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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Touceira, um jogador de 4 tempos...

Naquele distante 1954 apareceu no futebol de Mato Grosso, e foi convocado pelo técnico Jarbas Batista para defender a seleção mato-grossense, um jogador chamado Pedro Touceira. Falastrão como ele só, Pedro Touceira vivia dizendo com ar de superioridade que ele era o único profissional da seleção, pois já tinha jogado em várias equipes de fora de Mato Grosso na principal categoria do futebol brasileiro. O resto era resto...

Pedro Touceira jactava-se também de ser um jogador de 4 tempos, porque tinha fôlego para correr os 180 minutos como se a partida estivesse começando. Sua explicação para sua fantástica resistência: ele levava para a beira do campo uma moringa cheia d’água e uma rapadura. Quando começava a sentir cansaço, ele comia um pedaço de rapadura, tomava da água fresquinha da moringa e pronto: estava inteirinho de novo...

Ele gabava-se ainda de ter uma cabeçada potentíssima. E até jura­va que num dos treinos da seleção mato-grossense, num cruzamento para a área, ele cabeceou a bola com tanta força que o treinador Jarbas, que não havia acompanhado o lance, quis saber quem tinha chutado aquela bola com tama­nha violência no travessão que quase tinha derrubado o gol inteiro...

Terminada a longa fase de preparação da equipe, com muita dedica­ção do treinador Jarbas e dos jogadores, lá se foi a seleção mato-grossense para Minas Gerais enfrentar a mineira. O resultado do jogo o radialista e jornalista Romeu Roberto Memeu não se lembra, mas garante que Mato Grosso levou uma goleada daquelas de perder o rumo...

Mas há uma explicação para o fiasco: o jogo foi realizado no período noturno, no Estádio Independência, na época o maior de Minas Gerais, e os refletores foram o maior adversário dos craques mato-grossenses, que nunca tinham jogado à noite. Aliás, muitos deles nem sabiam que se jogava futebol à noite... 

Cada cruzamento para a área da seleção de Mato Grosso era um gol dos mineiros. Atrapalhado com o reflexo das luzes dos refletores, o arqueiro Dito Gasolina, que era vesgo, saía do gol feito barata tonta e não conseguia cortar ou pegar uma bola...

– Cadê a bola? – perguntava Dito Gasolina toda vez que via os joga­dores mineiros comemorando alguma coisa e a torcida fazendo a maior festa no Independência. 

– Olha para o fundo do barbante que você enxerga a bola! – respon­dia para Dito Gasolina quem estivesse mais perto dele...

A seleção de 1954 foi uma das mais fortes e competitivas que Mato Grosso formou nos bons tempos do futebol amador. O selecionado já havia eliminado Goiás e o Amazonas e tinha chances de desclassificar também Mi­nas Gerais se o jogo-returno fosse realizado em Cuiabá.

Mas como Cuiabá fica muito distante de Belo Horizonte e naqueles tempos o transporte aéreo era muito precário, o segundo jogo entre mato­-grossenses e mineiros foi marcado para o Estádio General Severiano, do Bo­tafogo, no Rio de Janeiro. Mesmo jogando à noite, Mato Grosso empatou por 2x2, resultado que custou sua eliminação.

O maior destaque do selecionado mato-grossense foi Zé Traçaia, que já era o vice-artilheiro do certame com 7 gols. A formação base da seleção era a seguinte: Dito Gasolina, Uir e Nascimento; Pacu, Bananeira e Muriaci: Lara, Uírton, Leônidas, Zé Traçaia e Dionísio.

(Reproduzido do livro Casos de todos os tempos Folclore do futebol de Mato Grosso, do jornalista e professor de Educação Física Nelson Severino).



terça-feira, 18 de julho de 2017

Torcedora queria festejar vitória do CEOV e acabou entalada em grade do Verdão...

Silvana: paixão doentia pelo Operário
Morando bem pertinho da então majestosa sede social do Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, na Avenida Couto Magalhães, em cujas imediações ficava também a “república” do clube, desde que se entende por gente Silvana Pompeu é ardorosa torcedora do tricolor. É uma paixão que já dura mais de 30 anos e que contamina toda a sua família.

O doentio fanatismo de Silvana pelo CEOV custou-lhe algumas doloridas surras, o que acontecia sempre que sua mãe ficava sabendo que ela tinha ido para o Dutrinha ou o Verdão, geralmente às escondidas, em caçambas ou carrocerias de caminhões, sem nenhuma segurança. Muitas vezes, Silvana foi e voltou a pé para os dois estádios, inclusive à noite, junto com grupos de torcedores, que, como ela, não tinha dinheiro para pagar ônibus da velha Nova Era, que de nova só tinha mesmo o nome...

Menina pobre, Silvana recorda dos tempos em que só ficava olhando nos estádios e campos onde o Operário jogava os torcedores comendo sanduiches, salgados, pipocas, chupando picolés, tomando refrigerantes e ela só na vontade!...

Mas Silvana cresceu, progrediu na vida e passou a desfrutar de uma condição financeira bem melhor do que a de antes, o que lhe permite nos jogos do CEOV em Cuiabá consumir tudo que os vendedores saiam e ainda saem pelas dependências do Dutrinha, do demolido Verdão e agora Arena Pantanal oferecendo aos torcedores.

“Consumo de tudo... lembro-me daqueles velhos tempos, sinto saudades e hoje mato a minha vontade, comendo e bebendo nos estádios tudo o que não tive quando era menina...” – afirma Silvana.

Os tempos mudaram, mas sua paixão pelo tricolor, não! Se o CEOV joga, Silvana está no estádio. Com ou sem a família, formada por ela, o marido, quatro filhos, uma nora e um netinho recém-nascido, que por força do ambiente onde vive, certamente vai se tornar operariano roxo...

Seu fanatismo pelo o velho Operário levou Silvana a se meter numa situação extremamente vexatória, no Verdão. Fim de jogo do Operário com o estádio lotado – ela não se lembra contra quem, nem quando – e Silvana, ainda menina, decidiu se juntar ao numeroso grupo de torcedores que havia invadido o campo, com permissão das autoridades, para comemorar a vitória com os jogadores.

No entanto, para entrar no campo, ela tinha que passar por uma das duas altíssimas grades que separavam a geral da arquibancada coberta, onde ficavam autoridades, os endinheirados, as cabines de rádio, etc. Sem nenhuma chance de pular o obstáculo para chegar ao portão que dava acesso ao gramado, Silvana decidiu passar para o setor das sociais através de uma das grades...

