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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Treinador do Luverdense foi demitido por causa de uma “peneirada”...

Orlando Antunes
Em países onde a sobrevivência de treinadores de futebol de todos os níveis depende exclusivamente de resultados positivos – como é o caso do Brasil – esses profissionais também perdem o emprego pelos mais bizarros motivos. E em Mato Grosso, onde o profissionalismo foi implantado em 1967, algumas demissões de técnicos foram tão inusitadas que passaram a fazer parte do folclore do futebol estadual.

1971: o Palmeiras, do Porto, jogava em Campo Grande, contra o Comercial, pelo Campeonato Estadual. Terminado o primeiro tempo, o treinador Aírton Moreira, o Aírton Vaca Brava, ficou no campo dando entrevistas. Ao descer para o vestiário, encontrou a porta fechada. E a porta só foi aberta para o presidente Délio Oliveira anunciar que Vaca Brava estava demitido e o novo técnico alviverde a partir daquele momento era o argentino Juan Rollon...

1976: o técnico Roberto de Jesus César, o Careca, estava fazendo a preleção para o jogo que o Mixto ia disputar dali a pouco contra o Operário na decisão da vaga para o Campeonato Nacional daquele, quando o presidente mixtense Lourival Fontes chegou ao Hotel Mato Grosso. O massagista Benedito do Nascimento Lisboa não o deixou entrar na sala onde Careca conversava com a rapaziada. Careca foi demitido na hora por Fonbtes. Mas com a histórica vitória do Mixto por 3x2 a demissão deu em nada...

Agora, ser demitido por causa de uma “peneirada” é um fato inédito no futebol mato-grossense. Mas foi o que aconteceu, com uma figura muito conhecida nos meios esportivos, por causa de causa de sua longa carreira como árbitro de futebol no Paraná e em Mato Grosso e ultimamente como jornalista esportivo: Orlando Antunes.

No linguajar esportivo, “peneirada” é simplesmente treinos ou competições relâmpagos que clubes organizam periodicamente para que seus “olheiros” e até diretores possam avaliar as condições técnicas de garotos e até rapazes de idades mais avançadas que sonham em se tornarem “astros” da bola. Muitas vezes, seus pais sonham mais do que eles e bancam suas despesas quando ficam sabendo que clubes famosos vão realizar “peneiradas”.

O lateral direito Cafu, por exemplo, era participante renitente de “peneiradas”. Era reprovada em uma, mas na próxima de que ficava sabendo lá estava ele brigando para conquistar seu espaço no futebol. Sua insistência acabou dando certo, com Cafu se tornando jogador de bola. Tanto é que disputou várias Copas do Mundo como titular da Seleção Brasileira.

Em 2004, Orlando Antunes foi contratado para trabalhar como supervisor do Luverdense Esporte Clube, de Lucas do Rio Verde. No dia que ele se apresentou para iniciar seu trabalho, o treinador Diniz, que estava tentando montar o time que hoje disputa a Série B do Campeonato Brasileiro e é o xodó dos luverdenses, pediu as contas e voltou para Sorriso. O então e até hoje eterno presidente do Luverdense, Helmute Lawisch, não pensou duas vezes e virando-se para Orlando Antunes, disse-lhe no seu linguajar gauchesco: “Tu é o novo treinador a partir de agora...”

Escudado na sua longa vivência no mundo da bola como árbitro e os conhecimentos que havia acumulado em um curso de treinador de futebol, Orlando Antunes topou o novo desafio. Mas como montar um time de futebol em uma cidade que nem campos possuia? A moçada luverdense preferia o futebol soçayte e o futebol de salão, atividades esportivas muito prestigiadas pelas grandes firmas do município, e que lhes proporcionavam bons empregos...   

A decisão do hoje poderoso LEC era montar um time para disputar a principal divisão do futebol mato-grossense naquele ano. Uma determinação do presidente Helmute a Orlando Antunes: aproveitar o máximo de “pratas da casa” na equipe profissional. As “peneiradas” iniciadas por Diniz para formar a base tiveram sequência sob o comando de Orlando Antunes.

Depois de muitos treinos com a participação de quase 300 candidatos a boleiros nos campinhos de Lucas do Rio Verde, inclusive à noite, porque muitos deles, trabalhava durante o dia, o técnico marcou um coletivo para o local onde seria construído o atual Estádio Passo das Emas e que tinha dimensões oficiais. De tudo o que viu, apenas uns sete garotos de 17 e 18 anos chamaram a atenção de Orlando Antunes. Entre eles, Dudé, jogador versátil e único profissional do grupinho.

Antes do coletivo final, Helmute teve que fazer uma viagem de emergência, mas deu uma ordem expressa a Orlando Antunes: “Não dispense ninguém antes de eu voltar da viagem!...”

Terminado o coletivo, Orlando Antunes colocou os jogadores numa roda no centro do campo, pegou uma prancheta para nominar quem deveria se apresentar na segunda-feira. Entre os jogadores adultos que vinham participando das “peneiradas” não sobrou ninguém. “Minto. Sobrou Dudé...” – recorda Orlando Antunes.


Na segunda-feira bem cedo, já em Lucas do Rio Verde, Helmute Lawisch convocou Orlando Antunes para uma conversa e foi curto e grosso: “Tu não é mais treinador do time. Trocastes os pés pelas mãos e não me obedecestes. Estás fora e vai continuar somente como supervisor...”

Para Orlando Antunes deve ter sido a primeira vez que um treinador perdeu o cargo por causa de uma “peneirada”...    

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Contra o racismo, Batista Jaudy acabou, na bala, com carnaval do Dom Bosco...

Pinah com Jaudy na inauguração da sede
 Vestido como um autêntico sheik (líder muçulmano que se torna chefe de um país, uma região, uma cidade...), inclusive com direito a um serviçal negro para abaná-lo com um grande leque durante a festa, como era costume no Oriente Médio e na Ásia – uma tarefa que cabia a eunucos (escravos que eram castrados para trabalhar nos haréns) para seus donos não correrem riscos de ser traídos...

Foi com a originalíssima fantasia que o carnavalesco João Batista Jaudy chegou à principal portaria do Clube Esportivo Dom Bosco, no carnaval de 1973, bem no clima da festa momesca... já curtindo o sucesso que certamente ia fazer naquela noite!

Mas aí surgiu um probleminha que terminou virando um problemão e acabou na Polícia: a pessoa que Batista Jaudy havia contratado para abaná-lo durante a festa, como parte de sua fantasia, não fazia parte do quadro de sócios do Dom Bosco e não podia entrar. De jeito nenhum!

Batista Jaudy interpretou a decisão dos porteiros e de diretores do clube como uma inaceitável demonstração de racismo e armou a maior confusão. Depois de muito bate-boca, xingamentos, palavrões, empurrões, quedas, Jaudy deixou a sede do Morro da Colina, acompanhado do seu humilhado “escravo”, mas antes advertiu: “Me aguardem! Eu já volto...!”

