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quarta-feira, 29 de maio de 2019

A tumultuada venda de Bife para o XV de Piracicaba e a fuga em porta-malas de carro para jogar contra o União...


Bife disputava o Campeonato Paulista da Divisão Especial de 1978 pelo São Bento, de Sorocaba, cedido, por empréstimo, pelo Mixto Esporte Clube. As boas atuações do atacante, coroadas com muitos gols, despertaram a atenção do XV de Novembro, de Piracicaba, que fica a 80 quilômetros de Sorocaba. Comandado com mão de ferro pelo milionário comendador Romeu Ítalo Rípoli, o clube piracicabano comprou o passe de Bife, pagando, sem pechinchar, Cr$ 50 milhões. Na época essa dinheirama era uma fortuna, que serviu para o alvinegro saldar muitas dívidas, inclusive a folha de pagamentos atrasada há três meses.

Quando o comendador Rípoli foi a Sorocaba comunicar a Bife que o XV havia comprado seu passe e ele tinha que se apresentar imediatamente ao seu novo clube, os dois se estranharam. Em um ríspido bate-boca no campo onde o São Bento realizava um coletivo, Bife disse a Rípoli que tinha nome de carne de animal, mas era gente e sabia conversar, com o seu interlocutor retrucando que o dinheiro que o seu time havia desembolsado para adquirir seu atestado liberatório dava comprar uma boiada inteira e não apenas um bife...

Bife foi para Piracicaba, porém não chegou a um acordo com o XV para assinar contrato e retornou a Sorocaba, sem dar satisfação ao seu novo clube. Como, decididamente, Bife e Rípoli não iam se entender, o clube piracicabano aceitou a proposta do presidente Lino Miranda, de emprestar Bife ao Mixto, até que “baixasse a poeira entre os dois”. Lino Miranda, que foi pessoalmente a Sorocaba, acompanhado do radialista e diretor mixtense Antero Paes de Barros, buscar Bife, garantiu ao jogador que estava tudo certo entre os dois clubes, com a devolução dos Cr$ 50 milhões ao time do interior paulista.

O cheque dado pelo Mixto ao XV de Novembro, em uma negociação fechada na mansão de Rípoli, em Piracicaba, para o retorno do atacante, depois do empréstimo, não tinha fundos. Começou, então, uma peregrinação de dirigentes do time piracicabano na sede do Mixto, na tentativa de receber os Cr$ 50 milhões. Adepto da filosofia do italiano Nicolau Maquiável, Lino Miranda comprava [jogadores] e não pagava e vendia [jogadores] e não liberava, mantendo seus atestados liberatórios. “Enquanto eu tiver mãos para assinar cheques, o Mixto compra qualquer jogador...” – gabava-se Lino Miranda.

O Campeonato Mato-grossense de Futebol daquele ano ia começar e um diretor do XV veio a Cuiabá para evitar que Bife defendesse o Mixto, o que impediria o atacante de ser inscrito na Federação Paulista de Futebol para jogar pelo time piracicabano. Não registrar Bife na FMF era parte do acordo do empréstimo, por tempo indeterminado, entre os dois clubes e cujo cumprimento o XV exigia, enquanto a pendência do “cheque voador” – aquele que vai e volta às mãos de quem o deu – não fosse resolvida...

Sobre o pagamento dos Cr$ 50 milhões, Lino Miranda enrolou mais uma vez o XV de Novembro, mas garantiu ao dirigente que estava em Cuiabá que seu clube não ia registrar Bife. O Mixto ia jogar em Rondonópolis contra o União e na hora do embarque do time lá estava na sede do alvinegro o diretor do clube paulista para comprovar que Bife não estava na delegação.

A delegação do Mixto partiu e o diretor do XV também. Mas o ônibus do alvinegro fez uma parada na Avenida Fernando Correa da Costa, nas imediações do Café Brasileiro, para que Bife saísse do porta-malas do carro de Lino Miranda e se juntasse a delegação. Não só viajou como jogou. Sem o atestado liberatório de Bife, que o Mixto nunca entregou ao XV de Novembro, o clube de Piracicaba não tinha como registrar o seu jogador na FPF...

O radialista Antero Paes de Barros, que à época era diretor do Mixto, acha que a propalada fuga de Bife no porta-malas do carro é simplesmente uma lenda. Como os outros personagens de Mato Grosso nessa história – Lino Miranda e Bife – já subiram para o andar superior...   

Quanto ao cheque de Cr$ 50 milhões, até hoje, decorridos 40 anos, não se tem notícias se foi quitado e resgatado...        

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Locutor esportivo esqueceu os óculos em casa e narrou amistoso no Verdão pelos números das camisas dos jogadores...



Com o Verdão às moscas, Mixto e União, de Rondonópolis, iam disputar, numa noite bem fria, um amistoso como preparação para o Campeonato Mato-grossense  de Futebol, o primeiro depois da divisão do estado em 1979. O frio justificava o desaparecimento do público do Verdão, sem contar que os dois clubes ainda não tinham muitas novidades para apresentar aos seus torcedores...

Andando pelas cabines das rádios do estádio enquanto o jogo não era iniciado, um jornalista que fazia a cobertura do amistoso, foi abordado por um locutor esportivo de Rondonópolis: “Você já tem a escalação do Mixto?”...

– Tenho sim! Você quer anotar?

– Faça-me então um favor: anote a escalação neste papel, em letras de forma, bem grandes, para facilitar meu trabalho...

O jornalista estranhou o pedido, mas atendeu o colega de imprensa...

– Sabe o que aconteceu? – perguntou o radialista.

– Na pressa para nossa viagem para transmitir essa merda de jogo, esqueci meus óculos em casa...

– E a escalação do União, você não quer? – perguntou-lhe o jornalista.

– Do União, não preciso. Conheço todos jogadores e como o número das camisas nas costas é bem grande, não vou ter dificuldades para identificá-los. Nem os do Mixto...

– E se o técnico Milton Buzetto – era sua segunda passagem pelo alvinegro, depois do sucesso no Campeonato Nacional de 1976 – decidir fazer alterações no Mixto no decorrer do jogo como é que você vai fazer? – questionou o jornalista.

– Simples: eu não falo nas substituições... os ouvintes  de Rondonópolis não vão ver o jogo e os poucos torcedores de lá que vieram pra cá estão sem radinhos. Meu medo é faltar luz no Verdão...

Parece que o radialista estava adivinhando: naquela noite, a Cemat (... “de raiva...”, como diziam os consumidores inconformados e revoltados com os frequentes apagões...) “caprichou” nos sucessivos cortes de energia elétrica na região do Verdão e boa parte do amistoso foi disputado quase à meia luz...

