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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Inconformado com a roubalheira, massagista do BGFC ameaçava até matar o árbitro Camarinha

Arimateia: barragarcense da
velha guarda 
 Diretores e jogadores do banco de reservas do Barra do Garças FC não suportavam mais a fumaceira que o massagista Padre Cícero espalhava pela área onde estavam perto do vestiário do extinto Verdão, pitando sem parar, usando a bituca de um cigarro para acender o outro.

De repente, alguém teve uma ideia luminosa e gritou: “Um jogador nosso se machucou, está caído no campo...”

Padre Cícero pegou sua maleta de massagem e invadiu o campo, correndo feito um desesperado, em busca do jogador contundido...

Aí aconteceu o inusitado, que divertiu muito a torcida presente ao Verdão para ver o jogo entre o Operário e o Barra do Garças, pelo Campeonato Mato-grossense de 1978 ou 79 – não se lembra com exatidão o dirigente barragarcense José Arimateia: o polêmico árbitro Armando Camarinha desandou a correr atrás de Padre Cícero para expulsá-lo de campo.

Padre Cícero que inclusive foi vereador em Barra do Garças cultivava o péssimo hábito de fumar muito. Torcedor fanático do BGFC, naquele dia o massagista tinha um bom motivo para fumar mais do que o normal para tentar aplacar a sua raiva: o árbitro Camarinha estava metendo a mão no seu clube...

Embora jogando muito bem, o time barragarcense não conseguia nem chegar perto da área do Operário por causa da marcação cerrada de Camarinha. Sem dar a mínima bola para os bandeirinhas, ele marcava tudo contra o Barra do Garças e nada contra o Operário...

– Só no primeiro tempo foram marcados sete impedimentos do Barra do Garças e nem um contra o Operário – recorda Arimateia.

Apesar de sua boa atuação, mas tendo contra si a arbitragem de Camarinha, o Barra do Garças acabou perdendo o jogo por 1x0, resultado que a própria torcida operariana e a crônica esportiva da capital consideraram injusto.

 Terminado o jogo, Padre Cícero sumiu. Quando os barragarcenses deixavam o campo, ao passarem pelo vestiário dos árbitros ouviram choro e soluços e, disfarçadamente, foram ver o que estava acontecendo...

E viram: nos primeiros degraus da escada que dava acesso ao campo e ao vestiário, estava Padre Cícero agarrado ao completamente imobilizado Armando Camarinha, e repetindo sem parar “Eu vou te matar! Eu vou te matar! Eu vou te matar...”


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Filho de auditor do TJD ficou 5 noites sem dormir após chupar laranja do Operário...

Eliezer: um operariano no TJD
Discussões acaloradas e acusações mútuas dignas de arrancar pica-pau do oco do pau marcavam infalivelmente às sessões do Tribunal de Justiça Desportiva da Federação Mato-grossense de Futebol no período de 1978 a 1980, com três personagens muito conhecidos no mundo do futebol do Estado – Adbar da Costa Salles, Paulo Zaviaski e Eliezer Valadares Rebello – engalfinhando-se em ácidos embates nos julgamentos. E o que se via e ouvia no plenário do TJD, era “fichinha” diante do que “rolava” na guerra verbal entre os três nos bastidores...

O advogado tributarista e Procurador aposentado do Estado de Mato Grosso, Adbar da Costa Salles, hoje presidente do Clube Esportivo Dom Bosco, era procurador do Tribunal de Justiça Desportiva da Federação Mato-grossense de Futebol durante a década de 1970. Nessa função, cabia-lhe denunciar e instaurar ação penal-esportiva contra jogadores, dirigentes, juízes, bandeirinhas, etc., que violavam a legislação esportiva e eram denunciados ao órgão disciplinar, que no final dos processos iria julgá-los pelas infrações cometidas...

Eliezer Valadares Rebello, advogado do Banco da Amazônia e o jornalista/radialista/apresentador de TV, também bancário, mas do Banco do Brasil, Paulo Zaviaski, ambos já falecidos, eram auditores no TJD, pomposo nome que se dá aos membros do TJD e que têm a função de julgar quem senta nos bancos dos réus dos tribunais esportivos. 

O motivo de tanta polêmica envolvendo o trio: todo mundo sabia que Zaviaski era um apaixonado torcedor mixtense; Rebello sempre foi louco pelo Clube Esportivo Operário Várzea-grandense e Adbar Salles nunca escondeu sua preferência e simpatia pelo Clube Dom Bosco...

Por isso, quando um julgamento envolvia jogadores do Operário e do Mixto, se fossem punidos, Zaviaski e Eliezer acusavam o procurador Adbar Salles de exceder na acusação para arrasar os denunciados. Principalmente se o julgamento do processo beneficiasse o Dom Bosco...

O atual presidente do Dom Bosco, contudo, jura de pés juntos que sempre procurou agir com isenção, sem perseguir os adversários do seu time de coração. “Aliás, seria impossível militar no esporte, ontem ou hoje, sem qualquer remuneração ou subsídio se não for torcedor de algum clube e gostar da prática do esporte mais popular no País” – afirma Adbar Salles.

Aposentado pelo Basa (Banco da Amazônia S/A) – já Zaviaski aposentou-se pelo Banco do Brasil – Eliezer resumia seu mundo a área central de Cuiabá. Tanto é que depois parou de trabalhar só cruzava as pontes que ligam Cuiabá e Várzea Grande se tivesse que pegar avião. As pontes do rio Coxipó da Ponte ele não atravessava, de jeito nenhum...

O atual presidente do Dom Bosco lembra que começou a militar na Justiça Desportiva da FMF como Secretário Geral a convite dos então promotores de Justiça Luis Vidal da Fonseca e Rubens Vuolo, seus ex-professores na Universidade Federal de Mato Grosso.

Na época, a composição do TJD era quase que um acerto de cavalheiros feito entre os clubes participantes do campeonato e a direção da FMF. Na década de 70, passaram pelo TJD, o auditor e considerado torcedor dombosquino, magistrado Oswaldo Meyer, da Justiça Militar do Estado e muito sensível e extremamente cortês; Paulo Zaviaski e Eliezer Rebello, do Mixto e do Operário, respectivamente, ambos muito emotivos e explosivos; Clóvis Pires Modesto, também mixtense, mas um cordial cavalheiro e experiente negociador de crises; Luís Vidal da Fonseca e Rubens Vuolo, tidos como dombosquinos, muito reservados e discretos. Os dois eram legalistas extremados.

E assim o TJD seguiu sua rotina, por cerca de dez anos, de muito bate-boca e apaixonados embates nos dias de sessões. Integrava ainda o órgão de justiça desportiva o advogado José Stábile Filho – também já falecido –, que se dizia neutro, mas não escondia sua simpatia pelo Mixto Esporte Clube. Os embates eram aguerridos, mas no final das sessões, todos iam tomar cerveja nos bares da moda da cidade...

Certa vez – recorda Adbar Salles – Eliezer decidiu levar seu filho, ainda menino, conhecido hoje como João Cabrito, para ver um jogo do Operário contra o Dom Bosco, no Verdão. Como diretor do tricolor, ele e o garoto ficaram no banco de reservas do clube várzea-grandense.