Diretor do azulão, naquela noite Jorge Fava estava na portaria lateral do Dom Bosco em companhia da esposa Catharina da Costa e Silva Fava, grávida do primeiro filho do casal, Mário Giórgio Fava, hoje com 44 anos, quando de repente surge Batista Jaudy com um revólver em cada uma das mãos.

– Eu só tive tempo de dizer para mulher vamos nos esconder numa dessas salas que vai ter tiroteio aqui. E teve mesmo. Foi um esparrama geral no clube, que não teve nem carnaval naquela noite – lembra Fava.

E nem podia ter carnaval mesmo, pois muita gente foi levada à Polícia para prestar depoimentos sobre a confusão e os tiros na sede dombosquina. Mas a confusão causada por Jaudy acabou sem maiores consequências, com algumas pessoas envolvidas no tumulto fazendo as pazes e inclusive pedindo desculpas umas as outras. Entre elas, Batista Jaudy, naturalmente, o principal pivô do bafafá.

Para Fava, Jaudy devia estar muito alterado para acusar o Dom Bosco de racismo no episódio que teve grande repercussão na imprensa. “Afinal – lembra ele – o próprio presidente do Dom Bosco, José de Carvalho, era preto...”    
     
O personagem que levou Jaudy a se envolver naquele rolo, ao aceitar trabalhar como “escravo” do carnavalesco na festa dombosquina, era um simples lavador de carros e que exercia sua atividade nas praças Alencastro e da República. Seu nome: Clemente, que com o tempo virou Quelemente e finalmente Quelé, que muita gente passou a confundir com Pelé, por causa de sua cor e da semelhança do apelido com o famoso craque do Santos FC...

Trabalhando como engraxate há 57 anos no centro de Cuiabá, Aquilino Alves da Silva afirma que Quelemente era “gente muito boa”. E era louco por circo. Como nem sempre tinha dinheiro para pagar o ingresso nos circos que apareciam na cidade, ele ficava em pontos estratégicos nos lugares onde as pessoas tinham que passar até que alguém do circo mandasse-o entrar para deixar o acesso livre.

Quelé bebia muito. E faleceu faz muito tempo – segundo Aquilino. Dizem que certa noite, Quelé dormia em um banco da Praça Alencastro, quando rolou e caiu ao chão, batendo violentamente a cabeça no cimento. Na queda, sofreu fratura do crânio e morreu...

Bom de bola, Batista Jaudy foi revelado para o futebol quando estudava no Colégio Salesiano São Gonçalo. No futebol cuiabano jogou pelo Atlético Mato-grossense, Dom Bosco e Americano. Atuou também no Operário, de Campo Grande, quando serviu o Exército, em 1957, e ainda na Associação Recreativa do Catete e na seleção universitária fluminense, quando morou no Rio de Janeiro, entre 1957 e 1960.

No tempo em que morou no Rio, fez testes no América, treinado por Martim Francisco, e no Fluminense, cujo técnico era Zezé Moreira. Fez testes por fazer e por insistência de amigos, pois seu foco era mesmo os estudos. E mesmo morando no Rio, continuou jogando no Dom Bosco. Quando tinha jogo oficial, nos finais de semana Jaudy pegava um avião, vinha para Cuiabá, jogava e retornava no primeiro voo para o Rio.
     
Durante o tempo em que morou no Rio de Janeiro, o já falecido Batista Jaudy, virou um grande carnavalesco. Tanto é que ao retornar a Cuiabá após concluir o curso de Farmacologia e se formar também em Educação Física, em Lins-SP, ele tratou de criar a Banda U, embrião que se transformou anos mais tarde no Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Independente Universitária, que ele presidiu durante cinco anos, passando depois o comando para o professor Abílio Camilo Fernandes e Jaime Okamura.

A inauguração da sede da escola, em 1984, contou com a presença da carnavalesca carioca Pinah, que voltou a Cuiabá depois para desfilar como o principal destaque da escola na Avenida Mato Grosso com o enredo “O minhocão do Pari” e que levou a multidão ao delírio. A música que embalou o desfile do GRESIU e que a multidão em êxtase cantou na avenida foi de autoria de Neguinho da Beija-Flor, que mandou um seu irmão a Cuiabá para pesquisar a lenda do minhocão do Pari, na própria Barra do Pari, para compor a letra do samba-enredo.

À época do episódio na sede do Dom Bosco, o conceituado professor João Batista Jaudy, que na sua passagem pela UFMT ajudou a criar o curso de Educação Física, que em setembro deste ano completou 41 anos, foi muito censurado pela sociedade, mas recebeu todo apoio de familiares e de muitos amigos também.

– A gente não podia esperar outra atitude dele diante daquela posição racista assumida pelo Dom Bosco – afirma Olga Jaudy, irmã de Batista Jaudy.    

 

                              

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Pai-de-santo previu goleada do Mixto... que perdeu de 4x0 para o Dom Bosco

Arquivo Google 
 Meio sem rumos, pois não conheciam muito bem a cidade, lá foram Antero Paes de Barros, diretor do Departamento de Futebol Profissional do Mixto; Roberto França, treinador; Benedito Lisboa do Nascimento, mordomo, para Várzea Grande, na tentativa de localizar um centro espírita, em busca de uma ajudazinha do além para o alvinegro, que no final de semana teria um difícil compromisso contra o Dom Bosco e precisava vencer de qualquer jeito...

Garante Nelson Tomaz, o Nelsinho’s cabeleireiro dos mixtenses, que o jogo foi pelo Campeonato Estadual de 1971, quando Roberto França, que tinha iniciado a carreira de treinador no Palmeirinhas, do Porto, teve uma curta passagem pelo Mixto. A permanência de França à frente do Mixto dependeria de uma vitória contra o Dom Bosco.

Nos meios esportivos, naqueles tempos em que se acreditava muito na influência da macumba no futebol, dizia-se que o espírito que o pai-de-santo várzea-grandense incorporava era muito poderoso no plano espiritual: ‘trabalho” feito sob sua proteção, não tinha quem desmanchava ou atrapalhava...

Definidos os detalhes que levaram o trio mixtense a buscar ajuda no centro espírita, o pai-de-santo começou a fazer suas mandingas. A certa altura, ele colocou um caldeirão com água em um fogareiro e dentro da vasilha um copo de vidro...

Quando a água iniciou a fervura, o copo começou a dar estalos, chamando a atenção dos mixtenses. Foram um, dois, três estalos, a curtos intervalos. Quando o copo deu um estalo mais forte, o pai-de-santo anunciou o fim do “trabalho”. E vaticinou: “Foram quatro estalos, o Mixto vai ganhar o jogo por quatro a zero...”