Mas depois de passar primeiro o corpo pela estreita grade, Silvana se deu conta que estava entalada. Por mais que ela tentasse, sua cabeça não passava pela grade, nem seu corpinho de menina de 11 anos voltava para trás. Foi um tempão de angústia e aflição.

Pedir socorro, nem pensar: primeiro pela vergonha do duplo vexame e segundo porque, com a algazarra dos operarianos no estádio, ninguém iria ouvir mesmo seus gritos. Com muita dor e sacrifício, ela conseguiu se desentalar...

Acostumada a varar o Dutrinha e o Verdão, por não ter dinheiro para comprar ingresso, Silvana pulou muitas vezes o muro da sede social do Operário, na Couto Magalhães, para participar de comemorações de torcedores do clube. E não era só Silvana que fazia isso, pois muitas de suas amigas, pobres como ela, mas apaixonadas pelo tricolor, também pulavam o muro!...

Dos tempos de vizinhança com a “república” do Operário, Silvana guarda boas recordações de jogadores que passaram pelo tricolor e que sempre trataram com carinho as meninas e os meninos que moravam nas imediações. Entre eles, Silvana destaca Caruso, Dito Siqueira, Ivanildo, Adalberto, Upa Neguinho, Mão-de-Onça e Panzarielo, que chamavam carinhosamente de Panzá...

Naqueles velhos tempos do bom futebol profissional de Mato Grosso, Silvana participou de inúmeras comemorações de vitórias e conquistas operarianas, muitas das quais nas ruas, principalmente perto da sede social e que acabavam interditadas ao tráfego de veículos. Numa delas, que virou um grande carnaval, e varou a madrugada, ela levou tanto pisão nos pés descalços que algumas semanas depois ficou sem as unhas dos dez dedos...






sexta-feira, 14 de julho de 2017

Freiras de ouvidos sensíveis


Julho de 1946: para comemorar a retomada de Corumbá, que duran­te a Guerra do Paraguai tinha caído nas mãos das tropas do ditador paraguaio Solano Lopes, foi formada naquela cidade do sul do então Mato Gros­so indiviso uma seleção para realizar alguns jogos em homenagem aos heróis corumbaenses. Um dos times convidados para participar das comemorações foi o Mixto.
Um dia antes do jogo, disputado no dia 7 daquele mês, com vitória do Mixto por 4x1, e com direito a uma briga que envolveu todo mundo que estava no estádio, a delegação do Mixto embarcou para Corumbá. A viagem foi feita de avião pela extinta Cruzeiro do Sul, que cobria o trajeto Cuiabá-Corumbá. Para muita gente, uma novidade andar de avião!
Para chefiar a delegação num evento tão significativo não só para Co­rumbá, mas para todo Mato Grosso, a diretoria do Mixto convidou o presidente da Federação Mato-grossenses de Futebol, Álvaro Miguéis. Português radicado há pouco tempo em Cuiabá, às vezes Miguéis dava a impressão de que era bruto como uma porta.
Mas não era nada disso. Acontece que por falta de maior familiariza­ção com a nossa língua, de vez em quando ele despejava, inconscientemente, impropérios que revelavam um caráter que estava muito longe de ser o que Mi­guéis era de fato.
A delegação mixtense estava empolgada com a viagem de avião. Uma gozação aqui, uma piadinha ali, uma risada mais alta, a descontração foi toman­do conta de todo mundo. Não demorou muito e começou a surgir entre os joga­dores alguns destemperos verbais, palavras chulas...
No avião, três feiras que não estavam gostando nada do comporta­mento da delegação – ou parte dela – mixtense. Lá pelas tantas, uma das freiras quis saber quem estava na chefia dos jogadores. Identificado, lá se foi a freira queixar-se a Miguéis contra os palavrões que estavam ferindo os sensíveis ouvi­dos delas.
Miguéis, com muita tranquilidade, olhou para a religiosa e sentenciou. “Deixe estar, dona freira, que vou ordenar para os jogadores não falarem mais besteiras. E ai dos gajos que não me obedecerem: vão se fuderem comigo!...”

(Reproduzido do livro Casos de todos os tempos   Folclore do futebol de Mato Grosso, do jornalista e professor de Educação Física Nelson Severino).