Como o radialista se virou, sem os óculos e com os seguidos cortes de energia elétrica no Verdão, o jornalista não ficou sabendo...                   

terça-feira, 14 de maio de 2019

Olho gordo de empresário acabou com a carreira de Bogé no Corinthians Paulista



Indicado por “olheiros” do clube e que o viam brilhar defendendo o Flamenguinho, de Guarulhos-SP, o zagueiro Bogé, que fez sucesso no futebol de Mato Grosso, jogando nos dois Operários de Várzea Grande, Mixto, Luverdense e Cuiabá, foi parar no Corinthians Paulista em 2001. Estava indo muito bem. Mas aí um empresário carioca de nome Moreno, de “olho gordo” no futuro do jogador, convenceu Bogé ou Natanael  Pedro Arcanjo, hoje com 36 anos, a falsificar sua certidão de nascimento, diminuindo sua idade em dois anos, para passar pelas divisões de base do alvinegro, como é praxe nos clubes grandes.

Foi a grande besteira que cometeu na vida. Já bem conhecido no Parque São Jorge, Bogé caiu em desgraça perante a alvinegra. Enquanto o Corinthians providenciava seu desligamento, o motivo que levou o clube a dispensá-lo espalhou-se rapidamente entre a torcida. E por onde Bogé passava, tinha que ouvir a voz característica do gato “miau”, “miau”, “miau”... uma alusão dos torcedores ao animal que é considerado um grande ladrão, principalmente de alimentos...

Na carreira de jogador profissional, Bogé viveu dias difíceis quando foi defender o Colorado Atlético Clube, da cidade do mesmo nome, no norte do Paraná. Fundado em 1998, o CAC, cujo primeiro nome foi Associação Atlética Cintos Mima disputou a 3ª Divisão do Campeonato Paranaense e subiu para a 2ª Divisão em 2000, mas não passou daí.

Recorda Bogé que foram duros seis meses de alimentação da mais baixa qualidade no alojamento onde moravam os jogadores solteiros. O cardápio não mudava nunca: era arroz com salsicha ou ovo frito, também chamado de “zoião”. Bogé se lembra que certo dia, os jogadores viram que o sitiante que abastecia a cozinha do clube estava chegando no seu velho tratorzinho. Correram ao seu encontro para lhe dizer que devia fazer a entrega mais adiante e não ali, mas ele não quis conversa com a rapaziada e foi descarregando tudo, principalmente salsicha e ovo...

Certa feita o CAC foi jogar um amistoso contra o Grêmio Esportivo Maringá, em Maringá. Por questão de economia, os jogadores não jantaram em Maringá e retornaram a Colorado, com o estômago da boleirada roncando de fome. Quando chegaram a “república”, foram diretos para cozinha e encontraram uma panelada de salsicha. Mas com um probleminha: quem preparou “salsichada” foi embora, sem tampar a panela...

Era evidente que moscas, inclusive varejeiras, tinham assentado sobre as salsichas. Mas com a fome que estava Bogé tirou a parte atacada pelos insetos e mandou ver. Outros jogadores foram se aproximando da panela e sem outra opção para matar a fome, atacaram firme a “salsichada”. Em questão de minutos, devoraram tudo, não sobrando nem um pedacinho de salsicha para contar a história das outras...

Além dos clubes de Mato Grosso e do Colorado – não confundir com o Colorado, de Curitiba – Bogé jogou também no Operário, de Campo Grande-MS e no Clube de Regatas Brasil (CRB) de Maceió. Em um domingo de 2014, o CRB ia jogar pelo Campeonato Alagoano. Como não estavam concentrados, Bogé decidiu aproveitar a folga da manhã para dar uma voltinha numa das praias de Maceió, com um amigo. Conversa vai, conversa vem, e o tempo passando...

Quando Bogé se deu conta, já estava quase na hora do jogo começar. Ele comprou um par de óculos de lentes claras e se mandou para o estádio. Quando entrou no vestiário, bem mamado, foi a maior zoeira dos jogadores e até alguns diretores  pra cima dele. No início da semana, o diretor do CRB Marcos Barbosa comprou um par de óculos escuros e deu de presente a Bogé para pelo menos ele disfarçar quando chegasse ao vestiário de farol baixo para jogar...      

   



domingo, 5 de maio de 2019

Pelé retribuía com o pagamento do bicho integral para Almiro mentir que Coutinho era ele...


Um detalhe que pouca gente conhece sobre a passagem do cuiabano Almiro pelo Santos, no qual chegou em 1967: nas excursões que o então todo poderoso Santos FC realizava pelo mundo afora – inclusive recebendo quotas mais altas do que a própria Seleção Brasileira –, Pelé pagava para a grande revelação do Mixto EC mentir que Coutinho era ele e, dessa forma, livrar-se do assédio dos fãs, principalmente em países como Bélgica, Suécia e Suiça, onde jogadores da pele negra faziam grande sucesso, notadamente entre as mulheres.

Para compensar suas mentiras, Pelé dava um jeito de Almiro, seu eventual substituto,   entrar em campo, muitas vezes no seu próprio lugar, para garantir-lhe o pagamento o “bicho” integral. E quando Pelé decidia que um jogador devia ser substituído – às vezes, ele próprio – não existia treinador suficientemente peitudo ou burro para contrariá-lo...

Poliglota, Almiro não tinha qualquer problema para se comunicar com os torcedores para dizer que Coutinho era Pelé. E muitos torcedores, inclusive de países africanos, acreditavam, assediando Coutinho, enquanto Pelé saía de fininho das confusões em que o centroavante santista, recentemente falecido, envolvia-se com a torcida. Um verdadeiro intelectual, fato raro naqueles tempos no futebol, além do português, Almiro falava inglês, francês, castelhano...

 Apesar de ser o substituto de Pelé, Almiro teve uma passagem rápida pelo Santos. Em 1969, o Santos veio a Cuiabá participar de torneio alusivo aos 250 anos da capital mato-grossense, no Velho Dutrinha, com a participação também do América-RJ, Dom Bosco e Mixto. Pelé e Almiro, ambos contundidos, não vieram. Mas, apesar de sua ausência, a família de Almiro, decidiu homenagear o Santos, oferecendo aos jogadores alvinegros uma churrascada caseira.

Apenas alguns jogadores, entre eles, Clodoaldo, Geraldino, Mané Maria, Negreiros e Lima, compareceram a churrascada. Na animada conversa, regada a muita cerveja, Pelezinho, já falecido também, irmão e Almiro, comentou que seu mano havia lhe dito, numa das vindas a Cuiabá, no Santos só dava ele e Pelé... o resto era japonês, isto é,  não manjava nada de bola! Tempos depois, Almiro, hoje vivendo na Bahia e completamente cego, estava fora do Santos...

Comentou-se à época que a saída de Almiro do Santos tinha tudo a ver com o comentário feito pelo seu irmãozinho Pelezinho sobre o clube praiano. Mas não foi nada disso. Na realidade, foi o próprio Pelé que aconselhou Almiro a sair do alvinegro para alçar voos mais altos. Justificativa de Pelé, com a bola que ele jogava, como grande estrela do Santos e do futebol mundial, Almiro não tinha a menor chance de se projetar no futebol.     

