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quinta-feira, 21 de março de 2019

Operarianos bebiam e escondiam garrafas vazias de cerveja embaixo da mesa até Rubens dos Santos entrar no carteado...

Nos tempos do Mato Grosso indiviso e cuja separação foi consumada em 1979, no governo do engenheiro civil José Garcia Neto, quando os times da Grande Cuiabá iam disputar jogos oficiais na região sul e que com a divisão do estado virou Mato Grosso do Sul, aproveitavam para enfrentar todos os adversários, como se fosse uma mínima excursão, para não ficarem expondo seus jogadores a cansativas aventuras pela esburacada ou lamacenta BR-163, pois nem sempre viagens eram de avião.

Numa dessas viagens, o Clube Esportivo Operário Várzea-grandense disputou três partidas. O primeiro jogo foi contra o Douradense, de Dourados, e vencido pelo tricolor. Logo depois, o clube várzea-grandense viajou para Campo Grande para jogar contra o Operário e em seguida contra a Sociedade Esportiva Industriária (SEI). O tricolor repetiu a boa exibição contra o Douradense e venceu também o Operário. Só faltava a SEI – e vencer!... – para coroar a mini temporada...

No hotel onde o Operário ficou hospedado em Campo Grande, as ordens, partidas de Rubens dos Santos, o chefe da delegação, eram severas: ninguém podia sair da concentração. Bebida alcoólica, então, nem em pensamento... pelo menos é o que Rubens dos Santos acreditava.

Na véspera do jogo com a SEI, um grupo de operarianos, entre os quais Paulinho, Malaquias, Bife, Justino e Tucho, decidiram matar o tempo, jogando baralho. O carteado seguia animado, quando de repente apareceu, onde o grupo se divertia, o temido Rubens dos Santos, que era louco por um joguinho de baralho. Tanto é que o radialista Ivo de Almeida só o chamava de Rubens Baralhocat.

O presidente elogiou a turma pela iniciativa de passar o tempo com um joguinho de cartas e mesmo sem ser convidado tratou logo de ajeitar uma cadeira para participar da jogatina. Os jogadores olharam uns para os outros, desconfiados, pois sabiam que vinha encrenca da grossa para o lado deles...

Rubens dos Santos percebeu a reação dos jogadores e perguntou o que estava acontecendo. Malaquias antecipou-se aos companheiros e respondeu: “Não está acontecendo nada seu Rubens. Vamos jogar!...”

Logo que se sentou, Rubens dos Santos resolveu dar uma esticada nas pernas e aí aconteceu a desgraça que todos temiam: foram garrafas vazias de cerveja que rolaram para tudo quanto é lado debaixo da mesa, onde estavam sendo escondidas depois de consumidas. E não eram poucas, não!...

– Ah, é, né? Bebendo, né!... – disse Rubens dos Santos, ao mesmo tempo em que anunciava que todos da rodinha de carteado estavam multados...

Bife tentou livrar a cara de todo mundo, dizendo: “Mas, seu Rubens, só vamos ter jogo amanhã!...”

– Não me interessa... – retrucou o presidente tricolor, com cara de poucos amigos.   

A SEI também não resistiu ao futebol brilhante do Operário e perdeu o jogo por 1x0.

Com a vitória, Rubens dos Santos reconsiderou a decisão de multar o grupinho do carteado, mas deixou claro que da próxima vez não ia ter perdão...

quinta-feira, 14 de março de 2019

Jogadores do Palmeirinhas inventaram esfarrapadas desculpas para tomar cerveja no Dutrinha e facilitar a classificação do Barra do Garças


    

Com o Dutrinha lotado, principalmente por torcedores dos bairros do Porto e Dom Aquino, fortes redutos do alviverde, o Palmeirinhas ia jogar com o Barra do Garças FC, pelo Campeonato Mato-grossense de Futebol de 1984 ou 1985. Um jogo de vida ou morte para o time do interior, pois, se vencesse, garantiria uma vaga para a semifinal do quarteto que ia decidir o título da disputada  temporada oficial da FMF.

Na hora determinada, os jogadores do Palmeirinhas foram chegando ao estádio e se dirigindo para o acanhado vestiário do clube. Quando o técnico alviverde Pereira entrou no vestiário, já com o time na cabeça, para distribuir as  camisas, notou que quatro ou cinco jogadores da equipe que ia entrar em campo e cujos nomes não vem ao caso, não haviam chegado ainda ao estádio.  Esperou um pouco mais e nada!...

– Cadê o fulano?

– Amanheceu com uma terrível dor de cabeça e não vai poder jogar alguém respondeu...

– E o beltrano?

– Está no velório de um tio... – responderam.

– E o sicrano, alguém tem notícia dele?

– Foi ficar com a mãe no hospital onde ela está internada, muito doente!...

Pereira percebeu que naquele angu tinha caroço do grande e não perguntou mais nada. E tratou de mandar para o campo o melhor que pôde fazer, improvisando jogadores que nem vinham atuando, em diversas posições...

Para surpresa geral da torcida, o Palmeirinhas foi envolvendo o Barra do Garças e inclusive abriu o placar.

Curiosamente, logo depois do início do jogo os titulares que não entraram em campo, pelos mais diversos motivos, passaram a ser identificados entre os torcedores nas arquibancadas, tomando cervejas uma atrás da outra...

Foi aí que o treinador Pereira, e muitos torcedores do alviverde, caíram na real! O pessoal devia estar tomando cervejas com dinheiro do Barra do Garças, evidentemente... 

Com o time improvisado à última hora, o Palmeirinhas foi sendo dominado e o adversário virou o placar para 2x1 ou 3x1, garantindo a classificação para  semifinal do campeonato – recorda um veterano participante do jogo e cujo nome também não vem ao caso...

segunda-feira, 4 de março de 2019

Jogadores do Comercial arrancavam guanxuma, picão, carrapicho, pé-de-galinha para receberem dinheiro da prefeitura...


Nazinho, o primeiro agachado da esquerda para
 a direita. O Comercial de 1978
Fundado em 3/5/1967, na primeira administração do empresário Manoel Gomes de Arruda, o Neco Falcão (1967-1970) – que voltou a ser prefeito de Poconé entre 1973 e 1977 – e que virou nome do estádio da cidade, o Comercial Esporte Clube teve algum destaque no futebol profissional de Mato Grosso durante um curto período de três ou quatro anos, entre 1972 e 1975.