terça-feira, 27 de junho de 2017

Concentração na cadeia e fim de carreira


Foi em 1958, depois da delegação do Mixto passar um final de semana concentrada na Cadeia Pública de Campo Grande, para enfrentar a seleção amadora da cidade que o meia armador Uírton decidiu encerrar uma longa carreira no futebol mato-grossense. Isso mesmo: tração na Cadeia Pública. Os jogadores dormiam em redes de cordas da Aero­náutica e comiam junto com o pessoal da guarda da prisão.
Outro fato concorreu para Uírton tomar a decisão de parar. No de­correr do jogo, no domingo, e cujo resultado Uírton não se lembra, a seleção marcou um gol através de um jogador que era cabo da Aeronáutica. Para co­memorar o gol, o militar pegou a bola e deu um chute de peito de pé nela, fazendo a rede estufar.
O zagueiro Nascimento Cachorra interpretou o gesto do adversário como uma ofensa e não vacilou: deu um violento pontapé na perna do adver­sário. Pronto! Estava armado o maior pampeiro. Enquanto o cabo rolava no chão, simulando uma contusão grave, a torcida invadiu o campo e partiu para a agressão contra os mixtenses.
Em minoria, os jogadores alvinegros se defendiam como podiam, mas estavam levando porradas de todos os lados da torcida campo-grandense. Só não houve um massacre nesse jogo porque de repente entrou em campo um numeroso grupo de tenentes do Exército que estavam fazendo um estágio numa unidade militar de Campo Grande e conseguiu dominar a situação.
Muitos mixtenses saíram de campo machucados. Uir, irmão de Uír­ton, teve que ser carregado para o vestiário, pois não conseguia nem andar. Ele tinha levado numa das pernas uma violenta bicuda de um torcedor que estava calçado de botina e tinha entrado na pancadaria para bater nos mixtenses.
Na realidade, desde que deixou o Atlético Mato-grossense para ingressar no Mixto, em 1949, depois de passar também pelo Paulistano e o Operários Futebol Clube, Uírton tinha um sonho na vida: virar motorista. Ele gostava de jogar bola, mas a vontade de um dia ser motorista era muito maior...
Com sua ida para o Mixto, seu sonho começou a virar reali­dade. Aos domingos, quando não tinha jogo, o diretor do Departamento de Saúde de Mato Grosso, Henrique de Aquino, passava horas ensinando Uírton a dirigir. Os dois saíam de Cuiabá e depois que passavam a Ponte Velha, Aqui­no entregava o carro para Uírton. Naquele tempo, a hoje Avenida da FEB era uma ruela deserta...
Em setembro de 1949, Uírton recebeu sua primeira carteira de motorista. Com a habilitação na mão, ele passou a conciliar o futebol com a nova profissão. Trabalhando no Departamento de Saúde, periodicamente ele ia para Campo Grande levar hansenianos – naquele tempo, chamados de le­prosos – para tratamento na Colônia São Juliano.
Os hansenianos que iam chegando a Cuiabá eram confinados casa no bairro São João, onde ficavam aguardando o dia de viajar. Se eram poucos doentes, a viagem era feita numa ambulância do Departamento de Saúde; acima de 15, iam numa jardineira da Saúde Federal.
Recorda Uírton que ele saía com muito dinheiro para as viagens para Campo Grande e com uma ordem expressa: não deixar faltar nada para os do­entes. Além das refeições, se precisasse ele podia comprar remédios, calçados, roupas, cobertores, para os hansenianos. Era só prestar contas depois.
– Eu tinha muitas oportunidades de falsificar notas fiscais, mas nun­ca fiquei com um centavo dessas viagens – orgulhava-se Uírton, que se aposen­tou com um salário de apenas R$ 350,00 e morreu pobre.
O emprego de Uírton no Estado não durou muito tempo. Na eleição para governador de Mato Grosso em 1950, disputada por Fernando Correa da Costa (UDN) e João Ponce de Arruda (PSD), Uírton foi recrutado para traba­lhar no dia da votação. Sua função: pegar comida no Restaurante Esplanada (onde está hoje a Lojas Riachuelo, na Avenida Getúlio Vargas), numa jardi­neira da CER (Comissão de Estradas de Rodagem) e levar para os mesários de uma sessão eleitoral que funcionava num imóvel onde hoje é o Shopping Popular.
Na hora de pegar a comida, Uírton notou que havia muitos pratos com molhos e caldos que fatalmente iam derramar até ele chegar ao destino. Aí, uma mulher que acompanhava uma conversa entre Uírton e um empre­gado do restaurante sobre o problema dos pratos caldeados, ofereceu-se para levá-los no colo, pois estava indo para aquelas bandas. Ele aceitou, muito agra­decido, a gentileza da senhora.
Para chegar à seção eleitoral, Uírton tinha que passar pela casa de Ponce de Arruda. E para azar seu, uma cunhada do candidato identificou a mulher que estava na jardineira: era eleitora da UDN. Além de ter advertido Uírton por ele estar carregando na jardineira uma pessoa adversária do parti­do que apoiava Ponce de Arruda, a cunhada do candidato ainda o denunciou ao diretório do PSD. Dias depois da eleição, Uírton recebeu uma carta do dire­tório regional do PSD comunicando sua demissão do emprego...
No Mixto, clube em que Uírton jogou durante 10 anos, ganhando inclusive um tetracampeonato – 51, 52, 53 e 54 – os jogadores recebiam apenas prêmios nas vitórias (20% da renda) e empates (10%). No entanto, muitos jo­gadores caras de pau achavam sempre um jeitinho de beliscar um dinheirinho por fora dos dirigentes mixtenses, mas Uírton não. Ele tinha vergonha até de ir à Imprensa Oficial do Estado para receber do diretor do Mixto e da empresa estatal, Ranulpho Paes de Barros, os “bichos” por vitórias e empates...
A falta de perspectivas no alvinegro levou Uírton a ir fazer um tes­te num time de Uberlândia, em Minas Gerais. O centroavante Leônidas, que tinha esse nome porque era bom na bicicleta, jogada inventada por Leônidas da Silva, o Diamante Negro, tinha trocado o Mixto pelo clube de Uberlândia e havia recomendado Uírton, seu irmão Uir e o goleiro Dito Gasolina ao técnico do time mineiro.
Um empresário veio a Cuiabá buscar os três, com promessas vanta­josas. Quando chegaram a Uberlândia ficaram assustados: havia uns 100 joga­dores na “república” do clube sendo submetidos a testes. Logo nos primeiros treinos, os três mixtenses começaram a fazer sucesso, confirmando as referên­cias de Leônidas.
No dia do teste final, Dito Gasolina chegou de madrugada na “re­pública” bêbedo feito um gambá. Foi uma vergonha para os cuiabanos. Mas vergonha maior estava por vir ainda. Dito Gasolina acordou de ressaca e foi treinar. Resultado: engoliu frangos de bola chutada até do meio de campo...
Terminado o treino, o empresário comunicou a Dito Gasolina que o clube preferia o outro goleiro que estava sendo testado. Mas os irmãos Uírton e Uir seriam contratados.
Uir estava de casamento marcado em Cuiabá e avisou o empresário que depois do casório decidiria se aceitaria a proposta do clube uberlandense, que incluía, além de prêmios por vitória e empates, aluguel de casa e comida de graça para ele e a mulher. Uírton receberia o mesmo tratamento.
Mas Uírton preferiu retornar a Cuiabá para o casamento do irmão e refletir melhor se voltaria ou não. E não voltou. É que Uírton, ainda garotão, tinha tido uma desavença com um jogador do clube mineiro, de nome Djalma, que vivia gozando os cuiabanos dizendo que Cuiabá era uma cidade de índios e animais selvagens e que os três tinham que andar de mãos dadas em Uber­lândia para não se perderem...
Em 1960, Uírton arrumou uma nova mulher e foi embora para Co­rumbá, onde jogou durante seis anos no time dos motoristas da Cimento Itaú. Por ser formado só de motoristas, o time chamava-se São Cristóvão, o santo protetor dos profissionais do volante.
De volta a Cuiabá, um dia Uírton foi procurar o vice-governador, o médico José Monteiro (Zelito) de Figueiredo, para pedir que ele o ajudasse a conseguir um emprego de motorista da Cemat, que tinha acabado de com­prar uma C 10 zerinho. O vice-governador rabiscou um bilhete numa folha de caderno e mandou Uírton levar para o presidente da Cemat, um irmão do governador José Fragelli, de nome Cláudio, um sujeito prepotente que não recebia cuiabanos.
Uírton foi procurar Cláudio, com o bilhete nas mãos, porém asses­sores do presidente da empresa lhe disseram que ele não seria recebido. Mas entregariam seu bilhete a Cláudio Fragelli.
– É lá do governo. Tenho ordens de entregar pessoalmente ao presi­dente – disse com firmeza Uírton.
Foi recebido. Depois de uma ligeira conversa entre os dois, Cláudio, com o bilhete de Zelito nas mãos, disse-lhe secamente: “Chegue amanhã cedo para começar a trabalhar...”
Uírton trabalhou muitos anos na Cemat. Como motorista, vivia via­jando com um contador da empresa e cujo nome não se lembra, que saía por Mato Grosso fazendo cobranças. “Muitas vezes a gente voltava para Cuiabá com a C 10 cheia de sacos de dinheiro. Naqueles tempos não tinha esses negó­cios de assaltos desses bandidos de hoje...” – lembra ele.
Recorda Uírton que sua passagem pela Cemat foi um período de boa vida. O contador era chegadinho numa cerveja e Uírton não ficava para trás. Dinheiro era o que não faltava para os dois. “Nossa vida era só alegria...” – re­cordava com saudades.