Seguindo o conselho do amigo, Almiro transferiu-se para ao Vitória, da Bahia. Logo depois, o Vitória enfrentou o Santos pelo Campeonato Brasileiro. O time baiano ganhou o jogo por 1x0, gol de Almiro. Além de ter marcado o gol da vitória, Almiro deu um show de bola, acabando com o alvinegro da Vila Belmiro. Terminado o jogo, Pelé foi reclamar com Mug, apelido pelo qual passou a ser conhecido quando ganhou do cantor Wilson Simonal um daqueles bonecos negros, que se tornaram muito populares entre os brasileiros na década de 1960.

– Pô, Mug, no Santos você não fazia isso!... – queixou-se Pelé, referindo-se à extraordinária exibição jogador do Vitória e que depois foi para o futebol europeu, fazendo grande sucesso, principalmente no Vitória de Guimarães, de Portugal.

– Fazer como, se você não me deixava jogar!... – foi a resposta de Mug a Pelé.

sábado, 27 de abril de 2019

Avião que levou delegação do Mixto estava com sono e teve que dormir em Porto Velho...


Em 1964, o Mixto foi realizar uma série de 4 amistosos em Porto Velho, capital de Rondônia, que ainda era o território federal do Guaporé, e transformado em estado em dezembro de 1981, com o nome atual. Foram 4 jogos em uma semana. A viagem de ida foi feita num velho e lento DC-3 da Viação Aérea São Paulo – Vasp, já extinta, mas que era a “bam-bam” da época no mercado aéreo.

A míni-excursão foi um sucesso do ponto de vista técnico, com o Mixto vencendo os 4 jogos: goleou o Moto Clube, na estreia por 7x1, em seguida derrotou o Flamengo pela contagem mínima, aplicou uma goleada por 5x2 no Ferroviário e encerrou a campanha o superando Ipiranga, campeão de Porto Velho, pelo placar de 2x0.

Encerrado o último jogo, um grupo de dirigentes dos quatro clubes derrotados pelo alvinegro, procurou a chefia da delegação do Mixto para propor a realização de um novo amistoso do clube cuiabano contra uma seleção formada pelos 4 times. Os portovelhenses ofereciam uma quota financeira 4 vezes maior do que a que o Mixto tinha recebido, mas o chefe da delegação, Ranulpho Paes de Barros, fez de conta que não tinha ouvido a proposta...

Apesar de 90% da numerosa delegação mixtense nunca ter pisado em um avião, a viagem transcorreu sem problemas. Antes da decolagem da aeronave, alguns jogadores não conseguiam dissimular o nervosismo, mas aos poucos foram se descontraindo e se acostumando com o que consideravam uma aventura, até porque não tinham mesmo outras opções no ar...

Para facilitar a vida dos mato-grossenses, o adversário do Mixto arrumou um hotel que ficava nas imediações do aeroporto para alojar a delegação alvinegra. Enquanto o pessoal se movimentava, ocupando as acomodações reservadas ao alvinegro, alguém da delegação mixtense perguntou se era mesmo naquele hotel que iam ficar...

Aí o ponteiro direito Catarino, irmão do já falecido professor de Educação Física Natanael Henrique de Moraes, o Nato, que se tornou uma figura muito popular em Mato Grosso, pela sua dedicação ao esporte, caiu na besteira de perguntar, inocentemente, se o avião que havia conduzido a delegação mixtense também ia pernoitar em Porto Velho...

Deu azar. No grupinho a quem Catarino, um jogador muito sério, fez a pergunta, estava o super gago e gozador Pelezinho, que não tem nada a ver com o Pelezinho, que anos mais tarde fez muito sucesso no futebol mato-grossense e morreu em um acidente de carro em Cuiabá, quando defendia o Internacional, de Porto Alegre, não perdeu deixa e lascou: “O aaaviiiiãoãoão esesestátátátá comcomcom muuuuiiiitototo sooooononononono e vaivaivai dordordormirmirmirmir aaaaquiquiquiqui tamtamtamtambémbémbém...”

Foram só gargalhadas. Que se prolongaram durante toda a míniexcursão do Mixto para desespero do sério Catarino. Por qualquer coisinha que acontecia, sempre havia alguém para lembrar a gozação de Pelezinho em cima do sisudo Catarino, que não via a hora da delegação mixtense retornar a Cuiabá para os jogadores esquecerem do folclórico episódio do avião sonolento...                                   

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Rubens dos Santos exigiu que Upa Neguinho escrevesse uma longa frase 100 vezes para aprender a cruzar bolas para a área...


Velocista por natureza – quando serviu o Exército em Cuiabá, participou de muitas competições oficiais, correndo os 100 metros rasos, 200 metros e revezamento 4x100 – o ponteiro esquerdo Odenir, que depois virou o Upa Neguinho, chegou ao Clube Esportivo Operário Várzea-grandense com um grave defeito que incomodava o eterno e lendário dirigente tricolor Rubens dos Santos: ele não sabia cruzar a bola para a área.

Uma tarde, ao final de um coletivo no campo do bairro Ipase, onde fica hoje o estádio de beisebol da Associação Cultural Nipo-Brasileira de Cuiabá e Várzea Grande, Rubens dos Santos chamou Upa Neguinho para uma conversa em particular.  Upa Neguinho pensou que era mais uma multa que o clube ia lhe aplicar, porque com Rubens dos Santos não tinha arrego: por qualquer coisinha os jogadores eram multados para reduzir a folha de pagamentos...

Sem delongas, Rubens dos Santos ditou uma frase que Upa Neguinho teria que escrever 100 vezes em um caderno para ser apresentado depois ao presidente tricolor, que na realidade era quem dava a palavra final sobre a escalação do time: “Devo ir à linha de fundo, levantar a cabeça e cruzar a bola para trás...” A ordem não especificava se o cruzamento da bola seria rasteiro ou na base do “chuveirinho”...

Antes do coletivo começar, Upa Neguinho pediu para o meia armador Joel Diamantino “caprichar” nos lançamentos de bola para a ponta esquerda do time titular para ele fazer os cruzamentos para trás, como Rubens dos Santos queria. Joel Diamantino cumpriu a sua palavra e lançou muitas bolas para Upa Neguinho durante todo o coletivo, comandado por Batista Jaudy...

Encerrado o treino, Rubens dos Santos foi conversar com Upa Neguinho. “Você já terminou de escrever cem vezes a frase como eu lhe mandei?” – perguntou o presidente operariano.

– Na verdade, seu Rubens, ao invés de escrever a frase no caderno, eu estou cumprindo sua ordem na prática. Hoje mesmo, antes de o treino começar eu fiz no mínimo uns trinta lançamentos para a área, correndo até a linha de fundo e cruzando a bola para trás. Se o senhor duvida da minha palavra, pode perguntar para o Joel Diamantino...  justificou o jogador.    

Pura cascata. Na verdade, além dos cruzamentos que executou durante o coletivo, Upa Neguinho só fez uns quatro ou cinco lançamentos para a área, como Rubens dos Santos exigia. E como o presidente do CEOV nunca mais tocou no assunto, Upa Neguinho jamais escreveu uma palavra da frase ditada pelo dirigente operariano... 
    
