Pesquisar este blog

sábado, 29 de abril de 2017

Três filhos jogando juntos, a razão da louca paixão de Joaquim Papudo pelo Operário


A primeira diretoria operariana. Da esquerda para a direita, Joaquim Papudo, Rubens dos Santos, Luís Vitor da Silva (primeiro presidente do clube), Odemar Pereira, Mestre Dario (presidente da Liga de Futebol de VG) e Manoel Mendes de Oliveira (Foto: arquivo Zé Pulula)
Ao longo da sua existência, que completou 66 anos neste 2017, o Clube Esportivo Operário Várzea-grandense (CEOV) que nasceu com o nome de Operário Futebol Clube, conforme consta na sua primeira bandeira, teve muitos torcedores verdadeiramente apaixonados pelo time. Mas nem um deles, muitos dos quais já falecidos, chegou aos pés do lendário Joaquim Santana Rodrigues, mais conhecido como Joaquim Papudo.

Papudo tinha dois motivos muito fortes para nutrir um amor doentio pelo Operário: ele foi um dos fundadores do clube e se não bastasse esse orgulho, dois dos principais jogadores do velho tricolor – Assis e Zé Simião -- eram seus filhos. Sua paixão pelo Operário explodiu quando o caçula Conrado, ainda menino, passou a jogar com os dois irmãos, formando um trio que era o xodó dos tricolores.

Naquele distante tempo, o campo onde o Operário mandava seus jogos oficiais e disputava amistosos ficava na Avenida Couto Magalhães, perto de um grande supermercado da cidade. Claro que o campo não tinha alambrado e uma simples cerca de arame liso, fixada em grossos mourões, separava a torcida dos jogadores.

Um desses mourões acabou ficando conhecido como “do Joaquim Papudo”. Motivo: cada chute que Assis e Zé Simião e depois Conrado davam na bola dentro do campo, era uma bicuda do pai deles no mourão. Principalmente quando erravam o chute. E o pobre tronco de madeira, que não tinha culpa de nada, vivia cheio de marcas dos chutes de Joaquim Papudo.

Pena que Joaquim Papudo, já falecido, não pôde curtir por muito tempo as virtudes de seus três filhos jogando bola juntos. Na década de 60, o Operário disputava no Dutrinha, inaugurado em 1952, contra o Campinas, do Grande Terceiro, um jogo importante pelo Campeonato Amador de Cuiabá, quando Conrado sofreu uma entrada maldosa de um jogador do time adversário e que atingiu em cheio seu menisco do joelho direito.

Depois do jogo, a revoltada torcida do Operário tentou de todo jeito pegar o jogador do Campinas para vingar a pancada violenta que ele havia dado em Conrado, então com 20 anos, e uma grande promessa do futebol cuiabano. Conrado foi operado pelo renomado ortopedista operariano Murilo Godói, mas a cirurgia não resolveu o problema e ele teve que encerrar mesmo a promissora carreira.

Da sua curta passagem pelo futebol cuiabano, Conrado recorda de um esquema que o Operário utilizava na execução de faltas com barreira e que fatalmente resultavam em gols em 80% das cobranças. 

Quando os jogadores se posicionavam na barreira, sempre de frente para a meta para o goleiro orientar sua formação, os jogadores encarregados da cobrança ficavam agachados atrás dos zagueiros, impedindo o arqueiro de ver quem ia chutar a bola. Aí, quando o juiz apitava, autorizando a cobrança, o jogador escalado previamente levantava-se e chutava a bola exatamente no canto oposto ao que estava a barreira. 

 -- Era gol certo – garante Conrado.



.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Massagista do CEOV bebeu todo o álcool que era para socorrer jogadores


Foto meramente ilustrativa. (Arquivo Google)
Campeonato Amador de Futebol Várzea Grande, de 1985: o Clube Esportivo Operário Várzea-grandense enfrentava o Vila Nova, no campo do adversário,  em Bom Sucesso. Um jogo muito pegado e cujo único resultado que interessava aos dois tradicionais rivais era a vitória.

Com o grande empenho da boleirada dentro de campo, de vez em quando surgiam jogadas mais ríspidas de ambos os lados, na luta pela vitória. Valia até “chutar para o mato, porque o jogo é de campeonato...” – como se diz.

De repente, um jogador do Operário sofreu uma entrada mais dura de um defensor do Vila Nova e se machucou. Aparentemente, era uma contusão grave, porque o boleiro não conseguia nem ficar em pé, apesar de sua vontade de continuar em campo.

Os operarianos procuravam ajudar o jogador contundido, enquanto acenavam para o massagista entrar em campo para atender o companheiro. Mas que nada! O massagista, cujo nome ninguém se lembra, passadas mais de três décadas, continuava sentado na beira do campo. E só gritava: “Faz folhão nele”!, “Faz folhão nele!...”

Folhão era um termo que os boleiros usavam para identificar um tipo de exercício que aplicavam em um companheiro machucado, movimentando seus braços em vários sentidos até ele se recuperar...

Alguns jogadores estranharam o comportamento do massagista, correram até a beira do campo para pegar a caixa de remédios para socorrer o companheiro e só então descobriram o motivo da sua indiferença: ele havia bebido todo o  álcool puro – mais de um litro -- muito usado para massagear os boleiros quando se machucavam dentro de campo...

Nos velhos tempos de poucos recursos da indústria farmacêutica para socorrer quem sofria uma lesão jogando bola, o álcool era um santo remédio. E naquele dia a rapaziada do CEOV não pôde contar nem com o álcool, que logo cedo foi parar no bucho do massagista...

     

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Fluído de freio e água: milagrosa massagem que salvou o velho Chicotinho FC...