(Reproduzido do livro Casos de todos os tempos  Folclore do futebol de Mato Grosso, do jornalista e professor de Educação Física Nelson Severino).  

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Com a documentação queimada, Dom Bosco virou um clube sem memória


Ficar de forma irreversível sem a memória de uma história que está completando neste 2017  92 anos, por conta de uma insana vingança de um ex-presidente – este foi o alto preço que o Clube Esportivo Dom Bosco, o mais antigo do futebol de Mato Grosso (foi fundado dia 4 de janeiro de 1925) pagou pela ousadia de ter desafiado Lino Elcídio Belmonte de Miranda e impedido, através da Justiça, que o polêmico dirigente continuasse à frente dos destinos da agremiação, depois de uma década marcada por desmandos e estripulias que quase levaram o azulão à falência.

Após passar por alguns setores do clube, sempre com destaque na mídia, Lino Miranda chegou a presidência do Mixo em 1978 e ficou no cargo até 1984, levando o alvinegro a conquistar o tetracampeonato estadual em 79 (ano da divisão de Mato Grosso), 80, 81 e 82. Advogado e profundo conhecedor dos bastidores da bola, Miranda virou uma lenda do futebol pelas confusões que aprontava: comprava jogadores e não pagava; vendia e não entregava...

Em Maringá, no norte do Paraná, Miranda era conhecido como “frente fria”, pois toda vez que fazia algum negócio com o clube da cidade, o Grêmio Esportivo Maringá, era calote certo. Ele inclusive era acusado de assinar documentos com canetas cuja tinta se apagava horas depois, tornando-os sem efeito. O falecido roupeiro mixtense Benedito Lisboa do Nascimento muitas vezes foi apresentado por Lino Miranda a gerentes de bancos como presidente do alvinegro para conseguir empréstimos para o clube. Mas Lino Miranda nunca lhe passou a perna...

Depois de deixar o Mixto, Lino Miranda ficou uns seis anos no ostracismo, mas de repente apareceu no Dom Bosco. Bom de bico, astuto advogado, considerado um “avião”, no mundo da bola, disputou a eleição de 1985 e elegeu-se presidente. Em 1991, no seu segundo mandato, ele levou o Dom Bosco a ganhar o Campeonato Mato-grossense de Futebol, quebrando um jejum de mais de duas décadas, passando a ser venerado pela torcida dombosquina.

Distribuindo sem parcimônia títulos de sócio remido, Lino Miranda foi garantindo sucessivas reeleições. Na última tentativa de reeleição, porém, a velha guarda dombosquina entrou na Justiça com uma ação inominada, com pedido de liminar, que o afastou temporariamente do cargo. No entanto, Lino Miranda não desistiu e entrou com um agravo de instrumento no Tribunal de Justiça de Mato Grosso contra a ação inominada. Mas foi derrotado e, consequentemente, apeado do poder.  

A vingança de Lino Miranda pela derrota na eleição chegou ao extremo da insanidade: ele pegou toda a documentação do Dom Bosco, inclusive fotografias de importantes eventos de maior realce do clube, amontoou sob uma mangueira na sede social do azulão no Morro da Colina Iluminada, embebeu em álcool que mandou um empregado comprar e meteu fogo. “Eu vou embora Dom Bosco, mas levo a sua história comigo...” – repetia Lino Miranda, enquanto a papelada virava cinzas e ele caminhava para porta de saída do clube pela última vez...

         
        
       

   

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Rivalidade entre UDN e PSD até em concurso de beleza facilitou ao Operário construir sua majestosa sede social

A Rainha Sarita, com Renatinho, neto de
Rubens dos Santos e 1º mascote do
 Operário. (Foto: acervo Zé  Pulula)
Fundado no dia 1º de maio de 1949, com as bênçãos do bispo dom Campelo de Aragão, que tinha vindo de Goiás para criar em Mato Grosso vários Círculos Operários, considerados uma versão urbana das Ligas Camponesas que Francisco Julião, do Partido Comunista Brasileiro, espalhava Brasil afora, principalmente pelo Nordeste, o Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, virou logo uma paixão da população de Várzea Grande. E esse era o objetivo do Círculo Operário: agrupar para fortalecer os trabalhadores.

Mas era preciso reforçar a aglutinação da torcida e não ficar restrita só ao futebol. Surgiu, naturalmente, a ideia de se construir uma sede social para promover festas que atraíssem toda a sociedade várzea-grandense, que, a exemplo da de Cuiabá, não tinha muitas opções de lazer. Porém, a construção de uma sede social custaria muito dinheiro, que o clube não tinha. 

Foi aí que surgiu outra ideia: a realização de um concurso de beleza para eleição da Rainha do Clube Esportivo Operário Várzea-grandense e cuja vencedora seria a que vendesse o maior número de votos. O dinheiro apurado com a venda de votos das candidatas seria totalmente investido na construção da sonhada sede social do clube. 

Para surpresa da sociedade várzea-grandense nada menos que seis jovens se candidataram ao concurso de Rainha do CEOV. E o dinheiro começou a entrar no clube. Sucesso à parte da grande promoção social, a surpresa maior e mais agradável estava ainda por vir: na reta final do concurso ficaram duas candidatas disputando o título (Sarita Baracat e Luzia Marques de Arruda) com a entrada em cena dos dois maiores rivais da política de Várzea Grande -- a UDN (União Democrática Nacional) e o PSD (Partido Social Democrático).

Melhor para o Operário: a UDN, liderada por Benedito Gomes da Silva e Gonçalo Botelho de Campos, dois pesos pesados da política de Várzea Grande, e o PSD, com Licínio Monteiro da Silva e Júlio Domingos de Campos, o seu Fiote, dois caciques do partido, decidiram engalfinharem-se também no esporte, investindo pesado nas duas candidatas, com os udenistas apoiando Sarita e o pessedistas, Luzia.

Resultado da rivalidade que desaguou numa briga política dentro do esporte: com o dinheiro da promoção do concurso de beleza, o Operário construiu uma bela e espaçosa sede social que ficava na Avenida Couto Magalhães, esquina com a Rua Miguel Leite, e ainda sobrou dinheiro para o clube investir no time de futebol – lembra com saudades daqueles tempos a Rainha eleita, Sarita Baracat.