Antero, França e Lisboa voltaram para Cuiabá felizes da vida! Afinal, ganhar de  4x0 do Dom  Bosco era um grande feito.

Chegou o dia do esperado clássico, com o Dutrinha lotado. O pai-de-santo acertou em cheio no placar: 4x0... só que para o Dom Bosco!   

        

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Ruiter não acreditava em macumba e nem ficava em concentração

Ruiter: nem macumba, nem concentração.
(foto de Tony Ribeiro)
Duas coisas que um dos maiores craques do futebol de Mato Grosso – o lendário Ruiter – nunca fez ao longo de sua carreira, defendendo as cores do Mixto, do Operário e do União, de Rondonópolis: participar de “trabalhos” de macumba e ficar concentrado às vésperas de jogos, por mais importantes que fossem. A não ser quando o time em que jogava viajava e aí ele tinha que dormir no hotel onde a delegação ficava hospedada.

No caso da macumba, Ruiter nunca acreditou que forças do além pudessem interferir no resultado de um jogo de futebol. Mas que muita gente acredita, não resta dúvida, e não dispensa até hoje uma macumbinha.

O já falecido cronista esportivo João Saldanha, que foi quem montou a seleção brasileira que ganhou o Mundial de Futebol no México em 1970, dizia que se macumba ganhasse jogo, os campeonatos baianos terminariam empatados...

Sobre a concentração de jogadores às vésperas de jogos, Ruiter afirma que com ele não funcionava. E era até contraproducente, porque ele não conseguia dormir e por isso nem sempre jogava bem no dia seguinte.

“Não era frescura minha, não! É que nas concentrações os jogadores se recolhem aos quartos na hora determinada, mas geralmente ficam conversando alto até mais tarde, o que atrapalhava o meu sono...” – afirma Ruiter.

A propósito de sua resistência a concentrações, Ruiter lembra um episódio envolvendo ele e o treinador Sílvio Berto, às vésperas de um jogo entre Mixto e Operário Várzea-grandense pelo Campeonato Estadual de 1969, no Dutrinha. Recém chegado ao alvinegro, Berto não havia sido cientificado ainda que Ruiter era dispensado de ficar concentrado.

Na hora do pessoal se recolher, numa chácara no Coxipó da Ponte, Ruiter foi dizer ao treinador que estava indo para sua casa para dormir. Berto deu uma dura em Ruiter:

“Comigo todo mundo é igual...”, deixando claro que não ia dispensá-lo da concentração. O jogador tentou ponderar, justificar-se, mas Berto não estava a fim de conversar.

Nisso chegou ao local da concentração o presidente do Mixto, Avelino Hugueney Siqueira, o Xomaninho, que tinha ido averiguar se estava tudo bem com a moçada para o jogo.

 Ao tomar conhecimento do clima tenso entre Ruiter e Berto, Xomaninho ainda tentou contornar a situação, mas o técnico foi incisivo: “O senhor vai ter que decidir entre ele e eu...”

– Está decidido: o Mixto precisa do Ruiter e fica com ele. O seu contrato está rescindido... – disse Xomaninho a Berto.

Ruiter se lembra que o Mixto venceu o Operário por 1x0, com o Dutrinha, como sempre, lotado. E o gol foi de autoria de Ruiter.


Passada a raiva do entrevero entre os dois, Ruiter e Silvio Berto tornaram-se grandes amigos...   

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

‘Não arrota mais’

Faz muito tempo, mas muito tempo mesmo, que aportou em Ron­donópolis um treinador de nome José Medeiros, pedindo em­prego no União. Na bagagem, uma carta de apresentação de Nélson Medrado Dias, homem forte da então Confederação Brasileira de Desportos.
De origem nordestina e bom falante, José Medeiros foi contratado graças à influência de Medrado Dias. Emprego garantido, o treinador tratou logo de trazer sua família para Rondonópolis, a fim de trabalhar com mais tranquilidade. O treinador passou a residir com a família no Hotel Lusitano, onde os jogadores que moravam na “república” do clube faziam refeições.
O União perdia todos os jogos que disputava. Mas mesmo com a sucessão de derrotas, treinar que era bom, para o time ganhar entrosamento e condicionamento físico, nada! Certa tarde, o presidente Lamartine da Nóbrega foi procurar Medeiros para saber por que os jogadores estavam naquela mole­za do come-bebe-dorme, a velha cbd.
O técnico colorado estava na maior morgação na cama. E pela forma como recebeu Lamartine parece que não estava a fim de muita conversa na hora de jiboiar.
– Com esse sol não dá, né, presidente!... – justificou Medeiros com cara de sono.
Algum tempo depois de Medeiros assumir a direção técnica, o presi­- dente Lamartine recebeu do hotel a conta relativa às refeições dos jogadores e do treinador e seus familiares. E quase caiu duro com a quantidade de guaraná que havia sido servido durante o almoço e o jantar para o pessoal do União e de Medeiros.
Lamartine nem esperou o primeiro treino da semana: foi procurar Medeiros no hotel para saber por que os jogadores estavam consumindo tanto refrigerante na hora de comer.
– É para arrotar e ajudar na digestão... – respondeu Medeiros na maior tranquilidade...
– Pois de hoje em diante ninguém mais arrota aqui – reagiu Lamarti­ne, com indignação, enquanto determinava à direção do hotel que não servisse guaraná para mais ninguém às refeições. Muito menos às custas do União.
Mesmo com toda a incompetência que Medeiros demonstrava como treinador, o presidente Lamartine da Nóbrega ia fingindo que estava tudo bem, pois não queria demiti-lo para não magoar Medrado Dias. Entretanto, chegou um dia que a diretoria do União não aguentou mais.
O União jogava com o Mixto no Dutrinha e surpreendentemente dava um show de bola no alvinegro. Na maior moleza, o colorado virou o primeiro tempo ganhando de 3x0 e com jeito de quem ia dobrar o placar na segunda etapa.
Só que no intervalo do jogo, ninguém entendeu por que, Medeiros fez três substituições de uma vez na equipe, colocando em campo três reservas. Resultado: o União se encolheu, permitindo uma incrível reação do Mixto, que acabou virando o placar para 4x3.
Encerrada a partida, Lamartine da Nóbrega deu uma violenta prensa em Medeiros, que não confessou que tinha vendido o jogo para o Mixto, mas admitiu que estava precisando de dinheiro para socorrer pessoas de sua famí­lia no Nordeste. Diante da evidência da sacanagem do técnico para favorecer o Mixto, aquele jogo marcou a despedida de Medeiros do União.
Muito tempo depois, Lamartine da Nóbrega recebeu uma chorosa carta de Medeiros pedindo para voltar. Na carta ele dizia que sua família es­tava passando necessidades, pois ele não conseguia emprego como técnico de futebol. Nem em outra atividade. A resposta do União foi um sonoro não!...