A certa altura do jogo, o menino perguntou a Eliezer se podia chupar uma das muitas laranjas, já descascadas, que estavam numa sacola do Operário e que eram servidas aos jogadores no intervalo do primeiro para o segundo tempo.

Claro que Eliezer, sem desconfiar de nada, autorizou o filho a chupar a laranja. O menino atacou firme a sacola. E Eliezer só foi entender que as laranjas servidas aos boleiros no intervalo da partida eram “especiais”, quando descobriu que o filho passou cinco noites sem dormir depois do jogo e nos dias seguintes...

















sábado, 19 de agosto de 2017

Volante do Dom Bosco ia longe atrás de uma macumbinha para o futebol...

Giorge Fava,
velho dombosquino
Muito antes do futebol sair da transição do amadorismo para o profissionalismo em Mato Grosso, o que se consumou em 1967, passou pelo Dom Bosco o center half César – posição que corresponde hoje ao médio volante – e que era chegadinho numa macumbinha. Na sua crença, ele não media sacrifícios – ia longe, se preciso fosse... – atrás de terreiros de macumba em busca de ajuda do além no futebol.

Uma vez, César foi procurar o dono da concessionária da Volkswagen em Cuiabá, Geórgio Fava, que na condição de associado do clube e de vez em quando até como jogador do time aspirante do Dom Bosco, na medida do possível, colaborava com o azulão. Inclusive passou muitos anos pulando da cama às 4 horas da madrugada para com sua Kombi ir buscar jogadores para ts treinos matinais.

Demonstrando grande preocupação, César disse a Fava que era preciso tomar uma providência urgente...

– Mas que providência, homem? – questionou Fava...

César foi direto ao assunto: o jogo de domingo do Dom Bosco pelo Campeonato Cuiabano de Futebol era contra o Internacional, um time suburbano sem nenhuma expressão, mas que tinha como presidente um “congueiro” da pesada. E lembrou a Fava que na rodada anterior, o Internacional havia derrotado o poderoso Mixto, o grande rival do Dom Bosco, por 1x0...

Para tranquilizar César, Fava garantiu-lhe já tinha ido procurar um famoso macumbeiro de um terreiro que ficava às margens da estrada que ligava Cuiabá a Barão de Melgaço, partindo da BR 163, na serra de São Vicente – uma opção que existe até agora – para encomendar um “trabalho” daqueles para proteger o Dom Bosco contra o Internacional e seu presidente “congueiro”.

Dois dias depois, um dirigente do azulão procurou Fava para lhe dizer que César o havia convencido a levá-lo ao terreiro onde o dombosquino não tinha ido coisa nenhuma para comprovar se o “trabalho” havia sido feito mesmo. Para sorte de Fava, o pai de santo havia viajado e ninguém sabia quando ele ia voltar...

Às vésperas do jogo, Fava comunicou a César que havia reforçado mesmo o “trabalho” do terreiro do interior com um outro em uma tenda do lendário bairro Cruz Preta, de Cuiabá. A tenda ficava nas imediações da Rua Benedito Leite, quase esquina com a Barão de Melgaço.

César queria porque queria conhecer o lugar, mas Fava foi irredutível: “O pai de santo vai nos ajudar, mas não quer falar com ninguém. Só falou comigo! Não adianta insistir!...”

Na realidade, Fava havia inventado as duas histórias, era tudo uma grande cascata...

No dia da partida, Fava reuniu os dombosquinos já uniformizados no lugar onde trocaram de roupa e foi curto e grosso: por ordem do pai de santo da tenda do bairro Cruz Preta todos tinha que participar de uma prece, rezando um Pai Nosso e uma Ave Maria, que ele próprio puxou, acompanhado pelos jogadores e alguns diretores, na mais profunda contrição...

– Até hoje eu fico arrepiado quando me lembro da demonstração de fé dos jogadores na hora da oração. Uma coisa inacreditável... – revela Fava – que não se lembra do placar, mas garante que o Dom Bosco, efeito ou não da fé ou da crença dos jogadores na macumba, ganhou o jogo...

Velhos moradores das imediações da calçada onde está fincada a cruz preta, que ainda hoje de vez em quando amanhece com oferendas, dizem que nas proximidades do local funcionou durante muitos anos uma tenda de um preto velho que só fazia o bem para a população do bairro, receitando panaceias e benzendo crianças e adultos, curando suas doenças e amenizando seus sofrimentos...   

Perto dali existia também um tronco onde eram açoitados os escravos de uma grande fazenda do século 18 em Cuiabá e cuja sede administrativa funcionava onde fica hoje o Sesc Arsenal.

Certo dia, o feitor da fazenda açoitou no local uma escrava e prostituta até a morte.  Revoltada, a população da região queimou a cruz que era de madeira e tempos depois mandou fazer a cruz preta, de ferro, que deu nome ao bairro e está fincada, meio escondida, na calçada da Rua Benedito Leite.
               


      

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Neymar deu muito trabalho ao massagista Malaquias quando seu pai defendeu o Operário

Neymar pai, Neymar Jr.
 e a irmã Rafaella em
 Várzea Grande
(Foto de Saturnino José da Costa)

Jogador de bola mais bem pago do mundo da atualidade, com os R$ 110 milhões anuais (livres de impostos) que passa a receber do Paris Saint Germain, a celebridade Neymar Jr. faz parte também do folclore do futebol mato-grossense, como o menino que deu muito trabalho a Geraldo Malaquias Rosa, que durante mais de 30 anos foi massagista do Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, quando seu pai, Neymar da Silva Santos, defendeu e foi campeão, o lendário “Chicote da Fronteira” no Campeonato Estadual de 1997.

Mas como Neymar Jr., então com seis anos de idade, dava tanto trabalho ao veterano Malaquias?

É que o Operário realizava seus recreativos nos finais de semana nas dependências da antiga Codemat, no Carrapicho, ou no Iate Clube, no Costa Verde. E onde aparecia uma bola, lá estava Neymar, burlando a vigilância de seu pai e do próprio Malaquias, e correndo atrás dela. Por isso é que o Neymar pai não levava o Neymar filho para os treinos coletivos e táticos, nos quais os técnicos geralmente utilizam muitas bolas.

– O Neymar era um bom menino, meio peralta, como todo garoto nessa idade. Fora disso era bem educado. Mas não podia ver uma bola que saía correndo atrás dela. Aí eu tinha que sair correndo atrás dele para retirá-lo do campo – afirma Malaquias, hoje com 63 anos de idade.

Como a família do craque famoso, considerado hoje um dos melhores jogadores do mundo, veio parar em Várzea Grande?

Aconteceu o seguinte: em 1997, o presidente do Operário, Antonio Gonçalo Pedroso Maninho de Barros, em busca de reforços para o tricolor, foi a Paranaguá assistir um amistoso da extinta Associação Paranaguá Esporte Clube – que chegou a disputar em 2001 o campeonato da quarta divisão do Paraná – contra o Atlético Paranaense. O tricolor estava muito interessado em alguns jogadores do Atlético, entre eles Laurinho, para montar um timaço para disputar o título da temporada.

