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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Guinness era pouco para recordista...

              Melhor goleiro do que foi Cacildo Hugueney, que despontou no futebol do leste de Mato Grosso no fim da década de 30, defen­dendo o Araguaia Esporte Clube, ainda está para nascer por esse mundo afora. Ele foi tão bom que se naquela época existisse o Guinness Book, certamente Hugueney seria um papa recordes.
Jogando ao lado de craques consagrados do AEC como Xomaninho, Bicanca, Dandan e Dante, Cacildo, sempre titular da equipe alto-araguaiense, sofreu apenas 3 gols em 10 anos de boleiro. Isso mesmo: 3 gols em 10 anos, com a incrível média de 1 gol sofrido a cada 3 anos e 4 meses...
Muita gente e gente famosa, olhe lá, tomou conhecimento dessa in­superável façanha de Cacildo. Como foi o caso de ex-jogadores como Barbosa, Jair da Rosa Pinto, Ademir Menezes, Friaça e Zizinho, entre outros, todos da Seleção Brasileira que perdeu a final da Copa de 1950, no Maracanã, naquela histórica decisão contra o Uruguai, por 2x1.
Pedro Lima e Cacildo Hugueney tinham ido ao Rio de Janeiro com suas respectivas esposas dar um passeio e acabaram encontrando o famoso lateral esquerdo Nilton Santos, do Botafogo e da Seleção Brasileira, que havia defendido o “Pantera do Leste” num torneio de futebol realizado em Cuiabá na década de 50.
Verdadeiro “gentleman” que sempre foi, dentro e fora do campo, Nil­ton Santos levou os dois casais para conhecerem os principais pontos turísticos da “Cidade Maravilhosa”. No roteiro, uma passagem pelo Estádio do Maraca­nã.
Foi lá que Lima e Hugueney conheceram os famosos craques do pas­sado. Eles estavam reunidos na sede de uma entidade que o ex-governador Carlos Lacerda havia criado para dar emprego, no próprio Maracanã, a ídolos do futebol carioca que estavam atravessando dificuldades financeiras.
E aí, rolando papo pra lá e pra cá, Cacildo discorreu com muita con­vicção sobre sua façanha no futebol em Mato Grosso. Os presentes olhavam meio desconfiados uns para os outros, fazendo força para não sorrir. E o herói do gol concluiu, de peito estufado: “Só engoli três bolas...”
Nomeado exator de rendas em Alto Araguaia, na década de 30, Ca­cildo Hugueney transformou-se num poderoso cacique político, seguindo os passos do maior “coronel” da política da região, Ondino Lima. Hugueney foi prefeito de Alto Araguaia durante 12 anos – 8, nomeado pelo interventor de Mato Grosso, Filinto Muller, e 4 em eleição direta.
Seu prestígio era tão grande que durante a campanha para presidente da República em 1955, ele conseguiu, com o apoio do seu padrinho políti­co Filinto Muller, levar Juscelino Kubitscheck a Alto Araguaia para fazer um comício. Foi o único município do interior de Mato Grosso a ter a honra de receber JK.
Mais do que fazer um discurso, JK até pernoitou em Alto Araguaia de domingo para segunda-feira. Pernoitou, mas não dormiu, pois pé de valsa como era, JK dançou das 23 até as 4 horas da matina em um baile muito chique realizado em sua homenagem.
O baile foi uma festa que deixou saudades em Alto Araguaia. Era tanta mulher querendo dançar com o futuro presidente da República que Pe­dro Lima, já bem mamado, organizou um “comitê” no salão para inscrição e organização da fila das dançarinas que iam rodopiar nos braços do mais famo­so e indiscutivelmente maior dançarino do baile...
Teve até um critério, estabelecido por Pedro Lima, para a sequência das danças. Primeiro as mais bonitas, na sequência as menos feias e depois as mais feias. JK, com toda a sua simplicidade e popularidade, não estava nem aí para a parceira que estava na fila. Ele queria era dançar...

(Reproduzido do livro Casos de todos os tempos  Folclore do futebol de Mato Grosso).. 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Boato sobre dopping facilitou a goleada do Mixto contra o Americano no Verdão


Carlos Orione
Arranjar e vestir um jaleco branco, como se trabalhasse na área da saúde, e se apresentar à chefia da delegação do Americano, do Rio de Janeiro -- que já estava em Cuiabá para enfrentar o Mixto -- como enfermeiro da Federação Mato-grossense de Desportos designado para coletar urina de alguns boleiros depois do jogo para o exame anti-dopping.

Esta foi a ordem que o presidente da FMD, Carlos Orione, deu ao funcionário da entidade e seu homem de inteira confiança, Armindo Alves, em uma conversa reservada que ficou entre os dois, já falecidos, e as quatro paredes da sala da presidência, às vésperas do jogo entre os dois times, dia 10 de outubro de 1976, pelo Campeonato Brasileiro.

Armindo Alves cumpriu a missão direitinho. Naquele tempo, os boleiros, salvo raras exceções, afundavam o pé pra valer em psicotrópicos – Glucoenergan, Preludim, Pervintim etc  -- para ficarem mais “elétricos” durante o jogo, como a garotada faz hoje com os energéticos, largamente consumidos para revigorar as forças nas baladas de fim de semana.

Muitas vezes, os jogadores exageravam no consumo de “energéticos”. Na decisão do Campeonato Mato-grossense de Futebol de 1968/69, ganho pelo Operário, com uma vitória dramática sobre o Mixto, por 3x2, alguns operarianos consumiram tanto um chá mate especial no vestiário que depois de uma noitada na boate Tabaris para comemorar o título, o meio campo Tatu, do tricolor, queria de todo jeito retornar ao Dutrinha para continuar jogando...

Como o uso de estimulantes virou uma praga nos esportes em geral e não apenas no futebol, as autoridades começaram a apertar o cerco contra essa prática danosa para a saúde, aumentando a incidência, de surpresa, dos exames anti-dopping. E como as punições são rigorosas, podendo chegar ao banimento do infrator da atividade esportiva, profissional ou amadora, atletas de todos os níveis fugiam dos exames anti-dopping como o diabo foge da cruz...

Consequência ou efeito ou não da conversa que o “enfermeiro” Armindo Alves teve com a chefia da delegação do Americano, o fato é que o time carioca teve uma atuação apagadíssima no Verdão. Nem parecia o valente Americano que, como o Mixto, estava brigando para continuar na disputa da segunda fase do Brasileiro de 76.

Resultado do verdadeiro golpe dado no time carioca, pois a então CBD, que virou CBF em 1979, não havia programado nenhum sorteio de jogadores para ser submetidos ao exame de dopping  naquela partida no Verdão: o MIxto ganhou de 4x1, gols de Bife, Toninho, Lorival e Traíra, com Zé Neto marcando para o Americano  no último minuto de jogo.