Um dos poucos remanescentes do extinto Comercial e ainda em atividade, o veterano Nazinho lembra que foi na administração do prefeito Arlindo de Morais que o futebol profissional de Poconé conseguiu se destacar no cenário estadual, com a participação do clube nos campeonatos oficiais da FMF no limiar da década de 1970. E onde entra a política na vida do velho Comercial?

Foi uma manobra política: sem poder investir recursos do município no futebol, o prefeito Morais contratava jogadores profissionais e os colocava para trabalhar nos campos de futebol da cidade, em atividades como arrancar guanxuma, carrapicho, picão, pé-de-galinha, caruru e outras pragas daninhas. A justificativa para pagamento dos profissionais da bola pela prestação de serviços que qualquer pessoa poderia executar é que o futebol amador da cidade era muito forte e precisava de bons campos...

Hoje com 66 anos de idade, Nazinho sempre esteve ligado ao futebol da cidade. Há muitos anos, seu pai, J. Costa comprou um terreno em uma área verde da cidade e que virou um campo de futebol, onde ao longo dos anos muitos craques consagrados como Bife, Fidélis, Ruiter, Nelson Vasques, César Tucano, Bicaral, Veludo, Saldanha e tantos outros exibiram sua arte, participando de monumentais “peladas” nos finais de semana.


É nesse campo, que Nazinho e sua mulher, Morena, mantém faz muito tempo uma escolinha de futebol que funcionando em dois períodos, as terças-feiras, e quintas e sábados, chega a receber nesses dias da semana até 100 meninos, dos quatro aos 18 anos de idade. Embora pessoas simples, o casal Nazinho-Morena trabalha muito o lado psicológico das crianças e jovens da escolinha e se orgulham que vários meninos que passaram pelas suas mãos viraram médicos, advogados, dentistas e outros profissionais liberais. A escolinha faz parte do programa municipal “Bom de bola, melhor na escola”, criado no início da década de 1970.

O pai de Nazinho, J. Costa, foi, há muitos anos, jogador do Valoroso FC, um dos pioneiros do futebol de Poconé, junto com o Destemido. Faz muito tempo, o Valoroso foi jogar com o Cacerense em Cáceres e sofreu uma goleada de perder o rumo. Aproveitando a viagem, o time passou por Cuiabá para jogar com o Mixto. Do jeito que saíram de campo em Cáceres, os jogadores seguiram para Cuiabá para não correrem o risco de tirar as camisas e perderem a posição no time. Naqueles velhos tempos, os times eram de 11 camisas mesmo!...

Recorda Nazinho que antes de enfrentar o Mixto, os jogadores do Valoroso tiveram um dia de folga. E foram passear pelo centro de Cuiabá. Muitos jogadores não conheciam manequins e alguns deles foram flagrados estendendo as mãos para cumprimentá-los e até tentando puxar conversa com as estátuas, inclusive perguntando sobre preços das mercadorias expostas nas vitrines.

Quanto ao jogo com o Mixto, o Valoroso levou outra tunda daquelas e só não perdeu o caminho de volta porque o motorista do velho caminhão GMC, contratado para conduzir a delegação na rápida excursão, conhecia muito bem a estrada entre Cuiabá e Poconé...            


     

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Com o tanque do carro seco, Equipe 1.300 teve que fazer longa caminhada pela 163 para chegar a Cuiabá


Lá se foi a Equipe 1.300 da Rádio Cultura de Cuiabá para Rondonópolis a fim de transmitir mais um jogo do Campeonato Mato-grossense de Futebol da 1ª Divisão de 89 ou 90. No comando do grupo, que lotou uma caminhonete, o  deputado estadual  Roberto França, que era dono da Equipe 1.300 e o principal comentarista esportivo das emissora.

Viagem normal para Rondonópolis e transmissão sem qualquer tumulto, um fato raro, pois a torcida rondonopolitana sempre causou problemas para adversários, árbitros e até o pessoal da imprensa. Como se o pessoal da crônica esportiva tivesse culpa pelos fracassos do União em seus domínios...

Se a viagem de ida transcorreu tranquila, como recorda Orlando Antunes de Oliveira, integrante da 1.300, a volta foi cruel. Lá pelas 2 horas da madrugada de segunda-feira, com a equipe quase chegando já em Cuiabá, de repente a caminhonete parou. Mas não foi uma falha mecânica, não! Simplesmente, o veículo estava sem combustível!

Zangado, como de costume, Roberto França questionou o motorista, que não conseguia explicar como a caminhonete estava sem combustível. Como a pequena caravana da Cultura já estava próxima do Distrito Industrial de Cuiabá, o jeito foi ficar às margens da BR-163, pedindo carona.  Mas àquela hora, dificilmente alguém ia parar para dar carona àquele bando de homens...

Só restava uma alternativa: pegar a estrada e caminhar ainda uns bons quilômetros até chegar ao Distrito Industrial. O motorista da caminhonete, levando bronca o tempo todo durante a penosa caminhada, principalmente de Roberto França – que já naqueles tempos era bem gordinho... – carregava um galão na vã esperança de encontrar um posto de combustíveis aberto a fim de abastecer o veículo...

Quando a Equipe 1.300 já estava chegando ao antigo posto da Polícia Rodoviária Federal, passou um ônibus que tinha saído de Campo Grande com destino a Cuiabá, parou e deu uma carona para o pessoal. Pior para o motorista, que desceu no primeiro posto de combustíveis para encher o galão e reiniciar a caminhada de volta para abastecer a caminhonete para completar a viagem...    

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Por não ter ficado nem na reserva, jogador do Santa Cruz tentou rasgar a bola do jogo com um facão


Toda vez que ia disputar um amistoso contra times de Cuiabá, Várzea Grande, Nossa Senhora do Livramento e outras cidades da região, geralmente aos domingos ou em datas festivas de Poconé, o Santa Cruz Futebol Clube realizava uma reunião com seus jogadores e colaboradores para tratar de detalhes da programação do jogo e que chamavam de pré-preleção, pois era tradição nos velhos tempos do futebol amador poconeano o time anfitrião receber os visitantes com muita cordialidade.