                

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Faz 40 anos que um tumultuado “Clássico dos milhões” acabou na Polícia...


Neste 2019 faz 40 anos que Clube Esportivo Operário Várzea-grandense e Mixto disputaram mais um “Clássico dos milhões” e que passou para a história do futebol de Mato Grosso. Era um jogo normal do Campeonato Estadual de 1979, mas que por causa da rivalidade que sempre existiu entre os dois velhos adversários, foi transformado numa verdadeira guerra, como se fosse uma decisão de título. Como sempre, com a participação de suas fanáticas torcidas...

Para apitar o jogo, a FMF escalou o árbitro Armando Camarinha, que depois de se revelar no futebol paraense veio para Mato Grosso em 1977, trazido pelas mãos do juiz Orlando Antunes de Oliveira. Camarinha atuou em Mato Grosso durante 15 anos e depois dessa longa experiência bateu asas e foi mostrar sua categoria como árbitro de futebol em grandes centros do país, apitando jogos de campeonatos estaduais e do Campeonato Brasileiro pelo País afora.

Apesar da rivalidade, o “Clássico dos milhões” transcorria normalmente com o Operário ganhando por 1x0, até que Ruiter, uma das estrelas do tricolor várzea-grandense, resolveu tumultuar a partida. Mas se deu mal, porque Armando Camarinha, que não tinha medo de cara feia e muito menos ligava para a fama de quem entrava em campo para jogar futebol, não vacilou e mandou o ídolo operariano para os chuveiros.

Era o que Ruiter queria para fazer o circo pegar fogo. Conversa vai, conversa vem, muito bate boca, empurrões de parte a parte. Percebendo que a situação poderia se complicar mais ainda, Upa Neguinho, de forma muito educada, pegou Ruiter pelo braço e pediu para ele sair de campo. Afinal, o Operário estava ganhando o jogo e poderia manter o resultado, conquistando uma importante vitória.

Ruiter ouviu as ponderações de Upa Neguinho e ia saindo do campo, como era tradição, com o Verdão lotado. Mas por causa de sua calvície precoce, Ruiter não gostava de ser chamado de “velho”. O lateral direito do Mixto, Luiz Carlos Beleza, sabia disso e não perdeu a oportunidade para provocar Ruiter, gritando para todo mundo ouvir: “Sai logo, velho, deixa a gente jogar...!”

Pra que, xômano, o bicho pegou pra valer! Ruiter partiu furiosamente para cima de Beleza. Bem perto de Ruiter e Beleza, Upa Neguinho tentou acalmar os ânimos, ficando no meio dos dois. De costas para Beleza, o ponteiro esquerdo operariano não viu quando o mixtense desferiu um violento soco em Ruiter, que se abaixou, e Upa Neguinho recebeu em cheio o murro no olho direito.

Upa Neguinho colocou uma das mãos sobre o olho direito e quando a tirou, percebeu que não estava enxergando nada. Furioso, Upa Neguinho correu atrás de Beleza e deu-lhe um potente soco no rosto. Com a pancada, o zagueiro do Mixto desabou e ficou estendido no gramado, completamente inerte. Upa Neguinho pensou que o tinha matado, mas Beleza estava apenas desmaiado...

Aí começou uma briga com a participação de quase todos os jogadores, com o tumulto provocado inicialmente por Upa Neguinho, Beleza e Ruiter virando caso de Polícia, e que para variar, deu em nada. Com o passar do tempo, a briga envolvendo Upa Neguinho, Luiz Carlos Beleza e Ruiter foi esquecida e ninguém teve qualquer problema com a Justiça. Resultado da confusão daquele  clássico: além de Ruiter, Upa Neguinho também foi expulso de campo e ainda multado em 30% do seu salário...

Lembra Upa Neguinho, que passado quatro décadas, se fosse feita uma reprise daquele jogo, ao invés da denominação antiga, a partida poderia vir a ser o “Clássico dos finados”, com as mortes de Geraldo Malaquias, Rômulo, Bife, Felizardo, Pelezinho e Justino. O juiz do clássico, Armando Camarinha, também já subiu para o andar superior...
        



segunda-feira, 1 de abril de 2019

Rolon enrolou muita gente com a história dos reforços do Atlético para o Palmeirinhas...

Quando foi presidente do Palmeirinhas, do Porto, em 1984, o argentino Juan Rolon, deixou a fiel torcida alviverde ouriçada: divulgou na imprensa de Cuiabá com grande estardalhaço que seu clube havia contratado quatro reforços de alto nível, junto ao Atlético, para disputar o Campeonato Mato-grossense de Futebol daquele ano. Para aguçar ainda mais a curiosidade dos torcedores e da crônica esportiva, Rolon não revelou o nome completo do Atlético de onde vinham os novos jogadores: se do Atlético Mineiro, do Atlético Paranaense ou do Atlético Goianense...

O primeiro jogador a se apresentar ao novo clube foi Beirinha, que chegou ao Dutrinha, onde o Palmeirinhas realizava um treino, carregando uma surrada mala daquelas antigas de papelão, geralmente usada por mascates turcos para vender suas bugigangas pelo interior do Brasil. “Ih!... Isso aí não deve jogar bola, porra nenhuma!...” – comentaram entre si dois jovens jogadores palmeirenses que estavam no Dutrinha morrendo de curiosidade para conhecer os novos companheiros.

Depois de Beirinha, apresentaram-se ao novo clube Inhola, Boaventura e Elcides. Do quarteto aguardado com grande expectativa pelos torcedores e a crônica esportiva, apenas Boaventura mostrou que era mesmo bom de bola. Tanto é que depois de passar pelo Palmeirinhas, ele fez sucesso entre outros clubes mato-grossenses. Quanto aos outros três, não passavam de pernas de paus travestidos de jogadores de futebol.

Com o passar dos dias e a convivência com os novos companheiros, os jogadores do Palmeirinhas conseguiram desvendar o mistério da origem dos quatro reforços: eles vieram mesmo do Atlético... mas de Diamantino (208 km de Cuiabá, em linha reta, no Médio Norte) um time amador sem qualquer expressão do futebol mato-grossense. No futebol profissional, a cidade só teve uma equipe, o Esporte Clube Diamantino, que chegou a disputar o Campeonato Mato-grossense de 1999, sob o comando técnico de Mosca...

Desvendaram também os palmeirenses como Rolon “descobriu” Beirinha, Boaventura, Inhola e Elcides para o futebol: ele era garimpeiro de diamante em Diamantino e tentou transformar os boleiros amadores em craques de futebol para “faturar” uma graninha por fora de sua atividade no ramo da mineração. O Palmeirinhas, no entanto, desistiu de burilar os “diamantes” que Rolon havia descoberto em Diamantino, porque seria tempo perdido...  

quinta-feira, 21 de março de 2019

Operarianos bebiam e escondiam garrafas vazias de cerveja embaixo da mesa até Rubens dos Santos entrar no carteado...