Mas durante a partida em Paranaguá, Maninho de Barros teve sua atenção despertada pela maneira como jogava um atacante da APEC, que além da habilidade com que tratava a bola com os dois pés, era goleador. Inclusive marcou dois gols naquele jogo, um em cada tempo, contra o poderoso adversário da capital paranaense...

Terminado o jogo, Maninho de Barros pediu a Laurinho, que acabou vindo para o Operário com outros atleticanos, que o apresentasse ao ilustre desconhecido, o Neymar. Conversa vai, conversa vem, o presidente operariano convidou Neymar para defender o seu clube. Neymar disse que precisava consultar a mulher, mas pediu o telefone de Maninho de Barros para um eventual contato depois.

Um dia, Maninho de Barros recebeu uma chamada interurbana: era Neymar, comunicando que estava disposto a vir para Várzea Grande. Mas havia um problema para a mudança: além da mulher Nadine, ele tinha duas crianças: o menino Neymar Jr. e a menina Rafaella. 

– Isso não é problema, Neymar. Pegue a mulher, as crianças, o cachorro, o gato, o papagaio e vem pra Várzea Grande o mais urgente possível... – respondeu-lhe Maninho de Barros. 

A estreia de Neymar no Operário foi contra o Cacerense, na primeira rodada do Campeonato Mato-grossense de 1997. Na viagem para Cáceres, no dia do jogo, a delegação tricolor fez uma parada no km 120 da BR 070 para a rapaziada tirar água do joelho, tomar um café e dar uma esticada nas pernas.

O ônibus da delegação partiu para completar a viagem. Mas depois do ônibus rodar uns 20 quilômetros, alguém percebeu que o jogador Neymar tinha ficado para trás. Por ordem de Maninho de Barros, o ônibus deu meia volta e retornou ao 120 para pegar o desgarrado jogador. 



Foi uma estreia em alto nível de Neymar, que além de ter jogado bem, fez o único gol da partida e que deu a vitória ao Operário. Aliás, o pai do Neymar, que virou personalidade mundial apesar dee ainda muito jovem, foi figura de destaque na conquista do título estadual de 1997 pelo “Chicote da Fronteira”. E o esquecimento de Neymar pai no meio do caminho na viagem para Cáceres passou também a fazer parte do folclore operariano.           

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Marcinho provocou Altivo com as mãos cheias de capim e levou um “carreirão” no Verdão

Marcinho
Os mais de 35 mil torcedores presentes ao Verdão ficaram sem saber o que estava acontecendo, quando Marcinho, do Mixto, em pleno jogo, saiu disparado como um raio pelo campo, como se fosse um corredor de 100 metros rasos, perseguido pelo grandalhão Altivo, do Dom Bosco, que apesar do seu porte físico avantajado, era também bom de pernas, obrigando o  alvinegro a mostrar suas virtudes como velocista para não ser alcançado.

Os jogadores também se perguntavam entre si o motivo daquela inusitada situação. Nas arquibancadas e gerais as torcidas mixtense e dombosquina presentes ao grande clássico se divertiam pra valer e até tentavam tomar parte no espetáculo extra futebol, com os alvinegros incentivando Marcinho a correr “mais duro” para fugir de Altivo, e os azulões gritando “pega...”, “bordoa ele...” em apoio ao zagueirão...

A partida, válida pelo Campeonato Mato-grossense e disputada em 1979 ou 80, precisava continuar. Depois de uns bons minutos de diversão da torcida e um grande cansaço de Marcinho e Altivo, os jogadores que participavam do clássico – Toninho Campos, Bife, Nelson Vasques, Fabinho e Ernani (Mixto) e Adilson, Bargas, Gonçalves, Tuca, Fidélis, Pelego (Dom Bosco) -- resolveram acabar com o show extra para a torcida.

Afinal, precisavam saber o que estava acontecendo. Com muito custo, Altivo foi contido por dombosquinos e mixtenses, para alívio de Marcinho. Não foi fácil contornar a situação, porque o grandalhão Altivo estava a fim de pegar Marcinho de qualquer jeito para se vingar de uma grave ofensa, justamente diante daquela numerosa platéia, na época de ouro do futebol de Mato Grosso...

Aí o show que tanto divertiu a torcida naquela tarde no Verdão foi esclarecido: a confusão tinha sido causada por uma provocação intempestiva de Marcinho a Altivo. Aconteceu o seguinte: numa disputa de bola entre os dois jogadores, o zagueiro dombosquino, muito mais forte que o mixtense, derrubou Marcinho, que na queda bateu a boca no gramado.

Revoltado com o tranco que levou, Marcinho levantou-se com as duas mãos cheias de grama do Verdão e as levou na direção da boca de Altivo. Marcinho jura que não disse uma palavra ao adversário, mas nem precisava mesmo: Altivo entendeu que estava sendo comparado a um animal – cavalo, burro, jumento -- que come capim e decidiu partir para a ignorância ali mesmo. Mas para sorte de Marcinho, Altivo não conseguiu alcançá-lo. Também com o pique que Marcinho deu!...





quinta-feira, 27 de julho de 2017

Touceira, um jogador de 4 tempos...

Naquele distante 1954 apareceu no futebol de Mato Grosso, e foi convocado pelo técnico Jarbas Batista para defender a seleção mato-grossense, um jogador chamado Pedro Touceira. Falastrão como ele só, Pedro Touceira vivia dizendo com ar de superioridade que ele era o único profissional da seleção, pois já tinha jogado em várias equipes de fora de Mato Grosso na principal categoria do futebol brasileiro. O resto era resto...

Pedro Touceira jactava-se também de ser um jogador de 4 tempos, porque tinha fôlego para correr os 180 minutos como se a partida estivesse começando. Sua explicação para sua fantástica resistência: ele levava para a beira do campo uma moringa cheia d’água e uma rapadura. Quando começava a sentir cansaço, ele comia um pedaço de rapadura, tomava da água fresquinha da moringa e pronto: estava inteirinho de novo...

Ele gabava-se ainda de ter uma cabeçada potentíssima. E até jura­va que num dos treinos da seleção mato-grossense, num cruzamento para a área, ele cabeceou a bola com tanta força que o treinador Jarbas, que não havia acompanhado o lance, quis saber quem tinha chutado aquela bola com tama­nha violência no travessão que quase tinha derrubado o gol inteiro...

Terminada a longa fase de preparação da equipe, com muita dedica­ção do treinador Jarbas e dos jogadores, lá se foi a seleção mato-grossense para Minas Gerais enfrentar a mineira. O resultado do jogo o radialista e jornalista Romeu Roberto Memeu não se lembra, mas garante que Mato Grosso levou uma goleada daquelas de perder o rumo...

Mas há uma explicação para o fiasco: o jogo foi realizado no período noturno, no Estádio Independência, na época o maior de Minas Gerais, e os refletores foram o maior adversário dos craques mato-grossenses, que nunca tinham jogado à noite. Aliás, muitos deles nem sabiam que se jogava futebol à noite... 

Cada cruzamento para a área da seleção de Mato Grosso era um gol dos mineiros. Atrapalhado com o reflexo das luzes dos refletores, o arqueiro Dito Gasolina, que era vesgo, saía do gol feito barata tonta e não conseguia cortar ou pegar uma bola...

– Cadê a bola? – perguntava Dito Gasolina toda vez que via os joga­dores mineiros comemorando alguma coisa e a torcida fazendo a maior festa no Independência. 