Quem conta esta história não sabe nem se o Mixto ficou sabendo da armação da dupla Orione-Armindo contra o Americano. Mas Orione teve um bom motivo para, de forma sorrateira, ter induzido o time carioca a não recorrer a “energéticos” naquele jogo: o futebol mato-grossense estava vivendo sua fase de ouro e a continuidade do Mixto no Brasileiro significava dinheiro, muito dinheiro mesmo, nos cofres da sua federação...   


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Torcida começa a crer que urucubaca do CEOV só terá fim com um novo macumbeiro


O lendário Carrapato
 (foto: arquivo  Diário
 de Corumbá) 
Depois de um jejum de dez anos sem conquistar um título importante, torcedores do Clube Esportivo Operário Várzea-grandense já começam a admitir que é de um “protetor” com poder no mundo espiritual, como o do falecido pai de santo Edu Diniz, o lendário Carrapato, que o clube está necessitando para acabar com a velha urucubaca. Para a torcida não é de bons jogadores, nem de técnicos consagrados que o “Chicote da Fronteira” anda precisando para dar a volta por cima e recuperar o seu prestígio no futebol mato-grossense.

A torcida da velha guarda e que testemunhou tantas conquistas brilhantes do tricolor é a que mais sofre com a má fase que parece não ter mais fim do quase septuagenário CEOV, fundado no dia 1 de maio de 1949, por Rubens dos Santos, sob inspiração do bispo Campelo de Aragão, que foi mandado de Goiânia-GO para criar Círculos Operários em Mato Grosso – uma versão urbana das Ligas Camponesas do temido comunista Francisco Julião.

Caminhando já para meio século de vínculo com o “Chicote da Fronteira”, o atacante Zé Pulula, afilhado de casamento de Rubens dos Santos, conheceu bem Carrapato. Mas apesar da fé de seu padrinho nas mandingas do pai de santo que Rubens dos Santos mandava vir de Corumbá-MS para os jogos mais importantes do seu clube, Zé Pulula não acreditava muito nas bruxarias de Carrapato. Ele admite, porém, que “trabalhos” extra-campo podem ter grande influência psicológica no futebol...

Outro operariano da velha guarda e que prefere não se identificar, não tem dúvida que Carrapato influenciava mesmo na vida do Operário e  nas suas grandes conquistas no futebol. “Só de saber que o Carrapato estava na cidade ou nas arquibancadas do estádio os nossos adversários tremiam de medo. Não era medo de perder o jogo, mas dos espíritos das trevas do Carrapato quebrar a perna de alguém, provocar uma doença durante o jogo...” – afirma.     

Entre os operarianos, inclusive da nova geração, já vai se consolidando a crença de que o “Chicote da Fronteira” está “amarrado” por alguma praga como a que uma lavadeira rogou contra o União, de Rondonópolis, que passou anos e anos sem conquistar um Campeonato Mato-grossense da 1ª Divisão, apesar de ter disputado oito finais do certame da FMF. Finalmente, o União ganhou o título estadual em 2010, depois que o cacique político rondonopolitano Afro Stefanini foi sepultado com os bolsos da calça cheios de dinheiro, colocado pela sua filha Amélia, para pagar a lavadeira no além...

A crença dos operarianos na existência de uma maldição contra o clube é fundamentada numa suspeita: faz muitos anos, o CEOV encomendou um “trabalho” do pesado e caríssimo ao pai de santo Alírio Ferreira, que transferiu seu Centro Espírita São Sebastião, da comunidade de Capela do Piçarrão para o distrito de Souza Lima, e nunca pagou o valor combinado. Por isso, muitos torcedores têm certeza que o pai de santo rogou uma praga da “braba” contra o clube por conta do calote. Mas Alírio nega de pés juntos...

Carrapato era conhecidíssimo nos meios esportivos de Corumbá, onde na década de 60 fundou e dirigiu por muitos anos o Cruzeiro Esporte Clube e muito respeitado e admirado na cidade pantaneira como pai de santo. Ele faleceu em 1986. Às vésperas do seu falecimento, Amin Amiden, diretor financeiro do hospital onde ele   estava internado, flagrou um grupo de seguidores de Carrapato fazendo um ”despacho” em seu apartamento, como se estivessem dando adeus ao mestre...

1979, véspera da decisão da Copa Cuiabá, entre Operário e Mixto: Nelsinho, o cabeleireiro dos mixtenses, estava no Baretta atendendo seus clientes, quando Rubens dos Santos adentrou o salão, seguido de um velho de cabeça branca, com aparência meio  sinistra, e foi logo lhe dizendo que a pessoa que o acompanhava queria conhecê-lo.

Quando Nelsinho estendeu-lhe a mão, o amigo de Rubens dos Santos foi logo dizendo: “Ah! Então você é o famoso mixtense... “ e apertou-lhe a mão com muita força.

-- Eu sou o Carrapato e vim de Corumbá só para derrotar o Mixto. O seu nome também está na minha lista...    

Gargalhadas ecoaram pelo salão. Nelsinho lembrou a Carrapato  que o Mixto tinha Bife, que estava no auge de sua forma e marcando gols adoidado, com Carrapato retrucando que o atacante mixtense estava mais que amarrado pelas suas mandingas...

Moral da história: o Mixto foi derrotado e Bife perdeu até pênalti.


-- O trabalho do Carrapato deve ter sido mesmo dos brabos. Vôte!... – esconjura Nelsinho.              . 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Sem conversa ao pé-de-ouvido com o juiz, o placar do jogo no Verdão ficou em 0x0


Para o Mixto seria de fundamental importância derrotar o Operário, de Campo Grande, no jogo que disputariam no Verdão pelo Campeonato Nacional de 1976. Era o que se chama no jargão esportivo de jogo de vida ou morte...

Um dia antes do jogo, um dirigente do Atlético Goianense, com quem o Mixto manteve um excelente relacionamento – até o alvinegro dar um golpe no clube goiano e ficar com o passe de Traíra de graça... -- ligou para um diretor mixtense para informar que o juiz carioca que ia apitar a partida e era bem conhecido nos meios esportivos por ser chegadinho a uma conversa ao pé-de-ouvido, ia fazer escala em Goiânia com destino a Cuiabá.

O que o informante mixtense não sabia é que no mesmo avião estava também a delegação do Operário, que havia embarcado em Campo Grande. O avião estava para aterrissar no Aeroporto Santa Genoveva, a última etapa.do voo do operariano campo-gandense para a capital mato-grossense.

-- Então você vai agora para o aeroporto, deixa o carro no estacionamento pega o avião e o resto você sabe como ninguém como fazer... -- disse o mixtense, como se estivesse dando uma ordem ao goiano, em nome da amizade que imperava entre os dois clubes.

O diretor do Atlético Goianense cumpriu direitinho às determinações, mas o plano da conversa ao pé-de-ouvido com o juiz, com o objetivo de facilitar a vida do Mixto, acabou dando em nada.

Já no interior do avião, quando o dirigente goiano identificou o árbitro e tratou de se acomodar na poltrona do corredor da fileira em que o juiz estava, quem ele reconheceu no outro assento ao lado do apitador na janelinha da aeronave? Simplesmente o presidente do Operário, o espertíssimo Irineu Farina...