Uma da formações do Chicotinho: de pé, da esquerda para a direita, Fião, Riam, Maquininha, Pedro, Yam, Titi e Alex: sentados, na mesma ordem, Ango, Joaquim, Hiago, Meio Quilo, Guilherme e Vicente. As crianças da foto são Camila, Vitor Hugo e Vicentinho. (Foto: arquivo de família) 
Era um domingo de chuva que Deus mandava do céu. Em um campo que ficava atrás da hoje Cerâmica Eliane, na bifurcação das entradas para Bom Sucesso e Souza Lima, o Chicotinho Futebol Clube disputava contra o Grêmio, do Jardim Glória, uma partida de vida ou morte, pelo Campeonato Amador de Várzea Grande de 1980. E precisava vencer de qualquer jeito para continuar no certame.

Mas, decididamente, naquele dia o Chicotinho -- nome escolhido por seu fundador, Ciro Vieira da Costa, em homenagem ao Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, para alegrar as domingueiras de sua numerosa família do isolado Capão Grande, e torcedora fanática do tricolor, estava mais para um relhinho de uma tênue tirinha do que para um temido chicote de couro trançado...  

O jogo estava 3x0 para o Grêmio. O Chicotinho tentava reagir, mas não tinha jeito. Para complicar a situação do time, o jogador Aírton Pintinho sofreu uma lesão aparentemente muito grave e não poderia continuar em campo. No banco de reservas, nem um jogador para entrar no lugar de Pintinho...

O presidente do Chicotinho, Guilherme da Silva, que havia assumido o cargo com a desistência de Ciro Vieira da Costa, olhou na caixa de massagem do time e não viu nenhum lenitivo – nem álcool, pelo menos... – que pudesse aliviar o sofrimento do desesperado Pintinho...

Guilherme da Silva, conhecido também como Meio Quilo, por causa da sua compleição física,  correu até sua velha picape, pegou um resto de fluído de freio, misturou com água às escondidas dos jogadores e aplicou na machucadura de Pintinho, como se aquela porção fosse um milagroso medicamento para qualquer contusão!

Claro que Aírton Pintinho sentiu que a parte onde a mistura foi esfregada estava queimando por causa das substâncias químicas no fluído de freio e tratou de se movimentar para aliviar a dor. E não demorou estava novamente em campo. A massagem  com a dupla mistura deu tanto resultado que Pintinho foi um dos principais jogadores do Chicotinho na virada de 7x3 sobre o Grêmio.

Um feito que até hoje, decorridos quase 40 anos, é lembrado pelos heróis que participaram da histórica vitória. Entre eles, o próprio Aírton Pintinho,  Celso, Búdio, Guilherme Filho, Fernando, Pedro...

Muito amigo e admirador de Rubens dos Santos, o primeiro presidente do CEOV, lançado no dia 1º de maio de 1949, Ciro Vieira da Costa, ao decidir, em 1978, fundar um clube de futebol no bairro Capão Grande escolheu o nome de Chicotinho para homenagear o Operário, que passou a ser conhecido como “Chicote da Fronteira”, denominação cunhada pelo advogado, jornalista, escritor, poeta e boêmio Benedito Santana da Silva Freire...

Depois de muitos anos sustentando o Chicotinho, Ciro Vieira da Costa, que já andava a beira da falência por causa do dinheiro que gastava com o futebol, estava desanimado e falava sempre em parar de mexer com bola. Mas ia protelando a decisão definitiva na esperança de que aparecesse alguém para continuar tocando o Chicotinho.

Em um certo domingo, o Chicotinho tinha que jogar com o Bariri, no bairro Pirinéu. Sem conseguir um caminhão para transportar a boleirada, Ciro Costa acertou um carreto duplo (buscar e levar de volta os jogadores) com Guilherme da Silva, que era justamente o mandachuva do Bariri, o adversário do Chicotinho naquele dia...

Começava naquele dia uma conversação entre Guilherme da Silva e Ciro Vieira da Costa e que tempos depois desaguou na consumação de um sonho que passou a ser acalentado pelos dois: o eterno presidente do Chicotinho saindo de campo e o do Bariri assumindo um dos mais tradicionais clubes do futebol amador várzea-grandense...

Hoje, com 72 anos de idade, Ciro Vieira da Costa continua apaixonado pelo CEOV, mas não se envolve mais diretamente com o futebol. Seu sucessor no lendário Chicotinho morreu no ano passado, mas entrou em cena seu filho Guilherme da Silva, para dar continuidade à tradição do futebol amador de Várzea Grande, que já caminha para 40 anos, mantendo o Chicotinho vivo. O Chicotinho é hoje um time quase que exclusivamente familiar...     

              