– Olha para o fundo do barbante que você enxerga a bola! – respon­dia para Dito Gasolina quem estivesse mais perto dele...

A seleção de 1954 foi uma das mais fortes e competitivas que Mato Grosso formou nos bons tempos do futebol amador. O selecionado já havia eliminado Goiás e o Amazonas e tinha chances de desclassificar também Mi­nas Gerais se o jogo-returno fosse realizado em Cuiabá.

Mas como Cuiabá fica muito distante de Belo Horizonte e naqueles tempos o transporte aéreo era muito precário, o segundo jogo entre mato­-grossenses e mineiros foi marcado para o Estádio General Severiano, do Bo­tafogo, no Rio de Janeiro. Mesmo jogando à noite, Mato Grosso empatou por 2x2, resultado que custou sua eliminação.

O maior destaque do selecionado mato-grossense foi Zé Traçaia, que já era o vice-artilheiro do certame com 7 gols. A formação base da seleção era a seguinte: Dito Gasolina, Uir e Nascimento; Pacu, Bananeira e Muriaci: Lara, Uírton, Leônidas, Zé Traçaia e Dionísio.

(Reproduzido do livro Casos de todos os tempos Folclore do futebol de Mato Grosso, do jornalista e professor de Educação Física Nelson Severino).



terça-feira, 18 de julho de 2017

Torcedora queria festejar vitória do CEOV e acabou entalada em grade do Verdão...

Silvana: paixão doentia pelo Operário
Morando bem pertinho da então majestosa sede social do Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, na Avenida Couto Magalhães, em cujas imediações ficava também a “república” do clube, desde que se entende por gente Silvana Pompeu é ardorosa torcedora do tricolor. É uma paixão que já dura mais de 30 anos e que contamina toda a sua família.

O doentio fanatismo de Silvana pelo CEOV custou-lhe algumas doloridas surras, o que acontecia sempre que sua mãe ficava sabendo que ela tinha ido para o Dutrinha ou o Verdão, geralmente às escondidas, em caçambas ou carrocerias de caminhões, sem nenhuma segurança. Muitas vezes, Silvana foi e voltou a pé para os dois estádios, inclusive à noite, junto com grupos de torcedores, que, como ela, não tinha dinheiro para pagar ônibus da velha Nova Era, que de nova só tinha mesmo o nome...

Menina pobre, Silvana recorda dos tempos em que só ficava olhando nos estádios e campos onde o Operário jogava os torcedores comendo sanduiches, salgados, pipocas, chupando picolés, tomando refrigerantes e ela só na vontade!...

Mas Silvana cresceu, progrediu na vida e passou a desfrutar de uma condição financeira bem melhor do que a de antes, o que lhe permite nos jogos do CEOV em Cuiabá consumir tudo que os vendedores saiam e ainda saem pelas dependências do Dutrinha, do demolido Verdão e agora Arena Pantanal oferecendo aos torcedores.

“Consumo de tudo... lembro-me daqueles velhos tempos, sinto saudades e hoje mato a minha vontade, comendo e bebendo nos estádios tudo o que não tive quando era menina...” – afirma Silvana.

Os tempos mudaram, mas sua paixão pelo tricolor, não! Se o CEOV joga, Silvana está no estádio. Com ou sem a família, formada por ela, o marido, quatro filhos, uma nora e um netinho recém-nascido, que por força do ambiente onde vive, certamente vai se tornar operariano roxo...

Seu fanatismo pelo o velho Operário levou Silvana a se meter numa situação extremamente vexatória, no Verdão. Fim de jogo do Operário com o estádio lotado – ela não se lembra contra quem, nem quando – e Silvana, ainda menina, decidiu se juntar ao numeroso grupo de torcedores que havia invadido o campo, com permissão das autoridades, para comemorar a vitória com os jogadores.

No entanto, para entrar no campo, ela tinha que passar por uma das duas altíssimas grades que separavam a geral da arquibancada coberta, onde ficavam autoridades, os endinheirados, as cabines de rádio, etc. Sem nenhuma chance de pular o obstáculo para chegar ao portão que dava acesso ao gramado, Silvana decidiu passar para o setor das sociais através de uma das grades...

Mas depois de passar primeiro o corpo pela estreita grade, Silvana se deu conta que estava entalada. Por mais que ela tentasse, sua cabeça não passava pela grade, nem seu corpinho de menina de 11 anos voltava para trás. Foi um tempão de angústia e aflição.

Pedir socorro, nem pensar: primeiro pela vergonha do duplo vexame e segundo porque, com a algazarra dos operarianos no estádio, ninguém iria ouvir mesmo seus gritos. Com muita dor e sacrifício, ela conseguiu se desentalar...

Acostumada a varar o Dutrinha e o Verdão, por não ter dinheiro para comprar ingresso, Silvana pulou muitas vezes o muro da sede social do Operário, na Couto Magalhães, para participar de comemorações de torcedores do clube. E não era só Silvana que fazia isso, pois muitas de suas amigas, pobres como ela, mas apaixonadas pelo tricolor, também pulavam o muro!...

Dos tempos de vizinhança com a “república” do Operário, Silvana guarda boas recordações de jogadores que passaram pelo tricolor e que sempre trataram com carinho as meninas e os meninos que moravam nas imediações. Entre eles, Silvana destaca Caruso, Dito Siqueira, Ivanildo, Adalberto, Upa Neguinho, Mão-de-Onça e Panzarielo, que chamavam carinhosamente de Panzá...

Naqueles velhos tempos do bom futebol profissional de Mato Grosso, Silvana participou de inúmeras comemorações de vitórias e conquistas operarianas, muitas das quais nas ruas, principalmente perto da sede social e que acabavam interditadas ao tráfego de veículos. Numa delas, que virou um grande carnaval, e varou a madrugada, ela levou tanto pisão nos pés descalços que algumas semanas depois ficou sem as unhas dos dez dedos...






sexta-feira, 14 de julho de 2017

Freiras de ouvidos sensíveis


Julho de 1946: para comemorar a retomada de Corumbá, que duran­te a Guerra do Paraguai tinha caído nas mãos das tropas do ditador paraguaio Solano Lopes, foi formada naquela cidade do sul do então Mato Gros­so indiviso uma seleção para realizar alguns jogos em homenagem aos heróis corumbaenses. Um dos times convidados para participar das comemorações foi o Mixto.
Um dia antes do jogo, disputado no dia 7 daquele mês, com vitória do Mixto por 4x1, e com direito a uma briga que envolveu todo mundo que estava no estádio, a delegação do Mixto embarcou para Corumbá. A viagem foi feita de avião pela extinta Cruzeiro do Sul, que cobria o trajeto Cuiabá-Corumbá. Para muita gente, uma novidade andar de avião!
Para chefiar a delegação num evento tão significativo não só para Co­rumbá, mas para todo Mato Grosso, a diretoria do Mixto convidou o presidente da Federação Mato-grossenses de Futebol, Álvaro Miguéis. Português radicado há pouco tempo em Cuiabá, às vezes Miguéis dava a impressão de que era bruto como uma porta.
Mas não era nada disso. Acontece que por falta de maior familiariza­ção com a nossa língua, de vez em quando ele despejava, inconscientemente, impropérios que revelavam um caráter que estava muito longe de ser o que Mi­guéis era de fato.
A delegação mixtense estava empolgada com a viagem de avião. Uma gozação aqui, uma piadinha ali, uma risada mais alta, a descontração foi toman­do conta de todo mundo. Não demorou muito e começou a surgir entre os joga­dores alguns destemperos verbais, palavras chulas...
No avião, três feiras que não estavam gostando nada do comporta­mento da delegação – ou parte dela – mixtense. Lá pelas tantas, uma das freiras quis saber quem estava na chefia dos jogadores. Identificado, lá se foi a freira queixar-se a Miguéis contra os palavrões que estavam ferindo os sensíveis ouvi­dos delas.
Miguéis, com muita tranquilidade, olhou para a religiosa e sentenciou. “Deixe estar, dona freira, que vou ordenar para os jogadores não falarem mais besteiras. E ai dos gajos que não me obedecerem: vão se fuderem comigo!...”