A sede social do Operário foi palco de memoráveis festas, inclusive carnavalescas, que sacudiam a sociedade várzea-grandense. Artistas consagrados como Nelson Gonçalves, Agnaldo Timóteo, Lindomar Castilho, Jerry Adriani e até a popozuda Gretchen animaram bailes do Operário e que não terminavam antes do sol raiar.

Claro que muita gente de Cuiabá e até da Baixada Cuiabana participava das monumentais promoções sociais do tricolor, porem, disfarçadamente, por causa da rivalidade que sempre existiu entre várzea-grandenses e cuiabanos e que extrapolava ao futebol. E o dinheiro jorrava nos cofres do CEOV, através de suas promoções e também do seu quadro associativo.

Irmã de Rubens dos Santos -- que aboliu o Baracat do nome – mandachuva de primeira hora do CEOV, Sarita Baracat, hoje com 85 anos de idade, participou ativamente da vida do tricolor desde a sua fundação. Ela foi inclusive secretária do clube durante 15 anos, período em que reinou também como uma espécie de Rainha do tricolor.

Mesmo depois de se enveredar pela política – foi vereadora de Várzea Grande de 1957 a 1961, a primeira prefeita municipal (de 1967 a 1970) e também a primeira deputada estadual de Mato Grosso, eleita em 1979 -- Sarita continuou participando ativamente da vida do Operário, cujo velho hino sabe de cor até hoje. Foi sob sua administração que o Operário conquistou o tricampeonato profissional em 67, 68 e 69. 

Lembra Sarita que o primeiro centenário de emancipação política de Várzea Grande em 1967 foi comemorado na administração de uma prefeita, a dela. E agora, quando Várzea Grande festejou a data histórica de 150 anos, o município está de novo sob o comando de uma mulher, Lucimar Campos. 

Sarita recorda até do primeiro jogo que o Operário disputou em Cuiabá, no antigo Colégio Estadual – hoje Liceu Cuiabano Maria de Arruda Muller – e que tricolor perdeu pelo placar de 10x1. O nome do adversário ela não se lembra mais. Nesse dia – vem a sua memória também -- outro fanático torcedor tricolor, Licínio Monteiro da Silva, ficou tão furioso que chutava até a própria sombra no campo e só se acalmou quando no final do jogo Tatu marcou o golzinho operariano.

Muito ligada desde criança ao futebol, Sarita acabou se casando com um jogador de bola, Emanuel Benedito de Arruda, o Caboclo, que foi vereador e inclusive presidiu a Câmara Municipal de Várzea Grande em 1972. O cunhado de Sarita, João Garrucha, também foi político e jogador de futebol.

Sobre João Garrucha, segundo dizem, muita gente não gostou do fato de ele ter sido sepultado com a primeira bandeira do Operário, cujas letras estampadas no pavilhão tricolor comprovam que o primeiro nome da equipe várzea-grandense foi mesmo Operário Futebol Clube, com o Clube Esportivo Operário Várzea-grandense (CEOV) vindo depois.

A professora Mari Conceição Costa Campos não se lembra o ano em que um diretor do Operário chegou a sua casa, pedindo-lhe que desse os retoques finais na bandeira do clube. Era a primeira bandeira do tricolor e o trabalho tinha que ser feito com urgência. Mari nem costureira era na época – estava com 18 anos -- mas aceitou a incumbência. A bandeira já estava pronta, só faltavam alguns arremates, entre os quais, pregar as letras das iniciais do clube e cujas cores eram verdes – disso ela se recorda com certeza... 

Do passado glorioso do CEOV e cuja brilhante história ajudou a construir, Sarita guarda uma mágoa: um clube que já teve uma sede social como a do Operário e começou até a implantar sua Vila Olímpica, no Carrapicho, numa área de 38 hectares, não ter hoje nem um campinho próprio para treinar...
     
       

    


quarta-feira, 7 de junho de 2017

Canivetadas na bola enfeitiçada


Semana de muita agitação no Porto, com a aproximação de mais um jogo importantíssimo entre o Palmeiras e o Mixto pelo Cam­peonato Amador de Cuiabá no limiar da década de 60. Quem ganhasse ficava numa posição privilegiada em relação à conquista do título da temporada.

No sábado, véspera do jogo, a população do Porto, cuja adoração pelo verdão chegava às raias da loucura, amanheceu de cabelos em pé, com a circulação, de boca em boca, de uma notícia que varreu o bairro com a força de um furacão: na noite anterior, a diretoria do Mixto tinha ido a um terreiro de macumba da cidade e feito um “trabalho” da pesada para assegurar anteci­padamente a vitória no jogo de domingo.

A feitiçaria incluía até um despacho especial sobre a bola virgem que o Mixto também tinha que levar para o campo, como mandava o regulamento do campeonato, apesar do mando do jogo ser do adversário...

Apavorados, diretores do Palmeiras se reuniram às pressas para achar uma saída para desmanchar a mandinga. Mas chegaram a uma melan­cólica conclusão: de que adiantaria convocar um batalhão de pais de santos dos mais famosos da região se as divindades que eles incorporam, como os te­midos exus, caboclos e tranca-ruas, só baixam nos terreiros nas sextas-feiras?

Decididamente, o Mixto tinha feito o “trabalho” como mandam as regras da macumba, eliminando qualquer possibilidade do Palmeiras desfazer a feitiçaria...

Chegou a hora do jogo, com a torcida do Palmeiras com os cabelos mais arrepiados ainda do que já estavam, a partir do momento que a notícia da feitiçaria chegou ao Porto.

Para piorar ainda mais o estado emocional dos jogadores do Palmei­ras e a aflição dos seus torcedores, na hora de escolher a bola para o jogo, o juiz da partida, depois de examiná-las e quicá-las no gramado para averiguar se estavam adequadamente cheias, optou pela do Mixto, justamente a que havia sido “trabalhada” pelo batalhão de macumbeiros.

O campo do Arsenal, onde o Palmeiras mandava seus jogos, estava apinhado de gente. Começou o jogo e o Palmeiras levava um show de bola. O Mixto fez 1x0, 2x0, 3x0 antes virar o primeiro tempo.

Desesperado, o diretor do Palmeiras José Dias de Oliveira, filho do seu Avelino Barbeiro, famoso barbeiro do Porto, começou a circular em torno do campo, correndo de um lado para outro, para chegar onde a bola saía. Mas sempre chegava tarde.