sábado, 8 de abril de 2017

Quadrangular nos 250 anos de Cuiabá

          Em 1969, Santos e América, do Rio de Janeiro, campeão carioca, vieram a Cuiabá disputar, ainda no Dutrinha, um quadrangular com o Mixto e o Dom Bosco para comemorar os 250 anos da capital mato­-grossense. A família do cuiabano Almiro, que estava jogando no Santos, deci­diu prestar uma homenagem aos santistas, oferecendo-lhes um churrasco bem cuiabano, regado a cerveja, evidentemente.
Alguns jogadores do Santos – Lima, Clodoaldo, Negreiros, Abel, Mané Maria e Geraldino – compareceram à casa da família de Almiro, na Rua Joaquim Murtinho, para jantar com outros convidados. Pelé e Almiro não fo­ram: os dois estavam contundidos e nem tinham vindo a Cuiabá.
Depois do jantar, papo rolando animado, Pelezinho, irmão de Al­miro e uma das “feras” do Mixto, comentou numa roda de boleiros que o seu mano famoso havia lhe dito que no Santos só havia o “rei“... os outros eram tudo japonês. Quer dizer, com aqueles olhos pequeninos dos orientais, eram ruins de bola!...
Na rodada de abertura do torneio, dia 6 de abril, o Santos deu de 4x1no Dom Bosco e o Mixto derrotou o América pela contagem mínima. Na estreia do Santos, o endiabrado ponteiro direito Mané Maria, em grande for­ma, fez gato e sapato do lateral esquerdo Elói, que saiu de campo com a língua quase arrastando no chão de tanto correr atrás do atacante.
Veio a rodada final, dia 8, com o Dom Bosco pegando o América e o MIxto enfrentando o Santos. No dia do jogo com o Santos, o lateral esquerdo Darci Avelino, que tinha presenciado o show de bola que Mané Maria tinha dado em Elói, amanheceu adoentado...
Pelezinho, o substituto de Darci Avelino, sacou o lance: seu compa­nheiro não estava doente porra nenhuma. Simplesmente ele não queria en­frentar Mané Maria. Pelezinho bateu o pé: não jogaria também e fim de papo.
Pior para Severino, que foi escalado para jogar na lateral esquerda. Ele fez uma marcação tão dura no ponteiro direito santista para não repetir o vexame de Elói, que quando retornou a Santos, o ponteiro direito comentou com Almiro: “Nunca mais vou jogar em sua terra, porque lá tem um jogador que corre atrás da gente até no mato...” – referindo-se a Severino, que não des­colava de Mané Maria nem quando ele saía de campo para pegar a bola para cobrar um lateral ou escanteio. O Dom Bosco perdeu de 3x1 para o América e o Mixto levou de 5x1 do Santos.
Pouco tempo depois do Santos ter participado do quadrangular em Cuiabá, Almiro estava no Paulista, de Jundiaí. Especula-se até hoje que sua saída do alvinegro teve tudo a ver com o comentário feito em Cuiabá por Pele­zinho sobre a japonesada do Santos...
Velho amigo de Almiro, Lito garante que não foi nada disso. O que aconteceu foi que Almiro entendeu que enquanto Pelé estivesse no Santos, ele não teria nenhuma chance de se firmar como titular do alvinegro. Só por isso – e estava carregado de razão – Almiro pegou o boné e caiu fora do Santos.
Embora tenha ficado um bom tempo no Santos, exceto em casos de contusões de Pelé, Almiro só entrava no time no decorrer de jogos quando o “rei” impunha sua escalação. E como impunha!
Nas excursões do Santos pelo exterior, Almiro sempre era incorpo­rado à delegação por interferência de Pelé. Acontece que Almiro fala inglês, francês, espanhol, além do português, claro, e muitas vezes livrou o “rei” do as­sédio de fãs nas ruas por onde o alvinegro passava pelo mundo afora, fazendo seus admiradores acreditarem que Pelé era outros jogadores negros do Santos, principalmente Coutinho e Dorval...
(Reproduzido do livro Casos de todos os tempos Folclore do futebol de Mato Grosso).

sexta-feira, 31 de março de 2017

Bom lugar, no trânsito paulista, para goleiro de Mato Grosso treinar reflexos...

(Foto Arquivo Google)
Nos áureos tempos do futebol de Mato Grosso, quando o Mixto participava de importantes campeonatos brasileiros, se o clube tivesse que disputar mais de uma partida em uma semana fora do Estado, principalmente contra equipes de São Paulo, a delegação ficava alojada no Hotel San Marino, na capital paulista.

O objetivo da permanência em São Paulo era evitar desgaste físico  dos jogadores com sucessivas viagens carregando malas, cansativas escalas em aeroportos e outros inconvenientes das nem sempre confortáveis salas de espera ou terminais de embarques...

Numa dessas viagens, a delegação mixtense estava no San Marino, aguardando o dia de seguir para Campinas para enfrentar a poderosa Ponte Preta, de Dicá e Rui Rei. Claro que a viagem seria feita de ônibus, pois menos de 100 quilômetros separam as duas cidades – o time campineiro venceu o jogo por 3x0, lembra Ruíter.

Enquanto não chegava a hora da viagem, os membros da delegação mixtense aproveitavam a folga para conhecer os principais pontos da capital paulista, nas imediações do hotel. Apesar do tempo de que dispunham os jogadores, pouca gente se arriscava a se afastar muito do hotel com medo de se perder...

Em um final de tarde, um grupo de mixtenses pelas ruas parou nas imediações da Avenida São João.com a Ipiranga, impressionado com a verdadeira loucura do trânsito naquelas duas vias da capital paulista...

Foi aí que o massagista mixtense Carlito, saiu-se com esta pérola: “Os goleiros de Mato Grosso bem que podiam vir treinar seus reflexos aqui nesse trânsito...”

A boleirada caiu na gargalhada...  

Logo que o grupo retornou ao San Marino, o comentário de Carlito sobre o trânsito e reflexo de goleiros de Mato Grosso espalhou-se rapidinho entre a moçada que tinha ficado no hotel 

E Carlito, que era considerado um homem bem letrado, pois era formado em fisioterapia, com especialização em reabilitação, pela Universidade Federal de Mato Grosso, teve que aguentar muita gozação dos mixtenses por muito tempo...               


sexta-feira, 24 de março de 2017

Há meio século a contratação de um goleiro inflacionou o futebol de Mato Grosso...


Édson Miranda (em primeiro plano na foto)
“Tenho certeza absoluta que eu vou passar para a história do futebol de Mato Grosso como o cara que inflacionou o futebol profissional no Estado...” – previu o presidente do São Cristóvão Esporte Clube, Édson de Souza Miranda, em 1966, no dia que a agremiação do bairro Araés fechou negócio com o Palmeiras, do Porto, pagando Cr$ 200 mil pelo passe do goleiro Parada Pedro.

Édson Miranda acertou em cheio, com a inflação do futebol de Mato Grosso começando ali. Só que não foi pelo fato do seu clube ter desembolsado o dinheiro para pagar o Palmeiras, mas por outro motivo inesperado e que surpreendeu todo mundo.