Nos tempos do Mato Grosso indiviso e cuja separação foi consumada em 1979, no governo do engenheiro civil José Garcia Neto, quando os times da Grande Cuiabá iam disputar jogos oficiais na região sul e que com a divisão do estado virou Mato Grosso do Sul, aproveitavam para enfrentar todos os adversários, como se fosse uma mínima excursão, para não ficarem expondo seus jogadores a cansativas aventuras pela esburacada ou lamacenta BR-163, pois nem sempre viagens eram de avião.

Numa dessas viagens, o Clube Esportivo Operário Várzea-grandense disputou três partidas. O primeiro jogo foi contra o Douradense, de Dourados, e vencido pelo tricolor. Logo depois, o clube várzea-grandense viajou para Campo Grande para jogar contra o Operário e em seguida contra a Sociedade Esportiva Industriária (SEI). O tricolor repetiu a boa exibição contra o Douradense e venceu também o Operário. Só faltava a SEI – e vencer!... – para coroar a mini temporada...

No hotel onde o Operário ficou hospedado em Campo Grande, as ordens, partidas de Rubens dos Santos, o chefe da delegação, eram severas: ninguém podia sair da concentração. Bebida alcoólica, então, nem em pensamento... pelo menos é o que Rubens dos Santos acreditava.

Na véspera do jogo com a SEI, um grupo de operarianos, entre os quais Paulinho, Malaquias, Bife, Justino e Tucho, decidiram matar o tempo, jogando baralho. O carteado seguia animado, quando de repente apareceu, onde o grupo se divertia, o temido Rubens dos Santos, que era louco por um joguinho de baralho. Tanto é que o radialista Ivo de Almeida só o chamava de Rubens Baralhocat.

O presidente elogiou a turma pela iniciativa de passar o tempo com um joguinho de cartas e mesmo sem ser convidado tratou logo de ajeitar uma cadeira para participar da jogatina. Os jogadores olharam uns para os outros, desconfiados, pois sabiam que vinha encrenca da grossa para o lado deles...

Rubens dos Santos percebeu a reação dos jogadores e perguntou o que estava acontecendo. Malaquias antecipou-se aos companheiros e respondeu: “Não está acontecendo nada seu Rubens. Vamos jogar!...”

Logo que se sentou, Rubens dos Santos resolveu dar uma esticada nas pernas e aí aconteceu a desgraça que todos temiam: foram garrafas vazias de cerveja que rolaram para tudo quanto é lado debaixo da mesa, onde estavam sendo escondidas depois de consumidas. E não eram poucas, não!...

– Ah, é, né? Bebendo, né!... – disse Rubens dos Santos, ao mesmo tempo em que anunciava que todos da rodinha de carteado estavam multados...

Bife tentou livrar a cara de todo mundo, dizendo: “Mas, seu Rubens, só vamos ter jogo amanhã!...”

– Não me interessa... – retrucou o presidente tricolor, com cara de poucos amigos.   

A SEI também não resistiu ao futebol brilhante do Operário e perdeu o jogo por 1x0.

Com a vitória, Rubens dos Santos reconsiderou a decisão de multar o grupinho do carteado, mas deixou claro que da próxima vez não ia ter perdão...

quinta-feira, 14 de março de 2019

Jogadores do Palmeirinhas inventaram esfarrapadas desculpas para tomar cerveja no Dutrinha e facilitar a classificação do Barra do Garças


    

Com o Dutrinha lotado, principalmente por torcedores dos bairros do Porto e Dom Aquino, fortes redutos do alviverde, o Palmeirinhas ia jogar com o Barra do Garças FC, pelo Campeonato Mato-grossense de Futebol de 1984 ou 1985. Um jogo de vida ou morte para o time do interior, pois, se vencesse, garantiria uma vaga para a semifinal do quarteto que ia decidir o título da disputada  temporada oficial da FMF.

Na hora determinada, os jogadores do Palmeirinhas foram chegando ao estádio e se dirigindo para o acanhado vestiário do clube. Quando o técnico alviverde Pereira entrou no vestiário, já com o time na cabeça, para distribuir as  camisas, notou que quatro ou cinco jogadores da equipe que ia entrar em campo e cujos nomes não vem ao caso, não haviam chegado ainda ao estádio.  Esperou um pouco mais e nada!...

– Cadê o fulano?

– Amanheceu com uma terrível dor de cabeça e não vai poder jogar alguém respondeu...

– E o beltrano?

– Está no velório de um tio... – responderam.

– E o sicrano, alguém tem notícia dele?

– Foi ficar com a mãe no hospital onde ela está internada, muito doente!...

Pereira percebeu que naquele angu tinha caroço do grande e não perguntou mais nada. E tratou de mandar para o campo o melhor que pôde fazer, improvisando jogadores que nem vinham atuando, em diversas posições...

Para surpresa geral da torcida, o Palmeirinhas foi envolvendo o Barra do Garças e inclusive abriu o placar.

Curiosamente, logo depois do início do jogo os titulares que não entraram em campo, pelos mais diversos motivos, passaram a ser identificados entre os torcedores nas arquibancadas, tomando cervejas uma atrás da outra...

Foi aí que o treinador Pereira, e muitos torcedores do alviverde, caíram na real! O pessoal devia estar tomando cervejas com dinheiro do Barra do Garças, evidentemente... 

Com o time improvisado à última hora, o Palmeirinhas foi sendo dominado e o adversário virou o placar para 2x1 ou 3x1, garantindo a classificação para  semifinal do campeonato – recorda um veterano participante do jogo e cujo nome também não vem ao caso...

segunda-feira, 4 de março de 2019

Jogadores do Comercial arrancavam guanxuma, picão, carrapicho, pé-de-galinha para receberem dinheiro da prefeitura...


Nazinho, o primeiro agachado da esquerda para
 a direita. O Comercial de 1978
Fundado em 3/5/1967, na primeira administração do empresário Manoel Gomes de Arruda, o Neco Falcão (1967-1970) – que voltou a ser prefeito de Poconé entre 1973 e 1977 – e que virou nome do estádio da cidade, o Comercial Esporte Clube teve algum destaque no futebol profissional de Mato Grosso durante um curto período de três ou quatro anos, entre 1972 e 1975.

Um dos poucos remanescentes do extinto Comercial e ainda em atividade, o veterano Nazinho lembra que foi na administração do prefeito Arlindo de Morais que o futebol profissional de Poconé conseguiu se destacar no cenário estadual, com a participação do clube nos campeonatos oficiais da FMF no limiar da década de 1970. E onde entra a política na vida do velho Comercial?

Foi uma manobra política: sem poder investir recursos do município no futebol, o prefeito Morais contratava jogadores profissionais e os colocava para trabalhar nos campos de futebol da cidade, em atividades como arrancar guanxuma, carrapicho, picão, pé-de-galinha, caruru e outras pragas daninhas. A justificativa para pagamento dos profissionais da bola pela prestação de serviços que qualquer pessoa poderia executar é que o futebol amador da cidade era muito forte e precisava de bons campos...