De repente, a bola foi parar nas mãos de Zé Dias. Mas em vez dele devolvê-la rapidamente ao jogo, pois seu clube estava perdendo feio, para sur­presa de todo mundo, quando o gandula foi pegar a bola de suas mãos, Zé Dias sacou do bolso um canivete deste tamanho e enfiou até o cabo nela. E repetiu o gesto várias vezes...

O restante do jogo foi disputado com a bola do Palmeiras. Só que não adiantou nada: o Mixto ganhou o jogo de goleada...


(Reproduzido do livro Casos de todos os tempos Folclore do futebol de Mato Grosso, do jornalista e professor de Educação Física Nelson Severino).

quinta-feira, 1 de junho de 2017

A preguiça provocou o fim precoce da promissora carreira de Priss no futebol

Priss: vencido pela preguiça...
Encerrado o coletivo-apronto do Atlético Mato-grossense para o jogo do final de semana contra o Operário Várzea-grandense, o treinador Makários Zenagape dos Santos chamou Priss, que jogava de volante no time de aspirantes, e determinou que ele desse dez voltas completas, correndo normalmente, em torno do campo. O jogador não entendeu nada, mas cumpriu a ordem sem fazer perguntas.

Assim que Priss ou Luiz Neves de Almeida Filho -- que não sabe a origem do seu apelido -- terminou a corrida, Makários se aproximou dele e disse na presença de outros jogadores: “Você está bem fisicamente como os outros jogadores. E como o Darci Avelino – que quando foi para o Operário virou Darci Piquira – está machucado e não pode jogar domingo, você vai entrar no lugar dele na lateral esquerda...”
O garotão Priss tentou justificar que não estava preparado para um jogo daquela importância, ainda mais numa posição em que nunca havia atuado antes, mas recebeu imediatamente o apoio de Washington, Luiz Toucinho, Ditinho Olho de Bolita, Fulepa, Jeca, Portela, Lico, Mitu e outros craques consagrados do poderoso time atleticano do final da década de 1960.

Dutrinha lotado, o Atlético Mato-grossense venceu o jogo por 3x2, vitória que merecia uma comemoração especial. Empolgado, Priss decidiu comemorar o triunfo do time e o seu próprio, como titular pela primeira vez, num bailão no domingo à noite na sede social do Operário, em Várzea Grande. Queria festejar mesmo!...

Mas quando chegou na portaria do clube, acompanhado de Ditinho Olho de Bolita, foi advertido pelo companheiro: “Nem pense em se identificar como jogador do Atlético Mato-grossense porque senão vamos entrar na taca aqui mesmo na entrada, não vamos nem chegar lá dentro para apanhar...”

Priss foi titular do timaço do Atlético Mato-gossense durante mais de três anos e só guarda boas recordações dos companheiros e também de Zenagape. Uma vez, ao final de um treino do time, o quarto zagueiro Washington perdeu a aliança de casamento. O solidário Zenagape tentou ajudar o jogador, oferecendo na época o que corresponderia hoje a R$ 200,00, para quem a achasse, mas ninguém encontrou o anel...

Durante seu longo tempo de titular no Atlético Mato-grossense, Priss foi aconselhado por muita gente que o considerava um verdadeiro craque da bola a procurar outros clubes de grande prestígio da época, entre eles Mixto, Dom Bosco e o Operário Várzea-grandense, com vistas a uma eventual carreira no futebol profissional. ”Eu nunca fui procurado por eles e não iria me oferecer...” – afirma, sem nenhum arrependimento.

No entanto, por trás de sua relutância em relação ao seu futuro como jogador de futebol, com uma carreira promissora pela frente, Priss admite que se esconde uma grande verdade: ele sempre foi um preguiçoso da maior marca. E só de pensar que teria que fazer longas caminhadas para treinar nos velhos tempos de um transporte coletivo urbano precário na Grande Cuiabá era um obstáculo intransponível para quem só queria saber de sombra e água fresca...

Dominado pela preguiça, Priss praticamente parou com o futebol quando os apaixonados atleticanos irmãos Matozzo (Décio, Áureo e Acir, este já falecido) passaram o comando do Atlético Mato-grossense para os irmãos Oliveira, do extinto Banco do Estado de Mato Grosso -- Bemat e que sob a nova direção entrou logo em processo de acelerado declínio até se extinguir. E só de vez em quando participava de uma ou outra “peladinha” no velho bairro do Porto, onde nasceu e sempre viveu, faz 69 anos, contanto que não precisasse correr...

Porém, não se afastou do futebol e continua frequentando o famoso campo do Bode, palco de memoráveis campeonatos e “peladas”, regadas a muitas mordomias, principalmente às segundas-feiras, dia folga quase obrigatória de milhares de pessoas que gravitam em torno do Terminal Atacadista do Porto. E virou também corneteiro de carteirinha da boleirada da tradicional feira e do populoso bairro.

Aos mais íntimos, Priss não se cansa de fazer ácidas críticas pelas suas falhas e engrossadas em jogos oficiais ou “peladas” no campo do Bode: “A sorte de vocês é que as bolas não falam. Se falassem, vocês iam ouvir muito lamento e até xingamentos pelos maus tratos que elas recebem de vocês. Bola é para ser acariciada com carinho, com amor e não ser pisada, chutada de bico e maltratada como vocês fazem com elas” – repete sempre para a rapaziada do Porto...                   
 

     

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Muito gago, Vitor gritou como louco para evitar acidente com o Dom Bosco na 070

Paulo Emílio: de corneteiro a chefe da delegação
 do Dom Bosco
O presidente Paulo Borges estava numa sinuca de bico: não podia viajar e não encontrava ninguém para chefiar a delegação do Dom Bosco que tinha um jogo importante no final de semana em Barra do Garças pelo Campeonato Mato-grossense de Futebol de 1994. 

Paulo Borges lembrou-se então de Paulo Emílio Magalhães, que nem pertencia à diretoria do Dom Bosco, e que muita gente do azulão, incluindo alguns jogadores, não topava, porque o rapaz, hoje um dos vice-presidentes do clube, era um tremendo corneteiro da agremiação do Morro da Colina Iluminada.

Não perdeu tempo Paulo Borges, ligou para Magalhães e lhe fez o convite, na verdade quase uma intimação. O corneteiro pôs o pé na parede: “Como vou chefiar a delegação se eu não tenho dinheiro e o Dom Bosco está pior do que eu?...” – questionou o convidado.

-- Você não tem talão de cheques? – perguntou Paulo Borges

-- Ah! Isso eu tenho, da Caixa Econômica... – respondeu Magalhães

-- Então está resolvido. Você vai dando cheques. Como os bancos não abrem sábado e domingo, no início da semana que vem quando os cheques começarem a cair na conta a gente vai cobrindo...