-- Eu só assino contrato se o São Cristóvão me pagar 15% do valor do meu passe – bateu o pé o goleirão do Palmeiras, Parada Pedro, que sabia que nos grandes centros esportivos do país como São Paulo e Rio Janeiro, a exigência de luvas tinha virado moda, com o percentual máximo chegando a 30%, dependendo da fama do jogador e geralmente pago pelo clube que comprava o boleiro.

O presidente do São Cristóvão esperneou, mas Parada Pedro não abriu mão do seu direito. Com muito custo, o goleiro baixou o percentual exigido para 10%. Mas aí, o olho da boleirada do São Cristóvão cresceu e alguns jogadores que acompanharam a transação, entre eles Zé Rondonópolis, Hélio Pinto, Dunga, cujo passe tinha sido comprado do Sport Clube Recife e Edinho, passaram a exigir dinheiro para defender o clube do Araés.

A decisão do São Cristóvão de passar a pagar seus jogadores, chegou rapidinho aos ouvidos dos boleiros de outros clubes. E a inflação do futebol de Mato Grosso, como havia previsto Édson Miranda, estava implantada nesse esporte no estado, na transição do futebol amador para o profissionalismo.

Lembra o tenente R/1Gumercindo Alves Correa Filho, que durante muitos anos foi diretor do São Cristóvão EC, que Édson Miranda, além de ter inflacionado o futebol de Mato Grosso, foi também o principal responsável pela implantação do profissionalismo no Estado.

De fato, foi ele que como gestor de Orçamento do Estado conseguiu, em 1966, que o então governador do Mato Grosso indiviso, Pedro Pedrossian, liberasse uma dinheirão para os clubes da 1ª Divisão da época – São Cristóvão, Mixto, Dom Bosco, Americano, Paulistano, Palmeiras e Clube Esportivo Operário Várzea-grandense – investirem em seus patrimônios físicos e em reforços para dar nova dimensão ao futebol, com a transição do amadorismo para o profissionalismo já no ano seguinte.

Além de diretor, sempre que sobrava uma brechinha, Correa jogava bola também. E inclusive tem algumas histórias divertidas para contar.  Uma delas aconteceu em 1962 ou 63 em um amistoso do seu clube contra a seleção de Alto Paraguai.

A certa altura do jogo, o juiz marcou um escanteio a favor do São Cristóvão, mas a torcida agarrou Correa e não o deixava executar a cobrança. Com muito custo e a intervenção do juiz, o escanteio foi cobrado. O São Cristóvão ganhou o jogo de 3x1..

Tempos depois, o São Cristóvão voltou ao Médio Norte para jogar com uma seleção de Arenápolis, que fica praticamente na divisa com a cidade de Alto Paraguai. Atuando na ponta esquerda e marcado por um zagueirão parrudo chamado Pelé, Correa não ganhava uma jogada, principalmente pelo alto. Nas bolas altas, Pelé arcava o pesado corpo em cima de Correa e cabeceava todas elas sem nenhuma dificuldade.

Até que finalmente o atacante do São Cristóvão dominou uma bola rasteira e passou-a entre as pernas de Pelé, pegando-a do outro lado nas costas do zagueiro. Enfurecido, Pelé girou o corpo e voltou com tudo para quebrar o atacante. Mas levou azar: Correa puxou a bola e o zagueiro, desequilibrado, torceu um dos tornozelos. E Correa foi o primeiro a socorrer o jogador adversário contundido. Vitória do São Cristóvão por 3x2.           


  

sábado, 18 de março de 2017

Aírton Vaca Brava precisava de “priquiteira” até para treinar...

A sunga que virou  "priquiteira" em Cuiabá
Fim de tarde de um dia qualquer de 1959, quase 60 anos atrás: um grupo de jovens jogadores de futebol espera defronte a papelaria e livraria de dona Pepe Hugueney de Siqueira, na Rua 7 de Setembro, no Centro Histórico de Cuiabá, a hora de iniciar a caminhada para o campo do antigo Colégio Estadual de Mato Grosso, que virou depois Liceu Cuiabano “Maria de Arruda Müller”, para mais um treino coletivo do Mixto Esporte Clube.

Pouco antes da saída da rapaziada, surgiu um probleminha: o jogador Aírton Moreira, mais conhecido como Vaca Brava, pela maneira destemida como se comportava em campo, procurou a dedicada dirigente do alvinegro para dizer que precisava de uma “priquiteira” para treinar...

Dona Pepe não entendeu nada. E nem ia entender mesmo! No linguajar dos jogadores, “periquiteira”, que Vaca Brava mudou para “priquiteira”, era a sunga, de lançamento recente no mercado, para proteger as partes íntimas dos atletas, especialmente dos jogadores de futebol, e que pela própria natureza desse esporte, ficam mais expostas a boladas...

Vaca Brava fazia desesperados gestos com as mãos para tentar explicar a dona Pepe o que ele estava dizendo, mas não tinha jeito não – recorda o lendário Ruiter, testemunha desse episódio que enriquece o folclore do futebol mato-grossense. Ruíter não se lembra de outros jogadores que testemunharam o fato, mas recorda que o Mixto da época era integrado por verdadeiros “astros” da bola, entre eles Bianchi, Acácio, Irair, Choné, Humberto, Armindo, Nazário, Proença...

Percebendo que Vaca Brava e dona Pepe não iam se entender, alguns jogadores entraram na conversa e esclareceram que “periquiteira”, também chamada de saqueira, era simplesmente a sunga, algumas das quais vinham com uma proteção especial para o “periquito” e as duas “bolinhas”, também chamadas de “periquitinhas” situadas na região pubiana. É óbvio que não entraram nesses detalhes nas explicações a respeitada dona Pepe..

Claro que o diálogo entre os dois mixtenses espalhou-se no meio da boleirada e até hoje é lembrado entre a velha guarda do futebol mato-grossense. Muito tempo depois, Aírton Vaca Brava, que não tinha muita intimidade com as letras, explicou que não falou em sunga com dona Pepe, porque pensava que esse nome era um palavrão...     

sexta-feira, 10 de março de 2017

Tresoitão fez poderosa emissora de Cuiabá tirar programa esportivo do ar...