(Reproduzido do livro Casos de todos os tempos Folclore do futebol de Mato Grosso, do jornalista e professor de Educação Física Nelson Severino).


terça-feira, 12 de setembro de 2017

Único torcedor que invadiu o Verdão pelo fosso, Zezão Operariano não bateu no juiz e ainda apanhou...

Zezao com seu filho Éder: operarianos de coração
Com o Verdão cheio até as tampas, com mais de 40 mil torcedores, Mixto e Operário Várzea-grandense disputavam uma partida muito importante em 1982: além da briga pela liderança do Campeonato Mato-grossense, estava em jogo também a cobiçada vaga para o Campeonato Brasileiro de 1983. Vencedor da primeira partida da série “melhor de três pontos”, o alvinegro precisava apenas de um empate para ficar com a vaga.

O “Chicote da Fronteira” virou o primeiro tempo com a vantagem de 2x1 no placar. Com o time jogando bem, muitos torcedores operarianos já estavam até festejando a conquista da sonhada vaga, tomando todas as espumosas a que tinham direito... 

Veio o segundo tempo e não demorou o árbitro, que não era de Mato Grosso, mas cujo nome ninguém se lembra, marcou um pênalti contra o tricolor. Diante das reações dos operarianos contra a marcação da penalidade, o campo de jogo Verdão virou uma grande confusão, com ameaças de agressões, entrada em campo de dirigentes, jogadores reservas, autoridades, policiais, etc.

Foi aí que o fanático torcedor e integrante da charanga tricolor José Maria de Campos, o Zezão Operariano, com a “caveira” cheia de goró, julgou que poderia, com umas boas porradas no juiz, convencê-lo a reconsiderar a decisão. E não pensou duas vezes: foi até da área do lado leste do demolido Verdão, onde existia uma rampa que permitia o acesso ao campo, de veículos como ambulâncias, viaturas da Polícia e Bombeiros, e pulou de uma altura de quatro metros, da arquibancada descoberta, para o fosso.

Levou azar: ao atingir ao piso do fosso, que tornava o campo de jogo do Verdão imune a invasões, sofreu uma torção no tornozelo direito. Mas, mesmo andando com dificuldades e sofrendo muito com a dor, Zezão chegou ao campo, e quando se aproximou do juiz, que o vira caminhando em sua direção, o árbitro se virou rapidamente e lhe deu um soco bem no meio da cara...

Tanto esforço e sacrifício de Zezão Operariano não surtiram nenhum efeito: apesar de toda a confusão, o juiz confirmou o pênalti, que o Mixto converteu em gol e acabou marcando mais um, transformando a derrota parcial de 2x1 numa dura vitória por 3x2.

Para Zezão Operariano restou um consolo: ele virou notícia na imprensa nacional por ter sido o único torcedor a conseguir a façanha de invadir o Verdão, até então considerado absolutamente inviolável, por causa da segurança do fosso que separava os torcedores de quem estava no campo de jogo.

Operariano desde que seu pai, José Henrique de Campos, o Zelão, começou a levá-lo, ainda criança, para ver jogos do tricolor, Zezão Operariano, é mais um torcedor decepcionado com o atual nível do futebol mato-grossense. Tanto é que raramente aparece na Arena Pantanal para ver o seu tricolor jogar.

Aos 57 anos, ele recorda com saudades de alguns craques consagrados que viveram na “República” do Operário Várzea-grandense, na Avenida Couto Magalhães, entre 1972/76: Bife, Gaguinho, Alair, Joel Diamantino, César Diabo Louro e Zé Pulula. Lembra também que nesse período de cinco anos, sua família nunca viu um níquel do aluguel do imóvel ao tricolor... 





segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Inconformado com a roubalheira, massagista do BGFC ameaçava até matar o árbitro Camarinha

Arimateia: barragarcense da
velha guarda 
 Diretores e jogadores do banco de reservas do Barra do Garças FC não suportavam mais a fumaceira que o massagista Padre Cícero espalhava pela área onde estavam perto do vestiário do extinto Verdão, pitando sem parar, usando a bituca de um cigarro para acender o outro.

De repente, alguém teve uma ideia luminosa e gritou: “Um jogador nosso se machucou, está caído no campo...”

Padre Cícero pegou sua maleta de massagem e invadiu o campo, correndo feito um desesperado, em busca do jogador contundido...

Aí aconteceu o inusitado, que divertiu muito a torcida presente ao Verdão para ver o jogo entre o Operário e o Barra do Garças, pelo Campeonato Mato-grossense de 1978 ou 79 – não se lembra com exatidão o dirigente barragarcense José Arimateia: o polêmico árbitro Armando Camarinha desandou a correr atrás de Padre Cícero para expulsá-lo de campo.

Padre Cícero que inclusive foi vereador em Barra do Garças cultivava o péssimo hábito de fumar muito. Torcedor fanático do BGFC, naquele dia o massagista tinha um bom motivo para fumar mais do que o normal para tentar aplacar a sua raiva: o árbitro Camarinha estava metendo a mão no seu clube...

Embora jogando muito bem, o time barragarcense não conseguia nem chegar perto da área do Operário por causa da marcação cerrada de Camarinha. Sem dar a mínima bola para os bandeirinhas, ele marcava tudo contra o Barra do Garças e nada contra o Operário...

– Só no primeiro tempo foram marcados sete impedimentos do Barra do Garças e nem um contra o Operário – recorda Arimateia.

Apesar de sua boa atuação, mas tendo contra si a arbitragem de Camarinha, o Barra do Garças acabou perdendo o jogo por 1x0, resultado que a própria torcida operariana e a crônica esportiva da capital consideraram injusto.

 Terminado o jogo, Padre Cícero sumiu. Quando os barragarcenses deixavam o campo, ao passarem pelo vestiário dos árbitros ouviram choro e soluços e, disfarçadamente, foram ver o que estava acontecendo...

E viram: nos primeiros degraus da escada que dava acesso ao campo e ao vestiário, estava Padre Cícero agarrado ao completamente imobilizado Armando Camarinha, e repetindo sem parar “Eu vou te matar! Eu vou te matar! Eu vou te matar...”


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Filho de auditor do TJD ficou 5 noites sem dormir após chupar laranja do Operário...

Eliezer: um operariano no TJD
Discussões acaloradas e acusações mútuas dignas de arrancar pica-pau do oco do pau marcavam infalivelmente às sessões do Tribunal de Justiça Desportiva da Federação Mato-grossense de Futebol no período de 1978 a 1980, com três personagens muito conhecidos no mundo do futebol do Estado – Adbar da Costa Salles, Paulo Zaviaski e Eliezer Valadares Rebello – engalfinhando-se em ácidos embates nos julgamentos. E o que se via e ouvia no plenário do TJD, era “fichinha” diante do que “rolava” na guerra verbal entre os três nos bastidores...