Claro que não houve a pretendida conversa ao pé-de-ouvido com o juiz para ele dar uma forcinha para o Mixto, que precisava tanto da vitória..

 Sem a conversinha camarada, o jogo no Verdão terminou em 0x0...

Não vai ter festa de confraternização do futebol do passado este ano


A confraternização entre ex-dirigentes, atletas e comunicadores do futebol cuiabano, realizada tradicionalmente dia 15 de novembro há mais de uma década, por um grupo que vem lutando para preservar a memória desse esporte na capital mato-grossense, vai passar em branco este ano. Motivo: falta de recursos financeiros para bancar os custos com a grande festa:que reúne centenas de pessoas que ajudaram a construir o passado da bola em Cuiabá.

Empolgado com o sucesso da confraternização.do futebol cuiabano, em 2011 o vice-governador do Estado, Chico Daltro, encampou o evento esportivo, transformando-o numa festa política, inclusive passando a homenagear pessoas que nada tinham a ver com o passado da bola em Cuiabá. Com a elitização da festa, muitos ex-atletas, dirigentes e comunicadores deixaram de participar da confraternização por considerar os ambientes onde passou a ser realizada – Hotel Fazenda Mato Grosso e Cenarium Rural – muito chiques..

A dupla Totó Arruda-Glauco Marcelo, que vinha há muito tempo promovendo o evento até que tentou manter a tradicional festa, retomada o ano passado, depois que o governo estadual deixou de organizar a  confraternização sem dar satisfação a ninguém. Mas não foi possível, por falta de patrocinadores por causa do alto custo da festa, que geralmente começa pela manhã e se estende por todo o dia, com grande consumo de comida e bebida, principalmente cerveja, pois, nesse quesito, os craques do passado continuam numa forma invejável...  .     

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Mixto deu o golpe no Atlético Goianense e ficou com o passe de Traíra de graça


O ponteiro direito Traira (já falecido) saiu de Goiânia
escondido no porta-malas do carro de José Luiz.
 (Foto: arquivo pessoal de Nelson Vasques)
Foi de caso muito bem pensado que o diretor do Departamento de Futebol do Mixto, José Luiz Paes de Barros, e o assistente técnico do treinador Milton Buzzeto, Roberto de Jesus César, o Careca, viajaram para Goiás, para cumprir uma missão que lhes foi confiada pelo presidente do alvinegro, Lourival Fontes: resolver a situação dos jogadores Traíra, Zé Luiz e Lourival, que haviam defendido o clube no Campeonato Nacional de 1976 e cujo prazo de empréstimo do Atlético Goianense encerrava-se dia 31 de dezembro daquele ano.

Por uma questão de estratégia, José Luiz e Careca só chegaram a Goiânia nos últimos dias de dezembro. Apesar da opção para contratar os três, na realidade o Mixto só estava interessado mesmo em Zé Luiz, que não queria nem ouvir falar de Cuiabá, pois estava muito bem no São José FC, de São José dos Campos, de São Paulo. Lourival, que havia jogado inclusive pelo São Paulo FC, já estava com 34 anos nas costas... Restava Traíra, das três opções.

De cara, o Atlético Goianense criou um problemão para liberar Traíra, cujo passe estava fixado em Cr$ 70 mil (cruzeiros): queria que Pastoril.fizesse parte da transação. Mas o Mixto já tinha acertado praticamente a venda de seu meia armador com o Goiás, um dos grandes rivais do Atlético Goianense.

-- Se vocês cobrirem a oferta do Goiás pelo Pastoril, o Mixto desfaz o negócio com eles – propôs José Luiz. No entanto, a sugestão do mixtense não vingou de imediato, para satisfação do dirigente alvinegro, que queria mesmo ganhar tempo para o dia 31 de dezembro chegar logo...

Apesar da insistência do Goiás para contratar Pastoril, o Mixto não tinha nenhuma pressa para vender seu jogador. Acontece que Pastoril tinha feito uma grande temporada em 1976 defendendo o Mixto e seu passe estava muito valorizado, apesar dos maus momentos que ele passou em Cuiabá caindo em desgraça diante da torcida alvinegra, inclusive sofrendo ameaças de agressões nas ruas. 
   
Mas por que essa reação da torcida contra o ex-ídolo? Simples. No Campeonato Nacional de 1976, o Mixto venceu o Vasco da Gama por 1x0 no Verdão, com Pelezinho marcando um gol olímpico no experiente goleiro Mazzaropi. No jogo de volta, em São Januário, no Rio de Janeiro, o Vasco da Gama venceu pelo mesmo placar registrado no Verdão  e eliminou o Mixto do certame.

A razão de Pastoril ter caído em desgraça diante da torcida alvinegra:  no final do segundo tempo do jogo em São Januário, o juiz marcou um pênalti a favor do  Mixto e que se convertido em gol classificaria o representante de Mato Grosso para a fase seguinte do certame. Encarregado da cobrança da penalidade máxima, Pastoril, permitiu a defesa de Mazzaropi, causando consequentemente a eliminação do seu time...

Exímio cobrador de pênaltis, Pastoril passou a ser acusado pela torcida de ter facilitado a defesa de Mazzaropi para classificar o Vasco da Gama, de cuja “escolinha” os dois eram crias. A torcida descobriu até que Pastoril e Mazzaropi passavam horas treinando penalidades máximas um contra o outro para imputar ao então jogador mixtense a pecha de “vendido”, além de adjetivos impublicáveis, que o acompanharam por muito tempo...

Chegou o tão esperado, por José Luiz e Careca, dia 30 de dezembro – dia 31 os bancos não abrem, pois fecham para balanço. Depois das 16 horas, José Luiz e Careca comunicaram diretores do Atlético Goianense que o Mixto havia depositado na tesouraria da ainda Federação Mato-grossense de Desportos (FMD), que virou FMF em 1979, um cheque de Cr$ (a moeda que havia entrado em vigor em 1970) 70 mil correspondente ao valor do passe de Traíra.. Passaram inclusive os telefones de Carlos Orione e Lourival Fontes, caso quisessem  confirmar  depósito do cheque...
  
Para dar uma demonstração que o Mixto estava agindo com lisura na transação de Traíra, na impossibilidade de sacar tanto dinheiro para pagar o Atlético Goianense, José Luiz foi até o Fórum depositar um cheque seu no valor do passe de Traíra, mas o Judiciário já estava em recesso de fim de ano... o dirigente mixtense sabia muito bem disso. Tudo estava caminhando como havia sido planejado.

Depois de muita confusão e tumultos, José Luiz conseguiu que uma Delegacia de Polícia Civil de Goiânia aceitasse ficar como depositária fiel do seu cheque pessoal para pagar o Atlético Goianense assim que os bancos reabrissem depois das festas de fim de ano. Ele conseguiu, inclusive, um documento para anexar a um futuro processo na eventualidade do clube goiano decidir contestar na Justiça Desportiva e Comum a forma como o Mixto estava pagando o passe de Traíra...