(Reproduzido do livro Casos de todos os tempos   Folclore do futebol de Mato Grosso, do jornalista e professor de Educação Física Nelson Severino).

terça-feira, 27 de junho de 2017

Concentração na cadeia e fim de carreira


Foi em 1958, depois da delegação do Mixto passar um final de semana concentrada na Cadeia Pública de Campo Grande, para enfrentar a seleção amadora da cidade que o meia armador Uírton decidiu encerrar uma longa carreira no futebol mato-grossense. Isso mesmo: tração na Cadeia Pública. Os jogadores dormiam em redes de cordas da Aero­náutica e comiam junto com o pessoal da guarda da prisão.
Outro fato concorreu para Uírton tomar a decisão de parar. No de­correr do jogo, no domingo, e cujo resultado Uírton não se lembra, a seleção marcou um gol através de um jogador que era cabo da Aeronáutica. Para co­memorar o gol, o militar pegou a bola e deu um chute de peito de pé nela, fazendo a rede estufar.
O zagueiro Nascimento Cachorra interpretou o gesto do adversário como uma ofensa e não vacilou: deu um violento pontapé na perna do adver­sário. Pronto! Estava armado o maior pampeiro. Enquanto o cabo rolava no chão, simulando uma contusão grave, a torcida invadiu o campo e partiu para a agressão contra os mixtenses.
Em minoria, os jogadores alvinegros se defendiam como podiam, mas estavam levando porradas de todos os lados da torcida campo-grandense. Só não houve um massacre nesse jogo porque de repente entrou em campo um numeroso grupo de tenentes do Exército que estavam fazendo um estágio numa unidade militar de Campo Grande e conseguiu dominar a situação.
Muitos mixtenses saíram de campo machucados. Uir, irmão de Uír­ton, teve que ser carregado para o vestiário, pois não conseguia nem andar. Ele tinha levado numa das pernas uma violenta bicuda de um torcedor que estava calçado de botina e tinha entrado na pancadaria para bater nos mixtenses.
Na realidade, desde que deixou o Atlético Mato-grossense para ingressar no Mixto, em 1949, depois de passar também pelo Paulistano e o Operários Futebol Clube, Uírton tinha um sonho na vida: virar motorista. Ele gostava de jogar bola, mas a vontade de um dia ser motorista era muito maior...
Com sua ida para o Mixto, seu sonho começou a virar reali­dade. Aos domingos, quando não tinha jogo, o diretor do Departamento de Saúde de Mato Grosso, Henrique de Aquino, passava horas ensinando Uírton a dirigir. Os dois saíam de Cuiabá e depois que passavam a Ponte Velha, Aqui­no entregava o carro para Uírton. Naquele tempo, a hoje Avenida da FEB era uma ruela deserta...
Em setembro de 1949, Uírton recebeu sua primeira carteira de motorista. Com a habilitação na mão, ele passou a conciliar o futebol com a nova profissão. Trabalhando no Departamento de Saúde, periodicamente ele ia para Campo Grande levar hansenianos – naquele tempo, chamados de le­prosos – para tratamento na Colônia São Juliano.
Os hansenianos que iam chegando a Cuiabá eram confinados casa no bairro São João, onde ficavam aguardando o dia de viajar. Se eram poucos doentes, a viagem era feita numa ambulância do Departamento de Saúde; acima de 15, iam numa jardineira da Saúde Federal.
Recorda Uírton que ele saía com muito dinheiro para as viagens para Campo Grande e com uma ordem expressa: não deixar faltar nada para os do­entes. Além das refeições, se precisasse ele podia comprar remédios, calçados, roupas, cobertores, para os hansenianos. Era só prestar contas depois.
– Eu tinha muitas oportunidades de falsificar notas fiscais, mas nun­ca fiquei com um centavo dessas viagens – orgulhava-se Uírton, que se aposen­tou com um salário de apenas R$ 350,00 e morreu pobre.
O emprego de Uírton no Estado não durou muito tempo. Na eleição para governador de Mato Grosso em 1950, disputada por Fernando Correa da Costa (UDN) e João Ponce de Arruda (PSD), Uírton foi recrutado para traba­lhar no dia da votação. Sua função: pegar comida no Restaurante Esplanada (onde está hoje a Lojas Riachuelo, na Avenida Getúlio Vargas), numa jardi­neira da CER (Comissão de Estradas de Rodagem) e levar para os mesários de uma sessão eleitoral que funcionava num imóvel onde hoje é o Shopping Popular.
Na hora de pegar a comida, Uírton notou que havia muitos pratos com molhos e caldos que fatalmente iam derramar até ele chegar ao destino. Aí, uma mulher que acompanhava uma conversa entre Uírton e um empre­gado do restaurante sobre o problema dos pratos caldeados, ofereceu-se para levá-los no colo, pois estava indo para aquelas bandas. Ele aceitou, muito agra­decido, a gentileza da senhora.
Para chegar à seção eleitoral, Uírton tinha que passar pela casa de Ponce de Arruda. E para azar seu, uma cunhada do candidato identificou a mulher que estava na jardineira: era eleitora da UDN. Além de ter advertido Uírton por ele estar carregando na jardineira uma pessoa adversária do parti­do que apoiava Ponce de Arruda, a cunhada do candidato ainda o denunciou ao diretório do PSD. Dias depois da eleição, Uírton recebeu uma carta do dire­tório regional do PSD comunicando sua demissão do emprego...
No Mixto, clube em que Uírton jogou durante 10 anos, ganhando inclusive um tetracampeonato – 51, 52, 53 e 54 – os jogadores recebiam apenas prêmios nas vitórias (20% da renda) e empates (10%). No entanto, muitos jo­gadores caras de pau achavam sempre um jeitinho de beliscar um dinheirinho por fora dos dirigentes mixtenses, mas Uírton não. Ele tinha vergonha até de ir à Imprensa Oficial do Estado para receber do diretor do Mixto e da empresa estatal, Ranulpho Paes de Barros, os “bichos” por vitórias e empates...
A falta de perspectivas no alvinegro levou Uírton a ir fazer um tes­te num time de Uberlândia, em Minas Gerais. O centroavante Leônidas, que tinha esse nome porque era bom na bicicleta, jogada inventada por Leônidas da Silva, o Diamante Negro, tinha trocado o Mixto pelo clube de Uberlândia e havia recomendado Uírton, seu irmão Uir e o goleiro Dito Gasolina ao técnico do time mineiro.
Um empresário veio a Cuiabá buscar os três, com promessas vanta­josas. Quando chegaram a Uberlândia ficaram assustados: havia uns 100 joga­dores na “república” do clube sendo submetidos a testes. Logo nos primeiros treinos, os três mixtenses começaram a fazer sucesso, confirmando as referên­cias de Leônidas.
No dia do teste final, Dito Gasolina chegou de madrugada na “re­pública” bêbedo feito um gambá. Foi uma vergonha para os cuiabanos. Mas vergonha maior estava por vir ainda. Dito Gasolina acordou de ressaca e foi treinar. Resultado: engoliu frangos de bola chutada até do meio de campo...
Terminado o treino, o empresário comunicou a Dito Gasolina que o clube preferia o outro goleiro que estava sendo testado. Mas os irmãos Uírton e Uir seriam contratados.
Uir estava de casamento marcado em Cuiabá e avisou o empresário que depois do casório decidiria se aceitaria a proposta do clube uberlandense, que incluía, além de prêmios por vitória e empates, aluguel de casa e comida de graça para ele e a mulher. Uírton receberia o mesmo tratamento.
Mas Uírton preferiu retornar a Cuiabá para o casamento do irmão e refletir melhor se voltaria ou não. E não voltou. É que Uírton, ainda garotão, tinha tido uma desavença com um jogador do clube mineiro, de nome Djalma, que vivia gozando os cuiabanos dizendo que Cuiabá era uma cidade de índios e animais selvagens e que os três tinham que andar de mãos dadas em Uber­lândia para não se perderem...
Em 1960, Uírton arrumou uma nova mulher e foi embora para Co­rumbá, onde jogou durante seis anos no time dos motoristas da Cimento Itaú. Por ser formado só de motoristas, o time chamava-se São Cristóvão, o santo protetor dos profissionais do volante.
De volta a Cuiabá, um dia Uírton foi procurar o vice-governador, o médico José Monteiro (Zelito) de Figueiredo, para pedir que ele o ajudasse a conseguir um emprego de motorista da Cemat, que tinha acabado de com­prar uma C 10 zerinho. O vice-governador rabiscou um bilhete numa folha de caderno e mandou Uírton levar para o presidente da Cemat, um irmão do governador José Fragelli, de nome Cláudio, um sujeito prepotente que não recebia cuiabanos.
Uírton foi procurar Cláudio, com o bilhete nas mãos, porém asses­sores do presidente da empresa lhe disseram que ele não seria recebido. Mas entregariam seu bilhete a Cláudio Fragelli.
– É lá do governo. Tenho ordens de entregar pessoalmente ao presi­dente – disse com firmeza Uírton.
Foi recebido. Depois de uma ligeira conversa entre os dois, Cláudio, com o bilhete de Zelito nas mãos, disse-lhe secamente: “Chegue amanhã cedo para começar a trabalhar...”
Uírton trabalhou muitos anos na Cemat. Como motorista, vivia via­jando com um contador da empresa e cujo nome não se lembra, que saía por Mato Grosso fazendo cobranças. “Muitas vezes a gente voltava para Cuiabá com a C 10 cheia de sacos de dinheiro. Naqueles tempos não tinha esses negó­cios de assaltos desses bandidos de hoje...” – lembra ele.
Recorda Uírton que sua passagem pela Cemat foi um período de boa vida. O contador era chegadinho numa cerveja e Uírton não ficava para trás. Dinheiro era o que não faltava para os dois. “Nossa vida era só alegria...” – re­cordava com saudades.