O advogado tributarista e Procurador aposentado do Estado de Mato Grosso, Adbar da Costa Salles, hoje presidente do Clube Esportivo Dom Bosco, era procurador do Tribunal de Justiça Desportiva da Federação Mato-grossense de Futebol durante a década de 1970. Nessa função, cabia-lhe denunciar e instaurar ação penal-esportiva contra jogadores, dirigentes, juízes, bandeirinhas, etc., que violavam a legislação esportiva e eram denunciados ao órgão disciplinar, que no final dos processos iria julgá-los pelas infrações cometidas...

Eliezer Valadares Rebello, advogado do Banco da Amazônia e o jornalista/radialista/apresentador de TV, também bancário, mas do Banco do Brasil, Paulo Zaviaski, ambos já falecidos, eram auditores no TJD, pomposo nome que se dá aos membros do TJD e que têm a função de julgar quem senta nos bancos dos réus dos tribunais esportivos. 

O motivo de tanta polêmica envolvendo o trio: todo mundo sabia que Zaviaski era um apaixonado torcedor mixtense; Rebello sempre foi louco pelo Clube Esportivo Operário Várzea-grandense e Adbar Salles nunca escondeu sua preferência e simpatia pelo Clube Dom Bosco...

Por isso, quando um julgamento envolvia jogadores do Operário e do Mixto, se fossem punidos, Zaviaski e Eliezer acusavam o procurador Adbar Salles de exceder na acusação para arrasar os denunciados. Principalmente se o julgamento do processo beneficiasse o Dom Bosco...

O atual presidente do Dom Bosco, contudo, jura de pés juntos que sempre procurou agir com isenção, sem perseguir os adversários do seu time de coração. “Aliás, seria impossível militar no esporte, ontem ou hoje, sem qualquer remuneração ou subsídio se não for torcedor de algum clube e gostar da prática do esporte mais popular no País” – afirma Adbar Salles.

Aposentado pelo Basa (Banco da Amazônia S/A) – já Zaviaski aposentou-se pelo Banco do Brasil – Eliezer resumia seu mundo a área central de Cuiabá. Tanto é que depois parou de trabalhar só cruzava as pontes que ligam Cuiabá e Várzea Grande se tivesse que pegar avião. As pontes do rio Coxipó da Ponte ele não atravessava, de jeito nenhum...

O atual presidente do Dom Bosco lembra que começou a militar na Justiça Desportiva da FMF como Secretário Geral a convite dos então promotores de Justiça Luis Vidal da Fonseca e Rubens Vuolo, seus ex-professores na Universidade Federal de Mato Grosso.

Na época, a composição do TJD era quase que um acerto de cavalheiros feito entre os clubes participantes do campeonato e a direção da FMF. Na década de 70, passaram pelo TJD, o auditor e considerado torcedor dombosquino, magistrado Oswaldo Meyer, da Justiça Militar do Estado e muito sensível e extremamente cortês; Paulo Zaviaski e Eliezer Rebello, do Mixto e do Operário, respectivamente, ambos muito emotivos e explosivos; Clóvis Pires Modesto, também mixtense, mas um cordial cavalheiro e experiente negociador de crises; Luís Vidal da Fonseca e Rubens Vuolo, tidos como dombosquinos, muito reservados e discretos. Os dois eram legalistas extremados.

E assim o TJD seguiu sua rotina, por cerca de dez anos, de muito bate-boca e apaixonados embates nos dias de sessões. Integrava ainda o órgão de justiça desportiva o advogado José Stábile Filho – também já falecido –, que se dizia neutro, mas não escondia sua simpatia pelo Mixto Esporte Clube. Os embates eram aguerridos, mas no final das sessões, todos iam tomar cerveja nos bares da moda da cidade...

Certa vez – recorda Adbar Salles – Eliezer decidiu levar seu filho, ainda menino, conhecido hoje como João Cabrito, para ver um jogo do Operário contra o Dom Bosco, no Verdão. Como diretor do tricolor, ele e o garoto ficaram no banco de reservas do clube várzea-grandense.

A certa altura do jogo, o menino perguntou a Eliezer se podia chupar uma das muitas laranjas, já descascadas, que estavam numa sacola do Operário e que eram servidas aos jogadores no intervalo do primeiro para o segundo tempo.

Claro que Eliezer, sem desconfiar de nada, autorizou o filho a chupar a laranja. O menino atacou firme a sacola. E Eliezer só foi entender que as laranjas servidas aos boleiros no intervalo da partida eram “especiais”, quando descobriu que o filho passou cinco noites sem dormir depois do jogo e nos dias seguintes...

















sábado, 19 de agosto de 2017

Volante do Dom Bosco ia longe atrás de uma macumbinha para o futebol...

Giorge Fava,
velho dombosquino
Muito antes do futebol sair da transição do amadorismo para o profissionalismo em Mato Grosso, o que se consumou em 1967, passou pelo Dom Bosco o center half César – posição que corresponde hoje ao médio volante – e que era chegadinho numa macumbinha. Na sua crença, ele não media sacrifícios – ia longe, se preciso fosse... – atrás de terreiros de macumba em busca de ajuda do além no futebol.

Uma vez, César foi procurar o dono da concessionária da Volkswagen em Cuiabá, Geórgio Fava, que na condição de associado do clube e de vez em quando até como jogador do time aspirante do Dom Bosco, na medida do possível, colaborava com o azulão. Inclusive passou muitos anos pulando da cama às 4 horas da madrugada para com sua Kombi ir buscar jogadores para ts treinos matinais.

Demonstrando grande preocupação, César disse a Fava que era preciso tomar uma providência urgente...

– Mas que providência, homem? – questionou Fava...

César foi direto ao assunto: o jogo de domingo do Dom Bosco pelo Campeonato Cuiabano de Futebol era contra o Internacional, um time suburbano sem nenhuma expressão, mas que tinha como presidente um “congueiro” da pesada. E lembrou a Fava que na rodada anterior, o Internacional havia derrotado o poderoso Mixto, o grande rival do Dom Bosco, por 1x0...

Para tranquilizar César, Fava garantiu-lhe já tinha ido procurar um famoso macumbeiro de um terreiro que ficava às margens da estrada que ligava Cuiabá a Barão de Melgaço, partindo da BR 163, na serra de São Vicente – uma opção que existe até agora – para encomendar um “trabalho” daqueles para proteger o Dom Bosco contra o Internacional e seu presidente “congueiro”.