Hoje com 66 anos de idade, Nazinho sempre esteve ligado ao futebol da cidade. Há muitos anos, seu pai, J. Costa comprou um terreno em uma área verde da cidade e que virou um campo de futebol, onde ao longo dos anos muitos craques consagrados como Bife, Fidélis, Ruiter, Nelson Vasques, César Tucano, Bicaral, Veludo, Saldanha e tantos outros exibiram sua arte, participando de monumentais “peladas” nos finais de semana.


É nesse campo, que Nazinho e sua mulher, Morena, mantém faz muito tempo uma escolinha de futebol que funcionando em dois períodos, as terças-feiras, e quintas e sábados, chega a receber nesses dias da semana até 100 meninos, dos quatro aos 18 anos de idade. Embora pessoas simples, o casal Nazinho-Morena trabalha muito o lado psicológico das crianças e jovens da escolinha e se orgulham que vários meninos que passaram pelas suas mãos viraram médicos, advogados, dentistas e outros profissionais liberais. A escolinha faz parte do programa municipal “Bom de bola, melhor na escola”, criado no início da década de 1970.

O pai de Nazinho, J. Costa, foi, há muitos anos, jogador do Valoroso FC, um dos pioneiros do futebol de Poconé, junto com o Destemido. Faz muito tempo, o Valoroso foi jogar com o Cacerense em Cáceres e sofreu uma goleada de perder o rumo. Aproveitando a viagem, o time passou por Cuiabá para jogar com o Mixto. Do jeito que saíram de campo em Cáceres, os jogadores seguiram para Cuiabá para não correrem o risco de tirar as camisas e perderem a posição no time. Naqueles velhos tempos, os times eram de 11 camisas mesmo!...

Recorda Nazinho que antes de enfrentar o Mixto, os jogadores do Valoroso tiveram um dia de folga. E foram passear pelo centro de Cuiabá. Muitos jogadores não conheciam manequins e alguns deles foram flagrados estendendo as mãos para cumprimentá-los e até tentando puxar conversa com as estátuas, inclusive perguntando sobre preços das mercadorias expostas nas vitrines.

Quanto ao jogo com o Mixto, o Valoroso levou outra tunda daquelas e só não perdeu o caminho de volta porque o motorista do velho caminhão GMC, contratado para conduzir a delegação na rápida excursão, conhecia muito bem a estrada entre Cuiabá e Poconé...            


     

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Com o tanque do carro seco, Equipe 1.300 teve que fazer longa caminhada pela 163 para chegar a Cuiabá


Lá se foi a Equipe 1.300 da Rádio Cultura de Cuiabá para Rondonópolis a fim de transmitir mais um jogo do Campeonato Mato-grossense de Futebol da 1ª Divisão de 89 ou 90. No comando do grupo, que lotou uma caminhonete, o  deputado estadual  Roberto França, que era dono da Equipe 1.300 e o principal comentarista esportivo das emissora.

Viagem normal para Rondonópolis e transmissão sem qualquer tumulto, um fato raro, pois a torcida rondonopolitana sempre causou problemas para adversários, árbitros e até o pessoal da imprensa. Como se o pessoal da crônica esportiva tivesse culpa pelos fracassos do União em seus domínios...

Se a viagem de ida transcorreu tranquila, como recorda Orlando Antunes de Oliveira, integrante da 1.300, a volta foi cruel. Lá pelas 2 horas da madrugada de segunda-feira, com a equipe quase chegando já em Cuiabá, de repente a caminhonete parou. Mas não foi uma falha mecânica, não! Simplesmente, o veículo estava sem combustível!

Zangado, como de costume, Roberto França questionou o motorista, que não conseguia explicar como a caminhonete estava sem combustível. Como a pequena caravana da Cultura já estava próxima do Distrito Industrial de Cuiabá, o jeito foi ficar às margens da BR-163, pedindo carona.  Mas àquela hora, dificilmente alguém ia parar para dar carona àquele bando de homens...

Só restava uma alternativa: pegar a estrada e caminhar ainda uns bons quilômetros até chegar ao Distrito Industrial. O motorista da caminhonete, levando bronca o tempo todo durante a penosa caminhada, principalmente de Roberto França – que já naqueles tempos era bem gordinho... – carregava um galão na vã esperança de encontrar um posto de combustíveis aberto a fim de abastecer o veículo...

Quando a Equipe 1.300 já estava chegando ao antigo posto da Polícia Rodoviária Federal, passou um ônibus que tinha saído de Campo Grande com destino a Cuiabá, parou e deu uma carona para o pessoal. Pior para o motorista, que desceu no primeiro posto de combustíveis para encher o galão e reiniciar a caminhada de volta para abastecer a caminhonete para completar a viagem...    

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Por não ter ficado nem na reserva, jogador do Santa Cruz tentou rasgar a bola do jogo com um facão


Toda vez que ia disputar um amistoso contra times de Cuiabá, Várzea Grande, Nossa Senhora do Livramento e outras cidades da região, geralmente aos domingos ou em datas festivas de Poconé, o Santa Cruz Futebol Clube realizava uma reunião com seus jogadores e colaboradores para tratar de detalhes da programação do jogo e que chamavam de pré-preleção, pois era tradição nos velhos tempos do futebol amador poconeano o time anfitrião receber os visitantes com muita cordialidade.

Na realidade, a pré-preleção do Santa Cruz nada mais era do que uma forma de arrecadar dinheiro entre seus jogadores e admiradores a fim de pagar o caminhão para buscar e levar de volta depois o adversário, além de bancar o almoço da rapaziada visitante. É que com a precariedade das estradas de Mato Grosso lá pelas décadas de 1970/1980, o time que ia jogar fora tinha que sair cedo para não correr o risco, principalmente no período chuvoso, do caminhão ficar atolado nos barreiros...

Uma pessoa que se destacava nesse trabalho extra-campo do Santa Cruz era seu Chiquinho Queiroz, uma espécie de cozinheiro oficial do clube e em cuja casa funcionava também a sede da agremiação, que era também o encarregado de arrecadar dinheiro e os alimentos para ser preparado o almoço do time de fora. Seu Queiroz não brincava em serviço na hora de pegar a bufunfa do pessoal. Esse negócio do sujeito dizer que ia entrar com o berro da “vaquinha” com ele não funcionava não!...

Um dos colaboradores de primeira hora do Santa Cruz, sempre foi o lateral esquerdo Camilo, que mesmo não sendo titular do time, não poupava na hora de enfiar a mão no bolso para fazer a “vaquinha”. Um dia, porém, em um desses amistosos, Camilo chegou para o jogo, trocando as pernas, completamente “mamado”. Por uma questão de prudência, alguns defensores do Santa Cruz,  foram pedir para a comissão técnica, integrada também por alguns jogadores mais experienbtes, não escalar Camilo e nem deixá-lo na reserva naquele dia...