Depois de tanto “rolo” e com medo de uma reação da torcida, que não aceitava que Traíra deixasse o Atlético Goianense, o jogador saiu da capital goiana escondido no porta-malas do carro de José Luiz. E só depois de um longo trecho da viagem, Traíra saiu da incômoda posição e sentou-se no banco do veículo.

Na segunda-feira, Traíra assinou novo contrato com o Mixto. Enquanto o alvinegro providenciava rapidinho o registro de seu novo jogador, Traíra, ainda assustado com o tinha acontecido envolvendo sua transferência, foi levado para uma chácara às margens do Rio Cuiabá, onde passou dez dias pescando, comendo peixe e descansando...

Com o novo contrato de Traíra, o Mixto tratou imediatamente de sustar o pagamento do cheque que José Luiz havia deixado na Delegacia de Polícia de Goiânia. Quando os dirigentes do clube goiano procuraram a tesouraria da FMF para receber o dinheiro da transferência de Traíra, descobriram que não havia cheque algum  depositado em nome do Atlético Goianense. E só aí entenderam que haviam sido vítimas de um verdadeiro golpe. E nunca viram a cor de um centavo da transferência de Traíra para o Mixto...  


terça-feira, 11 de outubro de 2016

Carrapichos em duas camas e muita confusão no hotel

Ninguém se recorda se foi em 1957 ou 1958 que o todo poderoso Clube Atlético Mato-grossense pegou a estrada mais uma vez -- naqueles tempos aviões de carreira eram coisas raras na região -- para ir a Campo Grande enfrentar o Operário ou o Comercial, ninguém se lembra também.

Era um simples amistoso, mas a rivalidade que existia no futebol entre os times das duas principais cidades do Mato Grosso indiviso, transformava qualquer jogo numa verdadeira guerra.

A delegação atleticana, sempre comandada por Décio Matozo, chegou a Campo Grande, no sábado bem cedo, com tempo suficiente para descansar  para o jogo no dia seguinte. A viagem, apesar de cansativa  -- são 700 quilômetros entre Cuiabá e Campo Grande – pela então esburacada e poeirenta  BR-163, que sai de Tenente Portela-RS e termina em Santarém-PA, transcorreu tranqüila e, como sempre, muito animada.

Hospedada em um hotel da Rua Rio Branco, a delegação saiu para jantar mais cedo, no centro da cidade, para ficar em regime de concentração até a hora do jogo. Considerado o time da elite cuiabana, o Atlético Mato-grossense sempre manteve um time fortíssimo. Tanto é que quando o time jogava, a preocupação da torcida era saber de quanto a equipe havia ganhado o jogo porque a vitória era certa. Foi assim durante muitos anos. Também um time que tinha Fulepa, Portela, Iauro, Sebastião, Nato,  Ariel, Mário Tatuzinho...

Na volta para o hotel, por sugestão de Portela, alguns jogadores, que estrategicamente foram ficando para trás, começaram a pegar com muito cuidado para não se ferirem carrapichos na rua Rio Branco. Antes dos jogadores subirem para os quartos que já haviam ocupados, o grupo, disfarçadamente, colocou os carrapichos dentro do travesseiro de Fulepa e sob o lençol da cama de Paulinho, goleiro reserva de Fulepa.

Quando os dois deitaram e sentiram as doloridas ferroadas dos carrapichos, pularam furiosos das camas. O grupo que autor da brincadeira, tomou as dores de Fulepa e Paulinho, incentivando-os a descer ate a portaria para exigir providências da gerência do hotel. Houve até quem levantasse suspeita que os carrapichos tinham sido uma armação dos adversários do dia seguinte...

Já acostumado com esses tipos de brincadeiras, principalmente quando Portela estava presente, Fulepa se acalmou logo. Mas Paulinho que queria porque queria procurar a gerência do hotel para tirar satisfação e só a muito custo foi contido pelos companheiros. E, como sempre, a palhaçada terminou em gostosas gargalhadas...     


         

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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A morte está “apagando” a memória do futebol mato-grossense


Uma pesquisa memorial que vem sendo realizada pelo médico veterinário Manoel de Aquino Filho, o Lito, que durante mais de uma década brilhou intensamente como atacante do Mixto Esporte Clube, está constatando que muitos jogadores e outros personagens que ajudaram a construir a história de futebol e do seu rico folclore em Mato Grosso morreram nas últimas pouco mais de três décadas, deixando a memória desse esporte no Estado mais pobre.

Alguns morreram de forma trágica: Pelezinho e Tuta foram vítimas de acidentes de carros; Justino, faleceu em conseqüência da queda de uma bicicleta na Avenida 31 de Março; Severino Bispo, o sargento da PM Severino, foi assassinado a tiros ao tentar apartar uma briga comum em um bar no bairro Dom Aquino em Cuiabá...

Só da família Gonçalves, cujos irmãos Leônidas, Ariel, Pelé, Acácio e Marcelo, que jogando juntos em um mesmo time ou em equipes diferentes, encantaram multidões nos estádios do Liceu Cuiabano,e Dutrinha ou em simples campos de peladas espalhados pela Grande Cuiabá, perdeu três craques. O primeiro a morrer foi Leônidas, no distante 1989, depois Ariel e o último Pelé. Do quinteto dos irmãos Gonçalves, cuja estrela de maior brilho foi Leônidas, que além do futebol era craque também no vôlei e no basquete, restaram Acácio e Marcelo.

O levantamento de Lito revelou que o clube que perdeu o maior número de jogadores para a morte nos últimos anos foi o Mixto Esporte Clube. Só goleiros foram quatro: Dito Gasolina, Júlio César, Tira e Zeno. Outros goleiros já falecidos, são: Clóvis (Dom Bosco) e Mauro e Saldanha (Operário Várzea-grandense).

Faleceram também do Mixto, além dos zagueiros Severino Bispo e Armindo (Pelé) Gonçalves; os meio campistas Aírton Moreira, o Aírton Vaca Brava, Edy, Rômulo e Romeu Roberto; e os atacantes Catarino, Sargento (Caruncho) Magalhães, Jaburu, Bianchi, Albino Paraguaio e Adavilson (Pelezinho) Cruz.

A morte de Pelezinho ocorreu em 1981, quando ele bateu seu carro, um Passat 0 km, em um poste da Avenida Fernando Correa da Costa após sair da Lanchonete Chuá em direção a Boate Sayonara para uma noitada de carnaval. Com ele, morreram três amigos, ficando gravemente ferido o jovem craque Remo, irmão do recentemente falecido Rômulo, e que como o mano brilhou no Mixto.

Do velho Clube Atlético Mato-grossense, dos irmãos Matozo, morreram Sarobá, Batista Jaudy, Platibanda, Emílio e Ariel; do Dom Bosco, Ronaldo, Tom, Xaxá, Carmindo, os irmãos Traçaia (José e Totó Traçaia); do Palmeiras, Leovaldo, Nide, Lício Malheiro; Tenente Bosco, Paulinho Pascoal e Gete; do Postal Esporte Clube, Quincas e Alinor; do Operário Várzea-grandense, Alair, Martinho, Bife, Ide, JK, Piquete, Gebara e Justino; e os irmãos Uir e Uírton e Dunga, que jogaram em vários times da Baixada Cuiabana.