Dois dias depois, um dirigente do azulão procurou Fava para lhe dizer que César o havia convencido a levá-lo ao terreiro onde o dombosquino não tinha ido coisa nenhuma para comprovar se o “trabalho” havia sido feito mesmo. Para sorte de Fava, o pai de santo havia viajado e ninguém sabia quando ele ia voltar...

Às vésperas do jogo, Fava comunicou a César que havia reforçado mesmo o “trabalho” do terreiro do interior com um outro em uma tenda do lendário bairro Cruz Preta, de Cuiabá. A tenda ficava nas imediações da Rua Benedito Leite, quase esquina com a Barão de Melgaço.

César queria porque queria conhecer o lugar, mas Fava foi irredutível: “O pai de santo vai nos ajudar, mas não quer falar com ninguém. Só falou comigo! Não adianta insistir!...”

Na realidade, Fava havia inventado as duas histórias, era tudo uma grande cascata...

No dia da partida, Fava reuniu os dombosquinos já uniformizados no lugar onde trocaram de roupa e foi curto e grosso: por ordem do pai de santo da tenda do bairro Cruz Preta todos tinha que participar de uma prece, rezando um Pai Nosso e uma Ave Maria, que ele próprio puxou, acompanhado pelos jogadores e alguns diretores, na mais profunda contrição...

– Até hoje eu fico arrepiado quando me lembro da demonstração de fé dos jogadores na hora da oração. Uma coisa inacreditável... – revela Fava – que não se lembra do placar, mas garante que o Dom Bosco, efeito ou não da fé ou da crença dos jogadores na macumba, ganhou o jogo...

Velhos moradores das imediações da calçada onde está fincada a cruz preta, que ainda hoje de vez em quando amanhece com oferendas, dizem que nas proximidades do local funcionou durante muitos anos uma tenda de um preto velho que só fazia o bem para a população do bairro, receitando panaceias e benzendo crianças e adultos, curando suas doenças e amenizando seus sofrimentos...   

Perto dali existia também um tronco onde eram açoitados os escravos de uma grande fazenda do século 18 em Cuiabá e cuja sede administrativa funcionava onde fica hoje o Sesc Arsenal.

Certo dia, o feitor da fazenda açoitou no local uma escrava e prostituta até a morte.  Revoltada, a população da região queimou a cruz que era de madeira e tempos depois mandou fazer a cruz preta, de ferro, que deu nome ao bairro e está fincada, meio escondida, na calçada da Rua Benedito Leite.
               


      

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Neymar deu muito trabalho ao massagista Malaquias quando seu pai defendeu o Operário

Neymar pai, Neymar Jr.
 e a irmã Rafaella em
 Várzea Grande
(Foto de Saturnino José da Costa)

Jogador de bola mais bem pago do mundo da atualidade, com os R$ 110 milhões anuais (livres de impostos) que passa a receber do Paris Saint Germain, a celebridade Neymar Jr. faz parte também do folclore do futebol mato-grossense, como o menino que deu muito trabalho a Geraldo Malaquias Rosa, que durante mais de 30 anos foi massagista do Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, quando seu pai, Neymar da Silva Santos, defendeu e foi campeão, o lendário “Chicote da Fronteira” no Campeonato Estadual de 1997.

Mas como Neymar Jr., então com seis anos de idade, dava tanto trabalho ao veterano Malaquias?

É que o Operário realizava seus recreativos nos finais de semana nas dependências da antiga Codemat, no Carrapicho, ou no Iate Clube, no Costa Verde. E onde aparecia uma bola, lá estava Neymar, burlando a vigilância de seu pai e do próprio Malaquias, e correndo atrás dela. Por isso é que o Neymar pai não levava o Neymar filho para os treinos coletivos e táticos, nos quais os técnicos geralmente utilizam muitas bolas.

– O Neymar era um bom menino, meio peralta, como todo garoto nessa idade. Fora disso era bem educado. Mas não podia ver uma bola que saía correndo atrás dela. Aí eu tinha que sair correndo atrás dele para retirá-lo do campo – afirma Malaquias, hoje com 63 anos de idade.

Como a família do craque famoso, considerado hoje um dos melhores jogadores do mundo, veio parar em Várzea Grande?

Aconteceu o seguinte: em 1997, o presidente do Operário, Antonio Gonçalo Pedroso Maninho de Barros, em busca de reforços para o tricolor, foi a Paranaguá assistir um amistoso da extinta Associação Paranaguá Esporte Clube – que chegou a disputar em 2001 o campeonato da quarta divisão do Paraná – contra o Atlético Paranaense. O tricolor estava muito interessado em alguns jogadores do Atlético, entre eles Laurinho, para montar um timaço para disputar o título da temporada.

Mas durante a partida em Paranaguá, Maninho de Barros teve sua atenção despertada pela maneira como jogava um atacante da APEC, que além da habilidade com que tratava a bola com os dois pés, era goleador. Inclusive marcou dois gols naquele jogo, um em cada tempo, contra o poderoso adversário da capital paranaense...

Terminado o jogo, Maninho de Barros pediu a Laurinho, que acabou vindo para o Operário com outros atleticanos, que o apresentasse ao ilustre desconhecido, o Neymar. Conversa vai, conversa vem, o presidente operariano convidou Neymar para defender o seu clube. Neymar disse que precisava consultar a mulher, mas pediu o telefone de Maninho de Barros para um eventual contato depois.

Um dia, Maninho de Barros recebeu uma chamada interurbana: era Neymar, comunicando que estava disposto a vir para Várzea Grande. Mas havia um problema para a mudança: além da mulher Nadine, ele tinha duas crianças: o menino Neymar Jr. e a menina Rafaella. 

– Isso não é problema, Neymar. Pegue a mulher, as crianças, o cachorro, o gato, o papagaio e vem pra Várzea Grande o mais urgente possível... – respondeu-lhe Maninho de Barros. 

A estreia de Neymar no Operário foi contra o Cacerense, na primeira rodada do Campeonato Mato-grossense de 1997. Na viagem para Cáceres, no dia do jogo, a delegação tricolor fez uma parada no km 120 da BR 070 para a rapaziada tirar água do joelho, tomar um café e dar uma esticada nas pernas.

O ônibus da delegação partiu para completar a viagem. Mas depois do ônibus rodar uns 20 quilômetros, alguém percebeu que o jogador Neymar tinha ficado para trás. Por ordem de Maninho de Barros, o ônibus deu meia volta e retornou ao 120 para pegar o desgarrado jogador. 



Foi uma estreia em alto nível de Neymar, que além de ter jogado bem, fez o único gol da partida e que deu a vitória ao Operário. Aliás, o pai do Neymar, que virou personalidade mundial apesar dee ainda muito jovem, foi figura de destaque na conquista do título estadual de 1997 pelo “Chicote da Fronteira”. E o esquecimento de Neymar pai no meio do caminho na viagem para Cáceres passou também a fazer parte do folclore operariano.           