Na realidade, a pré-preleção do Santa Cruz nada mais era do que uma forma de arrecadar dinheiro entre seus jogadores e admiradores a fim de pagar o caminhão para buscar e levar de volta depois o adversário, além de bancar o almoço da rapaziada visitante. É que com a precariedade das estradas de Mato Grosso lá pelas décadas de 1970/1980, o time que ia jogar fora tinha que sair cedo para não correr o risco, principalmente no período chuvoso, do caminhão ficar atolado nos barreiros...

Uma pessoa que se destacava nesse trabalho extra-campo do Santa Cruz era seu Chiquinho Queiroz, uma espécie de cozinheiro oficial do clube e em cuja casa funcionava também a sede da agremiação, que era também o encarregado de arrecadar dinheiro e os alimentos para ser preparado o almoço do time de fora. Seu Queiroz não brincava em serviço na hora de pegar a bufunfa do pessoal. Esse negócio do sujeito dizer que ia entrar com o berro da “vaquinha” com ele não funcionava não!...

Um dos colaboradores de primeira hora do Santa Cruz, sempre foi o lateral esquerdo Camilo, que mesmo não sendo titular do time, não poupava na hora de enfiar a mão no bolso para fazer a “vaquinha”. Um dia, porém, em um desses amistosos, Camilo chegou para o jogo, trocando as pernas, completamente “mamado”. Por uma questão de prudência, alguns defensores do Santa Cruz,  foram pedir para a comissão técnica, integrada também por alguns jogadores mais experienbtes, não escalar Camilo e nem deixá-lo na reserva naquele dia...

Rapidinho, Camilo ficou sabendo que nem na reserva ia ficar. E não gostou nada do que estava ouvindo. E não ficou mesmo. A certa altura do jogo, porém,  Camilo, inconformado com a discriminação, pegou um facão e começou a correr por todo o campo do Santa Cruz, que não tinha alambrado, com a intenção de furar a bola. Mas com a colaboração dos torcedores, que não deixavam Camilo consumar sua vingança, o jogo chegou ao fim com a bola cheia e a torcida dando gostosas gargalhadas com as suas trapalhadas...  
 .

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Time só de parentes do quilombo que deu origem ao Cristo Rei massacrou o Santa Cruz em Poconé

O Santa Cruz levou uma goleada histórica no jogo contra o time de Capão do Negro
Em 1980, o Santa Cruz ia disputar um amistoso contra o Primos e Irmãos Futebol Clube, do Capão do Negro, antigo quilombo que deu origem ao hoje distrito do Cristo Rei, em Várzea Grande, e famoso não apenas por ser um time muito bom de bola, mas também pelo fato, de, como o próprio nome indica, ser integrado exclusivamente por parentes, da cor negra. Em razão do interesse que a partida despertava entre a torcida de Poconé, o Santa Cruz decidiu que o jogo seria no Estádio Neco Falcão e não em seu campo. 

Estava passando da hora do jogo entre os aspirantes começar e nada do Primos e Irmãos FC aparecer, o que causava estranheza, porque, conforme o que estava combinado, o adversário chegaria cedo em Poconé, com tempo suficiente para a moçada almoçar e descansar da longa viagem de mais de mais de 100 quilômetros entre as duas cidades, por uma estrada – hoje a MT-060 – muito esburacada na seca e mais lisa do que bagre ensaboado no período de chuvas... 

Finalmente, o time várzea-grandense chegou a Poconé. Só que em vez de desembarcar de um ônibus da empresa Nova Era ou da Estrela Dalva, que nos velhos tempos exploravam o transporte coletivo urbano em Cuiabá e Várzea Grande, o Primos e Irmãos FC chegou num velho caminhão, o que deixou a torcida meio cabreira. “Essa negadinha só veio aqui pra comer, ninguém tem cara de jogador de bola...” – esse o comentário que circulava entre torcedores mais pessimistas que viram o famoso time várzea-grandense descer da incômoda condução. 

Em virtude do atraso na chegada, dirigentes dos dois times combinaram que o jogo entre dos “cascudos” começaria em seguida para não atrasar muito a partida principal. Mas a decisão acabava com qualquer possibilidade do time visitante almoçar, com o rega-bofe ficando para depois do jogo. Mesmo com os "cascudos" várzea-grandenses jogando com o estômago roncando de fome, o time do Primos e Irmãos FC deu uma surra no aspirante do Santa Cruz que faltou gente pra ver – lembra Joadilson, jogador da equipe da casa e hoje policial civil em Poconé.

Mas o pior estava por vir ainda... 

Iniciado o jogo principal, o Primos e Irmãos FC mostrou dentro de campo porque era tão famoso, dando um show de bola no adversário. Embora integrado por jogadores de alto nível técnico como Manica, Tica, Moura, Otávio, Ismael, Capeta, Aurelinho, Simão, Cecílio, Macarrão, Joadilson, Joãozinho, Leodir e tantos outros, o Santa Cruz foi impiedosamente massacrado pelo adversário. Durante todo o jogo, o time de Poconé não viu a cor da bola – como se diz no jargão esportivo. E o placar disparou a favor dos visitantes. 

– Eu não me lembro do placar. Mas, a exemplo do que aconteceu na preliminar entre os aspirantes, perdemos feio. Foi uma ensacada mesmo, que ficou na história do Santa Cruz! – recorda Joadilson... 

Um torcedor da velha guarda do Santa Cruz lembra que os jogadores do time poconeano que mais pegaram na bola nesse amistoso foram o goleiro e o centro-avante – o primeiro para apanhar a “gorduchinha “ no fundo do seu gol para mandar para o meio de campo e o segundo para dar nova saída...



segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Apesar das ameaças e até agressões, o pequeno Euclides passou parte da vida apitando futebol e futsal

Euclides não tinha medo de
cara feia (Arq. pessoal)
Dos seus 65 anos de idade, completados em 2018, o pequeno (1,63m de altura e 60 quilos de peso), mas corajoso Ari Euclides Pereira, passou mais de 24 deles apitando futebol profissional e futebol de salão em Mato Grosso, numa brilhante carreira que começou em 1975 e foi encerrada em 2000. Claro que ao longo dessa caminhada pelo mundo da bola, Ari Euclides enfrentou muita barra pesada, como pressão de jogadores e dirigentes, ameaças e até agressões.