Durante os quase seis anos que Agripino Bonilha Filho presidiu a Federação Mato-grossense de Desportos, entre 1969/75, os esportes amadoristas mato-grossenses subordinados a entidade – basquete, voleibol, futebol de salão, natação, atletismo, judô, etc. – viveram uma fase de grande prosperidade e projeção, inclusive participando de todas as competições de âmbito nacional. Se eventualmente faltava dinheiro para uma modalidade participar de algum certame no Brasil, era só Bonilha ligar para o presidente da Confederação Brasileira de Desportos, João Havelange, que o dinheiro caía rapidinho na conta...
          
Material esportivo, então, para todas as modalidades esportivas, até sobrava. Uma vez, de uma só pancada, a CBD mandou para a FMD três carretas carregadas de material esportivo para todas as modalidades. Difícil foi achar lugar para acomodar tantos agasalhos, camisas, calções, meias, caneleiras, chuteiras, tênis, bolas...
         
Mas mesmo com todos os esportes de Mato Grosso em grande evidência, em 1973 a Rádio Difusora Bom Jesus de Cuiabá, que tinha um programa de esportes de grande audiência, começou a desancar o pau na FMD. O motivo só Bonilha sabia: a dupla que apresentava o programa – Roberto França e Eduardo Saraiva – queria porque queria que a FMD comprasse umas quotas de publicidade do programa e a resposta do presidente da entidade era sempre um solene não.

Afinal, Bonilha não precisava de promoção pessoal e os esportes já ocupavam grandes espaços no noticiário das emissoras de rádio e nos jornais.  Além disso, não seria ético nem justo a FMD pagar uma emissora de rádio para veicular suas notícias e não patrocinar as outras que a divulgavam da mesma forma, principalmente o futebol.

No início, a pauleira de França e Saraiva era dirigida somente a FMD e aos outros esportes dos então departamentos que eram subordinados a entidade mater. Com o correr do tempo, as críticas da dupla de radialistas mudaram o foco e passaram a ser concentradas em Bonilha. Pior: saíram do campo esportivo e partiram para o ataque pessoal para provocar mesmo Bonilha...

Uma manhã, Bonilha meteu um revólver 38 cano longo na cintura e foi falar com o dono da emissora, o arcebispo dom Orlando Chaves. Bonilha reclamou da forma como estava sendo tratado na programação esportiva da rádio, fazendo ver a dom Orlando Chaves que não ficava bem para uma rádio católica, como é o caso da Difusora Bom Jesus de Cuiabá, cuja função é pregar a paz, ficar semeando discórdia.
     
Diante da indiferença de dom Orlando Chaves às suas queixas, Bonilha tirou o tresoitão da cintura, pôs em cima da mesa e disparou: “Se os dois não pararem de me ofender, vou fazer um regaço aqui, dom Orlando...”
     
Nisso, dona Aurora Chaves, diretora da rádio, e irmã de dom Orlando Chaves, entrou na conversa para dizer que não poderia fazer nada para resolver o problema. E nem poderia mesmo: França e Saraiva haviam comprado o horário do programa esportivo matinal e tinham autonomia para fazer o que bem entendessem.
        
  – Dona Aurora, já que a senhora não pode fazer nada, não se meta nesse rolo, se não vai sobrar para a senhora também... – disse Bonilha, enquanto ajeitava a arma sob a camisa.
   
 Antes de sair da sala de dom Orlando Chaves, Bonilha fez outra advertência: “Eu vou esperar lá embaixo o programa... se falarem mal de mim, subo aqui de novo e meto bala em tudo...”
        
A Rádio Difusora Bom Jesus de Cuiabá funcionava, como ainda hoje, na Igreja do Seminário. Bonilha desceu a escada, entrou no carro, ligou o rádio e ficou esperando o programa esportivo começar.  Mas naquele dia, o programa não foi ao ar. Nem nos 29 dias seguintes... 
         


sábado, 4 de março de 2017

Time de magistrados

“Vim lhes avisar que de agora em diante eu vou anular todos os gols que vocês marcarem e se alguém reclamar, mando para fora do campo. Respeitem o homem, pelo menos isso! Fui bem claro?...”

A advertência, em tom ameaçador, foi feita pelo árbitro Hen­rique Peixoto no intervalo do amistoso que o Araguaia Esporte Clube disputa­va com o time de Parnaíba – hoje Mato Grosso do Sul – e cujo placar ao final do 1º tempo apontava a vitória dos alto-araguaienses por 10x0.

O “homem” a quem o juiz Henrique Peixoto se referia era o gover­nador Pedro Pedrossian que estava visitando Alto Araguaia e foi ao campo assistir ao jogo. Pedrossian inclusive deu o pontapé inicial do amistoso.

Para os defensores do “Pantera do Leste” o jogo com o time de Par­naíba era um amistoso qualquer. Mas os jogadores ficaram com muita rai­va quando os integrantes da equipe visitante, que haviam chegado à cidade sábado bem cedo, passaram a circular pela pequena Alto Araguaia exibindo um belo uniforme e cheios de gingas e poses, certos de que o jogo seria uma moleza...

A raiva dos alto-araguaienses foi levada para o campo e transfor­mada num massacre. Do time visitante, só dois jogadores pegavam na bola: o goleiro para devolvê-la ao centro do campo e o centroavante para dar nova saída...

Os dirigentes e os jogadores do AEC sabiam que Henrique Peixoto cumpriria mesmo as promessas. E aí o técnico alviverde trocou uns cinco ou seis jogadores, colocando juvenis no lugar dos titulares. Mesmo com a ame­aça do juiz, os garotos, loucos para terem uma chance na equipe principal, marcaram mais dois gols que Henrique Peixoto não teve como anular. O jogo terminou com vitória do time da casa por 12x1.

