assis não viajou mais com Schardosin...

O Dom Bosco estava precisando com urgência reforçar sua zaga central para disputar o Campeonato Brasileiro de  1978. No mercado da bola em Mato Grosso zagueiros centrais de alto nível eram mangas de colete e o presidente dombosquino Joaquim de Assis decidiu buscar dois jogadores da posição em outros estados.

E lá se foram Joaquim de Assis e o supervisor de futebol Newton Schardosin para São Paulo em busca dos jogadores pretendidos. A primeira parada dos dois seria Piracicaba, onde pretendiam conseguir junto ao XV de Novembro os reforços que buscavam. Se não desse certo. tentariam outros mercados...

Definida a viagem, na Belina de Joaquim de Assis, dirigida por Schardosin, pegaram a BR-364 e foram até Jataí, em Goiás, pois haviam decidido chegar a Piracicaba entrando pelo Triângulo Mineiro. Depois de 15 horas de viagem, abasteceram o carro no Posto Triângulo, antes de Uberlândia e após um rápido descanso, para um lanche, caíram no mundo...

Como tinham pressa, decidiram viajar a noite inteira para o destino final, Piracicaba. Quando o dia já estava amanhecendo, a toda hora Assis dizia a Schardosin: “Tenho certeza que já passamos por aqui...” 

O supervisor Schardosin desconversava e continuava afundando o pé no acelerador, com a convicção de quem supostamente conhecia muito bem o terreno onde estava pisando...
­­­– Schardosin, eu tenho certeza... “ – Já sei, presidente, o senhor acha que... mas está enganado... – cortava Schardosin..

Quando o dia amanheceu, os dois constataram, para desespero de Schardosin, que estavam chegando a Alto Araguaia, voltando para Cuiabá...

Cansado e chateado, Joaquim de Assis deu a ordem a Schardosin: “Siga em frente, vamos pra casa...”

Dominado pelo cansaço, agravado pela noite insone ao volante do carro, Schardosin procurou ganhar tempo, buscando atalhos para retornar a Cuiabá...

Nunca mais Joaquim de Assis viajou por via terrestre com Schardosin...