(Reproduzido do livro Casos de todos os tempos  Folclore do futebol de Mato Grosso, do jornalista e professor de Educação Física Nelson Severino).  

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Com a documentação queimada, Dom Bosco virou um clube sem memória


Ficar de forma irreversível sem a memória de uma história que está completando neste 2017  92 anos, por conta de uma insana vingança de um ex-presidente – este foi o alto preço que o Clube Esportivo Dom Bosco, o mais antigo do futebol de Mato Grosso (foi fundado dia 4 de janeiro de 1925) pagou pela ousadia de ter desafiado Lino Elcídio Belmonte de Miranda e impedido, através da Justiça, que o polêmico dirigente continuasse à frente dos destinos da agremiação, depois de uma década marcada por desmandos e estripulias que quase levaram o azulão à falência.

Após passar por alguns setores do clube, sempre com destaque na mídia, Lino Miranda chegou a presidência do Mixo em 1978 e ficou no cargo até 1984, levando o alvinegro a conquistar o tetracampeonato estadual em 79 (ano da divisão de Mato Grosso), 80, 81 e 82. Advogado e profundo conhecedor dos bastidores da bola, Miranda virou uma lenda do futebol pelas confusões que aprontava: comprava jogadores e não pagava; vendia e não entregava...

Em Maringá, no norte do Paraná, Miranda era conhecido como “frente fria”, pois toda vez que fazia algum negócio com o clube da cidade, o Grêmio Esportivo Maringá, era calote certo. Ele inclusive era acusado de assinar documentos com canetas cuja tinta se apagava horas depois, tornando-os sem efeito. O falecido roupeiro mixtense Benedito Lisboa do Nascimento muitas vezes foi apresentado por Lino Miranda a gerentes de bancos como presidente do alvinegro para conseguir empréstimos para o clube. Mas Lino Miranda nunca lhe passou a perna...

Depois de deixar o Mixto, Lino Miranda ficou uns seis anos no ostracismo, mas de repente apareceu no Dom Bosco. Bom de bico, astuto advogado, considerado um “avião”, no mundo da bola, disputou a eleição de 1985 e elegeu-se presidente. Em 1991, no seu segundo mandato, ele levou o Dom Bosco a ganhar o Campeonato Mato-grossense de Futebol, quebrando um jejum de mais de duas décadas, passando a ser venerado pela torcida dombosquina.

Distribuindo sem parcimônia títulos de sócio remido, Lino Miranda foi garantindo sucessivas reeleições. Na última tentativa de reeleição, porém, a velha guarda dombosquina entrou na Justiça com uma ação inominada, com pedido de liminar, que o afastou temporariamente do cargo. No entanto, Lino Miranda não desistiu e entrou com um agravo de instrumento no Tribunal de Justiça de Mato Grosso contra a ação inominada. Mas foi derrotado e, consequentemente, apeado do poder.  

A vingança de Lino Miranda pela derrota na eleição chegou ao extremo da insanidade: ele pegou toda a documentação do Dom Bosco, inclusive fotografias de importantes eventos de maior realce do clube, amontoou sob uma mangueira na sede social do azulão no Morro da Colina Iluminada, embebeu em álcool que mandou um empregado comprar e meteu fogo. “Eu vou embora Dom Bosco, mas levo a sua história comigo...” – repetia Lino Miranda, enquanto a papelada virava cinzas e ele caminhava para porta de saída do clube pela última vez...