Rapidinho, Camilo ficou sabendo que nem na reserva ia ficar. E não gostou nada do que estava ouvindo. E não ficou mesmo. A certa altura do jogo, porém,  Camilo, inconformado com a discriminação, pegou um facão e começou a correr por todo o campo do Santa Cruz, que não tinha alambrado, com a intenção de furar a bola. Mas com a colaboração dos torcedores, que não deixavam Camilo consumar sua vingança, o jogo chegou ao fim com a bola cheia e a torcida dando gostosas gargalhadas com as suas trapalhadas...  
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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Time só de parentes do quilombo que deu origem ao Cristo Rei massacrou o Santa Cruz em Poconé

O Santa Cruz levou uma goleada histórica no jogo contra o time de Capão do Negro
Em 1980, o Santa Cruz ia disputar um amistoso contra o Primos e Irmãos Futebol Clube, do Capão do Negro, antigo quilombo que deu origem ao hoje distrito do Cristo Rei, em Várzea Grande, e famoso não apenas por ser um time muito bom de bola, mas também pelo fato, de, como o próprio nome indica, ser integrado exclusivamente por parentes, da cor negra. Em razão do interesse que a partida despertava entre a torcida de Poconé, o Santa Cruz decidiu que o jogo seria no Estádio Neco Falcão e não em seu campo. 

Estava passando da hora do jogo entre os aspirantes começar e nada do Primos e Irmãos FC aparecer, o que causava estranheza, porque, conforme o que estava combinado, o adversário chegaria cedo em Poconé, com tempo suficiente para a moçada almoçar e descansar da longa viagem de mais de mais de 100 quilômetros entre as duas cidades, por uma estrada – hoje a MT-060 – muito esburacada na seca e mais lisa do que bagre ensaboado no período de chuvas... 

Finalmente, o time várzea-grandense chegou a Poconé. Só que em vez de desembarcar de um ônibus da empresa Nova Era ou da Estrela Dalva, que nos velhos tempos exploravam o transporte coletivo urbano em Cuiabá e Várzea Grande, o Primos e Irmãos FC chegou num velho caminhão, o que deixou a torcida meio cabreira. “Essa negadinha só veio aqui pra comer, ninguém tem cara de jogador de bola...” – esse o comentário que circulava entre torcedores mais pessimistas que viram o famoso time várzea-grandense descer da incômoda condução. 

Em virtude do atraso na chegada, dirigentes dos dois times combinaram que o jogo entre dos “cascudos” começaria em seguida para não atrasar muito a partida principal. Mas a decisão acabava com qualquer possibilidade do time visitante almoçar, com o rega-bofe ficando para depois do jogo. Mesmo com os "cascudos" várzea-grandenses jogando com o estômago roncando de fome, o time do Primos e Irmãos FC deu uma surra no aspirante do Santa Cruz que faltou gente pra ver – lembra Joadilson, jogador da equipe da casa e hoje policial civil em Poconé.

Mas o pior estava por vir ainda... 

Iniciado o jogo principal, o Primos e Irmãos FC mostrou dentro de campo porque era tão famoso, dando um show de bola no adversário. Embora integrado por jogadores de alto nível técnico como Manica, Tica, Moura, Otávio, Ismael, Capeta, Aurelinho, Simão, Cecílio, Macarrão, Joadilson, Joãozinho, Leodir e tantos outros, o Santa Cruz foi impiedosamente massacrado pelo adversário. Durante todo o jogo, o time de Poconé não viu a cor da bola – como se diz no jargão esportivo. E o placar disparou a favor dos visitantes. 

– Eu não me lembro do placar. Mas, a exemplo do que aconteceu na preliminar entre os aspirantes, perdemos feio. Foi uma ensacada mesmo, que ficou na história do Santa Cruz! – recorda Joadilson... 

Um torcedor da velha guarda do Santa Cruz lembra que os jogadores do time poconeano que mais pegaram na bola nesse amistoso foram o goleiro e o centro-avante – o primeiro para apanhar a “gorduchinha “ no fundo do seu gol para mandar para o meio de campo e o segundo para dar nova saída...



segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Apesar das ameaças e até agressões, o pequeno Euclides passou parte da vida apitando futebol e futsal

Euclides não tinha medo de
cara feia (Arq. pessoal)
Dos seus 65 anos de idade, completados em 2018, o pequeno (1,63m de altura e 60 quilos de peso), mas corajoso Ari Euclides Pereira, passou mais de 24 deles apitando futebol profissional e futebol de salão em Mato Grosso, numa brilhante carreira que começou em 1975 e foi encerrada em 2000. Claro que ao longo dessa caminhada pelo mundo da bola, Ari Euclides enfrentou muita barra pesada, como pressão de jogadores e dirigentes, ameaças e até agressões.

Mas, apesar de seu físico de jogador de sinuca, Euclides nunca se intimidou diante dos grandalhões desses dois esportes nos estádios e nas quadras. E quem ousou desafiar sua autoridade, pensando que ia encontrar moleza, acabou ajustando contas com os Tribunais de Justiça Desportiva das federações de futebol e de futebol de salão, além de passar pela vergonha da expulsão... 
– Antigamente, com a rivalidade que existia entre os clubes e o fanatismo dos torcedores era muito difícil apitar futebol profissional em Mato Grosso. Principalmente nos estádios Zeca Costa, em Barra do Garças e Luthero Lopes, em Rondonópolis, onde dirigentes e torcedores do Barra do Garças e do União faziam o diabo para seus times ganharem seus jogos – afirma Ari Euclides.

Sem contar que nos bons tempos do futebol de Mato Grosso, cujo declínio começou no final da década de 1980, existiam muitos jogadores malandros e catimbeiros, que não vacilavam em criar situações difíceis para juízes e bandeirinhas para tirar algum tipo de vantagem para seus clubes. Particularmente se estivessem perdendo. E por causa da pressão também da torcida, juízes e bandeirinhas acabavam pagando o pato. E como pagavam!...

Lembra Ari Euclides que há muitos anos passou pelo União, de Rondonópolis,  um zagueiro de nome Amarildo, que se aproveitando do seu físico avantajado, batia sem dó, nem piedade nos atacantes adversários e era também mestre em pressionar juízes e bandeirinhas.

Certa vez, Ari Euclides apitava um jogo entre o União e o Barra do Garças no Luthero Lopes. E logo aos três minutos deu um cartão amarelo para Amarildo. O jogador reclamou, mas sem apelar contra o juiz, como era seu costume. Veio o segundo tempo e antes dos 30 minutos, o jogador do colorado cometeu outra falta violenta e foi expulso de campo.

Foi uma expulsão estratégica – admite Ari Euclides  pois ele estava próximo de um grupo de policiais militares e não corria qualquer risco. E à medida que Amarildo caminhava em sua direção, ele ia se afastando de costas até ficar pertinho dos policiais.

– O senhor foi muito corajoso em me expulsar de campo – disse Amarildo a Ari Euclides. E foi embora para o vestiário...