Raiva à parte, o massacre do AEC foi mesmo uma descortesia con­tra a equipe de Parnaíba. Um bom tempo antes do jogo em Alto Araguaia, o “Pantera do Leste” tinha ido jogar em Parnaíba e o clube da casa fez o que pôde para agradar aos visitantes. Inclusive promoveu um baile em homenagem aos alto-araguaienses, que no dia seguinte não levaram em conta a hospitalidade e ganharam o jogo por 2x0, embora tenham ficado no bailão até as três horas da madrugada.

O “Pantera do Leste” chegou a Parnaíba no sábado à tarde. O baile provocou uma grande agitação na cidade, porque logo que a delegação chegou a Parnaíba correu a notícia que o time tinha um jogador que era juiz de Direi­to em Alto Araguaia. Para os parnaibanos era uma grande honra conviver com uma autoridade tão respeitada.

Era verdade: o juiz de Direito era Ica. No entanto, para deixar o magistrado-boleiro mais à vontade ficou combinado entre todo mundo que ninguém revelaria quem era Ica. Além disso, ele precisava ficar no anonimato até por questão de segurança naqueles tempos do tresoitão muito em voga em Mato Grosso...

E ficou mesmo. Até porque muita gente aproveitou o baile em Par­naíba para desfrutar de uns momentos de glória, de bajulação, de tratamento especial. Tanto é que a certa altura do baile uma bela jovem estrilou: “Pombas, já dancei com uns dez jogadores de Alto Araguaia e cada um diz que o doutor juiz é ele,,,”

(Reproduzido do livro Caso de todos os tempos Folclore do futebol de Mato Grosso).

sábado, 25 de fevereiro de 2017

De tresoitão na mão, torcedor mandou cobrar pênalti e o jogo do São Cristóvão continuar...

 Faz tanto tempo que o fato inédito aconteceu que o ex-treinador e ex-jogador Dito Coró não se lembra se foi em Poconé, Santo Antonio do Leverger ou Nossa Senhora do Livramento. Mas tudo indica que foi na vizinha última cidade que mantinha um super-time e cuja última façanha tinha sido surrar o todo poderoso Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, de Rubens dos Santos, e tido como a grande força do futebol regional da época, aí pelo início da década de 60.

O amistoso foi em um domingo. Empolgados com o seu time, os torcedores da cidade não economizavam no placar das apostas sobre o resultado do jogo. Os mais otimistas arriscavam placares de 4x0, 5x0, 6x0...

Mas ainda pela manhã, quando os torcedores viram aquele bando de magricelas, entre eles muitos garotos, em cima do caminhão que conduzia a delegação do clube do Araés, as apostas subiram para 7x0, 8x0, 10x0, 12x0. Apostas no dinheiro vivo e muita gozação em  cima do São Cristóvão.

Chegou a esperada hora de a onça beber água. Os meninos do São Cristóvão simplesmente passeavam dentro de campo. Era um show de bola que faltava gente pra ver. A torcida estava aturdida sem acreditar no que via. O primeiro tempo terminou com a vitória do time cuiabano por 3x0.

Veio o segundo tempo e o São Cristóvão marcou mais um gol. Não demorou e o adversáro fez o seu primeiro gol. Logo em seguida, o juiz, de Nossa Senhora do Livramento, naturalmente, marcou um pênalti absurdo a favor do time da casa.

O treinador-jogador Dito Coró percebeu que as cartas do baralho estavam marcadas e disse para a rapaziada: “Vamos sair de campo...”

A ordem de Dito Coró começou a ser cumprida, mas de repente do meio da torcida surgiu um cidadão com um revólver cano longo deste tamanho em uma das mãos, entrou em campo e deu a ordem: “O pênalti vai ser batido e o jogo continuar...”

– Vamos continuar jogando, moçada... – foi a única coisa que Dito Coró disse a seus pupilos. Mesmo sob pressão da torcida e com medo do homem do tresoitão e do juiz, o São Cristóvão ainda fez mais um gol, vencendo o jogo por 5x2...



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Coringa do Vila Nova, Painha achava que não ia se casar nunca: era muito feio...

O casal Painha-Gonçalina
 e a parentela na 
solenidade religiosa  











Titular absoluto da ponta direita do Vila Nova Futebol Clube, Painha sempre alimentou um sonho na sua juventude: chegar um dia a ser o goleiro do time principal de Bom Sucesso, a quase bicentenária comunidade rural de Várzea Grande e que virou um importante polo turístico e gastronômico da cidade.

Para alcançar esse objetivo, ele preparava-se muito, até sozinho, chutando a bola contra o muro da casa em que nasceu e onde vive até hoje – a residência original era uma palhoça, a 1ª a ser erguida na comunidade rural em 1823 – para treinar reflexos e dar saltos como felinos para defendê-la com os pés, as mãos, as costas, a bunda...

Mas, apesar de tanto esforço e persistência, além de suas boas atuações no time suplente, chamado também de “cascudo”, Painha nunca tinha chance de atuar na equipe titular.   

Muito bem criado por uma tia desde a hora que nasceu, pois sua mãe morreu no seu parto, Painha, que só saía de Bom Sucesso para jogar bola na região, embora muito estimado pela população da comunidade onde vivia, convenceu-se muito cedo de que um outro sonho que todo mundo acalenta na juventude – o de casar, ter mulher, filhos, netos... – não ia se materializar  nunca!

-- Eu era muito feio, as moças nem olhavam pra mim... – afirma Painha.
De fato, o conjunto não ajudava Painha. Além de feio, era magricela, bem baixinho e... pobre, muito pobre. Tanto é que quando tinha jogo bom no Dutrinha, por falta de dinheiro para pagar uma condução, Painha e um grupinho de amigos de Bom Sucesso iam a pé ao estádio do centro de Cuiabá. Ele ainda tinha que pular o muro porque nunca tinha grana para comprar o ingresso.