Mas, apesar de seu físico de jogador de sinuca, Euclides nunca se intimidou diante dos grandalhões desses dois esportes nos estádios e nas quadras. E quem ousou desafiar sua autoridade, pensando que ia encontrar moleza, acabou ajustando contas com os Tribunais de Justiça Desportiva das federações de futebol e de futebol de salão, além de passar pela vergonha da expulsão... 
– Antigamente, com a rivalidade que existia entre os clubes e o fanatismo dos torcedores era muito difícil apitar futebol profissional em Mato Grosso. Principalmente nos estádios Zeca Costa, em Barra do Garças e Luthero Lopes, em Rondonópolis, onde dirigentes e torcedores do Barra do Garças e do União faziam o diabo para seus times ganharem seus jogos – afirma Ari Euclides.

Sem contar que nos bons tempos do futebol de Mato Grosso, cujo declínio começou no final da década de 1980, existiam muitos jogadores malandros e catimbeiros, que não vacilavam em criar situações difíceis para juízes e bandeirinhas para tirar algum tipo de vantagem para seus clubes. Particularmente se estivessem perdendo. E por causa da pressão também da torcida, juízes e bandeirinhas acabavam pagando o pato. E como pagavam!...

Lembra Ari Euclides que há muitos anos passou pelo União, de Rondonópolis,  um zagueiro de nome Amarildo, que se aproveitando do seu físico avantajado, batia sem dó, nem piedade nos atacantes adversários e era também mestre em pressionar juízes e bandeirinhas.

Certa vez, Ari Euclides apitava um jogo entre o União e o Barra do Garças no Luthero Lopes. E logo aos três minutos deu um cartão amarelo para Amarildo. O jogador reclamou, mas sem apelar contra o juiz, como era seu costume. Veio o segundo tempo e antes dos 30 minutos, o jogador do colorado cometeu outra falta violenta e foi expulso de campo.

Foi uma expulsão estratégica – admite Ari Euclides  pois ele estava próximo de um grupo de policiais militares e não corria qualquer risco. E à medida que Amarildo caminhava em sua direção, ele ia se afastando de costas até ficar pertinho dos policiais.

– O senhor foi muito corajoso em me expulsar de campo – disse Amarildo a Ari Euclides. E foi embora para o vestiário...

Encerrado o jogo, de repente Ari Euclides, ainda no campo, viu o grandalhão Amarildo caminhando em sua direção. Ele pensou no pior, mas ficou firme, conversando com seus companheiros de arbitragem. Amarildo se aproximou, estendeu-lhe a mão e disse ao juiz: “Eu vim somente cumprimentá-lo pela sua coragem de me expulsar de campo. Uma coragem que esses cagões da Federação não tiveram até hoje...”

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Ivo de Almeida se inspirou em música de protesto contra a ditadura para criar o apelido de Upa Neguinho...


Upa Neguinho, o Odenir. (Arquivo pessoal)
Uma música de protesto composta por Edu Lobo e Gianfracesco Guarnieri e interpretada por Elis Regina, em 1968, naqueles tempos de arrocho da ditadura militar no Brasil, deu origem ao apelido de Upa Neguinho, um dos mitos do Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, time que ele defendeu por mais de uma década, jogando ao lado de craques consagrados que marcaram época no futebol mato-grossense como Bife, Mão-de-Onça, Ruiter, Dirceu Batista, Gilson Lira...

E quem transformou o cidadão Odenir Moreira do Nascimento em Upa Neguinho foi o radialista Ivo de Almeida, o mais polêmico e respeitado locutor esportivo que Mato Grosso já conheceu. Acontece que quando Odenir veio para o tricolor em 1968, um ano após a profissionalização do futebol mato-grossense, estava em voga a música “Upa Neguinho” e cuja letra tinha muito a ver com os protestos contra o regime militar, pois falava de apanhar, ziguezira, desgraça, liberdade... 

Exímio driblador, Odenir, que ainda menino passou a defender o time do colégio dos padres, de Alto Araguaia, onde estudava no período vespertino, começou, inspirado numa finta que viu em um jogo do Araguaia Esporte Clube – ele não se lembra contra quem – a aperfeiçoar as pedaladas que anos mais tarde consagraram Robinho, do Santos e da Seleção Brasileira, como o “inventor” da jogada...

Odenir aplicava com tanta perfeição as pedaladas que o padre e professor  alemão Éric passou um tempão tentando aprender, com ele, a arte de fazer a jogada. Mas não deu certo. “Eu dava as pedaladas com a perna direita e saía do adversário pelo lado esquerdo... o que o padre não conseguia fazer, porque não era canhoteiro...” – lembra Odenir.

A atitude de Odenir, que batia com as duas mãos com indisfarçável raiva e força no gramado toda vez que sofria uma falta mais violenta, já defendendo o Operário Várzea-grandense como profissional, pode ter sido o motivo de Ivo de Almeida associar sua reação com a música “Upa Neguinho”. Um trechinho da música interpretada por Elis Regina: “Upa neguinho na estrada/ Upa pra lá e pra cá/ Vixi que coisa mais linda/ Upa neguinho começando a andar...”

Como o que tudo que Ivo de Almeida lançava ou inventava virava moda, ele passou a chamar Odenir de Upa Neguinho. O apelido foi se consolidando e que nunca mais Odenir se livrou dele. Até na comunidade rural onde atualmente passa a maior parte de seu tempo, em Santo Antonio de Leverger, ninguém sabe quem é Odenir, pois os moradores só conhecem o Upa Neguinho...

Enquanto defendia o time do colégio dos padres de Alto Araguaia, onde deu os primeiros passos no futebol, foi fundado o “Panterinha”, formado por jogadores jovens. O “Panterinha” era uma espécie de segundo time, também chamado de “cascudo”, do AEC, que era conhecido como o “Pantera do Leste”, por ser um grande time de futebol. E muito cedo, Odenir começou a se destacar no “Panterinha”, inclusive participando dos treinos do time principal.

De sua passagem pelo clube que o revelou para o futebol, Odenir lembra-se de algumas coisas curiosas e folclóricas. Uma delas: uma vez ele foi chamado pelo treinador para substituir o ponteiro esquerdo Joãozinho Pororoca em um jogo. E teve uma atuação tão destacada, coroada com a marcação de um gol, que nunca mais saiu do time. Ganhou a posição, mas perdeu a amizade de Pororoca, que nunca mais falou com ele...