Encerrado o jogo, de repente Ari Euclides, ainda no campo, viu o grandalhão Amarildo caminhando em sua direção. Ele pensou no pior, mas ficou firme, conversando com seus companheiros de arbitragem. Amarildo se aproximou, estendeu-lhe a mão e disse ao juiz: “Eu vim somente cumprimentá-lo pela sua coragem de me expulsar de campo. Uma coragem que esses cagões da Federação não tiveram até hoje...”

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Ivo de Almeida se inspirou em música de protesto contra a ditadura para criar o apelido de Upa Neguinho...


Upa Neguinho, o Odenir. (Arquivo pessoal)
Uma música de protesto composta por Edu Lobo e Gianfracesco Guarnieri e interpretada por Elis Regina, em 1968, naqueles tempos de arrocho da ditadura militar no Brasil, deu origem ao apelido de Upa Neguinho, um dos mitos do Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, time que ele defendeu por mais de uma década, jogando ao lado de craques consagrados que marcaram época no futebol mato-grossense como Bife, Mão-de-Onça, Ruiter, Dirceu Batista, Gilson Lira...

E quem transformou o cidadão Odenir Moreira do Nascimento em Upa Neguinho foi o radialista Ivo de Almeida, o mais polêmico e respeitado locutor esportivo que Mato Grosso já conheceu. Acontece que quando Odenir veio para o tricolor em 1968, um ano após a profissionalização do futebol mato-grossense, estava em voga a música “Upa Neguinho” e cuja letra tinha muito a ver com os protestos contra o regime militar, pois falava de apanhar, ziguezira, desgraça, liberdade... 

Exímio driblador, Odenir, que ainda menino passou a defender o time do colégio dos padres, de Alto Araguaia, onde estudava no período vespertino, começou, inspirado numa finta que viu em um jogo do Araguaia Esporte Clube – ele não se lembra contra quem – a aperfeiçoar as pedaladas que anos mais tarde consagraram Robinho, do Santos e da Seleção Brasileira, como o “inventor” da jogada...

Odenir aplicava com tanta perfeição as pedaladas que o padre e professor  alemão Éric passou um tempão tentando aprender, com ele, a arte de fazer a jogada. Mas não deu certo. “Eu dava as pedaladas com a perna direita e saía do adversário pelo lado esquerdo... o que o padre não conseguia fazer, porque não era canhoteiro...” – lembra Odenir.

A atitude de Odenir, que batia com as duas mãos com indisfarçável raiva e força no gramado toda vez que sofria uma falta mais violenta, já defendendo o Operário Várzea-grandense como profissional, pode ter sido o motivo de Ivo de Almeida associar sua reação com a música “Upa Neguinho”. Um trechinho da música interpretada por Elis Regina: “Upa neguinho na estrada/ Upa pra lá e pra cá/ Vixi que coisa mais linda/ Upa neguinho começando a andar...”

Como o que tudo que Ivo de Almeida lançava ou inventava virava moda, ele passou a chamar Odenir de Upa Neguinho. O apelido foi se consolidando e que nunca mais Odenir se livrou dele. Até na comunidade rural onde atualmente passa a maior parte de seu tempo, em Santo Antonio de Leverger, ninguém sabe quem é Odenir, pois os moradores só conhecem o Upa Neguinho...

Enquanto defendia o time do colégio dos padres de Alto Araguaia, onde deu os primeiros passos no futebol, foi fundado o “Panterinha”, formado por jogadores jovens. O “Panterinha” era uma espécie de segundo time, também chamado de “cascudo”, do AEC, que era conhecido como o “Pantera do Leste”, por ser um grande time de futebol. E muito cedo, Odenir começou a se destacar no “Panterinha”, inclusive participando dos treinos do time principal.

De sua passagem pelo clube que o revelou para o futebol, Odenir lembra-se de algumas coisas curiosas e folclóricas. Uma delas: uma vez ele foi chamado pelo treinador para substituir o ponteiro esquerdo Joãozinho Pororoca em um jogo. E teve uma atuação tão destacada, coroada com a marcação de um gol, que nunca mais saiu do time. Ganhou a posição, mas perdeu a amizade de Pororoca, que nunca mais falou com ele...

Coletivo do AEC para mais um jogo importante no domingo: Odenir deu um drible tão desconcertante no seu marcador, o lateral direito Sílvio Maia, que o zagueiro, muito revoltado, deu-lhe um violento pontapé. Odenir reclamou da atitude de Sílvio Maia, que lhe disse na bucha: “Olha, aqui, moleque, você me respeita! Eu sou titular do time há muitos anos e não vou aceitar essas ofensas de quem chegou agora, entendeu?...”

Muito organizado, o AEC tinha uma academia, onde o pessoal treinava inclusive boxe. Um dia, o professor Hugo sugeriu que Upa Neguinho lutasse contra um adversário de nome Fernando. Ele topou a parada e ganhou o combate. E aí, incentivado, pelo próprio Hugo, decidiu enfrentar Miltinho, que o marcava nos treinos do AEC e era driblado de tudo quanto era jeito. Levou uma surra que faltou gente pra ver. Ao final do combate, Miltinho lhe disse: “Estou aliviado e completamente vingado da raiva que você me faz passar nos treinos...”

Além do AEC, onde despontou para o futebol em 1967, Upa Neguinho teve rápidas passagens pelo Guarani, de Adamantina-SP, Juventus-SP e Mixto. Mas foi no CEOV, cuja torcida considera Upa Neguinho um símbolo do clube, pela sua dedicação nos mais de 12 anos que defendeu o tricolor, que ele se realizou como profissional da bola, conquistando, inclusive, um título estadual, o de 1973.

De sua longa militância no tricolor várzea-grandense, Upa Neguinho guarda muitas e boas lembranças. Uma delas é sobre uma briga envolvendo o presidente Rubens dos Santos, o médico Fioravante e o zagueiro Gaguinho. Certa noite, na “república” do tricolor, que servia também de concentração do clube, Rubens dos Santos gabava-se de sua esperteza para lidar com os boleiros, garantindo que nunca era passado para trás. Até porque não economizava nas multas quando ele tinha que punir algum jogador que saía da linha...

Foi aí que Gaguinho caiu na besteira de dizer a Rubens dos Santos que o havia enganado às vésperas de um jogo importante do Campeonato Estadual, simulando que estava dormindo na “república” – conforme o presidente constatou numa visita noturna a todos os quartos – quando na realidade ele estava na rua farreando. Na sua cama, apenas roupas encobrindo um tronco de bananeira até o seu travesseiro... e o quarto na penumbra, sem lâmpada.

– Ah, é!... Então você está multado nos próximos três meses, Gaguinho – disse-lhe Rubens dos Santos, com cara de poucos amigos...

– Mas, presidente, já faz tanto tempo... e o senhor não vai encontrar apoio na lei esportiva para me punir desse jeito, com tanto atraso...     

– Não me interessa... a lei aqui sou eu! E você está multado em mais um mês por ter me enganado!... – vociferou Rubens dos Santos, encerrando a conversa.