         
        
       

   

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Rivalidade entre UDN e PSD até em concurso de beleza facilitou ao Operário construir sua majestosa sede social

A Rainha Sarita, com Renatinho, neto de
Rubens dos Santos e 1º mascote do
 Operário. (Foto: acervo Zé  Pulula)
Fundado no dia 1º de maio de 1949, com as bênçãos do bispo dom Campelo de Aragão, que tinha vindo de Goiás para criar em Mato Grosso vários Círculos Operários, considerados uma versão urbana das Ligas Camponesas que Francisco Julião, do Partido Comunista Brasileiro, espalhava Brasil afora, principalmente pelo Nordeste, o Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, virou logo uma paixão da população de Várzea Grande. E esse era o objetivo do Círculo Operário: agrupar para fortalecer os trabalhadores.

Mas era preciso reforçar a aglutinação da torcida e não ficar restrita só ao futebol. Surgiu, naturalmente, a ideia de se construir uma sede social para promover festas que atraíssem toda a sociedade várzea-grandense, que, a exemplo da de Cuiabá, não tinha muitas opções de lazer. Porém, a construção de uma sede social custaria muito dinheiro, que o clube não tinha. 

Foi aí que surgiu outra ideia: a realização de um concurso de beleza para eleição da Rainha do Clube Esportivo Operário Várzea-grandense e cuja vencedora seria a que vendesse o maior número de votos. O dinheiro apurado com a venda de votos das candidatas seria totalmente investido na construção da sonhada sede social do clube. 

Para surpresa da sociedade várzea-grandense nada menos que seis jovens se candidataram ao concurso de Rainha do CEOV. E o dinheiro começou a entrar no clube. Sucesso à parte da grande promoção social, a surpresa maior e mais agradável estava ainda por vir: na reta final do concurso ficaram duas candidatas disputando o título (Sarita Baracat e Luzia Marques de Arruda) com a entrada em cena dos dois maiores rivais da política de Várzea Grande -- a UDN (União Democrática Nacional) e o PSD (Partido Social Democrático).

Melhor para o Operário: a UDN, liderada por Benedito Gomes da Silva e Gonçalo Botelho de Campos, dois pesos pesados da política de Várzea Grande, e o PSD, com Licínio Monteiro da Silva e Júlio Domingos de Campos, o seu Fiote, dois caciques do partido, decidiram engalfinharem-se também no esporte, investindo pesado nas duas candidatas, com os udenistas apoiando Sarita e o pessedistas, Luzia.

Resultado da rivalidade que desaguou numa briga política dentro do esporte: com o dinheiro da promoção do concurso de beleza, o Operário construiu uma bela e espaçosa sede social que ficava na Avenida Couto Magalhães, esquina com a Rua Miguel Leite, e ainda sobrou dinheiro para o clube investir no time de futebol – lembra com saudades daqueles tempos a Rainha eleita, Sarita Baracat.

A sede social do Operário foi palco de memoráveis festas, inclusive carnavalescas, que sacudiam a sociedade várzea-grandense. Artistas consagrados como Nelson Gonçalves, Agnaldo Timóteo, Lindomar Castilho, Jerry Adriani e até a popozuda Gretchen animaram bailes do Operário e que não terminavam antes do sol raiar.

Claro que muita gente de Cuiabá e até da Baixada Cuiabana participava das monumentais promoções sociais do tricolor, porem, disfarçadamente, por causa da rivalidade que sempre existiu entre várzea-grandenses e cuiabanos e que extrapolava ao futebol. E o dinheiro jorrava nos cofres do CEOV, através de suas promoções e também do seu quadro associativo.

Irmã de Rubens dos Santos -- que aboliu o Baracat do nome – mandachuva de primeira hora do CEOV, Sarita Baracat, hoje com 85 anos de idade, participou ativamente da vida do tricolor desde a sua fundação. Ela foi inclusive secretária do clube durante 15 anos, período em que reinou também como uma espécie de Rainha do tricolor.

Mesmo depois de se enveredar pela política – foi vereadora de Várzea Grande de 1957 a 1961, a primeira prefeita municipal (de 1967 a 1970) e também a primeira deputada estadual de Mato Grosso, eleita em 1979 -- Sarita continuou participando ativamente da vida do Operário, cujo velho hino sabe de cor até hoje. Foi sob sua administração que o Operário conquistou o tricampeonato profissional em 67, 68 e 69. 

Lembra Sarita que o primeiro centenário de emancipação política de Várzea Grande em 1967 foi comemorado na administração de uma prefeita, a dela. E agora, quando Várzea Grande festejou a data histórica de 150 anos, o município está de novo sob o comando de uma mulher, Lucimar Campos. 

Sarita recorda até do primeiro jogo que o Operário disputou em Cuiabá, no antigo Colégio Estadual – hoje Liceu Cuiabano Maria de Arruda Muller – e que tricolor perdeu pelo placar de 10x1. O nome do adversário ela não se lembra mais. Nesse dia – vem a sua memória também -- outro fanático torcedor tricolor, Licínio Monteiro da Silva, ficou tão furioso que chutava até a própria sombra no campo e só se acalmou quando no final do jogo Tatu marcou o golzinho operariano.

Muito ligada desde criança ao futebol, Sarita acabou se casando com um jogador de bola, Emanuel Benedito de Arruda, o Caboclo, que foi vereador e inclusive presidiu a Câmara Municipal de Várzea Grande em 1972. O cunhado de Sarita, João Garrucha, também foi político e jogador de futebol.

Sobre João Garrucha, segundo dizem, muita gente não gostou do fato de ele ter sido sepultado com a primeira bandeira do Operário, cujas letras estampadas no pavilhão tricolor comprovam que o primeiro nome da equipe várzea-grandense foi mesmo Operário Futebol Clube, com o Clube Esportivo Operário Várzea-grandense (CEOV) vindo depois.

A professora Mari Conceição Costa Campos não se lembra o ano em que um diretor do Operário chegou a sua casa, pedindo-lhe que desse os retoques finais na bandeira do clube. Era a primeira bandeira do tricolor e o trabalho tinha que ser feito com urgência. Mari nem costureira era na época – estava com 18 anos -- mas aceitou a incumbência. A bandeira já estava pronta, só faltavam alguns arremates, entre os quais, pregar as letras das iniciais do clube e cujas cores eram verdes – disso ela se recorda com certeza... 

Do passado glorioso do CEOV e cuja brilhante história ajudou a construir, Sarita guarda uma mágoa: um clube que já teve uma sede social como a do Operário e começou até a implantar sua Vila Olímpica, no Carrapicho, numa área de 38 hectares, não ter hoje nem um campinho próprio para treinar...
     
       

    


quarta-feira, 7 de junho de 2017

Canivetadas na bola enfeitiçada


Semana de muita agitação no Porto, com a aproximação de mais um jogo importantíssimo entre o Palmeiras e o Mixto pelo Cam­peonato Amador de Cuiabá no limiar da década de 60. Quem ganhasse ficava numa posição privilegiada em relação à conquista do título da temporada.

No sábado, véspera do jogo, a população do Porto, cuja adoração pelo verdão chegava às raias da loucura, amanheceu de cabelos em pé, com a circulação, de boca em boca, de uma notícia que varreu o bairro com a força de um furacão: na noite anterior, a diretoria do Mixto tinha ido a um terreiro de macumba da cidade e feito um “trabalho” da pesada para assegurar anteci­padamente a vitória no jogo de domingo.