Outros importantes personagens que ajudaram a escrever a história do futebol mato-grossense e o seu riquíssimo folclore e que já partiram para outra: Ranulfo Paes de Barros, Wilson Diniz, Dr: Zelito Monteiro, Benedito Ribeiro (Lilito) Costa, Lino Miranda e Benedito Lisboa do Nascimento (Mixto), Rubens dos Santos (Operário); Acyr (Piquira) Matozo e José Oliveira (Atlético Mato-grossense) e Joaquim de Assis (Dom Bosco).

Da crônica esportiva morreram Ivo de Almeida, Eduardo Saraiva, Márcio de Arruda e Edipson Morbeck e Romeu Roberto, que depois de deixar de jogar bola militou no rádio esportivo como Memeu Roberto. Outros personagens que passaram a fazer parte da história do futebol mato-grossense: os torcedores Nhá Barbina (mixtense) e Armindo Pipoqueiro (dombosquino)...

Lito está muito preocupado com a falta de um registro obituário, que devia se feito pelas autoridades ligadas aos esportes, “para preservar a memória daqueles que não fazem mais parte do nosso convívio”. Para Lito, as pessoas citadas no levantamento que ele vem realizando e neste trabalho “deixaram significativa.parcela de contribuição para continuidade da história do futebol mato-grossense e que jamais poderá morrer...”

Campinho do Cai-Cai revelou talentos da bola e pernas de pau medrosos...


Pindu (foto cedida pela A Tribuna)
Quem diria que uma pequena área que englobava trechos das avenidas Dom Bosco, Ipiranga e São Sebastião no bairro Goiabeiras e que se tornou muito conhecida por ter abrigado durante muitos anos o cemitério do Cai-Cai onde foram enterradas no século passado cerca de três mil pessoas vítimas da varíola, a popular e temida bexiguinha, acabasse revelando jogadores que marcaram época no futebol cuiabano.

Mas foi isso que aconteceu mesmo. Dentre tantos craques que deram seus primeiros passos no campinho do Cai-Cai ainda hoje são lembrados Pedro Parada, que jogou no Palmeiras e no São Cristóvão; Aírton, também do São Cristóvão; Danilo, que andou pelo Mixto e o Anápolis; Carmindo, do Dom Bosco; Duduca, do Operário Várzea-grandense e Catraca, que atuou também em vários times.

Depois daquela “safra” de jogadores talentosos, a garotada do Cai-Cai até que tentou recuperar a fama daquela região no futebol. Todas as tardes, a meninada se reunia no campinho e partia para  os tradicionais “rachas”, que, no caso deles, ao contrário do que acontecia com os boleiros da velha guarda que lhes servia de exemplos – não em tudo, claro! -- podiam terminar bem cedo...

Acontece que o campinho ficava em frente a Igreja Nossa Senhora do Carmo, ocupando meia rua do lado do cemitério do Cai-Cai . Como dentro do cemitério existiam alguns pés de mangas de grandes copadas, tornando área a bem escura, quando a bola caía lá, principalmente no fim da tarde, ficava no local até o dia seguinte, porque o medo que a meninada tinha do cemitério, não deixava ninguém  entrar no “campo santo”  para pegá-la...

Entre a turma da nova geração do Cai-Cai, só um jogador se destacou no profissionalismo: Pindu, que teve brilhante passagem pelo União, de Rondonópolis. Depois de encerrar a bem sucedida a carreira de jogador, Pindu virou preparador físico do clube rondonopolitano.
   
Criado pelo presidente da Província de Mato Grosso, José Vieira Couto de Magalhães, exclusivamente para sepultar ou simplesmente queimar  as vítimas da bexiguinha,  o cemitério do Cai-Cai foi desativado há muitos anos, com a sua área sendo revitalizada e transformada na atual Praça Manoel Murtinho. A última catacumba de grande porte do cemitério foi demolida pelo Exército, com a presença de muitos oficiais graduados, recorda dona Cristina Nascimento Silva, que mora defronte ao antigo “campo santo” há mais de meio século.     


quarta-feira, 13 de julho de 2016

Praga da lavadeira


A historia da praga!!!

Você acredita em praga de lavadeira? O União de Rondonópolis foi perseguido por esta história há muito tempo. O time nunca tinha sido campeão em 37 anos de história. Tem 10 vice-campeonatos. E muita gente acreditava que a principal responsável era uma lavadeira.
Lenda?

Há 37 anos, uma lavadeira contratada pelo União era a responsável por lavar o uniforme dos jogadores. Mas o clube nunca teria recompensado a profissional. Até que um dia ela teria cansado de esperar pelo dinheiro e se revoltou. Ela teria dito que se não recebesse o pagamento, iria rogar uma praga.

De acordo com o jornalista Nelson Severino, o União tinha combinado uma determinada quantia. “Quando ela ia procurar os diretores, davam um dinheirinho para ela e iam enrolando. Uma história comum no futebol, né? Mas ela teria dito que o União nunca ia ser campeão do Estado. Podia ser até de outra coisa, mas do Estado, não”, disse.

Era o início de uma longa maldição. No Mato-grossense de 2008, na última tentativa, o time chegou a final com a melhor campanha, tinha o artilheiro do campeonato e a vantagem de dois empates para ficar com o título. Mas foi derrotado pelo Mixto, dentro de casa. Diante de quase 17 mil torcedores.

O roupeiro e massagista Américo conta como a lavadeira sofria. “Vinham encardidas aquelas meias. Tinha que lavar aquilo na mão, é sofrido. Ainda não paga ela, rogou praga mesmo”, afirmou.
Tentativas de acabar com a maldição

O União já tinha feito de tudo para acabar com a maldição. Convocou uma ajuda religiosa para abençoar o clube e contratou até uma nova lavadeira. “Você pode dever bar, açougue, mercado, farmácia, mas lavadeira pelo amor de Deus não”, ironizou Américo.

Ninguém descobriu o feitiço capaz de quebrar a maldição. E nem se quisesse daria para acertar as contas com a lavadeira, que já morreu. “A história da lavadeira é verdade e todos temem porque agora não tem como pagar. Ninguém nem sabe onde ela está enterrada. Como vai acabar com essa maldição?”, questiona o jornalista Nelson Severino. 


















quinta-feira, 7 de julho de 2016

Resgate da memória da bola

Estamos lançando este blog – folcloredofutebolmt.blogspot.com.br – com um único objetivo: recuperar o folclore do futebol de Mato Grosso, principalmente de um passado que já vai muito longe, como a fase do amadorismo, e que a ferrugem do tempo está apagando sem deixar vestígios. É claro que muita coisa da era romântica do futebol já se perdeu, como constatamos durante os quase 10 anos que levamos para escrever o livro “Folclore do futebol de Mato Grosso”. Foi um trabalho que exigiu muita paciência e cansativas e demoradas checagens de narrativas, pois muitos personagens que fizeram parte dos primórdios de uma história que começou efetivamente há quase um século, com os primeiros jogos de futebol em Cuiabá sendo disputados em 1913, já partiram para outra vida e quem continua resistindo ao tempo, guarda vagas lembranças em suas memórias, em virtude do envelhecimento dos seus neurônios.