Coletivo do AEC para mais um jogo importante no domingo: Odenir deu um drible tão desconcertante no seu marcador, o lateral direito Sílvio Maia, que o zagueiro, muito revoltado, deu-lhe um violento pontapé. Odenir reclamou da atitude de Sílvio Maia, que lhe disse na bucha: “Olha, aqui, moleque, você me respeita! Eu sou titular do time há muitos anos e não vou aceitar essas ofensas de quem chegou agora, entendeu?...”

Muito organizado, o AEC tinha uma academia, onde o pessoal treinava inclusive boxe. Um dia, o professor Hugo sugeriu que Upa Neguinho lutasse contra um adversário de nome Fernando. Ele topou a parada e ganhou o combate. E aí, incentivado, pelo próprio Hugo, decidiu enfrentar Miltinho, que o marcava nos treinos do AEC e era driblado de tudo quanto era jeito. Levou uma surra que faltou gente pra ver. Ao final do combate, Miltinho lhe disse: “Estou aliviado e completamente vingado da raiva que você me faz passar nos treinos...”

Além do AEC, onde despontou para o futebol em 1967, Upa Neguinho teve rápidas passagens pelo Guarani, de Adamantina-SP, Juventus-SP e Mixto. Mas foi no CEOV, cuja torcida considera Upa Neguinho um símbolo do clube, pela sua dedicação nos mais de 12 anos que defendeu o tricolor, que ele se realizou como profissional da bola, conquistando, inclusive, um título estadual, o de 1973.

De sua longa militância no tricolor várzea-grandense, Upa Neguinho guarda muitas e boas lembranças. Uma delas é sobre uma briga envolvendo o presidente Rubens dos Santos, o médico Fioravante e o zagueiro Gaguinho. Certa noite, na “república” do tricolor, que servia também de concentração do clube, Rubens dos Santos gabava-se de sua esperteza para lidar com os boleiros, garantindo que nunca era passado para trás. Até porque não economizava nas multas quando ele tinha que punir algum jogador que saía da linha...

Foi aí que Gaguinho caiu na besteira de dizer a Rubens dos Santos que o havia enganado às vésperas de um jogo importante do Campeonato Estadual, simulando que estava dormindo na “república” – conforme o presidente constatou numa visita noturna a todos os quartos – quando na realidade ele estava na rua farreando. Na sua cama, apenas roupas encobrindo um tronco de bananeira até o seu travesseiro... e o quarto na penumbra, sem lâmpada.

– Ah, é!... Então você está multado nos próximos três meses, Gaguinho – disse-lhe Rubens dos Santos, com cara de poucos amigos...

– Mas, presidente, já faz tanto tempo... e o senhor não vai encontrar apoio na lei esportiva para me punir desse jeito, com tanto atraso...     

– Não me interessa... a lei aqui sou eu! E você está multado em mais um mês por ter me enganado!... – vociferou Rubens dos Santos, encerrando a conversa.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Golpe do árbitro Ari Euclides em João Torres acabou com o atraso no pagamento de juízes da FMF

João Torres (à direita), com o
 ex-operariano
 Pulula. (Arquivo Zé Pulula)
O ano o ex-árbitro Ari Euclides Pereira não se lembra. Mas ele tem certeza que foi na primeira administração de João da Silva Torres, que presidiu a Federação Mato-grossense de Futebol em dois mandatos sucessivos, de 1980 a 1986.

Já fazia umas cinco ou seis rodadas que a FMF não pagava os juízes e muito menos os bandeirinhas que atuavam no Campeonato Mato-grossense de Futebol da 1ª Divisão. O pessoal cobrava João Torres, mas não adiantava: ele ia enrolando e não pagava mesmo a turma da arbitragem...

Um dia, Euclides foi falar sobre a situação do pessoal do Departamento de Árbitros com o diretor financeiro da FMF e administrador do Dutrinha, Palmiro Paes de Barros. Ao final da conversa, Euclides recebeu a boa notícia: o diretor da FMF ia pagá-lo...

Paes de Barros orientou Euclides para chegar bem cedo em sua casa, porque naqueles tempos de Verdão com até 40 mil torcedores e grandes rendas, João Torres madrugava na segunda-feira para pegar o dinheiro da FMF e que o funcionário federacionista levava não para a entidade, mas para sua residência, após o fechamento do borderô do jogo. Euclides chegou antes das 6h30 na casa de Paes de Barros para o acerto de contas.

Não demorou muito apareceu na casa Paes de Barros o presidente João Torres, acompanhado de Paulinho Yamagushi, uma espécie de assessor financeiro do maioral da FMF e tão enrolado como o seu chefe na federação. Quando ficou sabendo do acerto entre Paes de Barros e Euclides, Torres implorou para que o juiz lhe devolvesse o dinheiro, pois precisava muito daquela grana para pagar contas  e dívidas da entidade.

Não teve jogo. “Eu já assinei os recebidos e o dinheiro está no meu bolso e não vai sair dele. Hoje você se embananou...” – disse Euclides a Torres, encerrando a conversa.

João Torres ainda tentou com Euclides uma jogada para salvar sua cara: “Pelo amor de Deus, não diga aos seus companheiros que você fez esse acerto com o Palmiro...”

Foi à mesma coisa que Torres dissesse a Euclides: “Espalhe a notícia entre os árbitros!...”

Euclides não vacilou: passou a mão no celular e ligou para todo mundo para dizer que estava bonito na foto, com o dinheiro no bolso do acerto que tinha feito com Paes de Barros...

A porteira estava aberta para desespero do presidente da FMF. Com o golpe dado em João Torres, a entidade tratou de se organizar para pagar em dia seus prestadores de serviços, como os árbitros...
 


  

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Tatu se alimentava de ovo cozido, repolho e batata doce para se livrar dos seus marcadores, com peidos...

Tatu: estratégia com pum
O ponteiro esquerdo Tatu, que jogou um bom tempo no extinto Riachuelo, de Cuiabá, e no Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, na fase áurea do futebol amador de Mato Grosso e profissionalizado em 1968, tinha uma fórmula infalível estar sempre desmarcado: às vésperas de jogos importantes, ele só comia ovo cozido, repolho e batata doce, alimentos de rápida fermentação. Com essa combinação alimentícia, na hora do jogo, quando ele desandava a soltar peidos, um atrás do outro, não havia marcador que aguentasse ficar perto dele...