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Marcinho provocou Altivo com as mãos cheias de capim e levou um “carreirão” no Verdão

Marcinho
Os mais de 35 mil torcedores presentes ao Verdão ficaram sem saber o que estava acontecendo, quando Marcinho, do Mixto, em pleno jogo, saiu disparado como um raio pelo campo, como se fosse um corredor de 100 metros rasos, perseguido pelo grandalhão Altivo, do Dom Bosco, que apesar do seu porte físico avantajado, era também bom de pernas, obrigando o  alvinegro a mostrar suas virtudes como velocista para não ser alcançado.

Os jogadores também se perguntavam entre si o motivo daquela inusitada situação. Nas arquibancadas e gerais as torcidas mixtense e dombosquina presentes ao grande clássico se divertiam pra valer e até tentavam tomar parte no espetáculo extra futebol, com os alvinegros incentivando Marcinho a correr “mais duro” para fugir de Altivo, e os azulões gritando “pega...”, “bordoa ele...” em apoio ao zagueirão...

A partida, válida pelo Campeonato Mato-grossense e disputada em 1979 ou 80, precisava continuar. Depois de uns bons minutos de diversão da torcida e um grande cansaço de Marcinho e Altivo, os jogadores que participavam do clássico – Toninho Campos, Bife, Nelson Vasques, Fabinho e Ernani (Mixto) e Adilson, Bargas, Gonçalves, Tuca, Fidélis, Pelego (Dom Bosco) -- resolveram acabar com o show extra para a torcida.

Afinal, precisavam saber o que estava acontecendo. Com muito custo, Altivo foi contido por dombosquinos e mixtenses, para alívio de Marcinho. Não foi fácil contornar a situação, porque o grandalhão Altivo estava a fim de pegar Marcinho de qualquer jeito para se vingar de uma grave ofensa, justamente diante daquela numerosa platéia, na época de ouro do futebol de Mato Grosso...

Aí o show que tanto divertiu a torcida naquela tarde no Verdão foi esclarecido: a confusão tinha sido causada por uma provocação intempestiva de Marcinho a Altivo. Aconteceu o seguinte: numa disputa de bola entre os dois jogadores, o zagueiro dombosquino, muito mais forte que o mixtense, derrubou Marcinho, que na queda bateu a boca no gramado.

Revoltado com o tranco que levou, Marcinho levantou-se com as duas mãos cheias de grama do Verdão e as levou na direção da boca de Altivo. Marcinho jura que não disse uma palavra ao adversário, mas nem precisava mesmo: Altivo entendeu que estava sendo comparado a um animal – cavalo, burro, jumento -- que come capim e decidiu partir para a ignorância ali mesmo. Mas para sorte de Marcinho, Altivo não conseguiu alcançá-lo. Também com o pique que Marcinho deu!...





quinta-feira, 27 de julho de 2017

Touceira, um jogador de 4 tempos...

Naquele distante 1954 apareceu no futebol de Mato Grosso, e foi convocado pelo técnico Jarbas Batista para defender a seleção mato-grossense, um jogador chamado Pedro Touceira. Falastrão como ele só, Pedro Touceira vivia dizendo com ar de superioridade que ele era o único profissional da seleção, pois já tinha jogado em várias equipes de fora de Mato Grosso na principal categoria do futebol brasileiro. O resto era resto...

Pedro Touceira jactava-se também de ser um jogador de 4 tempos, porque tinha fôlego para correr os 180 minutos como se a partida estivesse começando. Sua explicação para sua fantástica resistência: ele levava para a beira do campo uma moringa cheia d’água e uma rapadura. Quando começava a sentir cansaço, ele comia um pedaço de rapadura, tomava da água fresquinha da moringa e pronto: estava inteirinho de novo...

Ele gabava-se ainda de ter uma cabeçada potentíssima. E até jura­va que num dos treinos da seleção mato-grossense, num cruzamento para a área, ele cabeceou a bola com tanta força que o treinador Jarbas, que não havia acompanhado o lance, quis saber quem tinha chutado aquela bola com tama­nha violência no travessão que quase tinha derrubado o gol inteiro...

Terminada a longa fase de preparação da equipe, com muita dedica­ção do treinador Jarbas e dos jogadores, lá se foi a seleção mato-grossense para Minas Gerais enfrentar a mineira. O resultado do jogo o radialista e jornalista Romeu Roberto Memeu não se lembra, mas garante que Mato Grosso levou uma goleada daquelas de perder o rumo...

Mas há uma explicação para o fiasco: o jogo foi realizado no período noturno, no Estádio Independência, na época o maior de Minas Gerais, e os refletores foram o maior adversário dos craques mato-grossenses, que nunca tinham jogado à noite. Aliás, muitos deles nem sabiam que se jogava futebol à noite... 

Cada cruzamento para a área da seleção de Mato Grosso era um gol dos mineiros. Atrapalhado com o reflexo das luzes dos refletores, o arqueiro Dito Gasolina, que era vesgo, saía do gol feito barata tonta e não conseguia cortar ou pegar uma bola...

– Cadê a bola? – perguntava Dito Gasolina toda vez que via os joga­dores mineiros comemorando alguma coisa e a torcida fazendo a maior festa no Independência. 

– Olha para o fundo do barbante que você enxerga a bola! – respon­dia para Dito Gasolina quem estivesse mais perto dele...

A seleção de 1954 foi uma das mais fortes e competitivas que Mato Grosso formou nos bons tempos do futebol amador. O selecionado já havia eliminado Goiás e o Amazonas e tinha chances de desclassificar também Mi­nas Gerais se o jogo-returno fosse realizado em Cuiabá.

Mas como Cuiabá fica muito distante de Belo Horizonte e naqueles tempos o transporte aéreo era muito precário, o segundo jogo entre mato­-grossenses e mineiros foi marcado para o Estádio General Severiano, do Bo­tafogo, no Rio de Janeiro. Mesmo jogando à noite, Mato Grosso empatou por 2x2, resultado que custou sua eliminação.

O maior destaque do selecionado mato-grossense foi Zé Traçaia, que já era o vice-artilheiro do certame com 7 gols. A formação base da seleção era a seguinte: Dito Gasolina, Uir e Nascimento; Pacu, Bananeira e Muriaci: Lara, Uírton, Leônidas, Zé Traçaia e Dionísio.

(Reproduzido do livro Casos de todos os tempos Folclore do futebol de Mato Grosso, do jornalista e professor de Educação Física Nelson Severino).



terça-feira, 18 de julho de 2017

Torcedora queria festejar vitória do CEOV e acabou entalada em grade do Verdão...