Depois que o Verdão foi inaugurado, em 1976, aí piorou a situação deles, porque aumentou em alguns quilômetros a caminhada para o estádio. Se o jogo era de noite, a turminha só chegava a Bom Sucesso de madrugada. “Ainda bem que naquele tempo não tinha esse negócio de assalto e a gente podia andar a noite sem cisma...” – diz Painha.

Fazer longas caminhadas não era problemas para eles que já estavam acostumados a torar longos estirões quando tinham que jogar na Guarita, Figueirinha, Varginha, Engenho Velho, Santo Antonio de Leverger.

No caso de jogos nas três últimas localidades, o pessoal de Bom Sucesso atravessava o Rio Cuiabá e em canoas e botes e depois completava a jornada no pé dois mesmo, pois não existiam conduções para facilitar o deslocamento da boleirada.

Pouco tempo da fundação do Vila Nova, chegou a Bom Sucesso para dar aulas na escolinha da comunidade rural a professora Gonçalina Barros. A princípio muito vigiada pela família em cuja casa passou a viver, o que era comum naqueles tempos, em função da preservação da moral e dos bons costumes, aos poucos a mestra foi se soltando e se enturmando com a comunidade.

Em um domingo de jogo no campo do Vila Nova, enquanto Painha procurava uma moita de capim para esconder seus pertences, Gonçalina aproximou-se dele e perguntou se ele queria que ela cuidasse  de sua roupa. Ora, se queria, afinal era um sinal de aproximação dos dois e que deixou os jogadores vilanovenses até faceiros quando o gabola Painha contou-lhes a novidade...

Dias depois desse episódio, que deixou o ponteiro direito eufórico, a diretoria anunciou que a partir de um jogo que o Vila Nova ia disputar em Engenho Velho, dali a alguns dias, Painha passaria a ser o titular do gol. A notícia chegou rapidinho aos ouvidos de todos os moradores de Bom Sucesso, inclusive aos da professora Gonçalina, claro...

-- Eu acho que ela pensou que eu jogando de goleiro no time titular do Vila Nova ia ser alguma coisa na vida... -- caçoa o hoje Vovô  Painha, lembrando que na volta de Engenho Velho ele teve que agüentar muita gozação dos dois lados dos ouvidos, pois o time de Bom Sucesso  perdeu de 7x0 e ele levou os sete gols. Foi uma estreia pra lá de desastrosa...    
         
Painha chegou a imaginar que o sonho de um casamento que passou a povoar seu pensamento depois do primeiro contato com Gonçalina tinha ido para o vinagre. Mas que nada! O namorico avançou, apesar dos 7x0, evoluiu para um casamento que já dura 61 anos e resultou em cinco filhos (3 mulheres e dois homens), 11 netos e 4 netas, 11 bisnetos e uma tataraneta de três anos. Por enquanto...

Com o incentivo e a ajuda da professora Gonçalina, Painha progrediu e muito na vida. A palhoça pioneira de Bom Sucesso virou nos últimos anos um confortável casarão, onde os dois vivem cercados da parentela..

Decorridos mais de 60 anos, até hoje Gonçalina se lembra da primeira vez que viu Painha. Em um domingo, ela estava conversando com uma amiga em uma casa perto de uma rua, quando ele passou, já uniformizado de goleiro e simulando estar arrumando a camisa de mangas compridas, fingindo que não tinha visto as duas...

Apesar dos seus 86 anos, o ex-coringa do Vila Nova, pois jogava em várias posições, ele ainda trabalha na sua chácara e cuida do tempero e da qualidade do peixe que sai da cozinha para as mesas da tradicional Peixaria Vovô Painha, uma das mais antigas de Bom Sucesso...        

Trabalhando muito a vida inteira, sem sair de Bom Sucesso, Painha nunca se preocupou com estudos, mas aprendeu muito com a vida. No ano passado, quando o casal comemorou 60 anos de casamento, com uma festa de arromba, o hoje tataravô Painha vendeu um terreno por R$ 30 mil e chamou os cinco filhos para fazer a partilha do dinheiro...

Só que na hora de repassar essa parte dessa herança aos filhos, Painha ficou com R$ 5 mil e entregou só R$ 4 mil para cada um deles, esclarecendo, antes que alguém lhe perguntasse, que “o outro mil reais é a contribuição de cada um de vocês para a festa de “Bodas de Diamante” do nosso casamento...”

Ninguém chiou...       

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Hotel cinco estrelas sem cama no elevador...

Odenir estranhou a falta de camas... no elevador

O Mixto foi a Brasília enfrentar o CEUB (Centro Esportivo Universitário de Brasília) pelo Campeonato Brasileiro de Futebol. Na delegação do alvinegro três caras novas do clube, mas muito conhecidos dos torcedores mato-grossenses: Odenir, o popular Upa Neguinho, Laércio e Ivanildo, que o Operário Várzea-grandense tinha cedido, por empréstimo, ao seu mais ferrenho rival.

A delegação mixtense saiu do aeroporto de Brasília diretamente para o Aracoara Hotel, um cinco estrelas que acabou se tornando famoso por hospedar pessoas ilustres de passagem por Brasília, mas também de triste memória para muitos brasileiros: foi ali que a equipe econômica do presidente Fernando Collor de Mello confiscou e congelou os depósitos das Cadernetas de Poupança, levando milhões de poupadores ao desespero.

Empossado em 1990, o alagoano Collor de Mello, que prometia fazer um governo revolucionário em benefício a população,  confinou sua equipe econômica, comandada por Zélia Cardoso de Mello, no Aracoara, onde foi concebido e executado o plano diabólico do novo presidente do confisco dos depósitos dos poupadores...

A razão dos protestos e reações contra o chamado “Plano Collor”: muitas pessoas que precisavam do dinheiro de suas poupanças para fazer tratamento médico, inclusive cirurgias, acabaram morrendo, pois não podiam, mesmo em casos extremos, sacar seu dinheiro confiscado.