Esperamos, sinceramente, que este blog sirva de canal de comunicação entre este blogueiro e os personagens – jogadores, diretores, árbitros, torcedores, etc. – que ajudaram a construir o passado divertido da bola. Um passado brilhante, marcado por sacanagens, armações, safadezas, que enriquecem o folclore do esporte e que se manteve vivo como nos velhos tempos, mesmo com o advento do futebol profissional em Mato Grosso em 1967. Temos convicção de que com a publicação do livro “Folclore do futebol de Mato Grosso” muita gente que não acreditou no nosso projeto de resgatar esta parte da memória do futebol amador e profissional do Estado vai se dispor a contar “causos” que conhecem, contribuindo para enriquecer e perpetuar o folclore do futebol. Enquanto cuidamos do lançamento do nosso livro, nos próximos dias, se Deus quiser, vamos alimentando este espaço diariamente com narrativas que estão na nossa obra...

Um ano do lançamento do livro "Folclore do Futebol de Mato Grosso"




Foi um sucesso o lançamento do livro "Folclore do Futebol de Mato Grosso"









Lançamento do livro Folclore do futebol de Mato Grosso

Foi um sucesso o lançamento do livro Folclore do futebol de Mato Grosso, escrito pelo jornalista Nelson Severino, que em 248 páginas da obra, reproduz 120 histórias, da forma como lhe foram contadas pelos seus personagens (jogadores, dirigentes, juízes, bandeirinhas, torcedores, etc.) –que ao longo de mais de sete décadas – as primeiras bolas chegaram em Cuiabá em 1905, mas as primeiras partidas só foram disputadas em 1913 – que viveram a fase romântica do futebol amador e do profissional, implantado no Estado em 1967. O evento teve lugar na Agecopa, que bancou a impressão da primeira edição do livro e que foi representada pelo diretor de Infra-estrutura Carlos Brito de Lima e o assessor de Imprensa Eduardo Ricci, que destacaram a importância da obra, cujo principal objetivo é resgatar uma parte da cultura de Mato Grosso que está sendo consumida pela ferrugem do tempo. Além de muitos amigos e familiares do jornalista prestigiaram o lançamento do livro os ex-jogadores Fulepa, Glauco Marcelo e Nelson Vasques, os jornalistas Sérgio Neves (Folha do Estado), Mário Hashimoto (Revista Sina) e Oliveira Júnior (A Gazeta), que edita junto com Davi Cézar a revista Espoint e outros. (Veja o vídeo produzido pela Agecopa) sobre o lançamento do livro.

Roubo de penosas e comilança

Sexta-feira Santa de 1971. Um grupo de jogadores do Operário que moravam na “república” do clube, na Avenida Couto Magalhães, que naquela época não era toda asfaltada, decidiu roubar umas galinhas para comemorar o Sábado da Aleluia. Do grupo faziam parte Bife, Jorge Cruz, Joel Diamantino, Gaguinho, Dirceu Batista e Odenir, o Upa Neguinho, além de "Chega Junto", zelador da “república” e irmão do jogador operariano Sabará.
Já passava da meia noite, quando o grupo saiu do alojamento, com a certeza de que seria uma moleza banquetear com penosas dos outros, como era tradição antigamente. Tinham razões os jogadores para pensar assim. É que bem defronte a “república” morava uma família que criava muitas galinhas e era ali, conforme haviam decidido antes, que iam deitar e rolar...
Nem bem puseram os pés na rua para sair em busca das galinhas, todos trajando uniforme de treino do Operário, ouviram a voz do dono do galinheiro. "Aqui, não, seus malandros! Minhas galinhas estão trancadas e bem protegidas. Vamos andando!..." – ordenou o vizinho, como se tivesse adivinhado o pensamento dos jogadores.
Ninguém sabia onde, ali por perto, existia outro galinheiro. Os jogadores decidiram, então, roubar um porco para a ceia da Aleluia. Mas no primeiro chiqueiro que entraram, uma desagradável surpresa: o dono certamente havia também escondido seus animais e ainda por cima Odenir caiu dentro da pocilga, ficando com um mau cheiro desgraçado de bosta de porco.
A decisão do grupo de só voltar para a “república” com as galinhas ou pelo menos um porco era irreversível. Já tinham até combinado com dona Neta, uma senhora que sempre foi a segunda mãe dos jogadores que viviam no alojamento, a festa do Sábado da Aleluia...
Na caminhada sem destino pela Couto Magalhães, lá pelas tantas um ouvido mais acurado escutou um barulho de motor. E identificou do que se tratava: era um velho e único jipe que a Polícia Civil de Várzea Grande utilizava para fazer rondas noturnas por ali. E sempre ocupado por dois policiais chatos que só eles...
Para evitar uma eventual encrenca com os policiais, os jogadores decidiram rapidinho formar grupos de dois em dois e continuaram a caminhada, fazendo aquele exercício em que a pessoa bate palmas sobre a cabeça, com os braços bem levantados, e com a ponta dos dedos toca a clavícula.
Não deu outra: os policiais foram chegando e interrogando o grupo sobre a presença deles, àquela hora, já na parte sem asfalto da avenida, fazendo aqueles movimentos sincronizados.
– Ora, estamos treinando – respondeu alguém.
– Mas a esta hora? – questionou um dos policiais.
– É que o jogo de domingo vai ser muito difícil, é preciso a gente treinar muito para ficar em boa forma física...– justificou outro.
Os chatos policiais não acreditaram muito na história, mas foram embora... 
A madrugada avançava quando os jogadores, depois de bater muita perna e bem sucedidas invasões a galinheiros da área de abrangência da “república”, chegaram na casa de dona Neta. Com 12 galinhas dentro de um saco de carregar material esportivo do Operário e das quais apenas uma delas morta de tanto "Chega Junto" apertar seu pescoço para a penosa não gritar quando estava sendo roubada...
Porta aberta com um sorriso de recepção de mãe Neta, foi todo mundo ajudar a preparar as penosas: matar, ferver água para arrancar as penas, tirar as tripas, trinchar, etc.. E aí foram três dias de comilança de galinha com arroz, ao molho, assada, à passarinho...

(Esta história faz parte do livro Folclore do Futebol de Mato Grosso)



Nelson Severino
Jornalista e escritor

Prezado Senhor
Parabenizo veterano jornalista e professor pelo lançamento do livro “Folclore do futebol de Mato Grosso”, ocorrido no dia 27/05, às 19h30, na sede da AGECOPA, nesta capital.
Este livro contribuirá notavelmente para a valorização da história do futebol mato-grossense contada por aqueles personagens que fizeram e o vivenciaram.
Fraternalmente,
Leonardo Pio da Silva Campos,
Presidente da Caixa de Assistência dos Advogados de Mato Grosso.