Silvana: paixão doentia pelo Operário
Morando bem pertinho da então majestosa sede social do Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, na Avenida Couto Magalhães, em cujas imediações ficava também a “república” do clube, desde que se entende por gente Silvana Pompeu é ardorosa torcedora do tricolor. É uma paixão que já dura mais de 30 anos e que contamina toda a sua família.

O doentio fanatismo de Silvana pelo CEOV custou-lhe algumas doloridas surras, o que acontecia sempre que sua mãe ficava sabendo que ela tinha ido para o Dutrinha ou o Verdão, geralmente às escondidas, em caçambas ou carrocerias de caminhões, sem nenhuma segurança. Muitas vezes, Silvana foi e voltou a pé para os dois estádios, inclusive à noite, junto com grupos de torcedores, que, como ela, não tinha dinheiro para pagar ônibus da velha Nova Era, que de nova só tinha mesmo o nome...

Menina pobre, Silvana recorda dos tempos em que só ficava olhando nos estádios e campos onde o Operário jogava os torcedores comendo sanduiches, salgados, pipocas, chupando picolés, tomando refrigerantes e ela só na vontade!...

Mas Silvana cresceu, progrediu na vida e passou a desfrutar de uma condição financeira bem melhor do que a de antes, o que lhe permite nos jogos do CEOV em Cuiabá consumir tudo que os vendedores saiam e ainda saem pelas dependências do Dutrinha, do demolido Verdão e agora Arena Pantanal oferecendo aos torcedores.

“Consumo de tudo... lembro-me daqueles velhos tempos, sinto saudades e hoje mato a minha vontade, comendo e bebendo nos estádios tudo o que não tive quando era menina...” – afirma Silvana.

Os tempos mudaram, mas sua paixão pelo tricolor, não! Se o CEOV joga, Silvana está no estádio. Com ou sem a família, formada por ela, o marido, quatro filhos, uma nora e um netinho recém-nascido, que por força do ambiente onde vive, certamente vai se tornar operariano roxo...

Seu fanatismo pelo o velho Operário levou Silvana a se meter numa situação extremamente vexatória, no Verdão. Fim de jogo do Operário com o estádio lotado – ela não se lembra contra quem, nem quando – e Silvana, ainda menina, decidiu se juntar ao numeroso grupo de torcedores que havia invadido o campo, com permissão das autoridades, para comemorar a vitória com os jogadores.

No entanto, para entrar no campo, ela tinha que passar por uma das duas altíssimas grades que separavam a geral da arquibancada coberta, onde ficavam autoridades, os endinheirados, as cabines de rádio, etc. Sem nenhuma chance de pular o obstáculo para chegar ao portão que dava acesso ao gramado, Silvana decidiu passar para o setor das sociais através de uma das grades...

Mas depois de passar primeiro o corpo pela estreita grade, Silvana se deu conta que estava entalada. Por mais que ela tentasse, sua cabeça não passava pela grade, nem seu corpinho de menina de 11 anos voltava para trás. Foi um tempão de angústia e aflição.

Pedir socorro, nem pensar: primeiro pela vergonha do duplo vexame e segundo porque, com a algazarra dos operarianos no estádio, ninguém iria ouvir mesmo seus gritos. Com muita dor e sacrifício, ela conseguiu se desentalar...

Acostumada a varar o Dutrinha e o Verdão, por não ter dinheiro para comprar ingresso, Silvana pulou muitas vezes o muro da sede social do Operário, na Couto Magalhães, para participar de comemorações de torcedores do clube. E não era só Silvana que fazia isso, pois muitas de suas amigas, pobres como ela, mas apaixonadas pelo tricolor, também pulavam o muro!...

Dos tempos de vizinhança com a “república” do Operário, Silvana guarda boas recordações de jogadores que passaram pelo tricolor e que sempre trataram com carinho as meninas e os meninos que moravam nas imediações. Entre eles, Silvana destaca Caruso, Dito Siqueira, Ivanildo, Adalberto, Upa Neguinho, Mão-de-Onça e Panzarielo, que chamavam carinhosamente de Panzá...

Naqueles velhos tempos do bom futebol profissional de Mato Grosso, Silvana participou de inúmeras comemorações de vitórias e conquistas operarianas, muitas das quais nas ruas, principalmente perto da sede social e que acabavam interditadas ao tráfego de veículos. Numa delas, que virou um grande carnaval, e varou a madrugada, ela levou tanto pisão nos pés descalços que algumas semanas depois ficou sem as unhas dos dez dedos...






sexta-feira, 14 de julho de 2017

Freiras de ouvidos sensíveis


Julho de 1946: para comemorar a retomada de Corumbá, que duran­te a Guerra do Paraguai tinha caído nas mãos das tropas do ditador paraguaio Solano Lopes, foi formada naquela cidade do sul do então Mato Gros­so indiviso uma seleção para realizar alguns jogos em homenagem aos heróis corumbaenses. Um dos times convidados para participar das comemorações foi o Mixto.
Um dia antes do jogo, disputado no dia 7 daquele mês, com vitória do Mixto por 4x1, e com direito a uma briga que envolveu todo mundo que estava no estádio, a delegação do Mixto embarcou para Corumbá. A viagem foi feita de avião pela extinta Cruzeiro do Sul, que cobria o trajeto Cuiabá-Corumbá. Para muita gente, uma novidade andar de avião!
Para chefiar a delegação num evento tão significativo não só para Co­rumbá, mas para todo Mato Grosso, a diretoria do Mixto convidou o presidente da Federação Mato-grossenses de Futebol, Álvaro Miguéis. Português radicado há pouco tempo em Cuiabá, às vezes Miguéis dava a impressão de que era bruto como uma porta.
Mas não era nada disso. Acontece que por falta de maior familiariza­ção com a nossa língua, de vez em quando ele despejava, inconscientemente, impropérios que revelavam um caráter que estava muito longe de ser o que Mi­guéis era de fato.
A delegação mixtense estava empolgada com a viagem de avião. Uma gozação aqui, uma piadinha ali, uma risada mais alta, a descontração foi toman­do conta de todo mundo. Não demorou muito e começou a surgir entre os joga­dores alguns destemperos verbais, palavras chulas...
No avião, três feiras que não estavam gostando nada do comporta­mento da delegação – ou parte dela – mixtense. Lá pelas tantas, uma das freiras quis saber quem estava na chefia dos jogadores. Identificado, lá se foi a freira queixar-se a Miguéis contra os palavrões que estavam ferindo os sensíveis ouvi­dos delas.
Miguéis, com muita tranquilidade, olhou para a religiosa e sentenciou. “Deixe estar, dona freira, que vou ordenar para os jogadores não falarem mais besteiras. E ai dos gajos que não me obedecerem: vão se fuderem comigo!...”

(Reproduzido do livro Casos de todos os tempos   Folclore do futebol de Mato Grosso, do jornalista e professor de Educação Física Nelson Severino).