Aí não tinha técnico capaz de obrigar zagueiros a cumprir suas ordens para fazer marcação cerrada sobre Tatu, pois onde ele estava, a fedentina dos seus puns era insuportável. E, claro, que Tatu aproveitava a liberdade que tinha dentro de campo, com a marcação que recebia à distância, para infernizar a vida das defesas adversárias.  

Quem conta esta história do falecido “estrategista-peidorreiro” Tatu é o seu irmão, o subtenente da PM Humberto de Oliveira, hoje já reformado e morando em Poconé. Quando Tatu jogava no tricolor várzea-grandense, sua família de  morava no bairro Alameda, onde Humberto era conhecido por Nhôgui e seu irmão muito popular entre seus moradores por causa de seu futebol...

Aliás, foi por causa de sua popularidade no Alameda que Tatu livrou-se certa vez de se meter em uma encrenca daquelas, pois ele não era danado só dentro de campo, não! Numa Sexta-feira Santa, Tatu decidiu roubar umas galinhas do seu Nego para fazer uma festa no Sábado de Aleluia, uma antiga tradição que aos poucos foi virando cinzas do passado...

Mas seu Nego estava muito atento na defesa das penosas de seu galinheiro. Sua casa era murada e, quando já noite, Tatu pôs as mãos sobre o obstáculo para pulá-lo em busca das galinhas, seu Nego prendeu um dos seus braços com uma corda e puxou-a para seu lado. Sem saída, Tatu disse com voz suave: “Sou eu, Tatuzinho, seu Nego! Foi só uma brincadeirinha...” E foi solto em seguida.

Nhôgui lamenta que Tatu tenha encerrado a carreira no futebol muito cedo, por causa de uma contusão. Foi em um jogo entre os dois Operários do Mato Grosso ainda indiviso, em Cuiabá, que o zagueiro Sílvio Berto, do Operário, de Campo Grande, deu uma entrada violenta em Tatu e quebrou uma de suas pernas, o que o obrigou a parar com o futebol prematuramente. Logo depois do episódio, o zagueiro do clube campo-grandense também abandonou o futebol, virando radialista, na capital sul-mato-grossense.

A mãe de Tatu, dona Carminha de Oliveira, mais conhecida como Sinhá, tinha verdadeiro ódio do apelido do filho, que se chamava Hildebrando. Nos dias de jogos, quando o caminhão parava defronte sua casa no Alameda, com a carroceria cheia de jogadores – naquele tempo não existiam nem os modernos ônibus de hoje e nem as velhas jardineiras do passado – e o pessoal começava a chamar por Tatu, dona Sinhá saia na porta e gritava: “O Hildebrando está aqui... mas o Tatu está no cu das suas mães...”    
        

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Bandeirinhas do clássico dos milhões boicotaram a FMF e Boschilla, mas o árbitro deu a volta por cima...


Dia 9 de maio de 1986: Mixto e Operário Várzea-grandense iam disputar no Verdão um jogo importante pelo 1º turno do quadrangular decisivo do Campeonato Estadual da 1ª Divisão. Sob o pretexto de atrair público para o grande clássico, a Federação Mato-grossense de Futebol, pressionada pelos dois clubes, decidiu trazer um árbitro de fora, de renome no cenário nacional, para apitar o jogo. O escolhido para a difícil missão foi Dulcídio Vanderlei Boschilla, já falecido.

A contratação de um juiz consagrado no futebol brasileiro, como suposta atração de público – descobriu-se mais tarde – na realidade encobria a desconfiança de Operário e Mixto que não queriam que um jogo de tamanha importância fosse apitado por um árbitro de Mato Grosso. Que, aliás, os dois clubes conheciam muito bem. Daí...

Os dois bandeirinhas escalados pela FMF para trabalharem como auxiliares de Vanderlei Boschilla foi José Mauri Woicechiwisky e Ari Euclides Pereira. Os dois ficaram empolgados com a escolha: além da oportunidade de atuar em um grande clássico, ainda iam entrar numa boa grana, pois cada um receberia a metade da bolada que o juiz, contratado a peso de ouro, ia ganhar para apitar o jogo...

A crônica esportiva de Cuiabá já havia divulgado inclusive o valor da taxa de Boschilla. Mas aí José Mauri e Ari Euclides descobriram uma grande sacanagem da FMF: a entidade elevou às alturas a diária de Boschilla e reduziu o valor da sua taxa de arbitragem para pagar menos aos dois bandeirinhas. Os dois reagiram contra a patifaria da entidade, mas não teve jeito: teriam que se conformar com uma taxa de arbitragem bem mixuruca, quase simbólica.

José Mauri e Ari Euclides decidiram então boicotar a FMF: não iam trabalhar no clássico. Na noite do jogo, Ari Euclides foi para a casa de José Mauri, no Coophamil, onde ficaram curtindo uma piscina e aguardando o que ia acontecer. Quando seus celulares tocavam, conferiam: se era de gente da FMF, não atendiam.

Lá pelas tantas, as rádios que cobriam o clássico começaram a noticiar que o juiz Boschilla já tinha chegado ao Verdão e nada dos bandeirinhas aparecerem. Os dirigentes da FMF estavam desesperados e Boschilla nem aí. Ciente do problema, quando Operário e Mixto entraram em campo, o juiz procurou um dirigente da FMF e fez um pedido: “Chame dois funcionários de confiança da federação para meus auxiliares, vou apitar sem bandeirinhas...”

Apresentado aos dois improvisados auxiliares, Pedro Santana e Luís Fernando Kolmat, Boschilla foi curto e grosso: “Vocês só marcam saída de bola nas laterais; impedimentos e saídas de bola pela linha de fundo eu marco...”

Até que as emissoras de rádios esclareceram o que as duas pessoas estavam fazendo com aquelas bandeirinhas nas mãos, vestidos como cidadãos comuns, a torcida não entendia nada do que estava acontecendo naquela noite no Verdão.     

Apesar da improvisação dos dois assistentes, e da importância e da rivalidade do chamado “clássico dos milhões”, Boschilla teve uma atuação impecável, apesar da acusação de operarianos de que ele teria deixado de assinalar um pênalti a favor do tricolor. O Mixto ganhou o jogo por 1x0, gol marcado de cabeça por Amparo, no primeiro tempo, na cobrança de uma falta por Pastoril.