Estimado Nelson,
Foi com enorme alegria que, ao visitar a Livraria Janina, no Shopping Pantanal, no último domingo, vi exposto na vitrine principal o seu livro “Folclore do futebol de MT”. Comprei e estou lendo... e gostando muito.
Parabéns pela concretização do seu sonho. 
Já estou ansioso, esperando a publicação do segundo volume!
Um abraço,
Reinhard Ramminger



Prezado Nelson.! 
Dia 08 de Junho, data de meu aniversário fui presenteado com sua bela obra" Folclore do Futebol de Mato Grosso", que verdadeiramente ultrapassou as minhas expectativas pelo rico conteúdo dos acontecimentos futebolísticos narrados, levando o leitor a se deliciar com as lembranças de um passado glorioso e hilário em todas as fases da história do futebol de Mato Grosso.
A parte, com as narrativas de Pedro Lima, pude recordar do grande Wilsinho, crack inconteste do temido Pantera do Leste, que poderia jogar em qualquer time do Brasil. Em 1965 o Mixto foi buscá-lo por empréstimo em Alto Araguaia-MT para um jogo com o Flamengo do Rio aqui no Dutrinha, onde fizemos a dupla de ataque.
Parabéns mais uma vez, e siga em frente que a 1ª amostra tenho certeza já foi aprovada.
Um grande abraço
do amigo
Lito.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Exu frangueiro

O jogo que o União ia disputar com o Dom Bosco pelo Campeonato Mato-grossense de Futebol de 1978 era quase de vida ou morte. Durante a semana da ansiosamente esperada peleja, alguém teve a idéia de os jogadores irem a um centro espírita de Rondonópolis pedir proteção e ajuda às forças do além para o time sair de campo vitorioso... 
Logo a sugestão se espalhou entre o plantel. Ficou combinado, então, que mesmo os que não acreditavam em espiritismo ou macumba, teriam que comparecer à sessão de descarrego para não quebrar a corrente. O União tinha jogadores como Ruiter, Gílson Lira, Ernani, Mário Sérgio, Pindu, Zé Cachorro. Só craques mesmo. Mas uma forcinha extra ajudaria muito... 
De comum acordo, os jogadores escolheram um centro de umbanda que trabalhava com mesa branca até por volta das 21 horas, com os guias incorporando divindades do bem para aconselhar quem os procurava, receitar medicamentos e tratamentos, dar passes, resolver problemas conjugais, etc..
A partir daquele horário, alguns guias do terreiro recebiam caboclos da pesada, como exus e tranca ruas. Na sexta-feira, conforme tinha sido combinado, lá se foram os jogadores para o centro espírita.
Assim que chegaram ao terreiro, o goleiro Almeida procurou se informar quais eram os guias que recebiam exus. Apresentado a um deles, Almeida foi direto ao assunto: precisava de uma proteção especial para não sofrer gols contra o Dom Bosco,
Quando exu baixou no terreiro, Almeida, sem rodeios, fez-lhe o pedido. O orixá concordou em ajudar Almeida a fechar o gol, mas impôs uma condição: antes de começar o jogo, queria uma dose caprichada de marafo, que na linguagem da macumba quer dizer cachaça.
Chegada a hora do jogo, Almeida pegou um vidro com cachaça, embrulhou numa pequena toalha e entrou em campo confiante como nunca na vitória. Afinal, fazia dois anos e meio que o União não perdia no Luthero Lopes. 
Escolhido o campo, Almeida foi para o gol que ia defender, fez suas mandingas – como chutar os postes, dar pulinhos no centro da meta tocando as mãos no travessão, sempre rezando, bater os pés três vezes cada, se benzendo. Para completar, despejou a pinga nos dois postes, para exu...
O jogo estava muito difícil para os dois lados. Boas oportunidades os dois times criavam, mas nada de sair gols. Os jogadores do União até que não se preocupavam muito com os ataques do Dom Bosco, pois, afinal, exu estava no gol dando uma força e tanto para Almeida...
Finalzinho do primeiro tempo e o juiz marca uma falta perto da grande área contra o União. Bargas, que era o terror dos goleiros em chutes de bola parada, mesmo de longa distância, prepara-se para cobrança.
Almeida vai para o canto esquerdo, orienta a formação da compacta barreira do lado direito, deixando um pequeno espaço para Bargas tentar o chute no corredor em que o arqueiro estava. Impossível a bola passar por ali... ainda mais com a presença de exu no gol.
Quando Bargas bateu na bola, Gílson Lira, que sempre ficava de frente para quem ia cobrar a falta, se tinha que ficar na barreira, não teve dúvidas: era gol. No chute perfeito de Bargas, a bola fez uma curva e entrou exatamente no ângulo oposto ao do lado que Almeida guarnecia...
– Porra, pega a bola exu, essa não dá pra mim!... – gritou desesperado Almeida, enquanto a bola estufava a rede do União...
O estádio de Rondonópolis transformou-se então em palco de duas cenas inusitadas simultâneas: enquanto os jogadores do Dom Bosco festejavam com euforia o gol de Bargas, os do União morriam de rir com o grito de Almeida. Os torcedores e muito menos diretores do União não entendiam nada do que estava acontecendo. 
Terminado o primeiro tempo, os jogadores do União já entraram no vestiário levando esporros do presidente Lamartine da Nóbrega e do treinador Genésio do Carmo. Esclarecido o motivo de tanta risada por causa de um gol do time adversário, o União voltou para o 2° tempo e acabou vencendo o jogo por 2x1.
Apesar da vitória, o goleiro Almeida passou muito tempo xingando exu de tudo quanto é nome por ter sido enganado pela divindade do candomblé...

(Esta história faz parte do livro Folclore do Futebol de Mato Grosso)

Moção de Congratulação a jornalista

A Assembleia Legislativa de Mato Grosso aprovou no ano passado uma Moção de Congratulação ao jornalista e professor de Educação Física Nelson Severino pela publicação do livro Casos de todos os tempos – Folclore do futebol de Mato Grosso, que lançado em maio de 2011, já vendeu mais de 500 exemplares. A proposição da homenagem ao autor do livro e que está empenhado num projeto para resgatar a memória do futebol mato-grossense, através do seu rico e hilário folclore,foi apresentada em plenário pelo pelo deputado Mauro Savi, 2° Secretário da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa.
Segue o texto da Moção de Congratulação, encaminhada ao jornalista pelo presidente do Parlamento Estadual, deputado José Riva