Pressionado pela população, encabeçada pela juventude, que saiu às ruas Collor de Mello renunciou ao cargo em 1992. Mas como o povo tem memória curta, anos depois o odiado Collor de Mello voltou  à cena política e atualmente é senador.

Nem todo mundo do Mixto já tinha se hospedado em um hotel tão chique como o Aracoara, onde a delegação ficou até o dia seguinte para o jogo com o CEUB, que por sinal, sucumbiu em 1976, depois de se envolver em uma briga com o todo poderoso presidente da então CBD, almirante Heleno Nunes.

Preenchidas as fichas na recepção, os jogadores começaram a subir para os apartamentos. Foi aí que Odenir, sem se dar conta que já estava dentro do espaçoso elevador, virou-se  para os companheiros e perguntou: “Mas será que um hotel desse porte não tem camas nos quartos?...”  

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Aventura, drama e quase um suicídio em jogo do São Cristóvão na festa de Cáceres...


O São Cristovão marcou epóca no futebol amador em Cuiabá
Outubro de 1964: para comemorar seus 186 anos de fundação, no dia 6 daquele mês, Cáceres criou uma comissão organizadora para promover uma festa de arromba, daquelas de deixar saudades e ser lembrada para sempre. E claro que para marcar uma data tão significativa para a população cacerense não podia faltar um jogo de futebol dos bons.

O clube escolhido para abrilhantar a festa de Cáceres foi o São Cristóvão, do bairro Araés, de Cuiabá, à época presidido pelo 1º tenente R/1 Gumercindo Alves Correa Filho. Apesar de ser um dos mais novos do futebol amador de Cuiabá – foi fundado em 16/12/1961 – o São Cristóvão era muito bem organizado e não um simples time de 11 camisas. E muito bom na bola...

Uma poderosa seleção formada pelos melhores jogadores da cidade e da região era a “pedreira” que o São Cristóvão ia enfrentar no amistoso festivo. Por isso, a diretoria decidiu que o time viajaria no sábado mais cedo para chegar a Cáceres com tempo suficiente para os jogadores descansarem para cumprir o compromisso.

A viagem em cima de um velho caminhão, com os jogadores sentados sobre incômodos bancos de madeira que se estendiam de um lado a outro da carroceria, começou e prosseguia animada pelos 225 quilômetros da lamacenta e quase intrafegável BR 070 que liga Cuiabá e Cáceres, quando, de repente, já altas horas da noite, o caminhão quebrou...

Naquele deserto de cerrado, buscar socorro onde? O jeito foi a diminuta delegação do São Cristóvão, já quer muitos jogadores não puderam viajar, conformar-se com o azar e dormir sobre a madeira dura da carroceria e com o estômago roncando de fome. Foram horas dramáticas, quase de desespero. Mas fazer o que?...

Quando rompeu a aurora no domingo, alguns jogadores avistaram, quase à margem da rodovia, ao longe, uma tapera e galo cantando.  Foram até lá na esperança de conseguir pelo menos um gole de café, mas para surpresa – e que surpresa agradável!... – o casal que morava ali conseguiu improvisar um “quebra torto” que aliviou a fome de todo o grupo.

Voltaram para o caminhão, torcendo e alguns até rezando, para aparecer algum socorro. Calcula Dito Coró, treinador e jogador do São Cristóvão, que ainda faltava mais da metade do caminho para a delegação chegar a Cáceres. O sol já ia bem alto quando chegou onde estava os jogadores, um amigo do motorista do caminhão em uma caminhonete C-10.

Imediatamente ele se prontificou a levar uma parte da equipe até Cáceres e em seguida voltaria parar pegar o resto do pessoal. Amontoaram-se na C-10, o chefe da delegação, tenente Correa, Dito Coró e mais 10 jogadores. O time chegou a Cáceres já na hora de começar o jogo, com a numerosa torcida presente ao campo já impaciente...

Apesar de todos os contratempos – fome, cansaço, noite mal dormida -- o São Cristóvão deu um show de bola na seleção de Cáceres, vencendo o jogo por 3x1.

Nem bem terminou a partida, Correa e Dito Coró foram procurados por dirigentes da seleção cacerense para realização de um novo jogo no dia seguinte, 6 de outubro, data do aniversário da cidade e feriado em Cáceres. Um oficial de alto coturno do 2º Batalhão de Fronteira (2º BFron), unidade do Exército em Cáceres, e que havia cedido vários jogadores para a seleção cacerense, foi curto e grosso:

 -- A rapaziada não gostou do resultado de hoje e quer uma revanche amanhã. Depois do jogo, um caminhão do Exército leva vocês de volta para Cuiabá com toda a segurança...

Correa e Dito Coró ainda tentaram argumentar que os jogadores do São Cristóvão trabalhavam e eles próprios tinham compromissos profissionais em Cuiabá. No caso do tenente Correa, como justificar sua ausência ao trabalho? Mas o oficial do BFron não quis nem saber: a revanche estava marcada e fim de papo!...

O jogo na segunda-feira em Cáceres ficou marcado na curta história do clube do Araés. O São Cristóvão estava ganhando por 1x0, quando já quase no fim do jogo, o lateral esquerdo Adolfo resolveu fazer uma graça para a torcida: tomou a bola do ponteiro direito, deu-lhe um drible desconcertante, em seguida mais um e na terceira finta se atrapalhou, perdendo a bola para o adversário, que cruzou para a área, com a seleção cacerense empatando o jogo.

Outro drama: inconformado com a sua falha, Adolfo caiu em profunda depressão e queria porque queria se matar de qualquer jeito. Apesar de consolado pelos companheiros, o suicídio virou uma obsessão de Adolfo, cujos passos passaram a ser vigiados por todo mundo. Ele só desistiu da intenção de se matar depois de muitos conselhos de amigos, na volta a Cuiabá...   
            
 

  

.