Quanto a Ari Euclides e José Mauri, foram punidos com um “gancho” de 30 dias cada um, pelo boicote à FMF e a Boschilla. Antes e depois do jogo, o presidente João Torres afirmou que ia denunciá-los à Comissão Nacional de Arbitragem da CBF, mas ficou mesmo só na ameaça...                     

sábado, 15 de dezembro de 2018

Uma viagem folclórica de Joaquim de Assis e Schardosin em busca de reforços para o Dom Bosco


O Dom Bosco estava precisando com urgência reforçar sua zaga central para disputar o Campeonato Brasileiro de  1978. No mercado da bola em Mato Grosso zagueiros centrais de alto nível eram mangas de colete e o presidente dombosquino Joaquim de Assis decidiu buscar dois jogadores da posição em outros estados.

E lá se foram Joaquim de Assis e o supervisor de futebol Newton Schardosin para São Paulo em busca dos jogadores pretendidos. A primeira parada dos dois seria Piracicaba, onde pretendiam conseguir junto ao XV de Novembro os reforços que buscavam. Se não desse certo. tentariam outros mercados...

Definida a viagem, na Belina de Joaquim de Assis, dirigida por Schardosin, pegaram a BR-364 e foram até Jataí, em Goiás, pois haviam decidido chegar a Piracicaba entrando pelo Triângulo Mineiro. Depois de 15 horas de viagem, abasteceram o carro no Posto Triângulo, antes de Uberlândia e após um rápido descanso, para um lanche, caíram no mundo...

Como tinham pressa, decidiram viajar a noite inteira para o destino final, Piracicaba. Quando o dia já estava amanhecendo, a toda hora Assis dizia a Schardosin: “Tenho certeza que já passamos por aqui...” 

O supervisor Schardosin desconversava e continuava afundando o pé no acelerador, com a convicção de quem supostamente conhecia muito bem o terreno onde estava pisando...

– Schardosin, eu tenho certeza... “ – Já sei, presidente, o senhor acha que... mas está enganado... – cortava Schardosin..

Quando o dia amanheceu, os dois constataram, para desespero de Schardosin, que estavam chegando a Alto Araguaia, voltando para Cuiabá...

Cansado e chateado, Joaquim de Assis deu a ordem a Schardosin: “Siga em frente, vamos pra casa...”

Dominado pelo cansaço, agravado pela noite insone ao volante do carro, Schardosin procurou ganhar tempo, buscando atalhos para retornar a Cuiabá...

Nunca mais Joaquim de Assis viajou por via terrestre com Schardosin...

(Republicado por falhas no sistema de registro de acessos).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Pancadaria, bombas no vestiário, prisão e queima de roupa de árbitros em um jogo que ficou na história de Jaciara...


Campeonato Mato-grossense de Futebol no limiar da década de 1980. O Grêmio Jaciara jogava no extinto Verdão contra o Operário Várzea-grandense e, surpreendentemente, vencia por 1x0. Mas antes de terminar o primeiro tempo, o atacante tricolor Miltinho Goiano caiu na área do time visitante e o juiz marcou pênalti, que convertido em gol, levou o clube várzea-grandense a uma reação que culminou em uma goleada de 5x1contra o “tricolor dos canaviais”, como é chamada a equipe jaciarense...

Revoltados contra a arbitragem, dirigentes, jogadores e torcedores do clube visitante saíram do Verdão jurando que daquele dia em diante os árbitros que fossem apitar em Jaciara podiam preparar o lombo, porque o clube nunca mais ia ser vítima de esbulho por parte de juízes e bandeirinhas, como o que tinha ocorrido em Cuiabá. “Vamos quebrar todo mundo lá no pau...” – gritavam os enfurecidos jaciarenses...

O próximo jogo do Grêmio Jaciara seria em um domingo pela manhã contra o Dom Bosco, no Estádio “Márcio Cassiano da Silva”. No início da semana, quando a FMF divulgou a escala de árbitro para o jogo, recebeu um não coletivo: ninguém ia apitar em Jaciara. O Departamento de Árbitros recorreu então ao pessoal que morava em Rondonópolis, que fica bem perto de Jaciara, mas a resposta foi à mesma: ninguém iria...

Sem alternativas, a FMF apelou para o veterano Wilson Eraldo da Silva, que nunca tinha tido problemas com o pessoal de Jaciara e que topou a parada. Mas impôs uma condição: queria como seus auxiliares Moisés Serafim Medeiros, já falecido, e Divino Rodrigues, que eram policiais civis e que só viajavam para o interior com dois revólveres cada um em suas bolsas...

O pessoal da FMF – delegado, financeiro, juiz, bandeirinhas – chegou bem cedo ao estádio. E já deu de cara com um torcedor mal encarado, exibindo ostensivamente uma peixeira na cintura e gritando de forma ameaçadora que o juiz e os bandeirinhas do jogo iam entrar na porrada sem dó nem piedade se o time jaciarense não saísse de campo com a vitória...

Enfiando uma mão na sua bolsa para ver se não havia esquecido seu desodorante spray, Wilson Eraldo da Silva, teve uma reação que assustou o torcedor: “Ouça bem, moço: eu vim aqui para morrer. Mas vou levar muita gente comigo. Não me obrigue a tirar minha mão de dentro da minha bolsa, se não você vai ser o primeiro a ir comigo...”

Ao ouvir a reação de Wilson Eraldo, o torcedor saiu do caminho deles ligeirinho. Mas nem bem entraram no vestiário dos juízes para se tocar, torcedores começaram a jogar bombas no local. Uma delas, de alto poder explosivo, deixou os ouvidos do pessoal zumbindo – recorda Wilson Eraldo, que chegou a ficar momentaneamente meio surdo com o forte estampido...

Diante de tanta pressão de todos os lados, Wilson Eraldo foi curto e grosso na sua conversa com os jogadores no centro do gramado antes do início da partida: “Eu não vim aqui para apitar; vim para acabar com a carreira de vocês se não jogarem bola...” – afirmou com todas as letras, depois de avisar, reservadamente, os dombosquinos para não entrarem nas confusões dos jaciarenses. “O problema deles é com a arbitragem...’’ –  aconselhou.

O jogo começou bem, mas aos 4 minutos surgiu a primeira confusão, com o juiz marcando uma falta contra o Grêmio Jaciara. Os jogadores foram para cima do árbitro, que, pressionado e ameaçado, foi recuando e conversando com os jaciarenses. Serenados os ânimos, Wilson Eraldo foi de posição em posição e meteu cartão amarelo em cinco jogadores do time da casa...