Com fulcro no artigo 183, IX, do Regimento Interno desta Casa de Leis, requeiro à Mesa, ouvido o Soberano Plenário, que seja registrado nos anais da Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso e encaminhado ao jornalista NELSON ANTONIO SEVERINO, MOÇÃO DE CONGRATULAÇÃO , vazada nos seguintes termos:
“A ASEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE MATO GROSSO, por seus membros, mediante requerimento do Deputado Mauro Savi, expressa sua congratulação ao escritor NELSON ANTONIO SEVERINO, pela publicação do livro “Casos de todos os tempos – FOLCLORE DO FUTEBOL DE MATO GROSSO “, prefaciado pelo ínclito cidadão Pedro Rodrigues de Lima”.
Ao concluir uma obra literária desta natureza o jornalista Nelson Antonio Severino preenche lacuna existente na identificação de importantes personagens mato-grossenses que atuaram no futebol deste Estado, resgatando a história desse esporte, que segundo Pedro Lima é a alegria do povo. Com esta obra Nelson Severino insere o nosso Estado na memória do futebol brasileiro.
Trata-se de um trabalho literário que muito engrandece a história esportiva do nosso Estado, uma vez que a sociedade passa por momentos de extrema transformação neste mundo globalizado , não permitindo o registro de fatos e atos dos grandes homens que muito fizeram pelo nosso esporte, buscando preencher uma enorme lacuna que havia na memória do nosso futebol.
O homenageado é jornalista tendo trabalhado em Mato Grosso como correspondente de importantes jornais como Jornal do Brasil, o Globo, atuando também em nossa Capital no Jornal do Dia, Correio de Mato Grosso e Diário de Cuiabá, havendo lançado a Revista RDM.
As homenagens e o reconhecimento desta Augusta Casa de Leis ao cidadão NELSON ANTONIO SEVERINO por este grande momento de sua vida, pois o livro “Casos de todos os tempos – FOLCLORE DO FUTEBOL DE MATO GROSSO” resgata a rica memória da nossa cultura esportiva com muita fidelidade , porém explorando o seu lado folclórico, com os fatos ocorridos nos campos de futebol, estádios ou nas cidades do nosso Estado. 
Parabéns NELSON ANTONIO SEVERINO, hoje você passa a fazer parte da história de Mato Grosso com a responsabilidade de zelar pelas informações repassadas, pois isto muito nos orgulha.
Plenário das Deliberações “Deputado Renê Barbour”, agosto de 2011.
Deputado Mauro Savi.

O pé-de-valsa operariano e a bichona

Para inaugurar seu bonito estádio municipal, no distante dezembro de 1983, a prefeitura de Vilhena, em Rondônia, convidou o Operário para enfrentar a seleção amadora da cidade, reforçada de alguns craques de outros municípios.

 A delegação operariana deixou Várzea Grande no sábado bem cedo em ônibus especial, levando uns poucos profissionais – Deco, Odenir, Dito Siqueira, Bife, Ivanildo, Laércio, Mão de Onça – juvenis e juniores e até alguns torcedores, como convidados do clube.

De Cuiabá a Vilhena são 750 quilômetros, naquela época sem asfalto, o que aumentava o desgaste físico de quem viajava um trecho desses de uma só pancada. Mas a turma chegou inteirinha a Vilhena, apesar de muito cansada.

Como aniversariante daquele domingo, a bonita Vilhena, a segunda principal cidade de Rondônia, estava engalanada. A torcida lotou o estádio, confiante numa bonita vitória no amistoso para cobrir de glórias a semana de festas da sede do município.

Iniciado o jogo, Bife começou a mandar bolas para as redes da seleção. Fez 4 gols no primeiro tempo, com Deco completando o placar de 5x0 da 1ª fase.

Com o fim do 1° tempo, os jogadores foram para o vestiário. Enquanto descansavam, Malaquias, que estava como técnico do Operário, comunicou a Bife que ele não voltaria para o campo na 2ª etapa.

Malaquias atendia a um pedido dos dirigentes da seleção que temiam que com Bife em campo fatalmente o selecionado sofreria uma derrota ainda mais humilhante. Bife não voltou, a seleção deu uma melhorada, mas só fez um gol. O Operário, nem um mais.

Depois do jogo, um irmão do massagista Geraldo e que tinha um grande posto de combustíveis em Vilhena, pediu a Bife a camisa com a qual ele tinha jogado, como recordação.

Bife entrou de sola: "Não posso dar, porque desinteira o jogo de camisas e vou ter que dar outro completo para o Operário..."
– E quanto custa o jogo de camisas? – perguntou o irmão de Geraldo.
– Acho que com uns 200 “contos” dá para comprar – chutou alto Bife.
O torcedor não teve dúvidas: foi ao caixa do posto, pegou o dinheiro e entregou a Bife. Negócio fechado na hora.

A noite, a delegação tricolor foi jantar no principal clube social da cidade, onde se realizava a festa de aniversário de Vilhena.

Logo que a delegação chegou a festa, Bife percebeu que a cerveja ia ser por conta de quem pedisse... de cortesia só a comida! Antes da cerveja ser aberta na mesa, ficha do pagamento na mão do garçom. 

Combinaram, então, Bife, Jorge Macedo, Caruso e Laércio de se sentarem na mesma mesa e de cada um pagar três cervejas. Dos duzentão que havia recebido pela camisa, Bife reservou 50 para farrear e escondeu os outros Cr$ 150,00.

Um pouco distante deles, sentaram-se vários jogadores, juntos com João Muleta, um fanático torcedor operariano que tinha ido a Vilhena como convidado do clube.

Fim do jantar, começou o bailão. Não demorou, um jogador operariano, cujo nome não vem ao caso, agarrou uma bela loura e mandou ver. A cada música, aumentava a intimidade entre o romântico par, já dançando de rosto coladinho.

Não demorou e da animada mesa comandada por João Muleta não ficou ninguém: a numerosa turma havia dado um calote de duas caixas de cerveja no garçom e vazado. O garçom chegou à mesa em que estavam Bife, Laércio, Caruso e Jorge Macedo e perguntou se os caloteiros eram jogadores do Operário. A resposta foi um não coletivo.

A noite avançava, o baile cada vez mais animado e o casal formado pelo jogador operariano e a loira fazendo um sucessão entre os dançarinos. 

Lá pelas tantas, um garçom dá a dica para o pessoal da mesa de Bife: "Aquela loira que está dançando com o companheiro de vocês é uma tremenda bichona..."

– Vou ficar até o fim para ver no que vai dar – disse Bife, apoiado pelos companheiros de mesa.

Quando o baile ia chegando ao fim, Bife encostou disfarçadamente no companheiro de clube, no meio do salão, e lhe confidenciou: "Essa loira é uma bichona!..." 

O jogador pé-de-valsa operariano só acreditou quando, à saída do clube, deu uma pegada na parte de baixo da companheira de dança e sentiu o volume da mala da bailarina... parece até que a "louraça" ia viajar, tal o tamanho da malona!

Aí o boleiro ficou furioso e queria porque queria dar umas porradas na bichona. Foi um trabalhão segurar o pé-de-valsa, enquanto o travesti caía no mundo num pique digno de campeão mundial de 100 metros rasos.

Bife, Caruso, Jorge Macedo e Laércio que presenciaram a cena no fim de noite quase morreram de tanto rir..