E lá se foi o Dom Bosco cumprir o compromisso em Barra do Garças, com Magalhães, a princípio meio temeroso, mas depois assinando “cheques voadores” a torto e a direito, causando ótima impressão entre a boleirada.

O jogo em Barra do Garças transcorreu normalmente, com o Dom Bosco derrotando o time da casa por 1x0, gol marcado por um atacante cujo nome Magalhães não lembra e que tinha jogado inclusive na União Soviética antes de vir parar no azulão.

Na volta, quando a delegação passava por um acampamento de sem-terras às margens da BR-070 em Primavera do Leste, de repente uma gritaria do atacante Vitor interrompeu o silêncio dos jogadores que estavam assistindo um vídeo-tape do Programa “Quem quer dinheiro?”, de Sílvio Santos...

Motivo dos berros de Vitor, que por sinal era muito gago, e que vinha na frente conversando com o motorista para não deixá-lo cochilar: um pneu se soltou do eixo traseiro e passou pelo ônibus a grande velocidade, o que poderia levar o veículo a sofrer um acidente de conseqüências imprevisíveis.

Diante do perigo, até o próprio Vitor se esqueceu que era gago de nascença e berrou feito um desesperado para chamar a atenção do motorista para os riscos que o ônibus, com um pneu a menos no rodado traseiro, estava correndo de tombar, capotar...

O problema da soltura do pneu do ônibus, além do susto com a gritaria de Vitor, resultou em um grande prejuízo ao Dom Bosco: na velocidade que ganhou depois de se soltar do eixo, o pneu saiu da pista de rolamento  da BR-070 e causou estragos no barraco de um sem-terras, demolindo completamente o seu banheiro.

Com o barulho causado pelo choque foi se juntando sem-terras do acampamento e Magalhães teve assinar mais um “voador”, cujo valor da época correspondia hoje a cerca de R$ 1.800,00.

-- Ainda bem que o Paulinho foi muito decente comigo e cobriu todos os cheques – afirma Magalhães.  

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Bandas da Grande Cuiabá vão animar a 17ª Feijoada Tricolor até a meia noite

Bandas da Grande Cuiabá e cujos repertórios vão de rock pauleira até música romântica estarão animando a 17ª Feijoada Tricolor, programada para sábado, 20, no D’Paula Buffet. Organizada por um grupo de torcedores do Clube Esportivo Operário Várzea-grandense (CEOV), o evento gastronômico reúne em média, a cada edição, mil pessoas, transformando-se sempre numa grande festa de confraternização da família operariana. O tradicional clube várzea-grandense completou no dia 1 deste mês 66 anos de fundação.

Um dos organizadores da Feijoada Tricolor, Honório Magalhães, garante que o 17º evento gastronômico vai ficar na história do Chicote da Fronteira. A feijoada começa a ser servida por volta das 13 horas, mas a festa, com muita música para todos os gostos e idades, vai se estender até a meia noite.  O ingresso custa R$ 30,00 e pode ser adquirido antecipadamente na Casa dos Esportes Várzea-grandense, na Avenida Couto Magalhães, no centro de VG.

Mais informações pelos telefones 9 9660-2420/ 9 9261-2405/ 9 9361-5656.       

Um romance de três horas que complicou a vida do mixtense Nelsinho


Nelsinho: um romance  curto, mas muito tumultuado...
Primeiro jogo entre União e Mixto, no Estádio Luthero Lopes, na decisão do  Campeonato Mato-grossense de Futebol de 1981. A torcida do alvinegro fretou vários ônibus para ir a Rondonópolis incentivar o clube naqueles saudosos tempos de estádios lotados em Mato Grosso.

No Verdão, por exemplo, era comum públicos de 45 mil espectadores em dias de clássicos entre Mixto, Dom Bosco e Clube Esportivo Operário Varzea-grandense. O próprio União, quando jogava em Verdão, com qualquer um dos clubes da Grande Cuiabá, enchia o estádio.

Entre tanta gente da Grande Cuiabá – sim, porque o Mixto tem muitos adeptos em Várzea Grande – o fanático torcedor Nelson Tomaz, que tempos depois virou o Nelsinho’s “o cabeleireiro dos mixtenses” e que naquele dia teve como companheiro de poltrona no ônibus Carlinhos Dorileo, ambos garotões ainda...

Os ônibus das caravanas de torcedores de Cuiabá ficavam estacionados em um espaçoso terreno na velha Estação Rodoviária, cuja proximidade com o Luthero  Lopes facilitava o deslocamento da torcida para o estádio. No pé dois mesmo, sem depender de condução.

Enquanto esperavam a hora de ir para o estádio, os torcedores ficavam zanzando pela rodoviária. Conversa vai, conversa vem, nesse dia Nelson  Tomaz  acabou arrumando uma namorada muito prafrentex. Os dois já foram o Luthero Lopes de mãos dadas no maior love...

Empolgada com o fanatismo do namorado pelo alvinegro, a moça, muito bonita, já virou mixtense. E vibrou intensamente, como se fosse uma velha torcedora, com o empate que o Mixto arrancou do União pela contagem mínima.

De volta para a rodoviária para o retorno a Cuiabá, começou um drama para Nelsinho: a namorada não queria soltar sua mão e insistia para que seu amado ficasse em Rondonópolis. Diante da recusa de Nelsinho, a moça decidiu na hora: “Se você não ficar, eu vou com você...”

Sob protestos dos outros torcedores que tinham pressa em retornar a Cuiabá, com muito custo Nelsinho conseguiu entrar no ônibus. Mas nem bem se acomodou uma nova surpresa: a jovem pulou a janela do ônibus, aproximou-se de Nelsinho e insistiu: “Eu vou também...”

Foi aquele bafafá dos diabos. O motorista querendo partir e a moça teimando em não descer do ônibus. E a turma do ônibus na maior gozação para cima de Nelsinho.

Depois de muita confusão, a jovem concordou em descer do ônibus... se Nelsinho lhe desse a sua camisa do Mixto. Resultado: Nelsinho voltou para casa com a bandeira do Mixto enrolada em seu corpo. E por onde passava, ouvia comentários do tipo: “Esse é mixtense de verdade!...”

Se soubessem do acontecido...

O Mixto foi o campeão estadual daquele ano, derrotando o União, no segundo jogo da decisão, no Verdão, por 2x0, gols de Bife e Ademar. O gol de Bife foi tão bonito que acabou virando comercial de uma poderosa imobiliária de Cuiabá.

Passados quase quatro décadas do episódio, até hoje Nelsinho se lembra do  namoro que durou umas três horas, mas que lhe causou uma tremenda dor de cabeça...             