A feitiçaria incluía até um despacho especial sobre a bola virgem que o Mixto também tinha que levar para o campo, como mandava o regulamento do campeonato, apesar do mando do jogo ser do adversário...

Apavorados, diretores do Palmeiras se reuniram às pressas para achar uma saída para desmanchar a mandinga. Mas chegaram a uma melan­cólica conclusão: de que adiantaria convocar um batalhão de pais de santos dos mais famosos da região se as divindades que eles incorporam, como os te­midos exus, caboclos e tranca-ruas, só baixam nos terreiros nas sextas-feiras?

Decididamente, o Mixto tinha feito o “trabalho” como mandam as regras da macumba, eliminando qualquer possibilidade do Palmeiras desfazer a feitiçaria...

Chegou a hora do jogo, com a torcida do Palmeiras com os cabelos mais arrepiados ainda do que já estavam, a partir do momento que a notícia da feitiçaria chegou ao Porto.

Para piorar ainda mais o estado emocional dos jogadores do Palmei­ras e a aflição dos seus torcedores, na hora de escolher a bola para o jogo, o juiz da partida, depois de examiná-las e quicá-las no gramado para averiguar se estavam adequadamente cheias, optou pela do Mixto, justamente a que havia sido “trabalhada” pelo batalhão de macumbeiros.

O campo do Arsenal, onde o Palmeiras mandava seus jogos, estava apinhado de gente. Começou o jogo e o Palmeiras levava um show de bola. O Mixto fez 1x0, 2x0, 3x0 antes virar o primeiro tempo.

Desesperado, o diretor do Palmeiras José Dias de Oliveira, filho do seu Avelino Barbeiro, famoso barbeiro do Porto, começou a circular em torno do campo, correndo de um lado para outro, para chegar onde a bola saía. Mas sempre chegava tarde.

De repente, a bola foi parar nas mãos de Zé Dias. Mas em vez dele devolvê-la rapidamente ao jogo, pois seu clube estava perdendo feio, para sur­presa de todo mundo, quando o gandula foi pegar a bola de suas mãos, Zé Dias sacou do bolso um canivete deste tamanho e enfiou até o cabo nela. E repetiu o gesto várias vezes...

O restante do jogo foi disputado com a bola do Palmeiras. Só que não adiantou nada: o Mixto ganhou o jogo de goleada...


(Reproduzido do livro Casos de todos os tempos Folclore do futebol de Mato Grosso, do jornalista e professor de Educação Física Nelson Severino).

quinta-feira, 1 de junho de 2017

A preguiça provocou o fim precoce da promissora carreira de Priss no futebol

Priss: vencido pela preguiça...
Encerrado o coletivo-apronto do Atlético Mato-grossense para o jogo do final de semana contra o Operário Várzea-grandense, o treinador Makários Zenagape dos Santos chamou Priss, que jogava de volante no time de aspirantes, e determinou que ele desse dez voltas completas, correndo normalmente, em torno do campo. O jogador não entendeu nada, mas cumpriu a ordem sem fazer perguntas.

Assim que Priss ou Luiz Neves de Almeida Filho -- que não sabe a origem do seu apelido -- terminou a corrida, Makários se aproximou dele e disse na presença de outros jogadores: “Você está bem fisicamente como os outros jogadores. E como o Darci Avelino – que quando foi para o Operário virou Darci Piquira – está machucado e não pode jogar domingo, você vai entrar no lugar dele na lateral esquerda...”
O garotão Priss tentou justificar que não estava preparado para um jogo daquela importância, ainda mais numa posição em que nunca havia atuado antes, mas recebeu imediatamente o apoio de Washington, Luiz Toucinho, Ditinho Olho de Bolita, Fulepa, Jeca, Portela, Lico, Mitu e outros craques consagrados do poderoso time atleticano do final da década de 1960.

Dutrinha lotado, o Atlético Mato-grossense venceu o jogo por 3x2, vitória que merecia uma comemoração especial. Empolgado, Priss decidiu comemorar o triunfo do time e o seu próprio, como titular pela primeira vez, num bailão no domingo à noite na sede social do Operário, em Várzea Grande. Queria festejar mesmo!...

Mas quando chegou na portaria do clube, acompanhado de Ditinho Olho de Bolita, foi advertido pelo companheiro: “Nem pense em se identificar como jogador do Atlético Mato-grossense porque senão vamos entrar na taca aqui mesmo na entrada, não vamos nem chegar lá dentro para apanhar...”

Priss foi titular do timaço do Atlético Mato-gossense durante mais de três anos e só guarda boas recordações dos companheiros e também de Zenagape. Uma vez, ao final de um treino do time, o quarto zagueiro Washington perdeu a aliança de casamento. O solidário Zenagape tentou ajudar o jogador, oferecendo na época o que corresponderia hoje a R$ 200,00, para quem a achasse, mas ninguém encontrou o anel...

Durante seu longo tempo de titular no Atlético Mato-grossense, Priss foi aconselhado por muita gente que o considerava um verdadeiro craque da bola a procurar outros clubes de grande prestígio da época, entre eles Mixto, Dom Bosco e o Operário Várzea-grandense, com vistas a uma eventual carreira no futebol profissional. ”Eu nunca fui procurado por eles e não iria me oferecer...” – afirma, sem nenhum arrependimento.

No entanto, por trás de sua relutância em relação ao seu futuro como jogador de futebol, com uma carreira promissora pela frente, Priss admite que se esconde uma grande verdade: ele sempre foi um preguiçoso da maior marca. E só de pensar que teria que fazer longas caminhadas para treinar nos velhos tempos de um transporte coletivo urbano precário na Grande Cuiabá era um obstáculo intransponível para quem só queria saber de sombra e água fresca...

Dominado pela preguiça, Priss praticamente parou com o futebol quando os apaixonados atleticanos irmãos Matozzo (Décio, Áureo e Acir, este já falecido) passaram o comando do Atlético Mato-grossense para os irmãos Oliveira, do extinto Banco do Estado de Mato Grosso -- Bemat e que sob a nova direção entrou logo em processo de acelerado declínio até se extinguir. E só de vez em quando participava de uma ou outra “peladinha” no velho bairro do Porto, onde nasceu e sempre viveu, faz 69 anos, contanto que não precisasse correr...

Porém, não se afastou do futebol e continua frequentando o famoso campo do Bode, palco de memoráveis campeonatos e “peladas”, regadas a muitas mordomias, principalmente às segundas-feiras, dia folga quase obrigatória de milhares de pessoas que gravitam em torno do Terminal Atacadista do Porto. E virou também corneteiro de carteirinha da boleirada da tradicional feira e do populoso bairro.

Aos mais íntimos, Priss não se cansa de fazer ácidas críticas pelas suas falhas e engrossadas em jogos oficiais ou “peladas” no campo do Bode: “A sorte de vocês é que as bolas não falam. Se falassem, vocês iam ouvir muito lamento e até xingamentos pelos maus tratos que elas recebem de vocês. Bola é para ser acariciada com carinho, com amor e não ser pisada, chutada de bico e maltratada como vocês fazem com elas” – repete sempre para a rapaziada do Porto...