Aos 18 minutos, na cobrança de um pênalti, o clube jaciarense abriu o placar, para explosão de alegria da torcida. Em seguida ao gol, surgiu nova confusão: um zagueiro do clube jaciarense desentendeu-se com o atacante dombosquino  Jaílson e o juiz mandou os dois para os chuveiros. Jaílson reclamou da expulsão, mas Eraldo Wilson ponderou: “Você devia era me agradecer. Daqui a pouco vai ter porrada aqui e você vai estar fora dessa!...”

Aos trancos e barrancos o jogo foi até o fim no primeiro tempo, com o Grêmio Jaciara em vantagem no placar. No segundo período, aos 18 minutos, após boa troca de passes do Dom Bosco no meio de campo, Vitor lançou Wender, um garoto bom de bola, que deu um chutão para frente, pegou o goleiro desprevenido, e acabou fazendo um bonito gol...     

Houve invasão do campo. Um torcedor que partiu pra cima de Wilson Eraldo levou do árbitro um soco bem no pau do nariz e começou a sangrar abundantemente. Foi a maior confusão no “Márcio Cassiano da Silva”. Dois policiais fizeram, com os abraços, uma espécie de uma “cela” sobre o juiz, para protegê-lo enquanto ele tentava se defender dos agressores.

Nisso, um torcedor que também havia invadido o campo, deu uma pedrada em um sargento da PM que estava no meio do rolo confusão. Um soldado correu atrás do torcedor e desferiu uma violenta pancada com um cassetete na cara do agressor e o prendeu. Dos socos e pontapés, principalmente chutes na bunda, não escaparam nem o delegado da FMF, Ismar Gomes, e o radialista Lino Pinheiro, de A Gazeta, que estava iniciando suas transmissões esportivas.

A pancadaria estendeu-se também pelas arquibancadas. O ex-presidente do clube, por um curto período, Flávio Silva Pires, estava no campo com um filho, então com dez anos, e um amigo conhecido pelo apelido de Vascaíno. Quando um torcedor partiu pra cima dos três, Vascaíno deu-lhe um soco, derrubando ele e mais três pessoas. A ameaça de agressão acabou ali...     

Serenado os ânimos, muita gente  foi parar na Polícia Militar. Para complicar a situação, muitos torcedores foram parar nas dependências da PM para exigir a libertação do torcedor preso no estádio por ferir o sargento com a pedra. Depois de prestar depoimentos na PM, o pessoal da FMF foi levado de volta para o estádio para pegar suas coisas e retornar a Cuiabá. A PM teve inclusive que jogar os carros onde estava o pessoal da FMF contra os torcedores para abrir passagem.

Quando o juiz, os bandeirinhas e os outros membros da FMF chegaram ao vestiário do estádio, uma decepção: os torcedores haviam invadido o local e queimado as roupas do árbitro e dos seus auxiliares, além de ter saqueado seus pertences, inclusive o dinheiro de suas carteiras. Teve gente que retornou a Cuiabá com roupas emprestadas por amigos. Como foi o caso de Wilson Eraldo da Silva... 

domingo, 2 de dezembro de 2018

Auxiliar sentiu dores nas pernas, ergueu a bandeirinha e provocou grande confusão em Barra do Garças...

Barra do Garças e União, de Rondonópolis, disputavam na década de 1980, mais um jogo do Campeonato Mato-grossense de Futebol da 1ª Divisão, no Estádio Zeca Costa. Como sempre acontece quando os dois tradicionais rivais do interior se defrontam o jogo era muito disputado.

No apito, Ismar Gomes conduzia a partida com tranqüilidade. Um dos bandeirinhas era Wilson Eraldo da Silva; o outro, Antonio Ângelo, que já desencarnou faz muito tempo. Ismar Gomes e Wilson Eraldo continuam em atividades até hoje, o primeiro como funcionário da FMF e outro ligado a Sedel e trabalhando numa empresa da sua família.

O jogo já caminhava para a final e o placar continuava “ocho”, como dizem muitos cronistas esportivos quando o resultado do jogo está em 0x0. Mas aí aconteceu um fato inusitado que viria provocar uma completa metamorfose na partida.

Em um ataque do União, o auxiliar Antonio Ângelo ergueu a bandeirinha para chamar a atenção do juiz Ismar Gomes para um grave problema que o afligia: estava sentindo fortes nas duas pernas e talvez até que tivesse de ser substituído pelo árbitro reserva...

O ataque do União resultou em gol e os jogadores do Barra do Garças partiram para cima de Ismar Gomes, exigindo que ele anulasse o tento, marcando o impedimento que Antonio Ângelo havia apontado, erguendo a bandeirinha. Mas o juiz não havia notado nada de anormal no lance do União e confirmou o gol...

Confusão da pesada dentro do campo, com ameaças de agressões, explicações, pedidos de desculpas etc. Depois de muito vai-não-vai, a partida foi reiniciada e terminou com a vitória do time de Rondonópolis, com o gol ilegal.

Encerrado o jogo, o pessoal da Federação Mato-grossense de Futebol tratou de sair correndo do Zeca Costa para a Estação Rodoviária, que ficava perto do hotel onde a turma tinha ficado hospedada, para retornar à Cuiabá.

Quando Wilson Eraldo se aproximava do hotel viu gente saindo detrás de postes de energia elétrica, detrás de carros e até descendo de árvores, pendurada em galhos, e perguntando se era ele que havia apitado o jogo...

– Não fui eu. Quem apitou o jogo está vindo aí atrás – afirmava Eraldo Wilson, tentando tirar o seu da reta...

Quem vinha atrás dele, apressado para chegar à Rodoviária, era mesmo Ismar Gomes, que apanhou pra valer – como ele próprio admite – da enfurecida torcida barragarcense.

Alertada sobre os riscos que o pessoal da FMF estava correndo, a Polícia Militar chegou rapidinho a Rodoviária e impediu um massacre geral contra o grupo federacionista que tinha trabalhado no jogo no Zeca Costa.

A raiva da torcida barragarcense era tanta por causa da falha de Antonio Ãngelo que a Polícia Militar decidiu escoltar o ônibus que conduzia a turma da FMF de volta para Cuiabá até General Carneiro, que fica a 67 quilômetros de Barra do Garças...    
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