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Feijoada Tricolor para apoiar a torcida do CEOV chega a 17ª edição








Vem aí mais uma Feijoada Tricolor, evento gastronômico promovido por um grupo de torcedores do Clube Esportivo Operário Várzea-grandense e que chega este ano a 17ª edição, sempre com sucesso, com a média de participação de mil pessoas. A promoção esta programada no próximo dia 20, sábado, no D’Paula Buffet e o ingresso custa R$ 30,00 por pessoa – a feijoada será servida exclusivamente no local, afirma Honório Magalhães, um dos organizadores do evento.

A primeira Feijoada Tricolor foi realizada em 2000 por um grupo de operarianos, com o objetivo de arrecadar dinheiro para ajudar o CEOV a pagar os salários dos jogadores. Com o sucesso da promoção, um grupo de tricolores decidiu encampar o evento para conseguir recursos financeiros para investir na compra de camisetas para a torcida, aquisição de instrumentos para a velha charanga e até eventual locomoção de torcedores em dias de jogos do clube.


Mais informações pelos telefones (65) 9 9660-2420/9 9261-2405/9 9361-5656.          

terça-feira, 9 de maio de 2017

A velha guarda do futebol cuiabano retoma a festa que a política quase fez sucumbir...

A velha guarda do futebol cuiabano volta às origens para lembar um passado distante e de muito brilho. De agora em diante, nada de política. (Foto: arquivo de Lito) .   
Um pequeno grupo da velha guarda do futebol cuiabano encabeçado por Totó Arruda, ex-jogador e ex-presidente do Dom Bosco, já está se movimentando para voltar a promover a festa de confraternização que durante mais de uma década reunia, tradicionalmente no dia 15 de novembro, ex-dirigentes, ex-atletas e ex-comunicadores que ajudaram a construir a história e o folclore desse esporte na capital mato-grossense, como registra o livro Casos de todos os tempos  Folclore do futebol e Mato Grosso.

A confraternização vinha sendo realizada com grande brilhantismo até que em 2011, o então vice-governador Chico Daltro, empolgado com o sucesso do evento, que chegava a reunir até 400 pessoas, decidiu encampar a festa, transformando-a em um evento político, inclusive passando a homenagear gente que nada tinha a ver com o futebol cuiabano. Com a elitização do evento – em 2011 foi realizado no Hotel Fazenda Mato Grosso e no ano seguinte no Cenarium Rural – muitos ex-atletas humildes deixaram de prestigiar a festa de confraternização da velha guarda do futebol cuiabano.

Em 2013, o Governo do Estado simplesmente deixou de promover a festa e não deu satisfação nem às pessoas que vinham lutando para manter essa tradição, entre elas Totó Arruda e Glauco Marcelo. No ano seguinte, um pequeno grupo, com o apoio da Associação Atlética Banco do Brasil, retomou a confraternização, mas a festa esteve longe de repetir o brilho das anteriores. Em 2016, o evento de novo não foi realizado para decepção de muitos personagens que ajudaram a escrever a história do futebol cuiabano.

O pequeno grupo que sempre se empenhou para preservar essa tradição do futebol cuiabano está começando a trabalhar mais cedo para a retomada da confraternização. Vai se buscar inclusive parceiros para o tradicional evento, pois as despesas são muito grandes, principalmente com alimento e cerveja. “Muitas vezes a gente programava carne e cerveja para duzentas pessoas e na hora da festa, que se estende por todo o dia, apareciam o dobro da previsão...” – afirma um dos organizadores da festa do futebol dos velhos tempos...   

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Só Iuca participou e lucrou com uma armação de Lino Miranda, por um vale


Lino Miranda era um mestre em armações... 
Com o pagamento do salário da boleirada atrasado, como sempre, o presidente do Dom Bosco, Lino Miranda, ia levando no bico os jogadores remanescentes do plantel que havia disputado o Campeonato Mato-grossense de 1990. Alguns deles só estavam esperando receber o dinheiro que tinham  em haver no clube para picar a mula...

Como o dinheiro do salário não saía mesmo, os jogadores iam vivendo de vales. Dependendo do valor da “mordida” que Lino Miranda levava, principalmente quando dava as caras nos treinos, ele nem anotava o vale para descontar na hora do acerto de contas.

Durante os dez anos de presidência de Lino Miranda, quando a moeda nacional era o Cruzeiro, ele sempre tinha dinheiro nos bolsos para atender eventuais emergências dos jogadores. Mas nunca exibia dinheiro diante da moçada.

E sabia perfeitamente em que bolsos estavam as notas de maior e de menor valor. Dependendo da “cantada”, ele enfiava a mão no bolso, tirava o dinheiro e dizia: “Só tenho esse!...”  

Um dia Lino Miranda prometeu para alguns jogadores que o Dom Bosco ia fazer um vale alentado para a rapaziada.  E, afinal, o dia da esperada bufunfa chegou.

Numa dependência próxima à sala do presidente Lino Miranda estavam Ferreirinha, Tião e o pra lá de gago Vitor, que já havia jogado inclusive no Flamengo, do Rio de Janeiro, só esperando a hora de serem chamados para pegar o "cascalho" prometido...

De repente e surpreendentemente, sai da sala de Lino Miranda o atacante Iuca, chutando portas, dando murro em mesas e gritando a todo pulmão: “Presidente de merda, grande fdp, caloteiro...” e outros impropérios impublicáveis...”

Ferreirinha, Tião e Vitor foram saindo de fininho do clube. Entenderam na hora que se para Iuca, que tinha sido o principal jogador do Dom Bosco no Campeonato Estadual daquele ano não havia saído dinheiro, pra eles então o que ia sobrar? Certamente, nadinha de nada!...

Quando os três jogadores saíam da dependência contígua a sala da presidência, entrou Paulo Emílio Magalhães, naquele tempo corneteiro de carteirinha Dom Bosco, mas com potencial, para se tornar no futuro um dirigente do clube – hoje ele é 1º vice-presidente dombosquino – e Lino Miranda lhe disse: “Vá aprendendo, rapaz!...”

Foi aí que Paulo Emílio, que presenciou todo o show do ídolo Iuca, entendeu então que a presepada do atacante não havia passado de uma armação entre Lino Miranda e o jogador para induzir não só Ferreirinha, Tião e Vitor, mas também outros jogadores que estavam para chegar, atraídos pela promessa do presidente, a desistirem do vale. Sem brigas, ofensas, xingamentos

Resultado da armação de Lino Miranda: só Iuca saiu da sede do Dom Bosco no Morro da Colina Iluminada com um bom dinheiro nos bolsos...